terça-feira, 3 de julho de 2018

Um dia de trabalho na Namaíta

São 06h30m, já tomei o pequeno-almoço e preparei a água para levar. Está muito calor, é preciso prevenir a desidratação! Entro no carro e parto rumo a mais um dia de trabalho. À saída da cidade (Nampula), paro, entra um passageiro, o enfermeiro Supervisor Distrital do Programa Nacional Contra Tuberculose e Lepra (PNCTL) e prosseguimos viagem. Há sempre muitas pessoas à beira da estrada, umas a pé, outras de bicicleta. A bicicleta é o principal meio de transporte para a maior parte da população. Serve para transportar todo o tipo de carga: sacos de mandioca seca, sacos de carvão, molhos de capim ou mesmo de paus, galinhas, cabritos, porcos, entre outros… Estes “biciclistas” circulam tranquilamente, por vezes quase no meio da estrada, pelo que se torna necessário, fazer uso da buzina do carro para se desviarem.

Hoje vamos ao Posto de Saúde de Mutolo. Inicialmente havia dúvidas acerca da via de acesso, posteriormente tivemos informação que permite a passagem do carro. Passamos junto ao Centro de Saúde da Namaita e, alguns Quilómetros depois, deixamos a estrada de alcatrão e entramos à esquerda numa picada (“estrada” de terra batida). Impossível desviar a atenção do caminho, mãos e braços presos ao volante, pés numa “dança constante” entre travão, embraiagem, acelerador… Areia e… meter tracção para continuar o percurso. Em alguns locais a picada tem sulcos enormes, então fizeram desvios, onde permanecem troncos de arbustos cortados, por vezes pouco ou nada visíveis. São tantos, que é impossível não acertar em alguns! De cada vez que um pneu bate num tronco, com bastante sonoridade, penso: “È hoje que ficamos no meio do mato com um pneu rebentado…” Por entre buracos, areia, troncos e raros troços menos acidentados, finalmente chegamos! O enfermeiro do Posto está de férias, a substitui-lo, está o servente. O voluntário da luta contra a Lepra, que também está presente, informa-nos que os doentes em breve chegarão, andam nas macham-bas (campos de cultivo). Começo por observar duas pessoas que apresentam manchas suspeitas na pele. Em nenhum dos casos se confirma a doença. Os doentes vão chegando para receberem o tratamento mensal e levarem a “carteira” dos comprimidos para os próximos 28 dias. Em cada mês, no dia marcado, terão que vir ao posto de saúde até completarem os 12 meses de tratamento, uma vez que têm Lepra Multibacilar (muitos bacilos). Reavaliei três dos doentes relativamente às características dos nervos periféricos que podem ser atingidos pela doença, à sensibilidade e força nas mãos e nos pés, bem como das pálpebras. Este procedimento é muito importante e deve ser realizado de 3 em 3 meses durante o tratamento, para despistar reacções da doença, que podem surgir e prevenir deformidades. Se o doente tiver dor nos nervos, significa que apresenta neurite e é-lhe dado o medicamento Prednisolona de acordo com o esquema estabelecido. Ao terminar, aparece um jovem com algumas manchas na pele, que são características da lepra. Depois de fazer o teste de sensibilidade nas manchas e palpar os nervos periféricos confirmo o diagnóstico: lepra multibacilar. Como este jovem sabe português, explico-lhe o necessário acerca da doença e do tratamento. Infelizmente, na maioria dos casos, as pessoas só falam macua, a língua local, por isso tenho que deixar essa tarefa para o voluntário, o que me entristece um pouco. Aqui havia 5 doentes com lepra multibacilar, ficam 6. No mês passado teve alta um doente com lepra paucibacilar (poucos bacilos), ao fim de seis meses de tratamento. Feitas as despedidas retomamos o caminho de regresso, 13Km, algo atribulados, até à estrada. Chego a casa às 13h, depois de mais de 100Km. Esta concentração de doentes de lepra é apenas uma de cerca de 18, na área da Namaita.

Beijinhos.

