segunda-feira, 15 de abril de 2019

POR UM MUNDO SEM LEPRA

Olá amigos e família

Espero que estejam todos bem… por aqui vai tudo bem.

Bem, tenho andado nos meus trabalhos com os doentes e outro dia quando vinha de um local chamado Namucaua, bem longe (para quem conhece!), deparei-me com um grupo de músicos que vinha na picada, cantarolando e tocando… parámos o carro e o grupo, composto por cerca de 6 miúdos de 13 a 16 anos, também pararam. Pedi-lhes que me mostrassem a viola improvisada que tinham e estava muito bem feita: uma lata velha, cortada… uns fios a fazer de cordas… bem improvisada e ofereceram--me uns belos acordes no meio do quase nada, apenas algumas palhotas, montanhas verdejantes e algumas pessoas que ali vieram ver o que se passava com um carro de mukunya (branca) parado e música a tocar. Foi algo muito caricato e que me fez sorrir… A foto que envio ilustra esse grupo… ah todos traziam chapéu de palha igual… Ganham uma quinhenta para irem tomar um refresco (aqui não há luz!) nem que seja à temperatura normal… ou seja quente… mas que fazer!!! Esta é uma expressão que o povo usa para “paciência”!

Esta semana vi o nosso amigo Carlitos e tinha uma bolha na planta do pé com líquido. Não sei como a arranjou mas calcei luvas, forrei a cadeira que me serviu de mesa de trabalho,…e com uma lâmina de bisturi (do kit sempre presente no carro) e … saiu um espirro de pus verde… quem conhece e percebe… que imagine… Lá lhe fiz o penso, removi a pele que apenas iria atrasar a cicatrização… Uma semana depois lá o fui ver a casa, à palhota da sua irmã (ele não é casado nem tem filhos) e… lá estava ele feliz por ter o pé melhorado…fiquei muito feliz quando o vi…estava muito bem…tinha medo de o observar pois o Carlitos tem uma história de feridas complicadas que vocês já conhecem… Eu esqueci-me de lhe dar antibiótico para evitar a infecção…mas o pé estava “nice” e eu elogiei-o por isso… Mas não muito senão ele não vai continuar a cumprir as “ordens” da mukunya. Outro dia disse-

-lhe que teria de ter sempre muito cuidado com os seus pés, por causa da falta de sensibilidade que a lepra provoca. Ele já concluiu os 12 meses de tratamento da doença. Disse-lhe que a mukunya não iria sempre estar ali para o cuidar, que ele teria de se preocupar mais consigo, ter responsabilidade,… Pois temos de tornar os doentes autónomos no seu auto-cuidado com as mãos, pés e olhos, devido às consequências que a doença pode provocar. Então ele perguntou-me se eu lhe ia fugir, se me ia embora, se mais ninguém de Portugal ia continuar a ajudar os doentes. Esta pergunta é muito inocente mas revela que os doentes agradecem o trabalho que a APARF tem feito, em relação às feridas, à oferta de sapatos, meias, pomada e medicamentos para este tipo de doentes com muitas feridas… Sabem que há alguém para os ajudar quando outros podem não se interessar. A Associação dá um apoio que os doentes agradecem e que não esquecem. Chegam mesmo a passar palavra e já tenho visto pessoas que vêm ter connosco às concentrações com manchas suspeitas e que depois de lhe dizermos que não são manchas de lepra e que podem ir descansadas para as suas palhotas, elas não ficam satisfeitas nem convencidas de que as suas manchas não são as da doença. Já estão a pensar o porquê deste raciocínio? Pois se tiverem a doença irão receber uma pequena ajuda, as visitas da mukunya e alguma atenção e carinho, que os técnicos de saúde daqui nem sempre dispensam…

