sexta-feira, 31 de maio de 2019

SOS - CRIANÇAS EM RISCO / MOÇAMBIQUE

No meu trabalho de voluntária, contacto, diariamente, com crianças desnutridas e infectadas com HIV/SIDA. É uma experiência muito perturbadora e angustiante.

É impossível ficar indiferente perante crianças cujos sinais de desnutrição são tão chocantes. No seu corpo minguado, de rosto envelhecido, cabelo descolorido, ventre aumentado de volume, sobressai um olhar profundo que nos provoca uma enorme inquietação. Choram quando tentamos o contacto físico pois tudo nelas é sofrimento. As mães, que as carregaram no ventre, foram vítimas de períodos de fome, facto que condicionou o desenvolvimento do feto.

Se a mãe amamentar desde o nascimento até aos 24 meses, 10 a 20% das crianças adquirem a infecção por HIV/Sida. Perante estes dados torna-se praticamente inevitável a transmissão da doença. A introdução da alimentação artificial comporta alguns riscos. No entanto, muitas crianças podem melhorar, se beneficiarem deste tipo de alimentação.

Na minha experiência constato que nenhuma família dispõe de possibilidades económicas para adquirir o leite e papas necessárias para sobrevivência do seu filho. Em média, a alimentação de uma criança custa 30 euros por mês (1 EURO POR DIA), verba que lhes é completamente impossível disponibilizar do magríssimo orçamento familiar.

Há várias maneiras de poderem ajudar a melhorar o futuro destas crianças:
AJUDA INDIVIDUAL – contribuir com um determinado montante mensal. 
AJUDA COLECTIVA – Criar grupos (4 ou 5 colegas ou amigas) em que cada uma contribua com uma quantia mensal até perfazer aquela verba. 
AJUDA FAMILIAR – Fazer uma recolha de fundos entre a família e amigos com o objectivo de sustentar a alimentação mensal de uma criança.
Ajude as crianças a ganharem vontade de sorrir. Não lhes negue essa oportunidade.

6 Biberões de leite para uma criança = preço de 1 “bica” 

Eugénia Ferreira - Enfermeira

segunda-feira, 27 de maio de 2019

NELSON - O MEU MENINO GAIATO - Parte V

(Continuação...)

Um mês depois, já em Portugal, no meu ano de finalista, completamente embrenhada no estágio de Cirurgia que me ocupava dia e noite, recebi um telefonema que haveria de mudar a minha vida. Do outro lado da linha, no meio de emoção contida e ruído de interferências, a Tia Cármen fazia-me um pedido extraordinário: o menino que eu tratara da tuberculose pulmonar estava em Lisboa, internado no Hospital de Santa Maria e seria eu, se fosse possível, que ficaria responsável por cuidar dele. Que lhe dizia? Podia ser? 

Parecia um sonho e um pesadelo ao mesmo tempo... O que tinha o menino para estar internado? Ainda não se sabia ao certo, ficara com metade do corpo paralisada de repente, respondia a Tia Cármen, quase a rebentar em lágrimas, que cuidasse bem dele, por favor...

Não foi fácil encontrá-lo naquele hospital labiríntico, até porque no meio do telefonema da Tia Cármen, durante uma cirurgia de emergência no Hospital de São José, a última coisa que me ocorreria teria sido perguntar pelo apelido do menino. Algumas horas depois, mal acreditando no que via, fui dar com ele num quarto de isolamento, onde o tinham colocado por causa da tuberculose, completamente sozinho, a chorar convulsivamente. Pedi para ir ter com ele e, depois de muita insistência, lá me deixaram entrar com bata, máscara, touca e muitos avisos de que “tenha cuidado, ele tem tuberculose, todo o cuidado é pouco!” 

Como é que a vida consegue às vezes ser tão cruel para uma criança? Aquele menino tinha perdido os pais, tinha-se adaptado com dificuldade a um orfanato, sobrevivido a uma doença tão grave e, em poucos dias, a vida pregara-lhe uma rasteira novamente... tinha deixado de se conseguir movimentar, correr, falar e tinha sido colocado num avião, atravessado meio mundo completamente sozinho para ir depois para um quarto de isolamento num país que não era o seu, no meio de pessoas a quem não conseguia ver o rosto e que cuidavam dele apenas pelo tempo estritamente necessário... Será que poderia algum dia recuperar disto? 

Assim que fechei a porta do quarto tirei aquela máscara e a touca ridículas que nunca me passara pela cabeça utilizar em Moçambique, mesmo no auge da sua doença, mas nem assim o menino deu sinais de me reconhecer. Só depois de muitas horas a falar-lhe da Casa do Gaiato, da Tia Cármen, do Senhor Padre e dos outros meninos da Casa é que deu sinais de querer voltar à realidade e se decidiu, com muita dificuldade, a articular uma única frase: “Amanhã vai vir?” Claro que viria... Todos os dias.
Diziam-me que se suspeitava de que a causa da paralisia fosse uma doença infecciosa tropical (como se os meninos africanos não pudessem ter as mesmas doenças sofisticadas dos meninos europeus...) e ainda passaram alguns dias até me darem o diagnóstico definitivo: era um tumor maligno do cérebro e o menino tinha poucos meses de vida... Confirmava-se, infelizmente, a minha primeira impressão sobre ele: o meu menino nunca tinha sido deste mundo... O Neuropediatra Nuno Lobo Antunes, uma das pessoas mais experientes no assunto do nosso país e que o acompanhou desde o início avisou-me que estes meninos, com tumores do tronco cerebral, morrem sempre duas vezes, mas nem nisso a sua vida foi linear: o meu menino morreu muitas mais, mas renasceu à minha frente outras tantas! E quando, por fim, se despediu de vez, tenho a certeza de que renasceu para o colo aberto de seus pais, que no céu há muito o esperavam.

Mas, assim, esta morte prematura anunciada foi como se tivesse sido a minha permissão para fazer o que nunca poderia ter feito com um filho de verdade: durante o tempo em que esteve comigo, estraguei-o com mimos, fiz-lhe deliberadamente as vontades todas. Pouco tempo depois o menino teve ordem para deixar o isolamento e, com a radioterapia, depressa voltou a falar e a parte do corpo paralisada ganhou vida novamente. O seu primeiro desenho ainda o tenho. E a sua primeira birra, sinal de que já estava seguro de que não me iria perder, foi o meu orgulho! A primeira frase que articulou correctamente ainda hoje me faz rir por causa do sotaque cerrado de que já não estava à espera... Levei a sério a missão de gozar aquele anjo enquanto cá esteve: deitávamo-nos tarde, víamos os mesmos filmes vezes sem conta, comíamos chocolates todos os dias, brincávamos a tudo o que nos passava pela cabeça, dançávamos danças africanas no meio da galhofa geral, cantávamos as músicas todas dos desenhos animados em karaoke... O meu único Natal com ele foi isso mesmo: único! E ele o meu menino Jesus... Para sempre menino. É ele o responsável de, por vezes, me assaltar uma vontade incontrolável de regressar a um país que não é o meu, mas que quero à viva força que não cresça sem mim... E é também ele o eterno culpado de eu ter escolhido ser Pediatra e afirmar a todos os pais, com verdadeiro conhecimento de causa, que basta que uma criança tenha quem se preocupe com ela para voltar a ter vontade de viver e ser feliz, mesmo que tenha passado pela mais dura das experiências.

Obrigada a todos e votos de um excelente ano, com muita saúde e felicidade.

Patrícia Lopes
(Médica)


quarta-feira, 22 de maio de 2019

NELSON - O MEU MENINO GAIATO - Parte IV

(Continuação...)

Havia que começar rapidamente o tratamento, mas se inicialmente parecia uma situação banal que se haveria de controlar facilmente, em pouco tempo comecei a ficar cada vez mais preocupada: o menino piorava a cada momento... Com ele nos meus braços passei aquela que até aí foi a noite mais longa da minha vida, angustiada com a nítida sensação de que alguma coisa de muito grave me estava a escapar, angustiada por aqueles olhos doces em sofrimento, que não se fecharam em toda a noite, angustiada pela dificuldade respiratória que voltava sempre, por mais aerossóis que lhe fizesse e pelo seu silêncio, apesar dos meus esforços para que me dissesse o que sentia e onde lhe doía. Só adormeceu ao amanhecer, exausto, quando a febre finalmente cedeu às várias doses de paracetamol e às toalhas com água morna com que tentei a noite inteira acalmar a febre sempre a subir, em tremores constantes e depois de já lhe ter enfiado dois antibióticos pela veia. Aquela doença seria malária, com certeza, porque tinha visto com os meus próprios olhos o parasita ao microscópio, mas não podia ser só malária, não podia mesmo... Pelo que auscultava, parecia-me ter uma pneumonia com derrame pleural. 

De manhã eu própria estava exausta e mais angustiada do que nunca. Não tinha coragem de descansar um minuto que fosse porque tinha a certeza de que ele poderia desistir a qualquer momento… das raras vezes em que abria os olhos já não sorria e o seu olhar de abandono dava-me a sensação de que não queria lutar mais… Não me esquecia de que tinha perdido os pais havia pouco tempo e ainda não tinha criado laços fortes com ninguém, nem mesmo com a Tia Cármen… Como é que uma criança haveria de ter alento e querer lutar nestas condições? A pouco e pouco foi respirando cada vez mais devagar… Ia parando lentamente, em pausas cada vez mais longas. Não sei quanto tempo mais fiquei a chorar sem coragem de aceitar o que se passava... De manhã o Vicente entrou, veio sentar-se ao meu lado, tirou-me o menino dos braços, deitou-o na cama e cobriu-o com um lençol. Abracei-o sem dizer nada. 

– Não chore, tia Patrícia. Tem de dormir, eu agora fico aqui, não vou à escola.
– Tens de ir, Vicente.
– Não, os professores já sabem que eu não vou porque um menino está muito doente. E este, quando chegou, dormia sempre comigo antes de a Tia Cármen vir.... Chamava pai a mim...

Comecei a chorar outra vez. Mas não me dava por achada. Enquanto houvesse mais alguma doença para tratar haveria de tratá-la! Durante a nossa conversa, talvez por ouvir a voz do Vicente, o seu primeiro pai naquela casa, abriu os olhos novamente e a respiração foi-se regularizando… Bendita manhã, que parece que torna sempre tudo menos terrível. Aquela sensação de absoluta certeza de que o menino ia morrer deu lugar a alguma esperança... podia ser que fosse só uma pneumonia que se tivesse aproveitado da fragilidade causada pela malária. 

– Ele tem mais qualquer coisa, Vicente, não é só malária, de certeza. Se amanhã ainda tiver febre, temos de ir ao Hospital Central.
– Vá descansar, tia Patrícia. Eu acordo-a se ele piorar.
Nem três horas depois, a febre voltava a subir e o Vicente foi-me acordar depois de tentar baixá-la em vão durante duas horas... De novo o olhar de despedida e a dificuldade respiratória. 
– Não aguento mais, temos de o levar para o hospital.
– Não, tia Patrícia, vamos esperar mais um pouco, o senhor Padre não vai concordar.
– Porquê?
– Tia Patrícia não conhece o Hospital Central. Todos morrem lá.
– Isso não pode ser verdade, Vicente.
– Não, tia Patrícia. Tia Patrícia não conhece o Hospital Central... Ele vai melhorar, malária é assim mesmo...