Anabela Torres Alves
Voluntária da APARF
Namaita/Moçambique

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Gestos que fazem milagres

O voluntariado em terras de Moçambique, junto dos leprosos e de tantos outros doentes para quem a vida não lhes sorriu, decorre sempre cheio de tantas surpresas. A APARF (Associação Portuguesa Amigos Raoul Follereau), está de parabéns, pois, tem criado a esperança em todos eles. Nunca é demais agradecer a tantos que fazem da minha presença, em Murrupula, um hino de solidariedade. Por isso, estas palavras, não são mais do que um agradecimento a todos os que alargam o meu trabalho. Tenho pena em não conseguir traduzir nas palavras os dramas, as vivências, a alegria, o êxito... tudo aquilo que só o coração consegue registar. Acredito que muitos esperassem, da minha parte, um texto. É natural! Perdoem-me, mas o cansaço de um dia tolhe até as vontades mais nobres. Talvez, este tempo do Natal, seja o melhor, para rasgar o silêncio e entrar, como um sorriso, com o meu muito OBRIGADO.

É assim todos os dias. Obrigado irmão Paulo. Muito obrigado. Depois de tantos kms percorridos na moto (e já são 15 mil kms), por caminhos de terra batida, onde tantas vezes o capim esconde aldeias e a areia traiçoeira nos obriga a uma condução mais cuidada e lenta, chegamos. O enfermeiro Rajá é o companheiro sempre das jornadas, tanto mais que é o responsável do programa de luta contra a lepra no distrito de Murrupula, com uma área de 3070 km2 e uma população estimada em 110 mil habitantes. Por baixo dum cajueiro frondoso, com a sua sombra refrescante estão sempre dezenas de leprosos que o activista conseguiu trazer. O activista é um voluntário moçambicano que vive na zona e que motiva os leprosos a concentrarem-se nos lugares predefinidos. São pessoas que trabalham gratuitamente e que ás vezes têm uma pequena recompensa. Como muitos andavam a pé,  ofereci, apenas, 12 bicicletas, apesar de serem 35 os que comigo trabalham.  

É uma alegria enorme quando os doentes nos vêem. Os sorrisos alargam-se e em muitos os restos dos dedos comidos pela lepra se cruzam para que possamos ver e ouvir o júbilo pela nossa presença. Estes momentos são sempre aproveitados para diagnosticar, curar e motivar os doentes. As conversas, os pedidos cruzam-se sempre roubando a vez e a voz. Todos querem ser escutados e não mais esquecidos. O tempo, é todo deles, mas mesmo assim muitos se queixam que só lhes demos apenas alguns minutos de atenção. Claro que num distrito tão grande e apenas duas pessoas a efectuarem um trabalho para mais de dois mil doentes, nem sempre há tempo para grandes conversas. 

As motos andam sempre carregadas. Para além dos medicamentos leva-se sempre sabão, pomadas, ligaduras... Como este ano Murrupula teve um surto enorme de sarna, tinha que fazer, todos os dias a pomada milagrosa, como diziam. Com a falta de medicamentos no mercado e o preço exorbitante de outros, aprendi, com os missionários a fazer a pomada que curou milhares de pessoas. Era uma mistura de sabão, açúcar, óleo e benzil-benzoate . O certo é que ás vezes os 50 kg diários não chegavam para tantos que nos procuravam. Ultimamente e porque a época das chuvas está próxima, distribuímos catanas e enxadas. Assim que as primeiras chuvas caíram, começamos também a oferecer a cada doente um pouco de amendoim. O certo é que já se distribuíram 1.700 kgs. 

Nada melhor do que dignificar a vida desta gente. Se a doença é estigma e por incrível que pareça contínua a segregar, é preciso romper com todas as barreiras e nada melhor do que possibilitar uma melhor qualidade de vida. Foi neste contexto que resolvemos distribuir utensílios agrícolas e sementes para que a vida lhes não seja tão madrasta. O certo é que, agora, até outros vêm ver se as manchas que possuem são de lepra, pois gostariam de receber o que não têm e que lhes traria, no futuro, menos preocupações. A pobreza absoluta em que as pessoas vivem, obriga-nos a optar só pelos leprosos, ainda que as outras “lepras” merecessem também o nosso apoio. O certo é que, agora, toda a gente anda feliz. “Nunca foi como agora”, exclamava um activista a propósito das muitas iniciativas que têm como único objectivo ajudar e promover. Os quase cegos têm óculos, os coxos sandálias e os que têm força catanas, enxadas e sementes. Pensamos continuar com este programa das sementes, tanto mais que as pessoas não as têm, fruto do ano nefasto que os assolou, devido à estiagem.