Finalmente já consigo identificar e saber os nomes  das 4 montanhas que rodeiam a zona da Namaíta: Nhopera (que já subi e tem na base a paroquia da Namaíta, onde viviam as Irmãs que inicialmente trabalharam com os leprosos); Peoni (fica atrás da localidade da Namaíta, junto à aldeia de Niheia); Phalalani (2 montanhas que na base se encontra a localidade da Namaíta. Parecem pegadas mas estão separadas por uma espécie de vale e apresentam uma formação rochosa que de longe parece uma imagem de Nossa Senhora. É conhecido por isso mesmo); e Nacuahu (mais junto ao Centro de Saúde, que fica de 3 a 5 km da localidade). Tenho continuado o meu trabalho na Namaíta e tenho visitado a Amina e os seus vizinhos, doentes de lepra, naquela zona. A Amina já tem casa de banho, ou seja um local externo à casa para ir “fazer as necessidades menores”.

Desta vez, a minha visita não foi somente a ela. Visitei uma doente a Maria Nacola que é casada com o Pereira Loieke que também é leproso. Conheceram-se aqui na zona na década de 70, quando foram “capturados” nas suas aldeias (1 no Mecuburi e outro em Murrupula) por terem a doença de lepra. Trouxeram-nos para a Gafaria da Namaíta, por serem leprosos e ficaram para sempre separados da sociedade e da família. Com o evoluir dos tratamentos, a lepra passou a ter cura a 100% com medicamentos mas as mutilações já estavam presentes para sempre e as famílias desaparecidas no espaço. Acabaram por construir uma palhota, casaram e conheci-os no ano passado. Já os visitei algumas vezes e são muito engraçados. Ela tem uma face leonina, característica de lepra e dedos dos pés amputados; ele tem amputações nos dedos dos pés e garras fixas nas mãos. Ela tem uma ferida na perna, uma ulcera crónica que tenho feito penso e que espantosamente melhorou. Um amigo enviou-me material especial de penso para ela mas nem o cheguei a usar pois quando o recebi e ia aplicar a ferida já tinha cicatrizado a custo de pomada com antibiótico, betadine pomada e gase gorda. Agora ficou com grandes coloides mas o aspecto estético não é muito importante aqui nesta terra… Quando os visitei, já estavam à minha espera. Cheguei atrasada mas tinha à minha espera a família toda bem vestida, uma esteira e batata doce descascada e cozida para comermos juntos. É da machamba deles, semeada pelas mãos que vos descrevi… fiquei sensibilizada e depois dos curativos feitos, lá me sentei na esteira, lavei as mãos (como é regra base cada vez que se vai comer…e aqui come-se à mão sempre!) e comi batata doce muito saborosa e oferecida com todo o carinho. Deixei-lhes um pouco de açúcar, sal, sabão, peixe seco, roupa e medicamentos para a neta que estava com cotomola e camassi (tosse e constipação)… Foi um final de manhã muito bom para mim…

Envio-vos uma foto deles…

Ok já é um pouco tarde e vou dormir (escrevo isto de noite antes de ir descansar…) …deixo-vos beijinhos e força para os vossos trabalhos…


Vanda - Voluntária da APARF em Moçambique

segunda-feira, 8 de abril de 2019

O RATO ESCONDIDO

Ihali? Salama

Aqui está tudo bem. As chuvas voltaram por momentos mas vieram acompanhadas pelo frio que tem feito muitas constipações e tosses entre a população.

O frio que se faz sentir faz com que os animais se tentem proteger e outro dia aconteceu uma situação que vos tenho de contar e que vos porei a rir e a pensar…

As irmãs andaram à procura de 1 rato que andava na cozinha a roer a fruta todas as noites. Elas já tinham posto “ratex” – o produto que se usa aqui para matar os ratos - mas sem efeito, pois todas as noites o rato deixava sinais (necessidades maiores!) pela bancada da cozinha. Então as irmãs decidiram tirar tudo do sítio, lavar e tentar descobri-lo. Mudaram as redes da porta. De noite o rato tentou entrar pela rede da porta e não conseguiu. Uma irmã viu-o a tentar entrar, chamou o guarda e acabou-se o rato… era o que todas pensavam no dia seguinte quando nos juntámos para o matabicho (pequeno-almoço). Então uma outra voluntária que este ano também aqui vive foi colocar 2 torradinhas a fazer na torradeira. Virou as costas e quando olhou para a torradeira viu uma das torradas a mexer e começou a cheirar a chamuscado…ora o rato estava escondido dentro da torradeira!!!! Todas fomos ver e levámos a torradeira para fora de casa. Ele lá estava, chamuscado, electrificado e empalhado. Entre gritos e risos, desaparafusou-se a torradeira e o bicho saiu de lá … morto e bem morto, para descanso de todas… este é um exemplo de como a vida aqui é cheia de novidades, experiências novas e de bichos…