Acabámos por ir para o Hospital Central no dia seguinte, depois de mais um dia de febre, tremores e dificuldade respiratória cada vez mais intensa. Tínhamos repetido a análise e já não havia qualquer parasita em circulação. 

– Eu sabia que não era só malária, não podia ser...

Quando vi a radiografia abri a boca de espanto e a prova tuberculínica, dias depois confirmou o diagnóstico: era uma tuberculose pulmonar com um derrame pleural enorme. Mas o Vicente tinha razão quando tinha dito que eu não imaginava o que era o Hospital Central... Se tinha pensado que talvez fosse melhor o menino ficar internado, mudei de ideias no mesmo momento. Nem por sombras o deixaria no hospital. Quando me vim embora para Portugal, o menino já estava a melhorar, a febre baixava mais rapidamente e tinha feito alguns progressos na comunicação. Adorava estar ao colo e, de vez em quando, olhava para mim como que para ver se eu estava mesmo ali, se estava mesmo com ele... E pelo menos já não comunicava só com aquele sorriso lindo, já falava!


(Continua...)

sexta-feira, 17 de maio de 2019

NELSON - O MEU MENINO GAIATO - Parte III

(Continuação...)

De manhã, ao pequeno-almoço, falava também muitas vezes do “hóspede” que dormia no seu quarto, de como tinha passado a noite, se tinha tido pesadelos ou dormido tranquilamente. Mas só fiquei a saber quem era o tão falado hóspede quando uma noite ela me pediu para o observar porque o menino tinha passado o dia especialmente abatido e suspeitava de que poderia estar doente. Ele e o irmão tinham vindo viver para a Casa do Gaiato poucos meses antes, após a morte dos pais em circunstâncias que nunca cheguei a perguntar. Tinha cinco anos, mas era tão franzino e frágil que aparentava apenas três ou quatro e embora falasse correctamente, parecia que nunca abria a boca para dizer o que quer que fosse. Era o seu protegido porque era o mais novo na casa e estava a ter especial dificuldade na adaptação. E era um menino lindo... Tão lindo que não parecia deste mundo...

Nessa noite, quando peguei nele, leve como um anjo, para o levar para a enfermaria, reparei que tinha as mãos frias porque estava a arder em febre e que tinha alguma dificuldade respiratória. Apesar disso sorria-me, olhos nos olhos, com uma doçura tão triste e tão profunda que só me apeteceu chorar. Pedi ajuda ao Vicente, um Gaiato praticamente da minha idade cuja tarefa na casa era tratar da enfermaria e que se tinha tornado o meu principal aliado a cuidar dos meninos. Nem dois minutos depois, quando o menino já estava quase a adormecer ao meu colo, o termómetro marcava 40,2 ºC. 

– Malária!, disse o Vicente imediatamente, como um reflexo pavloviano. 

Foi aí que aprendi a fazer o teste: uma picadinha no dedo (partiu-se-me o coração de ver o menino chorar...), espalhar uma gota de sangue na preparação de vidro, após o que foi fixada numa estufa a 37 ºC. Quer dizer, teria sido fixada numa estufa a 37 ºC se houvesse estufa... Como não havia estufa, a preparação foi ao forno da cozinha. Depois aplicou-se o corante e a preparação foi a secar, ao pé da ventoinha... (No meio disto tudo ainda lá estaria a gota de sangue? Não teria sido cozinhada, ainda não se teria dissolvido, as células ainda não teriam rebentado com as diferenças de temperatura?) Estava lá tudo. E o agente da malária também. Plasmodium falciparum, o tipo mais perigoso! 

(Continua...)

segunda-feira, 13 de maio de 2019

NELSON - O MEU MENINO GAIATO - Parte II

(Continuação...)

Contou-me uma tarde a sua dura experiência de uma infância passada durante a guerra civil de Espanha, em que mais do que uma vez tinha sido obrigada a fugir a pé com a família. Nesse dia, já rendida àquela personagem maternal, divertida e invulgar, pedi-lhe para me falar dos seus trabalhos artísticos e ela contou-me simplesmente que o maior prémio de pintura que alguma vez tinha recebido retratava um enorme campo de girassóis. Dias depois mostrou-me uma fotografia desse quadro, em que os girassóis eram retratados a partir de baixo, com os caules cheios de espinhos e a luz do pôr-do-sol adivinhando-se coada pelas corolas das enormes flores. Mas longe de ser a visão serenamente bucólica que eu tinha imaginado pela descrição, a imagem veiculava uma desconcertante sensação de movimento e opressão. 

– Este quadro chama-se “A Fuga”. Durante anos tive a obsessão de pintar girassóis vistos por baixo porque tinha de deitar cá para fora a imagem do pior dia da minha vida, que foi o dia em que perdi o meu pai e tivemos de fugir de casa sem levar nada connosco, através de um campo de girassóis. Eu era muito pequena e só tenho a recordação de enterrar os sapatos na areia mole e mal conseguir avançar, como nos pesadelos. E os girassóis eram altíssimos e tinham uns espinhos enormes que não picavam, mas arranhavam a pele até ficar toda em ferida.

Estava explicada, portanto, a sua vocação do ensino da expressão plástica aos meninos. Ao ensiná-los a pintar estava a transmitir-lhes a sua melhor defesa da personalidade, a ensinar-lhes que pintando as suas angústias e medos poderiam mais facilmente vencê-los. Mas não eram só aulas de pintura que leccionava. Depois dos desenhos, os meninos contavam a história do desenho, falavam sobre as personagens, inventavam diálogos, projectavam-se nas figuras. Era magistral a forma como a Tia Cármen, sem nunca ter tido aulas de Psicologia, respondia às angústias dos meninos referidas às personagens no papel. Era comentado por todos, sobretudo pelas educadoras da escolinha, que os mais pequenos tinham ficado muito mais calmos desde que a Tia Cármen tinha chegado. Pudera... 


(Continua...)

terça-feira, 7 de maio de 2019

NELSON - O MEU MENINO GAIATO - Parte I

Em 2003, ainda antes do meu ano de finalista de Medicina, parti em voluntariado para a Casa do Gaiato de Maputo. E no meio da savana, entre o trabalho no Centro de Saúde e as noites com os meninos do orfanato havia o jantar com o senhor Padre José Maria e os outros voluntários da casa. Eram todos pessoas fascinantes, que me acolheram desde a primeira hora. Acabei por fazer uma amizade especial com a Tia Cármen, uma entusiástica voluntária espanhola, antiga empresária e viúva de um português, que há mais de dois anos deixava os filhos e os netos durante o ano lectivo para ir para a Casa do Gaiato dar aulas de pintura e expressão plástica. 

Na minha perspectiva, a Tia Cármen tinha vindo para ser a avó da casa, a figura de referência que os meninos, sendo órfãos, não tinham. Uma avó autêntica, com uma insuficiência cardíaca ligeira, uma doença pulmonar obstrutiva crónica que me deu trabalho controlar e, sobretudo, com uma enorme paixão pelos mais pequenos e com uma missão auto-proclamada, que era deixá-los ser meninos e ajudá-los a brincar. Afirmava com muita graça que havia dois tipos de voluntários em África, os que se dedicavam ao ensino, à saúde e ao desenvolvimento económico-social e os que se dedicavam a construir infra-estruturas. Mas ela não tinha vindo para uma coisa nem para outra. Tinha vindo para incentivar os seus meninos a sonhar e apoiar os seus sonhos porque acreditava piamente que só a expressão dos sentimentos fazia crescer. Sobretudo para aqueles meninos tão pequenos e que já tinham sofrido tanto. “Porque sem sonhos não há desenvolvimento e sem entusiasmo não há trabalho!”, terminava. 

(continua...)

sexta-feira, 3 de maio de 2019

NAMAÍTA - MOÇAMBIQUE

Olá amigos e família

Venho dar-vos grandes notícias… já choveu… mas foi apenas 2 dias na cidade de Nampula. Nos arredores apenas 1 dia em alguns locais. Mas muita gente já correu para os campos para semear o amendoim, milho, … tão imprescindíveis e base da alimentação do povo. Agora é esperar que germine e rezar para a chuva começar outra vez mas faseada para que não estrague definitivamente o que já se semeou… vamos aguardar confiantes!

Eu estou bem e o trabalho também. Entre novos doentes diagnosticados já vamos no número 42 em 2008. Mantêm-se as reavaliações sensitivas e motoras aos doentes, de modo a prevenir o aparecimento de reacções de lepra, principal causa de desenvolvimento de úlceras, deformidades e mutilações. Este mês, a APARF está a terminar a distribuição de  t-shirts e bonés com a frase em makhua “Nrowe Nimalihe Makokho”: “Vamos Acabar com a Lepra”. Os doentes agradecem o gesto pois sempre é um bem essencial que lhes faz falta e ao mesmo tempo é uma forma de união do grupo, união pela mesma causa, de trabalho conjunto para o mesmo fim: a luta e erradicação desta terrível doença entre este povo. Já alguns aparecem com elas vestidas logo na concentração seguinte. Chamo-lhe a equipa dos “verdinhos da APARF” mas eles ficam tão bonitos e gostam de andar assim “equipados”... deixo-vos 1 foto para que possam ver! Todos sorriem muito quando lhes oferecemos os bonés: mesmo as mamãs…usam-no sempre mesmo com o seu lenço, típico entre as mulheres africanas, que fica por baixo...

Depois do trabalho com os doentes antigos na Namaíta, Amina e restantes companheiros de doença, houve a oportunidade de subir a uma das montanhas que imponentemente se erguem e dão abrigo nas encostas à localidade da Namaíta, que tanto estimo e gosto de visitar nas actividades com os doentes. A maioria dos leprosos está nesta área, por isso ela é muito querida para mim e tenho muito gosto em vir trabalhar para esta zona. Bem, lá subi à montanha, vizinha das duas Phalalani, e a vista era simplesmente fantástica. A subida não foi fácil pois era um pouco inclinada mas tinha chovido no dia anterior e a terra estava macia, facilitando a escalada de uma mukunya, o voluntário Carlitos Hilário e a sua família, a esposa Carlota e três dos seus filhos: o Tino, a Sandra e o Daudino. Deu para observar a localidade, a aldeia da Namaíta e a sua extensão, as pessoas que estavam a capinar e a iniciar a sementeira, a represa, onde o Nito toma banho dado pela mukunya Vanda, a montanha de Nhopera, onde viveu a Ir. Maria Rita Valente-Perfeito... O panorama era lindo. Apetecia ficar apenas ali sentada a contemplar todas as maravilhosas vistas. Depois da descida, acabámos por encontrar uma mamã que estava a “apanhar” muché, uma espécie de formigas, que se comem. Pois eu nem sabia que já havia um pequeno prato delas à minha espera fritas, como aperitivo para o nosso almoço. Como uma boa visitante e curiosa, lá experimentei o tal muché…e… come-se!!! Parecia que se estava a comer amendoim ou tremoços antes da refeição… em tempos de carência, antes das sementeiras estarem prontas e de haver outra vez comida, tudo vale, desde que o estômago fique enganado e se tenha força para ir novamente capinar e semear no próximo dia… para mais tarde encher a barriga com os produtos da machamba…

Beijinhos e estaremos unidos em oração.
Vanda (Voluntária da APARF)

sexta-feira, 26 de abril de 2019

POR UM MUNDO SEM LEPRA

Olá família e amigos

Sai’ihali? Salama…
Desculpem antes de mais, nada dizer, mas andei muito preenchida e com visitas de Portugal… já passo a contar…

Entre os preparativos para a chegada da visita da APARF, lá andei a organizar tudo como uma boa formiguinha para que nada falhasse nas visitas e reuniões…e lá aterraram o Sr. João e o Sr. Carlos, Presidente da Direcção e membro da Mesa da Assembleia da Associação, respectivamente, em Nampula, durante 10 dias. 