No dia 15 de Dezembro fizemos uma grande festa com todos os que trabalham com os leprosos. Reunimos os 35 activistas e o pessoal do Centro de Saúde de Murrupula. Matámos um cabrito e com um pouco de arroz e feijão, lembramos a generosidade de todos eles e o compromisso que têm de continuar apostados  em erradicar a lepra do distrito. Receberam uma pequena recordação para que se lembrem que o Natal é a festa da solidariedade. Lembrei-lhes, entre tantas coisas uma frase que aqui sistematicamente ecoa no meu coração: “Ninguém é tão pobre que não possa dar alguma coisa. Ninguém é tão rico que não possa receber”.

Passaram nove meses em que deixei o meu país, a família, os amigos e o meu trabalho. Talvez, muitos se interroguem se valeu a pena. Nesta actividade diária de encontro contínuo com os hansenianos, ergo o meu pensamento a Deus numa atitude de gratidão, porque ninguém é feliz sozinho e muito mais feliz se é quando faz da sua vida uma doação gratuita, atenta e disponível aos mais pobres. Os gestos por ínfimos que sejam produzem autênticos milagres.

Desculpem terminar esta minha partilha com uma oração do grande amigo dos leprosos, Raoul Follereau: “Senhor, ensinai-nos a pensar nos outros e fazei-nos sofrer com a dor alheia! Não consintais que sejamos felizes sozinhos, dai-nos a angústia da miséria universal. Fazei que, na felicidade e na dor, nós sejamos irmãos de todos para sempre. Sejamos...irmãos sem fronteiras”


Paulo Bica
Missão de Murrupula
(Voluntário da APARF)

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Terra onde o sol se cruza com a lua e o tempo parece parar

Caros Amigos,

Durante os dois anos que estive em Moçambique muitas coisas aconteceram. Fui pela Associação Portuguesa Amigos de Raoul Follereau para cuidar dos doentes de lepra na zona de Ocua e acabei por viver muito mais do que alguma vez pensaria.

Fiquei hospedada na casa das Missionárias da Boa Nova na Aldeia de Mahipa, junto a um povo deveras impressionante. Jamais tinha conhecido gente tão pobre e tão rica ao mesmo tempo. Gente que acolhe como ninguém, que oferece tudo o que tem, mesmo que este seja pouquíssimo.

Um povo cheio de tradições e crenças como qualquer povo mas com uma alegria e calma inesgotáveis. Ali mesmo, junto a nós poderia sentir-se a tranquilidade de quem trabalha cantando, de quem acorda olhando a beleza do céu infinito, de quem sorri e se cumprimenta com um “Salama” vindo do mais profundo e sincero sentimento.

Quando cheguei a Ocua existia apenas uma pequena sala num edifício bastante degradado, que servia como posto de saúde, para o qual grande parte do povo faz quilómetros para obter alguma atenção e medicamentos para os mais variados males, desde a malária, diarreias, vermes, conjuntivite, desnutrição e inclusive a própria lepra.

Conhecendo um pouco a situação das mamãs que dão à luz em condições miseráveis sem qualquer cuidado de higiene porque a sua extrema pobreza material não o permite, e a falta de assistência hospitalar, senti que tal situação poderia vir a ser melhorada com a ajuda de amigos.

Ao ver tamanha necessidade e vontade de fazer algo mais para quem nos chegava a pedir auxílio enviei à Associação o pedido de financiamento de um novo e verdadeiro posto de saúde. Este foi aprovado e totalmente financiado pela APARF. Hoje neste posto trabalham duas pessoas com total competência e formação para atender os mais necessitados. Gostaria de fazer referência ao Benjamim, enfermeiro, um excelente profissional e à Matilde, parteira, que se encontra sempre disponível para atender as mamãs com grande atenção e cuidado.