É preciso tentar adaptar-nos a esta realidade. Há zonas da província onde se come rato e outros bichos. Culturalmente é aceite e os ratos do campo são diferentes dos ratos da cidade, que comem no lixo, podem ter comido o “ratex” e eu sei lá… porém posso experimentar muitas comidas novas para mim (até tripas de cabrito!!!) mas rato acho que não irei provar… bem só se for bem torradinho!!!

Vanda Barnabé
Voluntária da APARF em Moçambique

terça-feira, 2 de abril de 2019

O COMBOIO EM MOÇAMBIQUE

Nestas mini férias, concretizei o projecto de viajar de comboio.

Na madrugada de terça-feira, ainda a cidade estava sob o manto da noite, quando eu e a Vanda nos dirigimos à estação Central dos Caminhos-de-ferro. Logo à entrada fomos confrontadas com um grupo de pessoas amontoadas, embrulhadas em mantas que ali tinham pernoitado. Um grupo de seguranças barrava a entrada da plataforma de acesso ao comboio, ao qual só se podia aceder munida do respectivo bilhete. Na porta de entrada da única carruagem de segunda classe um outro segurança vigiava a entrada de passageiros, tendo-nos indicado a localização da nossa cabine (sexta porta à esquerda neste corredor). Esta informação era mesmo muito útil, pois o corredor estava completamente às escuras o que motivou o pedido de um cidadão brasileiro a um outro cidadão que circulava munido de uma lanterna de mineiro –“Ói, vira para cá essa lanterna gostosa”. O pedido premente não mereceu acolhimento pois o da lanterna era estrangeiro não tendo por isso entendido o pedido. Por acaso era nosso companheiro de cabine. Era um casal de Ingleses Cooperantes no Uganda em visitas de férias com destino a Cuamba, que se dirigiam para o Niassa. Beneficiámos da luz oferecida pela lanterna, arrumámos a nossa pouca bagagem, ocupámos os nossos lugares e aguardámos a hora de partida – cinco da matina. Um ocupante clandestino denunciou a sua presença em local inusitado, por se ter descuidado ao ressonar do sono tranquilo, que fazia no compartimento destinado à bagagem, mesmo em cima da porta da cabine. O assunto foi imediatamente resolvido com o recurso aos seguranças, que lhe interromperam o sono de uma forma um pouco intempestiva, diga-se de passagem, pois foi literalmente arrancado do seu quarto improvisado. Estava dado o mote da viagem!

Este comboio viaja em dias alternados. Às terças, quintas e sábados faz o percurso de Nampula até Cuamba. O regresso acontece às quartas, sextas e domingos. A máquina descansa à segunda bem como a tripulação.

A viagem decorre sob o signo do comércio, essencialmente de produtos agrícolas das regiões que o comboio atravessa, e talvez por isso se designe esta linha de Corredor de Desenvolvimento do Norte. Nas inúmeras paragens que o comboio faz, concentram-se muitos agricultores que vêm comercializar os diversos produtos. Há mercados onde o produto mais oferecido é a mandioca, noutros pontua a cana de açúcar, mais para o interior, na região considerada o celeiro da província, aparece muito feijão, milho, arroz, cebolas, repolhos, alho, bananas, laranjas tangerinas, cenouras, pimentos etc. O colorido das gentes, e dos produtos, bem como toda a agitação que se gera à volta dos comerciantes e dos passageiros é um espectáculo  pitoresco e único. O maquinista,  em cumplicidade com viajantes e vendedores, dá tempo para que se efectuem as transacções. Os atrasados, vêem-se na contingência de correr e subir ao comboio com este em andamento, para receber o pagamento ou o troco, pois alguns passageiros aproveitam esta circunstância desigual de os que vendem estarem apeados. Concluída a operação descem com a composição em andamento, executando a descida com a corrida no mesmo sentido como se impõe. Este treino vem certamente desde a meninice, pois a perícia com que as crianças correm  ao lado do comboio e sobem, logo que este começa a abrandar na aproximação ao apeadeiro, para depois aproveitarem uns escassos minutos de viagem, é impressionante.