Visitámos várias concentrações de doentes de lepra. Conversámos com vários doentes que estão em tratamento e que já tiveram alta. Conhecemos algumas das suas histórias e ouvimos algumas das suas preocupações,… distribuímos alguns bens essenciais como sabão, sal, pomada para úlceras, sardinhas enlatadas, pão… Tirámos fotos juntos, partilhámos uns com os outros o que temos e o que pudemos ajudar…

Visitámos a casa da Amina, a que a APARF construiu em Abril… e todos os membros da família estavam oreras (bonitos)… Tinham tomado banho e vestiam roupas novas… Estavam apresentáveis… Não é desta forma que se encontram nos outros dias e nesse domingo, além de ser o dia do Senhor, estavam cheirosos e merecidos (expressão makhua para bonito)! Desta vez, levei as visitas até às casas dos doentes antigos de lepra que costumo visitar… andámos em visitas ao domicílio, sempre carregados com as preciosas ofertas e também uns miminhos para as crianças, filhas e netos dos doentes… Como sorriram com os carrinhos e bonecas que lhes oferecemos… Na casa do Silvestre Amade (que conhece a Ir. Maria Rita Valente-Perfeito) fomos recebidos com esteiras e uma mesa coberta com capulana e um vaso de flores da machamba… Ficámos surpresos e felizes… Depois da mensagem lida pelo doente, as visitas receberam ofertas: o Sr. João recebeu um molho de canas de açúcar e o Sr. Carlos teve que segurar numa galinha que recebeu das mãos da esposa do doente… São ofertas simbólicas e preciosas pois quando chega uma visita, deve-se oferecer o que de melhor existe em casa, mesmo que a família fique sem nada para a sua próxima refeição, é assim que deve actuar um bom makhua.

A visita aos projectos da APARF abrangeu três Províncias de Moçambique e na deslocação ao distrito do Gilé (Zambézia), houve a necessidade de ultrapassar várias pontes muito rudimentares e uma delas (a da foto!) deu-me mesmo para duvidar. Mas entre as instruções de amigos e companheiros já habituados a estas andanças graças a Deus lá passámos… as rodas tiveram de entrar mesmo nas tábuas certas e não descair para os buracos… não ficassem lá presas e depois nem quero pensar como seria… bem o normal para quem conhece esta realidade africana!!! Das várias situações e locais que visitámos gostaria de vos falar do que me deixou chocada: crianças desnutridas em grau muito avançado que julgo não haver salvação possível… faz partir o coração ver aquelas carinhas de sofrimento que já nem forças têm para chorar que as mamãs aconchegam ao colo, num esforço de dar força e vida à sua criança… a realidade que vi e ouvi é difícil de aceitar: são locais onde falta tudo. Não há luz eléctrica. Água canalizada não é uma realidade para todos. A zona é pobre a nível de cereais. A mandioca é o que mais abunda mas não é nutritivo para estes pequenos. A formação das mamãs não existe. As estradas de acesso são picadas (de terra batida) e más. Fica distante da grande cidade. Todos estes factores ajudam de forma a piorar as condições para aquelas gentes e aquelas crianças… É preciso fazer formação com as mamãs, ensinar a alimentação das crianças desde cedo com os produtos existentes na zona, ajudar com a oferta de alguns suplementos ou condimentos para a sua alimentação, acompanhar o desenvolvimento e crescimento das crianças, formar mamãs que possam nas comunidades mais distantes transmitir a outras estes ensinamentos… Há tanto a fazer nesta área como noutras e não falando da lepra… que pode estar aparentemente a diminuir no distrito onde colaboro mas noutros locais e Províncias mantêm-se os números elevados! Reafirmo o que já escrevi na revista da APARF: é preciso mais pessoas generosas, com vontade de ajudar, mais voluntários para colaborar com o povo para que vakhani-vakhani (pouco a pouco) a realidade vá mudando para bem dos mais pobres e sofredores.

Deixo-vos também uma pequena lista de alguns dos nomes dos chapas (carrinhas toyotas de 9 lugares que fazem o transporte de passageiros tipo autocarro), dos taxis e dos machibombos (uma espécie de autocarro mas mais pequeno para viagens longas), que os deixarão a rir e a pensar um pouco:

- Ao destino ninguém foge
- O.V.N.I.
- Deus é Amor
- Deixem falar
- Eu quero o Amarelo (e o chapa está pintado de amarelo, de facto!)
- Confuso
- Red Devil
- Não se nega
- Força da amizade
- Don’t stress ok?!
- Eu chego
- Eu passo
- Trans Charia
- 100 % moçambicano
- Vamos

Bem, deixo-vos beijinhos e força para o início das aulas, do trabalho e das actividades…
Obrigada pelo vosso apoio e amizade

Vanda (Voluntária em Moçambique)

sexta-feira, 19 de abril de 2019

PÉS DO POVO

Geralmente poucos pensam nos nossos pés e lhes dão a devida atenção. Aqui em Moçambique, onde a maioria da população anda descalça, comecei a observar e a dar mais atenção a esta parte essencial do nosso corpo, pois é graças a eles que temos a capacidade de caminhar e ver o mundo com outros olhos e de outra forma.

A doença de lepra afecta a sensibilidade dos olhos, mãos e pés. Por esta razão torna-se muito importante e faz parte dos testes motores e sensitivos que se realizam aos doentes, a observação dos pés. Tenho visto pés muito diferentes, que a meu ver revelam muito sobre as condições sócio-económicas dos doentes que visito e contacto. 

No mato, nas zonas rurais que circundam a cidade de Namphula, observam-se, muitas vezes, pés descalços com gretas, com feridas e com as zonas plantares muito enrijecidas pelos trabalhos duros na machamba (hortas) que cada um faz para obter algum do seu sustento. Imagino que estas pessoas viverão com dificuldades e muitas vezes trajam de forma precária e sem condições. Geralmente acontece em locais onde o acesso de carro é difícil, em sítios longe da cidade e bem escondidos nas montanhas, onde poucos chegam, quer a nível da saúde, quer de educação, quer a nível do comércio… 

Visito também outros locais que me parecem ter mais condições, onde os doentes aparecem quase todos de chinelos calçados, bem apresentados, onde as superfícies plantares estão mais lisas, com aparência mais cuidada, sem ferimentos e com poucos sinais de quem trabalha na dura machamba de sol a sol, sem uso de calçado. Isto observa-se em locais onde o acesso aos cuidados de saúde é mais fácil; em que os doentes vivem perto da estrada principal onde passam transportes, onde há um acesso fácil a todos os meios, quer de saúde, educação, comércio, … 

Mas não se pense que observo sempre os pés dentro destes contextos. Muitas vezes no meio do mato, por detrás da montanha, aparecem doentes que trabalham exclusivamente nas machambas, que poucas ou nenhumas vezes saem dali para visitar a cidade e outros locais ditos mais civilizados, e observo-os com os pés em perfeitas condições, sem nada para registar na sua ficha após a sua reavaliação… e penso que nunca teria os meus pés em perfeitas condições como observo a doentes que nunca usaram uns sapatos, uns chinelos na vida e que trabalham no campo… Quando é o momento de lhes oferecer um par de chinelos novos porque terminaram o tratamento ou estão quase a terminá-lo e a oferta é uma forma de os motivar a finalizá-lo, vejo que ficam muito felizes com o gesto pois muitos nunca tiveram sapatos. 

No entanto, acabo também por constatar e aperceber-me que muitos doentes apenas usam o calçado oferecido nos dias de concentração pois não os querem estragar… querem mostrar-me que o conservam e que o usam apenas em situações e ocasiões especiais: para vir ter com a mucunya (branca em makua) no dia combinado ou para ir rezar ao domingo na igreja, mesquita ou noutro local de culto. Quando me apercebo disto tento dar a perceber a importância do seu uso diário para que protejam os pés, que podem ser muito afectados pela doença de lepra e pelas feridas tão difíceis de tratar e curar… Mas como não estão habituados a usar sapatos ou chinelos, que às vezes apenas os atrapalham ainda mais para caminhar, acenam-me com a cabeça em sinal de compreensão, riem-se para mim e lá os vejo de partida para as suas palhotas com umas “coisas novas e coloridas” nos pés. 
Julgo que basta um rápido olhar para os pés de um doente que frequenta as concentrações de lepra para que, de uma forma um pouco subestimada, grosseira e rápida, se possa tentar imaginar e distinguir a condição socio-económica de cada um. Se tem algumas posses, poderá ter um par de chinelos ou sandálias e ter os pés sem feridas, aparentemente cuidados; se for mais pobre, então poderá vir sempre descalço, poderá ter algumas feridas ou ainda poderá pedir um par de chinelos emprestados apenas para trazer à concentração.

A APARF tem oferecido calçado aos doentes de lepra que estão a fazer tratamento e aos doentes de lepra antigos, que já concluíram o seu tratamento há muito tempo mas que se cruzam connosco nas concentrações. Têm sido feitos pensos a várias úlceras e feridas provocadas pela lepra, umas mais complicadas que outras mas quase todas têm acabado por cicatrizar mais tarde ou mais cedo. Para complementar e ajudar neste processo de cicatrização, a APARF tem oferecido pomada e medicamentos aos doentes em questão. 

O uso de calçado é essencial para que os pés estejam protegidos. Ora são chinelos, ora sandálias, ora sapatos, tudo é oferecido pela APARF consoante as condições do doente e o estado dos seus pés…que afinal são um útil indicador que me ajuda a perceber as condições de vida muitas vezes difíceis deste povo moçambicano.

Mpakha nihiku nikina

Vanda - Voluntária da APARF em Moçambique

segunda-feira, 15 de abril de 2019

POR UM MUNDO SEM LEPRA

Olá amigos e família

Espero que estejam todos bem… por aqui vai tudo bem.