Este posto de saúde é composto por quatro salas; uma para consultas, uma para pensos, outra para injecções e algum eventual internamento e uma Quarta sala para partos, tendo ainda suas casas de banho para cuidar de toda a higiene. Para que este projecto fosse possível realizar devo agradecer à Direcção, a todos os colaboradores e amigos da Associação que puderam tornar possível tal construção e deixar uma pequena semente a quem nada tem.

Gostaria no entanto de partilhar com vocês, neste novo ano que iniciou, uma pequena passagem da minha vida passada na terra onde o sol se cruza com a lua e o tempo parece parar.

Uma dia, numa das minhas visitas aos doentes de lepra, a uma das comunidades mais longínquas, recebi um presente precioso! Ao chegar tinha alguns responsáveis da zona à minha espera e alguns doentes que me aguardavam para receber o medicamento e algumas barras de sabão. Iniciei imediatamente as “consultas”. Ao mesmo tempo que ia atendendo as pessoas, cada uma com o seu tempo, sem qualquer pressa ou correria, íamos criando laços de amizade e carinho. Era sempre assim, uma palavra amiga por vezes vale mais do que qualquer caixa de medicamentos e eu estava lá para isso mesmo. Para eles!

No final das consultas já o dia ia longo. Comecei a arrumar as coisas quando me apercebi de uma senhora que se aproximava de mim. Sentou-se na esteira e sorriu. Pensei que fosse uma doente e perguntei pelo nome, ao que respondeu, Ana Muerayene. Comecei imediatamente a procurar nos meus registos pelo seu nome. Ela olhou-me e aguardou pacientemente que eu acabasse a minha tarefa. No final, nada encontrei. Pedi um tradutor para que pudesse entender melhor o que a Ana me queria, perguntei se ela estava doente, ao que me respondeu, não. Perguntei então a mim mesma o que quereria aquela senhora que me olhava fixamente. Voltei a perguntar qual o motivo dela estar ali. Vim visitar, respondeu. Apenas visitar! Senti-me ridícula com tantas perguntas e imediatamente pousei toda a papelada que sempre me acompanhava, deixei o que estava a fazer e sentei-me junto dela. Mais uma vez sorriu! Disse-lhe com o pouco macua que aprendi que não sabia falar macua. Ela soltou uma gargalhada e respondeu que também não sabia português! Depois de longas risadas demos as mãos e assim deixámos o tempo passar.

Deixo-vos este pensamento: quando é que nós deixamos, no percurso da nossa vida, de correr, apenas para estar com outro? Apenas estar...

A aldeia de Mahipa é assim, rodeada de imponentes embondeiros, mangueiras e cajueiros, iluminada de dia por um sol cor de fogo e à noite pelas pequenas estrelas colocadas delicadamente sobre um manto de veludo.

É no sentir do bater de cada batuque que se vive intensamente o pulsar de cada dia sobre a terra coberta de vermelho por onde passam, a pequenos passos, os pés descalços de quem faz quilómetros para sentir o bem mais precioso, a água. Água que percorre nos rios de um país, como veias que fazem viver este povo que sonha e que vive do mais puro da terra. Gente que fala com o olhar, gente que sabe sorrir, gente que ama.

Para trás ficaram os sons, as cores e os aromas de uma terra onde o cristão, o muçulmano, o feiticeiro e o adivinho comem à mesma mesa. Onde se sente o verdadeiro sentido da paz. Na minha memória ficaram guardados todos os sorrisos, todas as lágrimas, as tristezas e as alegrias de quem viveu por momentos numa terra de sonho!