Tínhamos levado um pequeno lanche para as longas sete horas de viagem que separam Nampula de Malema (cerca de 250 km.). “Quem vai para o mar avia-se em terra”, mas de facto tornou-se desnecessário, pois não falta pão à venda, bananas, galinha cozinhada, bolos tradicionais, e até refeições cozinhadas no “salão restaurante”. Nem sequer falta um serviço de mini bar, oferecido num cesto de plástico, transportado por um moço que viu aqui a sua oportunidade de negócio.
A maior parte dos passageiros abastece-se de produtos frescos nestes mercados, e por isso as carruagens vêm atulhadas de mantimentos, incluindo galinhas e galos vivinhos da costa, que de vez em quando protestam, tentando libertar-se das amarras ou cantando vigorosamente. Uma festa!!!.
Diria que o comboio distribui equitativamente o tempo de viagem. Metade do tempo parado para dar oportunidade aos negócios e outro tanto tempo em viagem lenta e aos sacolões, como se a máquina sofresse de tosse. Nada de mais, pois chegou dentro da hora prevista.

O maior perigo esperava-nos no regresso à cidade, na saída da estação. Vários seguranças munidos de “chambouco “ (cassetete) distribuam pancadaria a torto e direito por um grupo de pessoas. Ficámos estarrecidas!!!. Percebemos um pouco mais tarde que todos os malfeitores da cidade se concentram nas imediações da estação. Eu fui totalmente engolida pela multidão, onde os ladrões se acoitam, os meus bolsos foram completamente esvaziados, mas graças a Deus só encontraram sacos de plástico vazios. Foi uma chegada muito emotiva e assustadora da qual felizmente saímos incólumes.

Eugénia Ferreira
Enfermeira Voluntária em Moçambique

sexta-feira, 29 de março de 2019

NOVOS DOENTES E NOVAS ESPERANÇAS

Os doentes novos continuam a encontrar-se e a serem registados. Estamos no número 25 deste ano de 2008, mas nada comparado com o ano passado. Realmente a doença está a caminhar para a sua erradicação neste distrito mas não sei se será este ano...

Ainda me aparecem muitas feridas… nas mãos e também nos pés…o nosso amigo Carlitos de Rapale continua com as suas feridas que quando cicatrizam num sítio abrem logo noutro… enfim tenho tratado delas e de outras úlceras e acho que estão a melhorar mesmo assim…nem sempre é fácil vê-las com frequência mas os “pequenos milagres” aparecem e eu fico satisfeita com eles… a foto da mão que vos mando é o Sr. Alberto que já terminou o seu tratamento mas que teve sempre feridas…agora é outra vez no dedo…fiz penso e passei guia de penso para a sua área de residência que fica a 20 km do local onde ele nos visitou…e porque é que ele vem aqui e não vai ao seu posto de saúde mais perto? Pois já devem estar a pensar… a mucunya vê-lhe a ferida, dá-lhe medicamentos, faz–lhe o penso e ajuda-o em algumas coisas, como sabão, pomadas, … enquanto que no posto… enfim é para isto que aqui estou: para ajudar estes doentes que outros desvalorizam e não se interessam tanto…