Bem, tenho andado nos meus trabalhos com os doentes e outro dia quando vinha de um local chamado Namucaua, bem longe (para quem conhece!), deparei-me com um grupo de músicos que vinha na picada, cantarolando e tocando… parámos o carro e o grupo, composto por cerca de 6 miúdos de 13 a 16 anos, também pararam. Pedi-lhes que me mostrassem a viola improvisada que tinham e estava muito bem feita: uma lata velha, cortada… uns fios a fazer de cordas… bem improvisada e ofereceram--me uns belos acordes no meio do quase nada, apenas algumas palhotas, montanhas verdejantes e algumas pessoas que ali vieram ver o que se passava com um carro de mukunya (branca) parado e música a tocar. Foi algo muito caricato e que me fez sorrir… A foto que envio ilustra esse grupo… ah todos traziam chapéu de palha igual… Ganham uma quinhenta para irem tomar um refresco (aqui não há luz!) nem que seja à temperatura normal… ou seja quente… mas que fazer!!! Esta é uma expressão que o povo usa para “paciência”!

Esta semana vi o nosso amigo Carlitos e tinha uma bolha na planta do pé com líquido. Não sei como a arranjou mas calcei luvas, forrei a cadeira que me serviu de mesa de trabalho,…e com uma lâmina de bisturi (do kit sempre presente no carro) e … saiu um espirro de pus verde… quem conhece e percebe… que imagine… Lá lhe fiz o penso, removi a pele que apenas iria atrasar a cicatrização… Uma semana depois lá o fui ver a casa, à palhota da sua irmã (ele não é casado nem tem filhos) e… lá estava ele feliz por ter o pé melhorado…fiquei muito feliz quando o vi…estava muito bem…tinha medo de o observar pois o Carlitos tem uma história de feridas complicadas que vocês já conhecem… Eu esqueci-me de lhe dar antibiótico para evitar a infecção…mas o pé estava “nice” e eu elogiei-o por isso… Mas não muito senão ele não vai continuar a cumprir as “ordens” da mukunya. Outro dia disse-

-lhe que teria de ter sempre muito cuidado com os seus pés, por causa da falta de sensibilidade que a lepra provoca. Ele já concluiu os 12 meses de tratamento da doença. Disse-lhe que a mukunya não iria sempre estar ali para o cuidar, que ele teria de se preocupar mais consigo, ter responsabilidade,… Pois temos de tornar os doentes autónomos no seu auto-cuidado com as mãos, pés e olhos, devido às consequências que a doença pode provocar. Então ele perguntou-me se eu lhe ia fugir, se me ia embora, se mais ninguém de Portugal ia continuar a ajudar os doentes. Esta pergunta é muito inocente mas revela que os doentes agradecem o trabalho que a APARF tem feito, em relação às feridas, à oferta de sapatos, meias, pomada e medicamentos para este tipo de doentes com muitas feridas… Sabem que há alguém para os ajudar quando outros podem não se interessar. A Associação dá um apoio que os doentes agradecem e que não esquecem. Chegam mesmo a passar palavra e já tenho visto pessoas que vêm ter connosco às concentrações com manchas suspeitas e que depois de lhe dizermos que não são manchas de lepra e que podem ir descansadas para as suas palhotas, elas não ficam satisfeitas nem convencidas de que as suas manchas não são as da doença. Já estão a pensar o porquê deste raciocínio? Pois se tiverem a doença irão receber uma pequena ajuda, as visitas da mukunya e alguma atenção e carinho, que os técnicos de saúde daqui nem sempre dispensam…

Finalmente já consigo identificar e saber os nomes  das 4 montanhas que rodeiam a zona da Namaíta: Nhopera (que já subi e tem na base a paroquia da Namaíta, onde viviam as Irmãs que inicialmente trabalharam com os leprosos); Peoni (fica atrás da localidade da Namaíta, junto à aldeia de Niheia); Phalalani (2 montanhas que na base se encontra a localidade da Namaíta. Parecem pegadas mas estão separadas por uma espécie de vale e apresentam uma formação rochosa que de longe parece uma imagem de Nossa Senhora. É conhecido por isso mesmo); e Nacuahu (mais junto ao Centro de Saúde, que fica de 3 a 5 km da localidade). Tenho continuado o meu trabalho na Namaíta e tenho visitado a Amina e os seus vizinhos, doentes de lepra, naquela zona. A Amina já tem casa de banho, ou seja um local externo à casa para ir “fazer as necessidades menores”.

Desta vez, a minha visita não foi somente a ela. Visitei uma doente a Maria Nacola que é casada com o Pereira Loieke que também é leproso. Conheceram-se aqui na zona na década de 70, quando foram “capturados” nas suas aldeias (1 no Mecuburi e outro em Murrupula) por terem a doença de lepra. Trouxeram-nos para a Gafaria da Namaíta, por serem leprosos e ficaram para sempre separados da sociedade e da família. Com o evoluir dos tratamentos, a lepra passou a ter cura a 100% com medicamentos mas as mutilações já estavam presentes para sempre e as famílias desaparecidas no espaço. Acabaram por construir uma palhota, casaram e conheci-os no ano passado. Já os visitei algumas vezes e são muito engraçados. Ela tem uma face leonina, característica de lepra e dedos dos pés amputados; ele tem amputações nos dedos dos pés e garras fixas nas mãos. Ela tem uma ferida na perna, uma ulcera crónica que tenho feito penso e que espantosamente melhorou. Um amigo enviou-me material especial de penso para ela mas nem o cheguei a usar pois quando o recebi e ia aplicar a ferida já tinha cicatrizado a custo de pomada com antibiótico, betadine pomada e gase gorda. Agora ficou com grandes coloides mas o aspecto estético não é muito importante aqui nesta terra… Quando os visitei, já estavam à minha espera. Cheguei atrasada mas tinha à minha espera a família toda bem vestida, uma esteira e batata doce descascada e cozida para comermos juntos. É da machamba deles, semeada pelas mãos que vos descrevi… fiquei sensibilizada e depois dos curativos feitos, lá me sentei na esteira, lavei as mãos (como é regra base cada vez que se vai comer…e aqui come-se à mão sempre!) e comi batata doce muito saborosa e oferecida com todo o carinho. Deixei-lhes um pouco de açúcar, sal, sabão, peixe seco, roupa e medicamentos para a neta que estava com cotomola e camassi (tosse e constipação)… Foi um final de manhã muito bom para mim…

Envio-vos uma foto deles…

Ok já é um pouco tarde e vou dormir (escrevo isto de noite antes de ir descansar…) …deixo-vos beijinhos e força para os vossos trabalhos…


Vanda - Voluntária da APARF em Moçambique

segunda-feira, 8 de abril de 2019

O RATO ESCONDIDO

Ihali? Salama

Aqui está tudo bem. As chuvas voltaram por momentos mas vieram acompanhadas pelo frio que tem feito muitas constipações e tosses entre a população.

O frio que se faz sentir faz com que os animais se tentem proteger e outro dia aconteceu uma situação que vos tenho de contar e que vos porei a rir e a pensar…

As irmãs andaram à procura de 1 rato que andava na cozinha a roer a fruta todas as noites. Elas já tinham posto “ratex” – o produto que se usa aqui para matar os ratos - mas sem efeito, pois todas as noites o rato deixava sinais (necessidades maiores!) pela bancada da cozinha. Então as irmãs decidiram tirar tudo do sítio, lavar e tentar descobri-lo. Mudaram as redes da porta. De noite o rato tentou entrar pela rede da porta e não conseguiu. Uma irmã viu-o a tentar entrar, chamou o guarda e acabou-se o rato… era o que todas pensavam no dia seguinte quando nos juntámos para o matabicho (pequeno-almoço). Então uma outra voluntária que este ano também aqui vive foi colocar 2 torradinhas a fazer na torradeira. Virou as costas e quando olhou para a torradeira viu uma das torradas a mexer e começou a cheirar a chamuscado…ora o rato estava escondido dentro da torradeira!!!! Todas fomos ver e levámos a torradeira para fora de casa. Ele lá estava, chamuscado, electrificado e empalhado. Entre gritos e risos, desaparafusou-se a torradeira e o bicho saiu de lá … morto e bem morto, para descanso de todas… este é um exemplo de como a vida aqui é cheia de novidades, experiências novas e de bichos…

É preciso tentar adaptar-nos a esta realidade. Há zonas da província onde se come rato e outros bichos. Culturalmente é aceite e os ratos do campo são diferentes dos ratos da cidade, que comem no lixo, podem ter comido o “ratex” e eu sei lá… porém posso experimentar muitas comidas novas para mim (até tripas de cabrito!!!) mas rato acho que não irei provar… bem só se for bem torradinho!!!

Vanda Barnabé
Voluntária da APARF em Moçambique

terça-feira, 2 de abril de 2019

O COMBOIO EM MOÇAMBIQUE

Nestas mini férias, concretizei o projecto de viajar de comboio.

Na madrugada de terça-feira, ainda a cidade estava sob o manto da noite, quando eu e a Vanda nos dirigimos à estação Central dos Caminhos-de-ferro. Logo à entrada fomos confrontadas com um grupo de pessoas amontoadas, embrulhadas em mantas que ali tinham pernoitado. Um grupo de seguranças barrava a entrada da plataforma de acesso ao comboio, ao qual só se podia aceder munida do respectivo bilhete. Na porta de entrada da única carruagem de segunda classe um outro segurança vigiava a entrada de passageiros, tendo-nos indicado a localização da nossa cabine (sexta porta à esquerda neste corredor). Esta informação era mesmo muito útil, pois o corredor estava completamente às escuras o que motivou o pedido de um cidadão brasileiro a um outro cidadão que circulava munido de uma lanterna de mineiro –“Ói, vira para cá essa lanterna gostosa”. O pedido premente não mereceu acolhimento pois o da lanterna era estrangeiro não tendo por isso entendido o pedido. Por acaso era nosso companheiro de cabine. Era um casal de Ingleses Cooperantes no Uganda em visitas de férias com destino a Cuamba, que se dirigiam para o Niassa. Beneficiámos da luz oferecida pela lanterna, arrumámos a nossa pouca bagagem, ocupámos os nossos lugares e aguardámos a hora de partida – cinco da matina. Um ocupante clandestino denunciou a sua presença em local inusitado, por se ter descuidado ao ressonar do sono tranquilo, que fazia no compartimento destinado à bagagem, mesmo em cima da porta da cabine. O assunto foi imediatamente resolvido com o recurso aos seguranças, que lhe interromperam o sono de uma forma um pouco intempestiva, diga-se de passagem, pois foi literalmente arrancado do seu quarto improvisado. Estava dado o mote da viagem!

Este comboio viaja em dias alternados. Às terças, quintas e sábados faz o percurso de Nampula até Cuamba. O regresso acontece às quartas, sextas e domingos. A máquina descansa à segunda bem como a tripulação.

A viagem decorre sob o signo do comércio, essencialmente de produtos agrícolas das regiões que o comboio atravessa, e talvez por isso se designe esta linha de Corredor de Desenvolvimento do Norte. Nas inúmeras paragens que o comboio faz, concentram-se muitos agricultores que vêm comercializar os diversos produtos. Há mercados onde o produto mais oferecido é a mandioca, noutros pontua a cana de açúcar, mais para o interior, na região considerada o celeiro da província, aparece muito feijão, milho, arroz, cebolas, repolhos, alho, bananas, laranjas tangerinas, cenouras, pimentos etc. O colorido das gentes, e dos produtos, bem como toda a agitação que se gera à volta dos comerciantes e dos passageiros é um espectáculo  pitoresco e único. O maquinista,  em cumplicidade com viajantes e vendedores, dá tempo para que se efectuem as transacções. Os atrasados, vêem-se na contingência de correr e subir ao comboio com este em andamento, para receber o pagamento ou o troco, pois alguns passageiros aproveitam esta circunstância desigual de os que vendem estarem apeados. Concluída a operação descem com a composição em andamento, executando a descida com a corrida no mesmo sentido como se impõe. Este treino vem certamente desde a meninice, pois a perícia com que as crianças correm  ao lado do comboio e sobem, logo que este começa a abrandar na aproximação ao apeadeiro, para depois aproveitarem uns escassos minutos de viagem, é impressionante.