Sandra Figueiredo
(Ao serviço da APARF)

sábado, 16 de junho de 2018

Nova Voluntária em Moçambique

Sócia efectiva da APARF, a Anabela Torres Alves vinha manifestando há alguns anos o seu desejo de ir para África tratar os doentes, ao serviço da Associação. Como é Enfermeira vinculada ao Ministério da Saúde, encontrava dificuldades para se ausentar do serviço por um ano. Mas eis que chega o momento tão desejado. Consegue obter licença sem vencimento por um ano e no dia 16 de Agosto partiu para Moçambique com destino à Província de Nampula. A coragem com que parte, deixando o emprego e pessoas queridas para se dedicar aos pobres e doentes de Moçambique, revelam a grandeza de uma alma que elege como critério o amor pelos mais pequenos da sociedade.

O seu local de trabalho será a zona da Namaíta onde outrora trabalhou com os doentes de lepra a Irmã Maria Rita Valente-Perfeito, sócia honorária da APARF.

A Associação congratula-se com mais esta Voluntária que parte em seu nome.

No meio de dificuldades, a Anabela encontrará também o sorriso e o carinho deste bom povo da Namaíta.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Um pouco mais, aqui e ali

Venho por este meio agradecer toda a vossa colaboração e disponibilidade no empenho de ajudar esta causa. Deste modo foi possível dar início à construção de um pequeno Posto de Saúde em Ocua, mais concretamente na aldeia de Mahipa, onde me encontro a desenvolver o trabalho de voluntariado desde Outubro de 2003.

Aqui, praticamente não existem meios de socorrer as pessoas com casos que muitas vezes são simples, mas que se vêm a complicar com o passar do tempo. O carro, oferecido pela APARF há algum tempo atrás, serve de ambulância. Pois o hospital mais próximo fica a cerca de 25km de distância. Deste modo, recorremos mais uma vez à Associação para a construção de um Posto de Saúde onde irá ter condições bem melhoradas com sala de vacinas, sala de pensos, sala de consultas e ainda uma sala para partos.

Todos nós ficámos muito felizes em saber que o projecto foi aprovado. Graças à imprescindível colaboração de todos está a ser construído e todos aqui na aldeia de Mahipa esperam ansiosamente pela abertura do que eles chamam de “Hospital de Mahipa, onde podemos ter os nossos bebés!”

Durante o mês de Julho demos início a um projecto de prevenção da mortalidade infantil, o tratamento de mamãs com problemas relacionados com a gravidez e amamentação. Todas as terças-feiras é feito um encontro com essas mamãs onde são dadas palestras, idas ao hospital para exames médicos, preparação de papas para as crianças desnutridas e outros aconselhamentos. Eu disponibilizei-me nesse dia para acompanhar as mamãs ao hospital de Alua que fica a cerca de 50km da aldeia para fazer vários exames, pois só em Alua existe equipamento necessário para efectuar exames específicos, como ecografias, e onde se encontra a Dra. Elisabetta (M.Comboniana) especializada para estes casos. Tem sido um trabalho bastante interessante e as mulheres da aldeia estão bastante entusiasmadas.

O trabalho relativo aos doentes de lepra vai andando. Cada vez mais vou recebendo boas notícias de cura aqui e ali. Claro que também vão aparecendo novos casos mas quando eu falo de curas são aqueles que iniciaram o tratamento com a minha chegada. A distribuição de sabão continua e às vezes há quem queira ter a doença só para receber uma barra de sabão! Devo confessar que por vezes acabo por ceder e oferecer quando vejo que realmente têm necessidade. Aqui, até uma simples barra de sabão é caríssima e nem todas as aldeias conseguem obter, nem mesmo para vender.

Sandra Figueiredo - Voluntária da APARF

domingo, 10 de junho de 2018

Conhecendo e aprendendo

Como já tinha referido algumas vezes, durante o mês de Abril frequentei o curso de inculturação no Anchilo. Para além de ter uma hora diária de língua macua, estes foram alguns dos temas apresentados durante o curso: História de Moçambique; Panorama Socio - Político - Económico de Moçambique; Mulher e tradição; Iniciação à cultura macua; Família tradição e modernidade etc...

Durante o decorrer do curso fui pesquisando e até mesmo comprando alguns livros que acho necessários para que um voluntário fique a saber minimamente que “território” pisa e que dificuldades poderá encontrar. Este povo é muito diferente do nosso e por vezes poderão existir conflitos por falta de entendimento da nossa parte dos ritos, crenças e tradições demasiado diferentes e complexas das nossas. Não gostaria, pois que os voluntários viessem sem ter uma noção mínima das coisas. Já que nem todos tiveram ou terão a oportunidade de tirar este curso que eu frequentei.