Beijinhos da vossa mpathani 
Vanda - Voluntária da APARF em Nampula - Moçambique

terça-feira, 26 de março de 2019

ENCONTRO DE SINERGIAS

Outro fim de semana fui acompanhar uma Irmã a Iapala (uma missão das Irmãs de S.João Baptista a cerca de 200 km de Nampula, para o interior) para ir buscar as médicas Patrícia e Fátima (colaboradoras da APARF) que aqui estão de visita e em trabalho no hospital da missão das Irmãs. A região é muito bonita e rodeada de montanhas. É nestas montanhas da vila de Ribaué, sede de distrito de Ribaué, a cerca de 30 km de Iapala, que se engarrafa uma das águas que se vendem em Moçambique. Fez-se um piquenique na montanha com as Irmãs, os Padres que estão nesta zona e nós (Eugénia, Patrícia, Fátima e duas voluntárias alemãs, a Juliana e a Maita). Foi muito agradável e foi um bom convívio antes de regressar a Nampula, por uma estrada de terra batida que até não estava muito má, mas que se deve ter cuidado…

As médicas acompanharam-me um dia a uma visita aos doentes. Distribuímos mantas, sabão, sal e fez-se uma palestra sobre lepra a doentes novos, que ainda pouco sabiam da sua doença. Foi uma boa manhã. À tarde, levei-as a visitar um doente na sua palhota. O Gil é um doente de 78 anos que vive sozinho com a sua esposa. Ele teve lepra e ficou com os pés deformados e com feridas. Estava também um pouco doente e elas fizeram--lhe uma consulta no domicílio. Ele está muito doente e a situação é complicada mas ficou medicado e irei vê-lo em breve para ver como evoluiu ou não… 

Beijinhos da vossa mpathani 
Vanda - Voluntária da APARF em Nampula - Moçambique

sexta-feira, 22 de março de 2019

CONSTRUÇÃO DE CASA AFRICANA PARA UMA DOENTE DE LEPRA

Posso finalmente informar-vos que no dia 30 de Abril A CASA DA AMINA ESTAVA CONCLUIDA!!! Após todo o mês de Abril, muitas confusões, ora uns dias trabalhavam 3 homens, ora outros apenas 1, …ora faltavam bamboos, ora não havia bidões (aqui chamam-se galões…) para transportar a água do rio para juntar com a terra e fazer o tal matope (espécie de barro) para cobrir a casa, … enfim nesse dia concluiu-se a obra finalmente… deixei a minha função temporária de mestre de obras (sem me entristecer nada…) para ficar como sempre com a função de voluntária e enfermeira. Nesse dia fui ao Cazuzu, a 20 km da Namaita, onde ela mora, buscar o pedreiro que colocou a porta de madeira, oferta da Missão de Murrupula. Enquanto fomos trabalhar com os doentes de lepra, ele colocou a porta. Aqui ter uma porta de madeira, é muito bom, é a melhor porta possível…há casas que nem porta têm, ou então é de chapa de zinco…é preciso ter dinheiro para a comprar (o que é difícil para o povo do mato) e isso a Amina não tem…mas tem muitos amigos aqui em Moçambique e em Portugal que a ajudaram a ter uma casa nova com porta e tudo, como sempre desejou e quis! Ela estava muito feliz. Dei-lhe um cadeado para fechar a porta e trancar a casa. A primeira vez que me pus a pensar na forma como iria fechar a porta, apenas pensei em fechadura…mas que burrice… para quê uma fechadura!? quanto mais fácil for para manejar melhor…estragar-se-ia mais depressa…ficou então com um cadeado a trancar a porta que tinha um gancho de metal para prender a outro gancho que se encontrava no aro da porta, que assentava nas paredes da casa. Como a doente não tem dedos, coloca-se outro problema mas espero que se resolva…dei-lhe uma fita para colocar as chaves do cadeado…a Amina ficou toda moderna e à moda dos acunyas (dos brancos!) com uma fita com as chaves…ela adorou! Espero visitá-la em breve para ver como vão as coisas na sua nova casa. A família é problemática e todos são muito despreocupados e desinteressados… deixaram-lhe os netos menores e os filhos, ou morreram, ou separaram-se e não querem nada com ela que não pode estar sozinha nem se sabe bastar a si própria…