Tínhamos levado um pequeno lanche para as longas sete horas de viagem que separam Nampula de Malema (cerca de 250 km.). “Quem vai para o mar avia-se em terra”, mas de facto tornou-se desnecessário, pois não falta pão à venda, bananas, galinha cozinhada, bolos tradicionais, e até refeições cozinhadas no “salão restaurante”. Nem sequer falta um serviço de mini bar, oferecido num cesto de plástico, transportado por um moço que viu aqui a sua oportunidade de negócio.
A maior parte dos passageiros abastece-se de produtos frescos nestes mercados, e por isso as carruagens vêm atulhadas de mantimentos, incluindo galinhas e galos vivinhos da costa, que de vez em quando protestam, tentando libertar-se das amarras ou cantando vigorosamente. Uma festa!!!.
Diria que o comboio distribui equitativamente o tempo de viagem. Metade do tempo parado para dar oportunidade aos negócios e outro tanto tempo em viagem lenta e aos sacolões, como se a máquina sofresse de tosse. Nada de mais, pois chegou dentro da hora prevista.

O maior perigo esperava-nos no regresso à cidade, na saída da estação. Vários seguranças munidos de “chambouco “ (cassetete) distribuam pancadaria a torto e direito por um grupo de pessoas. Ficámos estarrecidas!!!. Percebemos um pouco mais tarde que todos os malfeitores da cidade se concentram nas imediações da estação. Eu fui totalmente engolida pela multidão, onde os ladrões se acoitam, os meus bolsos foram completamente esvaziados, mas graças a Deus só encontraram sacos de plástico vazios. Foi uma chegada muito emotiva e assustadora da qual felizmente saímos incólumes.

Eugénia Ferreira
Enfermeira Voluntária em Moçambique

sexta-feira, 29 de março de 2019

NOVOS DOENTES E NOVAS ESPERANÇAS

Os doentes novos continuam a encontrar-se e a serem registados. Estamos no número 25 deste ano de 2008, mas nada comparado com o ano passado. Realmente a doença está a caminhar para a sua erradicação neste distrito mas não sei se será este ano...

Ainda me aparecem muitas feridas… nas mãos e também nos pés…o nosso amigo Carlitos de Rapale continua com as suas feridas que quando cicatrizam num sítio abrem logo noutro… enfim tenho tratado delas e de outras úlceras e acho que estão a melhorar mesmo assim…nem sempre é fácil vê-las com frequência mas os “pequenos milagres” aparecem e eu fico satisfeita com eles… a foto da mão que vos mando é o Sr. Alberto que já terminou o seu tratamento mas que teve sempre feridas…agora é outra vez no dedo…fiz penso e passei guia de penso para a sua área de residência que fica a 20 km do local onde ele nos visitou…e porque é que ele vem aqui e não vai ao seu posto de saúde mais perto? Pois já devem estar a pensar… a mucunya vê-lhe a ferida, dá-lhe medicamentos, faz–lhe o penso e ajuda-o em algumas coisas, como sabão, pomadas, … enquanto que no posto… enfim é para isto que aqui estou: para ajudar estes doentes que outros desvalorizam e não se interessam tanto…

Beijinhos da vossa mpathani 
Vanda - Voluntária da APARF em Nampula - Moçambique

terça-feira, 26 de março de 2019

ENCONTRO DE SINERGIAS

Outro fim de semana fui acompanhar uma Irmã a Iapala (uma missão das Irmãs de S.João Baptista a cerca de 200 km de Nampula, para o interior) para ir buscar as médicas Patrícia e Fátima (colaboradoras da APARF) que aqui estão de visita e em trabalho no hospital da missão das Irmãs. A região é muito bonita e rodeada de montanhas. É nestas montanhas da vila de Ribaué, sede de distrito de Ribaué, a cerca de 30 km de Iapala, que se engarrafa uma das águas que se vendem em Moçambique. Fez-se um piquenique na montanha com as Irmãs, os Padres que estão nesta zona e nós (Eugénia, Patrícia, Fátima e duas voluntárias alemãs, a Juliana e a Maita). Foi muito agradável e foi um bom convívio antes de regressar a Nampula, por uma estrada de terra batida que até não estava muito má, mas que se deve ter cuidado…

As médicas acompanharam-me um dia a uma visita aos doentes. Distribuímos mantas, sabão, sal e fez-se uma palestra sobre lepra a doentes novos, que ainda pouco sabiam da sua doença. Foi uma boa manhã. À tarde, levei-as a visitar um doente na sua palhota. O Gil é um doente de 78 anos que vive sozinho com a sua esposa. Ele teve lepra e ficou com os pés deformados e com feridas. Estava também um pouco doente e elas fizeram--lhe uma consulta no domicílio. Ele está muito doente e a situação é complicada mas ficou medicado e irei vê-lo em breve para ver como evoluiu ou não… 

Beijinhos da vossa mpathani 
Vanda - Voluntária da APARF em Nampula - Moçambique

sexta-feira, 22 de março de 2019

CONSTRUÇÃO DE CASA AFRICANA PARA UMA DOENTE DE LEPRA

Posso finalmente informar-vos que no dia 30 de Abril A CASA DA AMINA ESTAVA CONCLUIDA!!! Após todo o mês de Abril, muitas confusões, ora uns dias trabalhavam 3 homens, ora outros apenas 1, …ora faltavam bamboos, ora não havia bidões (aqui chamam-se galões…) para transportar a água do rio para juntar com a terra e fazer o tal matope (espécie de barro) para cobrir a casa, … enfim nesse dia concluiu-se a obra finalmente… deixei a minha função temporária de mestre de obras (sem me entristecer nada…) para ficar como sempre com a função de voluntária e enfermeira. Nesse dia fui ao Cazuzu, a 20 km da Namaita, onde ela mora, buscar o pedreiro que colocou a porta de madeira, oferta da Missão de Murrupula. Enquanto fomos trabalhar com os doentes de lepra, ele colocou a porta. Aqui ter uma porta de madeira, é muito bom, é a melhor porta possível…há casas que nem porta têm, ou então é de chapa de zinco…é preciso ter dinheiro para a comprar (o que é difícil para o povo do mato) e isso a Amina não tem…mas tem muitos amigos aqui em Moçambique e em Portugal que a ajudaram a ter uma casa nova com porta e tudo, como sempre desejou e quis! Ela estava muito feliz. Dei-lhe um cadeado para fechar a porta e trancar a casa. A primeira vez que me pus a pensar na forma como iria fechar a porta, apenas pensei em fechadura…mas que burrice… para quê uma fechadura!? quanto mais fácil for para manejar melhor…estragar-se-ia mais depressa…ficou então com um cadeado a trancar a porta que tinha um gancho de metal para prender a outro gancho que se encontrava no aro da porta, que assentava nas paredes da casa. Como a doente não tem dedos, coloca-se outro problema mas espero que se resolva…dei-lhe uma fita para colocar as chaves do cadeado…a Amina ficou toda moderna e à moda dos acunyas (dos brancos!) com uma fita com as chaves…ela adorou! Espero visitá-la em breve para ver como vão as coisas na sua nova casa. A família é problemática e todos são muito despreocupados e desinteressados… deixaram-lhe os netos menores e os filhos, ou morreram, ou separaram-se e não querem nada com ela que não pode estar sozinha nem se sabe bastar a si própria…

Beijinhos da vossa mpathani 
Vanda - Voluntária da APARF em Nampula - Moçambique

segunda-feira, 18 de março de 2019

PELO MUNDO DA VANDA

OLÁ AMIGOS,

Sai’ihali? Espero que estejam bem. Eu tive umas semanas alucinantes e com muitas novidades para vos contar…

Este mês iniciei a distribuição de mantas aos doentes de lepra. Já tinha a ideia que fazia muito frio nos locais bem escondidos no meio das montanhas onde os doentes vivem. Então a APARF começou este mês de Abril a sua distribuição. Tenho recebido muitos obrigados e sorrisos de agradecimento pelos doentes…

ACÇÃO DE FORMAÇÃO PROMOVIDA PELA APARF

Esta semana fizemos uma acção de formação “um dia para a lepra” em jeito de reciclagem sobre temas de lepra e tuberculose. Aconteceu no Bamboo, um complexo às portas da cidade que tem uma sala de conferências para 30 pessoas e onde esta acção de formação ocorreu. Estavam presentes 13 enfermeiros dos postos e centros de saúde do distrito onde trabalho. Eu e o Sr. Cássimo preletámos os temas: eu falei sobre lepra e ele da tuberculose com novas regras e normas a actuar.

Esta Acção de Formação / Reciclagem teve como objectivos:

- Dar a conhecer a APARF e o seu trabalho em favor dos leprosos;
- Realizar uma reciclagem dos conhecimentos sobre a doença de lepra;
- Aprofundar os conhecimentos sobre a temática da lepra, junto dos técnicos de saúde (enfermeiros) que colaboram com o PNCTL (Programa Nacional de Controlo da Tuberculose e Lepra;
- Incentivar a um trabalho conjunto entre todos os elementos que trabalham no PNCTL, para benefício do doente de lepra.

Foram abordados os seguintes conteúdos:

- Dar a conhecer a APARF e seu trabalho com os doentes de lepra;
- Referência à doença de lepra, com os sinais, sintomas, diagnóstico, tratamento, medicamentos, efeitos secundários dos medicamentos,… ;
- Reacções lepróticas e seu tratamento;
- Diagnóstico e preenchimento das fichas dos doentes;
- Avaliação sensitiva e motora dos doentes de lepra;
- Indicações no tratamento dos doentes com úlceras crónicas de lepra;
- Breve referência à doença da tuberculose, os sinais, o diagnóstico, tratamento, DOT’s;
- Trabalho conjunto com os voluntários, enfermeiros e doentes.
Os enfermeiros mostraram-se interessados, motivados e as actividades durante o dia correram bem. Houve espaço para colocar dúvidas e debater algumas questões que todos os dias se confrontam no trabalho junto dos doentes de lepra e de tuberculose.
Espero puder observar a produtividade da Acção de Formação / Reciclagem, com a nossa visita mensalmente a cada unidade sanitária, acompanhando directamente no terreno cada um dos enfermeiros que junto dos doentes irão pôr em prática o que relembraram e o que aprenderam de novo neste dia oferecido pela APARF.