Deste modo espero conseguir documentação suficiente para que a Associação possa dar aos seus voluntários algumas bases e recursos de pesquisa para quem estiver interessado em saber mais sobre o povo e país para onde irá exercer o seu voluntariado.

Durante estes últimos meses tenho estado mais atenta ao levantamento dos doentes que tiveram alta. Refiro-me, claro, àqueles que iniciaram o tratamento com a minha chegada. Neste momento, dos quase 300 doentes que encontrei inicialmente, existem 122 doentes ainda em tratamento, estando a maioria a finalizá-lo entre este mês e o próximo. Mesmo sabendo que é um número bastante alto sinto-me satisfeita por poder acompanhá-los até ao fim e por saber que já foram reduzidos a menos de metade. Espero que até ao mês de Outubro todos ou a maioria destes 122, que iniciaram o tratamento comigo, fiquem totalmente curados. Se isso acontecer regressarei a Portugal bastante satisfeita.

Tenho assistido a uma grande evolução nestes últimos tempos, um grande interesse e uma grande preocupação por parte da população. Quando eu não me desloco às comunidades existem sempre aqueles que percorrem quilómetros preocupados em me mostrarem uma ou outra pequena mancha que encontraram no seu corpo. Acho que tem valido a pena, por muito pouco trabalho que tenha concretizado, alguma coisa ficou. E por isso tenho tido grandes alegrias em saber que a maioria já finalizou ou que está a finalizar o seu tratamento.

Junto com esta carta envio também a apresentação de contas com algumas fotos, que penso que não serão repetidas.

Mais uma vez espero que estejam todos bem na associação.
Até breve.
Sandra Figueiredo
Voluntária da APARF em Moçambique

quinta-feira, 7 de junho de 2018

A pequena Palmira

Recordam-se também da pequena Palmira?

Pois é, o tempo passou e a Palmira, não só cresceu como se curou!

Na visita à aldeia de Napela procurei saber como estava a pequena e então disseram-me que não se encontrava ali. Tinha-se mudado há pouco com os pais para outra aldeia. Tentei saber qual e pensei:” Assim que tiver oportunidade irei lá!”

Conformei-me com o que me disseram pois não podia deixar todos os outros naquele momento que já me aguardavam para ir a outra aldeia que fica a uns longos quilómetros de distância.

Depois de tudo resolvido fui-me sentar numa das varandas da casa e imediatamente fiquei rodeada de crianças. A brincadeira começou imediatamente. Todos queriam que eu tirasse fotos; para isso todos tentavam ao seu jeito chamar-me o mais possível à atenção. Entrei na brincadeira com eles e pouco a pouco fui perguntando quem andava na escola (respondeu um número bastante reduzido, a maioria rapazes), os seus nomes, etc...

Quando olhei para o meu lado estava uma menina, muito tímida, que me olhava.

Exclamei imediatamente: “Tu és a Palmira!”. Sem dizer uma única palavra parecia que o seu olhar me quisesse dizer: “Andavas à minha procura? Estou aqui!”.

Coloquei-a ao meu colo e imediatamente deu-me um abraço bem apertadinho e assim ficámos.

A pequena Palmira teve a oportunidade que muitos não terão nunca. A oportunidade de se curar!

Sandra Figueiredo
(Voluntária da APARF)

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Por um mundo sem lepra

Caros amigos da APARF,

Este ano tive um Dia Mundial dos Leprosos diferente. Decidi ficar alguns dias no Posto de saúde da missão para, não só ajudar no tratamento de todos os que dirigiram aquele Posto naqueles dias, como fazer pequenas recomendações a todos os que foram consultados distribuindo pequenos folhetos com imagens representativas da doença como a distribuição de barras de sabão por todos. Para terem uma pequena ideia apenas num só dia foram entregues mais de 40 barras de sabão.