Beijinhos da vossa mpathani 
Vanda - Voluntária da APARF em Nampula - Moçambique

segunda-feira, 18 de março de 2019

PELO MUNDO DA VANDA

OLÁ AMIGOS,

Sai’ihali? Espero que estejam bem. Eu tive umas semanas alucinantes e com muitas novidades para vos contar…

Este mês iniciei a distribuição de mantas aos doentes de lepra. Já tinha a ideia que fazia muito frio nos locais bem escondidos no meio das montanhas onde os doentes vivem. Então a APARF começou este mês de Abril a sua distribuição. Tenho recebido muitos obrigados e sorrisos de agradecimento pelos doentes…

ACÇÃO DE FORMAÇÃO PROMOVIDA PELA APARF

Esta semana fizemos uma acção de formação “um dia para a lepra” em jeito de reciclagem sobre temas de lepra e tuberculose. Aconteceu no Bamboo, um complexo às portas da cidade que tem uma sala de conferências para 30 pessoas e onde esta acção de formação ocorreu. Estavam presentes 13 enfermeiros dos postos e centros de saúde do distrito onde trabalho. Eu e o Sr. Cássimo preletámos os temas: eu falei sobre lepra e ele da tuberculose com novas regras e normas a actuar.

Esta Acção de Formação / Reciclagem teve como objectivos:

- Dar a conhecer a APARF e o seu trabalho em favor dos leprosos;
- Realizar uma reciclagem dos conhecimentos sobre a doença de lepra;
- Aprofundar os conhecimentos sobre a temática da lepra, junto dos técnicos de saúde (enfermeiros) que colaboram com o PNCTL (Programa Nacional de Controlo da Tuberculose e Lepra;
- Incentivar a um trabalho conjunto entre todos os elementos que trabalham no PNCTL, para benefício do doente de lepra.

Foram abordados os seguintes conteúdos:

- Dar a conhecer a APARF e seu trabalho com os doentes de lepra;
- Referência à doença de lepra, com os sinais, sintomas, diagnóstico, tratamento, medicamentos, efeitos secundários dos medicamentos,… ;
- Reacções lepróticas e seu tratamento;
- Diagnóstico e preenchimento das fichas dos doentes;
- Avaliação sensitiva e motora dos doentes de lepra;
- Indicações no tratamento dos doentes com úlceras crónicas de lepra;
- Breve referência à doença da tuberculose, os sinais, o diagnóstico, tratamento, DOT’s;
- Trabalho conjunto com os voluntários, enfermeiros e doentes.
Os enfermeiros mostraram-se interessados, motivados e as actividades durante o dia correram bem. Houve espaço para colocar dúvidas e debater algumas questões que todos os dias se confrontam no trabalho junto dos doentes de lepra e de tuberculose.
Espero puder observar a produtividade da Acção de Formação / Reciclagem, com a nossa visita mensalmente a cada unidade sanitária, acompanhando directamente no terreno cada um dos enfermeiros que junto dos doentes irão pôr em prática o que relembraram e o que aprenderam de novo neste dia oferecido pela APARF.

Espero que esta actividade possa dar frutos no futuro quando cada mês visitar os doentes e os enfermeiros nos seus locais de trabalho. Se a acção de formação ajudar a melhorar o atendimento, o diagnóstico e a avaliação dos doentes, isso seria muito bom…

A tuberculose está mais disseminada que a lepra e acho que está agora mais problemática que a lepra. Existem cerca de 50 doentes em tratamento de lepra no distrito, que continua a ser o mais endémico da província. O que significa que os restantes apresentam menos de 50 doentes em tratamento. No ano 2007 tínhamos por esta altura cerca de 100 doentes o que diz qualquer coisa do trabalho que estamos a fazer e que eu colaboro em nome da APARF. Houve lanches da manhã e da tarde e almoço oferecido pela APARF... os pratos foram todos “rapados”.