Espero que esta actividade possa dar frutos no futuro quando cada mês visitar os doentes e os enfermeiros nos seus locais de trabalho. Se a acção de formação ajudar a melhorar o atendimento, o diagnóstico e a avaliação dos doentes, isso seria muito bom…

A tuberculose está mais disseminada que a lepra e acho que está agora mais problemática que a lepra. Existem cerca de 50 doentes em tratamento de lepra no distrito, que continua a ser o mais endémico da província. O que significa que os restantes apresentam menos de 50 doentes em tratamento. No ano 2007 tínhamos por esta altura cerca de 100 doentes o que diz qualquer coisa do trabalho que estamos a fazer e que eu colaboro em nome da APARF. Houve lanches da manhã e da tarde e almoço oferecido pela APARF... os pratos foram todos “rapados”.

Também estiveram presentes a Patrícia e a Fátima, 2 médicas que colaboram com a APARF. A Patrícia já tinha aqui estado a acompanhar a Anabela (anterior voluntária neste distrito). Elas tinham chegado de Portugal na véspera e estiveram a dar a sua força e ajuda.

O nosso amigo Carlitos, lembram-se dele dos pensos!? Bem outro dia vinha descalço e com feridas outra vez nos pés… Zanguei-me com ele mas acabei, como sempre, é claro, por lhe ver os pés e fazer esquema de penso. Irei vê-lo no início de Maio e vamos ver como estarão as feridas…

Beijinhos da vossa mpathani 
Vanda - Voluntária da APARF em Nampula - Moçambique


quarta-feira, 13 de março de 2019

UM OLHAR SOBRE A SIDA

De braço dado com a fome, a pobreza, o baixo nível de instrução, as doenças tropicais, as doenças sexualmente transmissíveis e a tuberculose, o HIV / SIDA constitui uma forte ameaça para uma grande faixa de população moçambicana (estima-se que 16,2% da população).

Num dos discursos recentes, o Presidente da República classificou esta doença como uma pandemia, devido ao elevado número de pessoas atingidas e ainda porque os indicadores epidemiológicos existentes não são tranquilizadores. De facto estamos perante uma situação extremamente complexa, porque esta doença se inscreve num contexto sócio-  -cultural e economicamente muito desfavorecido ou seja de recursos materiais, financeiros e humanos muito escassos. Os gabinetes de aconselhamento e testagem voluntária (GATV) ainda não estão disseminados por todos os distritos, o número de técnicos bem como a sua formação são insuficientes, o número de médicos é muito escasso e não existem clínicos especialistas neste domínio. Os medicamentos antiretrovirais estão disponíveis gratuitamente nas farmácias de alguns centros de saúde e hospitais mas há frequentemente falhas no abastecimento, o que obriga a interromper o tratamento e a taxa de abandono dos tratamentos por parte dos doentes é preocupante. Os meios de diagnósticos (para além do teste rápido) são morosos e muito limitados (não é possível, por exemplo, determinar a carga viral). 

Apesar deste panorama tão pouco animador, devo contudo testemunhar o esforço que diariamente é feito por um pequeno grupo de técnicos, onde me incluo com o estatuto de voluntária (recepcionistas, conselheiros, activistas, enfermeiros, técnicos de Medicina, auxiliares de acção médica, técnicos de Farmácia, médicos) no tratamento e acompanhamento dos doentes. Registámos desde o início deste ano mais de mil doentes (uma média de 3 novos doentes por dia). A agravar esta situação muitos deles sofrem de tuberculose, muito frequentemente têm episódios de malária o que agrava muito o prognóstico. 

O contexto social é perpassado por muitos estereótipos, crendices, feitiços e magias, sintomas de fatalismo e cepticismo, discursos moralistas que complicam as intervenções dos técnicos e que determinam que os doentes recorram já muito tarde aos serviços de saúde prejudicando ou inviabilizando a sua recuperação. É muito frequente o aparecimento de pessoas doentes que fizeram uma jornada longa pela medicina tradicional (vulgo curandeiros), ficando exauridos não só nas condições de saúde física, mas também de recursos financeiros. Chegam trazidos ao colo pela família num estado adiantado de caquexia (magreza extrema), com grave deterioração das funções vitais, das quais acabam por falecer, uma vez que necessitariam de cuidados médicos e de enfermagem muito complexos que aqui neste contexto de escassez de recursos é impossível dispensar.

 Tendo em consideração os aspectos culturais deste povo, a doença não se explica pela falência ou distúrbio no funcionamento das células e órgãos, por defeitos metabólicos ou agressão de agentes externos e muitas outras causas. É sempre atribuída a forças mágicas ou feitiços que lhes foram lançados pela família, antepassados mortos, ou ainda pelos vizinhos, dos quais se tentam libertar através das práticas tradicionais dos curandeiros. Por estas razões, a atitude de negação da doença é muito frequente. Num estudo realizado por Cristiano Matsinhe (perito moçambicano de ciências sociais) e recentemente divulgado, podemos colher muitos contributos para o conhecimento desta complexidade social ligada a esta doença. Afirma ele que é necessário” mergulhar no repertório de valores, representações e significações que desafiam as acções de luta contra a Sida, problematizando-as, como estruturas dinâmicas que também sustentam as representações oficiais”. Quer ele, com isto significar, que muitos profissionais de saúde também se apropriam destes repertórios de crenças, coabitando com a medicina tradicional ou aconselhando mesmo o recurso àquelas entidades, para resolução dos problemas particularmente nos meios rurais.

Na minha prática, tenho verificado que, muitos doentes confessam ter já percorrido estes trajectos, e que não compreendem as alterações do seu estado de saúde. É necessário muito trabalho para explicar o que está a acontecer, a evolução e a responsabilidade individual no controle da doença. Este longo caminho exige muita persistência, muitas horas de conversa, de avanços e recuos, de períodos de melhoria e de agravamento. O analfabetismo e a pobreza são factores que como imaginam complicam todo este quadro, pois as terapêuticas são complexas e o grau de adesão é baixo. Alguns logo que se sentem ligeiramente melhores deixam de tomar os medicamentos e esta atitude acarreta problemas de gestão de alternativas terapêuticas, tendo em atenção que estas são muito limitadas. A discriminação acontece no seio das famílias e por isso, conheço alguns casos muito dramáticos sob o ponto de vista social e humano, ficando as mulheres e crianças em situação ainda mais precária.

 A propósito posso contar-vos a história da Vitória. Conheci-a na consulta, estando grávida do bebé que se chama Rolfo. Nessa altura estava muito desnutrida e tinha manifestações cutâneas agravadas com sarna infectada que atingiam a face, tronco, membros superiores e inferiores. Foi hospitalizada na Maternidade para tratamento desta situação, mas infelizmente nada melhorou. Permanecia quase todo o tempo na cama envolta nas suas capulanas bastante sujas sob a indiferença dos profissionais de saúde. Passados poucos dias foi-lhe dada alta e perdi-lhe o rasto. Apareceu na consulta poucos meses depois já com o seu filho nos braços. Vinha andrajosa, pés descalços, com um aspecto físico bastante deteriorado, mas a sua principal preocupação resultava do facto de não ter leite pois o filho chorava com fome. Era considerada uma doente rebelde, porque não cumpria as recomendações do pessoal de saúde e parecia não haver compaixão por esta situação social e humana muito desfavorecida. Felizmente a médica acedeu à minha proposta de a internar desta vez na enfermaria de Medicina para a podermos ajudar. Conseguimos apoio para comprar roupa e assim poder mudar diariamente após os cuidados de higiene e tratamento da sarna. Foi necessário adquirir roupa para vestir a criança, uma panela para ferver a água e biberões, leite, sabão, termo para guardar água fervida, antibióticos para o bebé que apresentava também feridas infectadas (convém esclarecer que não existem recursos na enfermaria para preparar um biberão). Com a colaboração dos colegas da enfermaria de Medicina foi possível tratar a sarna, mas a introdução do tratamento com os antiretrovirais foi fundamental para a melhoria do estado clínico. Adquiriu autoconfiança, recuperou um pouco da sua dignidade humana,  treinou a preparação do biberão e fez aquisição de conhecimento sobre o  auto-cuidado e higiene com a roupa do filho. Neste momento, não falta às consultas e cumpre satisfatoriamente os compromissos que assume comigo. Estabelecemos uma relação de confiança e respeito porque, felizmente, fala razoavelmente a língua portuguesa, o que me permitiu a compreensão das suas necessidades e conhecimento dos contornos da sua situação de mulher abandonada pelo último companheiro, pai do Rolfo. Desconhecemos ainda qual é a situação desta criança relativa ao vírus da SIDA, uma vez que não existe tecnologia para fazer a sua avaliação clínica. O que interessa, neste momento presente, é que a criança está a desenvolver-se dentro dos parâmetros normais para este contexto, e que o seu sorriso em cada vez que me visita é uma enorme alegria. São estas pequenas conquistas que nos dão ânimo para prosseguir com o nosso trabalho, como voluntária neste país Africano (um dos mais pobres do Mundo), onde estamos rodeadas de carências múltiplas e onde tomamos consciência da dimensão das várias faces da pobreza. Com base na experiência destes meses de trabalho e da consciencialização da multiplicidade de problemas destes grupos de pessoas vulneráveis (com particular atenção para as mulheres com crianças), adolescentes e idosos sem família, parece-me ser urgente criar uma estrutura de apoio a estas situações. É muito importante proporcionar-lhes a aquisição de conhecimentos básicos sobre higiene, confecção de refeições equilibradas e variadas com recurso aos produtos cultivados nas suas machambas, gestão dos medicamentos e consultas, controle das tomas na fase de indução dos tratamentos, visitas domiciliárias. Há muito trabalho para fazer. Os recursos são muito escassos. Mas, na minha modesta opinião, também urge formar equipas de técnicos com uma sensibilidade diferente para toda esta problemática do sofrimento que esta doença arrasta consigo. É ainda muito urgente realizar campanhas de informação e prevenção sobre este flagelo a começar nas crianças em idade escolar, nas escolas secundárias, nas universidades, nas pequenas comunidades. Para esta enorme tarefa todos os actores sociais devem ser convocados desde os régulos, curandeiros, autoridades administrativas e da educação, a Igreja, os políticos, os artistas ou seja todos os que possam concorrer para a mudança de comportamento deste povo tão resignado.

Eugénia Ferreira
(Enfermeira)

sexta-feira, 8 de março de 2019

AS CRIANÇAS DE MOÇAMBIQUE SÃO AS MAIS LINDAS DO MUNDO!

Bem, as crianças são sempre o que de mais bonito existe no mundo e não só em Moçambique! Mas aqui neste país maravilhoso em que vivo, tenho o privilégio de conviver com aqueles pedacinhos de gente, pequenos no tamanho e grandes na generosidade! Gosto indiscriminadamente de qualquer criança: das que brincam na entrada do “meu” prédio, das que todas as manhãs se cruzam comigo a caminho da escola, das que viajam ao meu lado nos transportes públicos. 

Mas as crianças que mais pensamentos ocupam na minha mente, aquelas que reinam no universo dos meus afectos, são as do Infantário 1º de Maio, em Maputo. Na verdade, a palavra Infantário não é a mais adequada, porquanto se trata de um orfanato que recolhe crianças “órfãs de sida” ou abandonadas.