Houve alguns bastante interessados em saber mais sobre a doença apesar de eu já por diversas vezes ter feito pequenas palestras. Ficaram todos com o compromisso de espalharem a palavra pelos seus vizinhos e amigos. A ideia do sabão, devo confessar, acho que foi óptima, pois aqui é caríssimo e muitos deles optam apenas por tomar banho só com água! Por isso era vê-los com sorrisos rasgados todas as vezes que eu lhes passava a barra de sabão para as mãos.

Penso que já é do conhecimento dos leitores da revista o caso do Alfredo. Não sei se recordam dele? De qualquer forma o Alfredo já completou o tratamento da lepra e de momento recebe apenas acompanhamento. Todos os meses ele recebe uma barra de sabão e alguns conselhos. Para o Dia Mundial resolvi oferecer-lhe uma coisa diferente: um par de meias e um par de ténis. Os dele estavam tão sujos e tão rotos que se viam os dedos dos pés. Ficou contentíssimo pois não fazia ideia que iria receber um presente!

Nos dias em que tive a oportunidade de acompanhar de mais perto todo o movimento do posto fiquei surpreendida pela quantidade de pessoas que o frequentava e dos quilómetros que a maioria percorria para ali chegar por não ter qualquer posto mais próximo. Alguns, só para terem uma ideia, percorreram qualquer coisa como 20 Kms a pé. Nesta altura do ano a doença que predomina é a malária. Eu, inclusive, não escapei ao dito mosquito. Mas o que mais preocupa são as crianças que ficam expostas a este tipo de doenças. Posso dizer-vos que desses 40 doentes que vieram ao posto naquele dia pelo menos 35 tinham problemas de malária em crianças com idade inferior a 2 anos! Fiquei ainda mais surpreendida quando vi uma mamã a entrar no posto com uma criança de apenas duas semanas de vida completamente a ferver de febre... foram receitados os medicamentos e agora é uma questão de esperar... É que para quem não sabe, a malária também mata!

Sandra Figueiredo
(Voluntária APARF)

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Caminhos de Amor

MISSÃO DE MURRUPULA - MOÇAMBIQUE
Amigos e APARF

Um grande abraço do tamanho do mundo para todos vós.

Depois de 19 meses de estadia em Moçambique, na província de Nampula a oitenta quilómetros mais para o interior, ou seja, no distrito de Murrupula, como voluntário da APARF, estou de volta, com o coração cheio e um grande desejo de voltar.

Estou de regresso, mas triste porque fiquei preso aquelas gentes que foram o motivo e a causa pela qual eu fui; tristeza por trazer no coração todas as necessidades e sofrimentos daquelas gentes; simultaneamente, sinto uma enorme alegria e satisfação por saber e ver que mesmo o pouco que se possa fazer, representa muito, para quem de tudo necessita; assim, meu e deles, o nosso BEM HAJAM.

Dou graças a Deus por me ter proporcionado esta bela experiência, esta maravilhosa vivência da qual resulta um enorme crescimento espiritual; como nos dizem os evangelhos, “Deus paga sempre cem por um, mil por um...”

Quero agradecer também a todo o corpo dos Missionários de São João Baptista, pelo apoio logístico, especialmente, em Lisboa, o Sr. Padre Cristino, e em Moçambique, nas pessoas dos Srs. Padres Jacob e Luís, que ajudaram especialmente na obtenção de toda a documentação e apoio junto da Arquidiocese de Nampula das autoridades sanitárias e governamentais; também todo o carinho e apoio das comunidades de Irmãs do mesmo corpo Missionário por onde passei: afinal estamos todos no mesmo barco (irmanados pelo mesmo Espírito), cada qual com o seu remo, seguindo as indicações do Mestre, que é Jesus Cristo nosso Senhor! Graças a Deus!

Agradeço a todos vós amigos, colaboradores, benfeitores e funcionários, que sois o suporte deste grande património legado por Raoul Follereau, à APARF, o meu muito obrigado por ter confiado e apoiado a minha fraca e frágil inter-ajuda, proporcionando-me esta enorme riqueza.