Também estiveram presentes a Patrícia e a Fátima, 2 médicas que colaboram com a APARF. A Patrícia já tinha aqui estado a acompanhar a Anabela (anterior voluntária neste distrito). Elas tinham chegado de Portugal na véspera e estiveram a dar a sua força e ajuda.

O nosso amigo Carlitos, lembram-se dele dos pensos!? Bem outro dia vinha descalço e com feridas outra vez nos pés… Zanguei-me com ele mas acabei, como sempre, é claro, por lhe ver os pés e fazer esquema de penso. Irei vê-lo no início de Maio e vamos ver como estarão as feridas…

Beijinhos da vossa mpathani 
Vanda - Voluntária da APARF em Nampula - Moçambique


quarta-feira, 13 de março de 2019

UM OLHAR SOBRE A SIDA

De braço dado com a fome, a pobreza, o baixo nível de instrução, as doenças tropicais, as doenças sexualmente transmissíveis e a tuberculose, o HIV / SIDA constitui uma forte ameaça para uma grande faixa de população moçambicana (estima-se que 16,2% da população).

Num dos discursos recentes, o Presidente da República classificou esta doença como uma pandemia, devido ao elevado número de pessoas atingidas e ainda porque os indicadores epidemiológicos existentes não são tranquilizadores. De facto estamos perante uma situação extremamente complexa, porque esta doença se inscreve num contexto sócio-  -cultural e economicamente muito desfavorecido ou seja de recursos materiais, financeiros e humanos muito escassos. Os gabinetes de aconselhamento e testagem voluntária (GATV) ainda não estão disseminados por todos os distritos, o número de técnicos bem como a sua formação são insuficientes, o número de médicos é muito escasso e não existem clínicos especialistas neste domínio. Os medicamentos antiretrovirais estão disponíveis gratuitamente nas farmácias de alguns centros de saúde e hospitais mas há frequentemente falhas no abastecimento, o que obriga a interromper o tratamento e a taxa de abandono dos tratamentos por parte dos doentes é preocupante. Os meios de diagnósticos (para além do teste rápido) são morosos e muito limitados (não é possível, por exemplo, determinar a carga viral). 

Apesar deste panorama tão pouco animador, devo contudo testemunhar o esforço que diariamente é feito por um pequeno grupo de técnicos, onde me incluo com o estatuto de voluntária (recepcionistas, conselheiros, activistas, enfermeiros, técnicos de Medicina, auxiliares de acção médica, técnicos de Farmácia, médicos) no tratamento e acompanhamento dos doentes. Registámos desde o início deste ano mais de mil doentes (uma média de 3 novos doentes por dia). A agravar esta situação muitos deles sofrem de tuberculose, muito frequentemente têm episódios de malária o que agrava muito o prognóstico. 

O contexto social é perpassado por muitos estereótipos, crendices, feitiços e magias, sintomas de fatalismo e cepticismo, discursos moralistas que complicam as intervenções dos técnicos e que determinam que os doentes recorram já muito tarde aos serviços de saúde prejudicando ou inviabilizando a sua recuperação. É muito frequente o aparecimento de pessoas doentes que fizeram uma jornada longa pela medicina tradicional (vulgo curandeiros), ficando exauridos não só nas condições de saúde física, mas também de recursos financeiros. Chegam trazidos ao colo pela família num estado adiantado de caquexia (magreza extrema), com grave deterioração das funções vitais, das quais acabam por falecer, uma vez que necessitariam de cuidados médicos e de enfermagem muito complexos que aqui neste contexto de escassez de recursos é impossível dispensar.