Vai ser este pequeno mundo que iremos conhecer através destes pequenos escritos. Neste primeiro, ficaremos pela apresentação: o número de residentes não é constante, varia de 30 a 50 crianças. As idades oscilam entre semanas de vida e os oito, nove anos de idade - são apenas três ou quatro as crianças desta faixa etária; normalmente os “crescidos” são transferidos para outra instituição. Confesso que o meu encantamento recai sempre sobre os mais pequeninos.

São crianças infelizes? Não diria taxativamente que sim..., as crianças africanas têm dentro delas um manancial inesgotável de alegria! Mas um olhar atento vai encontrar aqui e ali um outro olhar triste.

São crianças felizes? Também não exactamente - como é óbvio. Não têm colo de mãe ou pai, não têm atenção individual da família, o lar delas é uma casa grande cheia de irmãos e irmãs nas mesmas circunstâncias, uma casa onde as dificuldades de ordem material se fazem sentir. Fazem? não! Faziam!!!! É que estas crianças agora têm a ajuda preciosa daquela APARF que cuida das muitas lepras do mundo. De há uns meses para cá, não faltam os medicamentos desde os de “tinha” até às vitaminas necessárias a esta pequenina maravilhosa população. E de há uns meses para cá também a alimentação é melhorada com um abastecimento mensal de carne e peixe.

Ana Maria
(Voluntária)

segunda-feira, 4 de março de 2019

A HISTÓRIA DE UMA PAIXÃO - Parte VI

(Continuação...)

Depois do trabalho no Centro de Saúde eram os meninos que preenchiam o fim das minhas tardes e as noites. O meu quarto na Casa do Gaiato era na casa dos meninos dos 8 aos 10 anos e rendi-me a eles desde o primeiro dia, em que, horas depois da minha chegada, me foram colocar na mesa de cabeceira uma flor silvestre que crescia dentro de uma casca de coco... À noite ajudava-os com os trabalhos de casa; como ainda faziam chichi na cama levantava-me para os mandar à casa de banho poucas horas depois de adormecerem, embora as reacções de pânico de alguns quando eram acordados me perturbassem de sobremaneira... Que histórias de vida terríveis estariam por detrás dessas reacções? Nunca tinha lidado com situações dessas, mas descobri que afinal era fácil tranquilizá-los e chamá-los à realidade: 

– Aqui estás seguro... ninguém te vai fazer mal.

Tornei-me a solução de recurso nas brigas, tão frequentes quanto seriam de prever numa casa só de rapazes... 

Alguns dos meninos mais velhos, agora já com 17 ou 18 anos, tinham andado na guerra. Apercebi-me disso já quase no fim da minha estadia no meio de uma conversa com os mais novos, uma frase cruzada captada de raspão, que na altura não me fez muito sentido porque não podia conceber os meus meninos numa situação tão monstruosa. Mas claro, se tinha acontecido com tantas crianças, por maioria de razão poderia ter acontecido a estas, tão desprotegidas... E nessa noite a frase ecoava-me nos ouvidos, não tanto pelo sentido como pela expressão comprometida do menino que a tinha dito e o olhar fulminante dos outros que o rodeavam. Claramente era um assunto tabu, não entre eles, mas entre eles e os adultos. Ainda assim só consegui ter a certeza de que aquela interpretação não tinha sido fantasia minha quando o Padre Zé Maria mo confirmou. Não se alongou: 

– O que é que isso interessa agora? Já basta tudo quanto sofreram. Há dois anos apareceram aí uns oficiais do exército a perguntar quais é que tinham sido os meninos, queriam nomes, sabe-se lá para quê, mas eu recusei-me a responder. Quase todos agora são adolescentes normais. Só um ou dois é que o psiquiatra achou que precisavam de acompanhamento. Para quê desenterrar o que já lá vai se não os ia ajudar em nada? Mais vale que esqueçam...

Mas não, não esqueciam. Eram diferentes dos outros. E seriam sempre diferentes… Para os mais novos, os que tinham sido mobilizados eram respeitados e reverenciados como uma espécie de heróis e rodeavam-nos para ouvir as suas histórias. Mas os mais velhos escutavam-nos mais com compaixão do que com respeito ou inveja. Entendiam a sua fragilidade… Não me foi difícil depois perceber quais eram estas “estrelas” que tinham um estatuto diferente e assisti a uma ou outra discussão em que não se abordava directamente o assunto da guerra, mas em que se notava claramente o seu fascínio por armas... Realidades tão diferentes e histórias de infâncias tão terríveis e tão distintas da minha… Mas foi pelo amor por eles que aprendi a amar Moçambique e a querer cada vez mais voltar.


Patrícia Lopes
(Médica)


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

A HISTÓRIA DE UMA PAIXÃO - Parte V

(Continuação...)

E para além de tudo isto, cheguei a Maputo precisamente no rescaldo da Cimeira da Comunidade Africana, que se realizou nesse ano em Moçambique. A cidade de Maputo, já de seu habitual charmosa, estava absolutamente encantadora, com as avenidas principais reavivadas com árvores tropicais plantadas de fresco, criando um ambiente se possível ainda mais exótico e florescente. A Casa do Gaiato foi convidada para ser a anfitriã da visita das Primeiras Damas da Comunidade Africana, quase por definição dedicadas às causas humanitárias e de solidariedade. O relato que o Padre José Maria fez desse dia memorável ilustra bem a intensidade do ambiente que se viveu na Casa nesse dia:

Aconteceu o que nunca nos poderia passar pela ideia. Fomos convidados para acolher a visita das Primeiras Damas da Comunidade Africana! O convite veio em jeito de programa pré-estabelecido, com horário de chegada, recepção à maneira africana, com indicação do que deveria ser visitado, uma sessão de cultura moçambicana e, finalmente, o almoço. Apesar do embaraço que causava na nossa vida rotineira, aceitámos o desafio e a oportunidade de dar a conhecer a tão variadas como importantes personagens que somos verdadeiramente uma Casa de família para os que não têm família.

Logo os rapazes começaram os ensaios de danças tradicionais, com coreografia e batuques a preceito. As alunas externas fizeram grupo para a Marrabenta, e o Xigubo [dança guerreira africana] ficou a cargo de um grupo de médios.

Só mesmo na véspera soubemos que viriam ao todo vinte e três Primeiras Damas. Era importante, pois, sendo as que se pretendia honrar, teriam de ter uma mesa destacada no refeitório da Casa. Havia, no entanto, acompanhantes, como esposas de Primeiros-Ministros, Senhoras e Ministros de vários países. Mais duzentas e quarenta personalidades! Claro que não abdicámos de os nossos mais pequeninos estarem nas suas próprias mesas, que por isso mesmo são mais baixas. Até para eles próprios compreenderem que são eles os donos da Casa e sabem comer como toda a gente. ‘Nos quoque gens sumus...’ Na hora aprazada a caravana fez uma breve paragem no Centro de Apoio da Massaca, onde todos – crianças, monitoras, pessoal de saúde, líderes comunitárias com os seus grupos, associações de mães – saudaram as ilustres visitantes. À chegada à nossa Aldeia havia duas alas de mamãs de capulana e polo com o emblema da União Africana, pintado na véspera pelos nossos professores, mais o símbolo da luta contra a SIDA, uma causa especialmente acarinhada pelas Primeiras Damas. Estavam os rapazes e alunos da Escola, os mais pequeninos ostentando bandeiras de todos os países de África.

Cumprimentada a nossa Primeira--Dama, o Vasquinho, da Casa-Mãe (a casa onde vivem os mais pequeninos), fez a entrega de uma belíssima rosa de porcelana colhida no nosso jardim. Mas o menino não queria largar a flor, talvez porque a Senhora não lhe desse a mão... 

A nossa Capela, devidamente preparada, nessa hora já se encontrava cheia. Acabada a sessão todos desceram ao refeitório para a refeição, onde o Protocolo de Estado se limitou a indicar os lugares às Senhoras e todos mais consoante as afinidades de língua. Sobraram os doces, porque o discurso da nossa Primeira Dama era traduzido em mais três línguas. Não cabe aqui dizer o que então foi dito de apreço pela Casa que as soube receber. Mas era momento oportuno para dar ênfase à Associação das Primeiras Damas da União Africana, organizadas na luta contra a SIDA, a que preside a Primeira-Dama do Togo, entre todas, talvez a mais elegantemente vestida. Houve quem reparasse num grande diamante que ostentava no turbante, e que devia valer uma fortuna... Mas foi ela quem teve a iniciativa de passar um envelope por todas e recolheu a passar de três mil dólares. Fez um apelo para que se empenhassem nessa luta: ‘Porque afinal foi demonstrado aqui que a primeira coisa não é o dinheiro. São os gestos que desencadeiam outros gestos!’ Um dia memorável...


(Continua...)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

A HISTÓRIA DE UMA PAIXÃO - Parte IV

(Continuação...)

E havia ainda um outro trabalhador muito importante na Saúde. Ao portão do recinto onde ficava o centro de saúde estava sempre o segurança – o tio Vasco (nome fictício, agora apeteceu-me...) – e tenho de reconhecer que a Irmã Quitéria, que o tinha colocado naquele posto, só podia ser uma pessoa com uma criatividade e poder de observação notáveis. Posso pedir-vos para fazerem um exercício comigo? Têm à vossa disposição todas as pessoas da aldeia, pois não há praticamente emprego, mas não podem exigir qualificações, uma vez que poucos têm sequer a escolaridade mínima... Numa zona já desminada, sem grande violência no dia-a-dia, para além das ocasionais rixas de homens bem avinhados, qual o perfil que escolheriam para um segurança de um centro de saúde? Controlador? Intimidante? Correcto e incorruptível? Com capacidade para proteger os trabalhadores e os equipamentos? Bem, eu digo, a sua principal característica da personalidade era ser um coscuvilheiro de primeira apanha, daqueles mesmo do tipo não-há-nada-que-eu-não-saiba-ou-não-venha-a-saber! Aquele homem era um autêntico agente infiltrado! Perdoem-me o preconceito. Se calhar a potencial utilidade desta perturbação da personalidade foi imediatamente evocada por todos os estimados leitores, mas a mim não me tinha passado pela cabeça. E já agora perdoem-me também o abuso de linguagem, que este texto pretende-se assim mais para o científico do que para o comezinho e ser cusco não é, evidentemente, perturbação mental nenhuma...

Mas deixando-me de brincadeiras, o tio Vasco era absolutamente extraordinário: nunca mais voltei a ter alguém que me desse parte dos doentes que eu tinha visto depois de os ter mandado para casa ou de os ter enviado para outro hospital. Era melhor que uma equipa domiciliária de follow-up: sabia tudo sobre os doentes que tinham passado por ali – como estavam, como se estavam a dar com a medicação, se os meninos já tinham voltado à escola ou se os adultos já tinham voltado a trabalhar. Foi ele que um dia deu o alerta de que não tinha visto nesse dia uma senhora viúva que tinha estado no Centro de Saúde no dia anterior com uma gastroenterite aguda e pouco tempo depois foram a sua casa, onde a encontraram caída e muito desidratada. Como passava o dia ao portão, toda a gente tinha obrigatoriamente de falar com ele. Sempre que ficava preocupada com um doente, bastava lembrar-me do nome dele e perguntar por ele ao tio Vasco: 

– Tio Vasco, que é feito da D. Eugénia?
– Começou a tomar o antibiótico há dois dias e esta tarde saiu para a machamba. Já estava melhor.
– E como está o Professor Sebastião?
– Está com malária de três cruzes e não consegue sair de casa, mas a filha foi levar-lhe comida e diz que já tem apetite...