Descrevendo um pouco os trabalhos realizados: no campo, foram percorridos cerca de treze mil quilómetros por caminhos e veredas que só um Jaguar de duas rodas é possível andar por aqueles caminhos que eu lhe chamei e com convicção digo caminhos de amor; foram vistos, isto é, consultados vários milhares de pessoas, adultos e jovens; entre tratados, em tratamento e/ou com alta a cifra situa-se no número de 450 a 500 pacientes.

No terreno deixámos também 12 (doze) bicicletas aos activistas (voluntários nativos que nos ajudam na pesquisa e sensibilização das populações) para que depois de acordo com um calendário pré-estabelecido, nos facilita o trabalho de concentração em determinado local; estas bicicletas foram gentilmente cedidas, oferecidas, pela Fundação Teresa Regojo na pessoa do seu representante Sr. Carreira (quando da sua passagem/visita de trabalho, pela Missão de Murrupula) para quem vão os meus sinceros e sentidos agradecimentos, bem hajam; distribuímos também, na medida do possível e disponibilidades, sal, sabão e outros medicamentos; na Missão, são atendidos idosos, jovens, crianças em primeiros socorros e outras necessidades sanitárias primárias, em número variável de 10 a 30.

Que Deus nos abençoe a todos, nos dê a Sua fortaleza para sabermos estar disponíveis por esta e outras causas que afinal são a razão do nosso existir e de estar neste mundo tão conturbado.

Grande abraço, com um até breve.

Ângelo Bouça 
Voluntário da APARF






sexta-feira, 4 de maio de 2018

O embondeiro

Caros Amigos não posso deixar de apreciar também a beleza que este País nos oferece.

 Por todo o Moçambique existe uma árvore grandiosa chamada embondeiro e claro, aqui em Ocua não é excepção. O embondeiro para quem não o conhece é uma árvore de grande estatura, a maior parte do tempo despida, sem folhas, o seu tronco de cor cinzenta é algo de extraordinário chegando a medir entre 10 a 15 metros de altura, pode chegar aos 8 metros de diâmetro e atingir 3.000 anos de vida. É realmente uma árvore majestosa e imponente.


Durante as visitas pelas comunidades deparámos com um embondeiro um pouco diferente. Mas o que tinha de tão especial este embondeiro? Nada mais nada menos do que uma grande abertura no meio - curioso! - Comentei. Foi então que me contaram a história daquele embondeiro e o que eu não sabia é que aquele embondeiro trazia com ele uma história de sofrimento que durante tantos anos assolou este povo.

Há muitos anos atrás, antes mesmo do tempo colonial neste país a lepra já martirizava este povo e não havendo qualquer tipo de medicamento o seu modo de erradicar a doença era isolar essas pessoas para que a doença não se propagasse. Ao longo da história temo-nos apercebido que isso foi feito um pouco por todo o mundo. Aqui não foi excepção, também o fizeram, mas de uma forma um pouco diferente. Os doentes eram levados para fora das aldeias e eram colocados dentro dos troncos dos embondeiros. Abriam grandes buracos no meio do seu tronco para entrarem e ali ficavam, seria como que um esconderijo para que ali pudessem viver sem que o resto da família ou aldeia viesse a sofrer do mesmo mal. Mas, ali eram deixados com apenas um saco de farinha para se alimentarem. Os que para lá os levavam diziam que voltariam mais tarde para lhes trazer água e mais alimentos. Mas essa água e esses alimentos nunca chegavam... e essas pessoas acabavam por morrer de sede e fome.

Poderia pensar-se inicialmente num simples afastamento para não prejudicarem os outros, mas a ideia desde o início do seu isolamento era exactamente essa, de morrerem isolados para que não contaminassem o resto da aldeia com aquela “maldição”.

Felizmente isto já não acontece nos nossos dias, existe um medicamento eficaz para a cura desta doença, sabemos que a sua forma de contágio é mínima e os doentes podem fazer esse tratamento em casa, junto com a família.

E hoje em dia estes buracos nos troncos dos embondeiros servem apenas de vivendas, armazéns e refúgio para muitos animais selvagens.

Sandra Figueiredo

* “Salama” – cumprimento mais usual em macua.