(Continua...)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

A HISTÓRIA DE UMA PAIXÃO - Parte III

(Continuação...)

A aldeia mais próxima (Massaca) ficava a 5 km e era lá que funcionavam as principais actividades de apoio à comunidade, incluindo o Centro de Saúde. Quando cheguei, a enfermeira da Cooperação Espanhola responsável pela Saúde estava fora de Moçambique porque tinha ido para o Brasil, acompanhar a Irmã Quitéria, que estava doente. Era portanto necessário alguém para ficar no centro de saúde... Pois... Inacreditavelmente, eu, ainda sem a licenciatura, era a pessoa mais diferenciada!

Confesso que nunca tinha estudado Medicina Tropical a sério… Nem mesmo sem ser a sério. Nem mesmo por descargo de consciência antes de ir. Só levei um livro de medicina para ler porque achei que não ia ter cabeça nem oportunidade para estudar… Enganei-me! Enquanto lá estive estudei o Current Medical Diagnosis and Treatment até à inconsciência porque tive de tratar desde malária até febre de Katayama, passando por impétigo e tinha. Descobri a minha vocação! É mesmo disto que eu gosto. Seria de bom grado a Primeira-Dama do Estado de Emergência! 

Foi uma experiência aterradora ao início, mas que acabou por ser óptima, trabalhar com doentes de cuja cultura nada conhecia, inclusivamente a língua (o dialecto Changana), e com os outros profissionais, que eram pessoas com muito pouca cultura médica ou científica, mas a maior parte deles com experiência clínica e muito bom senso. Precisava permanentemente de uma intérprete, a Inês de Maria, que para além de tradutora fazia também de exegeta e mediadora cultural, adaptando as minhas perguntas à realidade local. Ainda hoje sorrio quando me lembro que perguntava a uma doente com candidíase vaginal se o corrimento era de tipo iogurte e ela, imperturbável, traduzia iogurte para coco ralado ou mandioca cozida... Ou quando comecei a compreender um pouco do dialecto, uma vez uma senhora queixou-se que a filha de sete anos tinha a “dor do mês”. 

– Com sete anos já é menstruada?! Perguntei, abismada, ainda para mais porque a menina não aparentava sequer ter sete anos, mas apenas cinco ou seis. 

– Não, não é menstruada, assegurou-me a Inês, o que ela disse é que a menina tem epilepsia, aqui as pessoas chamam-lhe tradicionalmente a “doença do mês” ou a “doença da lua”...

(Como se vê, perdi grandes oportunidades de ficar calada, mas foi divertido.)

(Continua...)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A HISTÓRIA DE UMA PAIXÃO - Parte II

(continuação...)

O posto médico (sempre a minha referência geográfica...) encaixava-se entre o edifício principal e as casas dos meninos e era onde ficava a enfermaria em que dormiam os doentes – era uma festa quando tinham de ficar internados!, o efeito novidade e a perspectiva de ficar na galhofa até mais tarde falavam sempre mais alto do que a doença... Isso e o facto de serem dispensados da escola e das actividades em que participavam faziam da enfermaria uma casa particularmente cobiçada. Até um dos pequeninos, o Rui, que não devia ter mais de três ou quatro anos, vinha ter comigo todas as noites e pedia, risonho, ao mesmo tempo que se me aninhava no colo:
– Quero ser doente... 

No extremo diametralmente oposto da área do resort erguia-se a escola e, como não poderia deixar de ser, para compor o meu quadro de estância turística em África, um lago natural lindíssimo, à beira do qual os meninos iam passear aos Domingos, à garupa dos burros que durante a semana eram utilizados no cultivo dos campos. Era uma visão simplesmente hilariante porque, como os burros eram muito manhosos e ameaçavam a qualquer momento fazer saltar os mais atrevidos, baixando a cabeça violentamente, os meninos montavam-nos de costas, como se não precisassem de ver o caminho... Tudo isto rodeado de uma paisagem avassaladora de vegetação seca rasteira, de onde dava impressão que se podia ver sair a qualquer momento uma gazela ou outro animal selvagem e de onde se elevavam inúmeras micaias, com a sua copa espalmada, como se estivessem a crescer contra um céu demasiado baixo e me faziam, absurdamente, lembrar o cabelo de uma antiga professora de matemática...

Por vezes, ao fim da tarde, uma atmosfera pesada e sufocante pairava sobre nós, carregando o ar de electricidade estática e eu perguntava ao guarda do portão da Casa: 
– Vamos ter chuva?
– Não, respondia, vamos ter vento...

E no dia seguinte concretizava-se o vaticínio: uma ventania fazia saltar a poeira debaixo do capim, cobrindo a paisagem de um véu de bruma seca e áspera, que picava na garganta e nos olhos, que fazia saltar das prateleiras do posto médico os anti-histamínicos, os colírios, os aerossóis, que mudava a cor do sol para vermelho, transformando a tarde inteira num crepúsculo desmedido e me fazia compreender o porquê de ter visto tantos desenhos dos meninos com o sol pintado de vermelho vivo...
 
(Continua...)

domingo, 10 de fevereiro de 2019

A HISTÓRIA DE UMA PAIXÃO - Parte I

Como se pode alguém enamorar por África?, perguntam-me algumas pessoas a quem este amor nunca tocou nem sequer alguma vez se sugeriu… O mais extraordinário de tudo é que eu fui uma dessas pessoas antes do meu ano de finalista, altura em que tive o privilégio de conhecer a Casa do Gaiato, na província de Maputo, onde vivi na savana os encantos de primeira vez em África...

A história começa com Moçambique a 12 ºC, numa noite sem lua e pouco iluminada, onde a única coisa que se podia sentir era o cheiro largo a espaço aberto (imaginava eu, nos meus pensamentos românticos de primeira vez, que estava a sentir o “cheiro de África” e, de facto, o que sentia era algum do cheiro de África – o cheiro de um Aeroporto africano misturado com o cheiro a diesel de avião da TAP...). O pouco que conseguia distinguir distintamente era Aeroporto Internacional de Maputo (o letreiro do aeroporto, literalmente com algumas luzes avariadas...). E desta história só posso dizer que adorei, que não estava nada à espera do que acabou por ser e que, à medida que o tempo passava, mais eu ficava rendida a tudo quanto via. Quando cheguei não fazia a menor ideia ao que ia… Corria o ano de 2003, em que a Internet em Moçambique era uma realidade recente e pouco explorada, as comunicações difíceis, as pessoas muito isoladas… A única coisa que sabia é que a minha presença seria bem vinda. Pensava eu que a Casa do Gaiato de Maputo era uma instituição de apoio a crianças órfãs ou abandonadas. Pensava que haveria de ir para ajudar a cuidar dos meninos, mudar fraldas, cantar canções, ajudar nos trabalhos de casa e pouco mais. Pensava até que a Casa do Gaiato de Maputo era em Maputo. Pensava... 

A Casa do Gaiato de Maputo era, de facto, na província de Maputo. Mas no meio da savana, onde os macacos iam brincar com as crianças no recreio da escola, onde só se chegava através de muita poeira por estrada de terra batida, não sem antes ter parado variadíssimas vezes para nos revistarem o carro, observarem atentamente os documentos ou para nos desinfectarem as rodas por causa da febre aftosa. E então, o que era a Casa do Gaiato? Nada menos do que uma espécie de Fundação Gulbenkian em Moçambique. Num raio de dezenas de quilómetros, tudo quanto era centros de saúde, escolas, berçários para crianças desnutridas, centros de apoio a idosos e postos de trabalho era deles. Doze mil pessoas a quem davam assistência. Mil e duzentos postos de trabalho. Centenas de crianças desnutridas a quem eles apoiavam. As melhores escolas eram as deles... E tudo isto criado de raiz, desde 1992 a partir de 700 hectares de terreno minado, sem apoios do Estado. 

A Casa do Gaiato parecia inacreditavelmente um resort turístico no meio da savana, disposta ao longo de um acidente de terreno de vários hectares, num complexo de pequenas casas térreas de traça portuguesa onde dormiam os meninos, divididos por idades. A casa principal, que incluía o refeitório ficava no cimo do morro e, como em qualquer casa de família, o refeitório era a sala de reuniões principal e as conversas diárias dos pais da casa, o Padre José Maria e a Irmã Quitéria, com os meninos decorriam sobretudo à hora das refeições. No extremo mais alto ficava a capela, encantadora, disposta em anfiteatro, em jeito de construção africana de inspiração moderna, com uma arquitectura genial! 

(continua...)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

A SEMENTE DEU FRUTO EM MURRUPULA


O Nuno Saraiva foi para o Distrito de Murrupula ao serviço dos doentes, para continuar o Projecto do Ricardo Leonardo, do Paulo Bica e de Ângelo Bouça...

Faço anos. Não percebo o que dizem, falam uma língua diferente, complexa. Faço anos, repito. Hoje faço anos. Rajá, estás a traduzir? Recorro ao amigo, tradutor, enfermeiro e parceiro no projecto. Rajá, então? Traduziste?


A pressa do branco atrapalha. Tanto para aprender, é preciso deixar que nos surpreendam. 
Olham para mim, não os percebo. Falam uma língua diferente, complexa. Não tenho culpa, cheguei há duas semanas. Hoje faço anos, é um dia importante. Rajá, perceberam?

Estou a duas horas de mota de Murrupula, a uma hora de carro de Nampula, a três horas de avião de Maputo e a onze horas de avião de Lisboa, hoje faço anos. Rajá? Não percebem?

Levantou-se, aproxima-se, vagarosa nos gestos pensados. Tem ar cansado e triste, de idade indeterminada, mas é avó, avó africana. Traz qualquer coisa nas mãos, chegou perto e entregou. Recebo com as duas mãos, hábito bonito destas gentes. Fruto verde, belo, generoso. Pepino, percebo entre palavras da língua diferente, complexa, que não percebo. Pepino, repete a avó. Anciã da vida, da doença e da tristeza.

O que é Rajá? Sinto e pressinto a emoção nos olhos do amigo. É uma prenda para ti, não porque fazes anos mas porque estás aqui. “O importante é o que acontece e não o que se planeou”, a consciência de europeu em reboliço. Há dois anos o Paulo ofereceu-lhe sementes de pepino, hoje és tu que recebes o fruto. A emoção atraiçoa-me, olho-a nos olhos, olhar triste de avó africana, anciã de amarguras e doença, mas de coração reconhecido. Sinto-me pequeno, muito. Choro por dentro, agradecido por aqui estar, feliz por fazer anos.

Falam uma língua diferente, complexa. Não percebo o que dizem. Mas entendo o que querem. É uma linguagem de sempre e para sempre, universal, falam de amor. 

Obrigado Paulo pelo mais belo presente que recebi em Moçambique.

Nuno Saraiva (Voluntário APARF)