 Tendo em consideração os aspectos culturais deste povo, a doença não se explica pela falência ou distúrbio no funcionamento das células e órgãos, por defeitos metabólicos ou agressão de agentes externos e muitas outras causas. É sempre atribuída a forças mágicas ou feitiços que lhes foram lançados pela família, antepassados mortos, ou ainda pelos vizinhos, dos quais se tentam libertar através das práticas tradicionais dos curandeiros. Por estas razões, a atitude de negação da doença é muito frequente. Num estudo realizado por Cristiano Matsinhe (perito moçambicano de ciências sociais) e recentemente divulgado, podemos colher muitos contributos para o conhecimento desta complexidade social ligada a esta doença. Afirma ele que é necessário” mergulhar no repertório de valores, representações e significações que desafiam as acções de luta contra a Sida, problematizando-as, como estruturas dinâmicas que também sustentam as representações oficiais”. Quer ele, com isto significar, que muitos profissionais de saúde também se apropriam destes repertórios de crenças, coabitando com a medicina tradicional ou aconselhando mesmo o recurso àquelas entidades, para resolução dos problemas particularmente nos meios rurais.

Na minha prática, tenho verificado que, muitos doentes confessam ter já percorrido estes trajectos, e que não compreendem as alterações do seu estado de saúde. É necessário muito trabalho para explicar o que está a acontecer, a evolução e a responsabilidade individual no controle da doença. Este longo caminho exige muita persistência, muitas horas de conversa, de avanços e recuos, de períodos de melhoria e de agravamento. O analfabetismo e a pobreza são factores que como imaginam complicam todo este quadro, pois as terapêuticas são complexas e o grau de adesão é baixo. Alguns logo que se sentem ligeiramente melhores deixam de tomar os medicamentos e esta atitude acarreta problemas de gestão de alternativas terapêuticas, tendo em atenção que estas são muito limitadas. A discriminação acontece no seio das famílias e por isso, conheço alguns casos muito dramáticos sob o ponto de vista social e humano, ficando as mulheres e crianças em situação ainda mais precária.

 A propósito posso contar-vos a história da Vitória. Conheci-a na consulta, estando grávida do bebé que se chama Rolfo. Nessa altura estava muito desnutrida e tinha manifestações cutâneas agravadas com sarna infectada que atingiam a face, tronco, membros superiores e inferiores. Foi hospitalizada na Maternidade para tratamento desta situação, mas infelizmente nada melhorou. Permanecia quase todo o tempo na cama envolta nas suas capulanas bastante sujas sob a indiferença dos profissionais de saúde. Passados poucos dias foi-lhe dada alta e perdi-lhe o rasto. Apareceu na consulta poucos meses depois já com o seu filho nos braços. Vinha andrajosa, pés descalços, com um aspecto físico bastante deteriorado, mas a sua principal preocupação resultava do facto de não ter leite pois o filho chorava com fome. Era considerada uma doente rebelde, porque não cumpria as recomendações do pessoal de saúde e parecia não haver compaixão por esta situação social e humana muito desfavorecida. Felizmente a médica acedeu à minha proposta de a internar desta vez na enfermaria de Medicina para a podermos ajudar. Conseguimos apoio para comprar roupa e assim poder mudar diariamente após os cuidados de higiene e tratamento da sarna. Foi necessário adquirir roupa para vestir a criança, uma panela para ferver a água e biberões, leite, sabão, termo para guardar água fervida, antibióticos para o bebé que apresentava também feridas infectadas (convém esclarecer que não existem recursos na enfermaria para preparar um biberão). Com a colaboração dos colegas da enfermaria de Medicina foi possível tratar a sarna, mas a introdução do tratamento com os antiretrovirais foi fundamental para a melhoria do estado clínico. Adquiriu autoconfiança, recuperou um pouco da sua dignidade humana,  treinou a preparação do biberão e fez aquisição de conhecimento sobre o  auto-cuidado e higiene com a roupa do filho. Neste momento, não falta às consultas e cumpre satisfatoriamente os compromissos que assume comigo. Estabelecemos uma relação de confiança e respeito porque, felizmente, fala razoavelmente a língua portuguesa, o que me permitiu a compreensão das suas necessidades e conhecimento dos contornos da sua situação de mulher abandonada pelo último companheiro, pai do Rolfo. Desconhecemos ainda qual é a situação desta criança relativa ao vírus da SIDA, uma vez que não existe tecnologia para fazer a sua avaliação clínica. O que interessa, neste momento presente, é que a criança está a desenvolver-se dentro dos parâmetros normais para este contexto, e que o seu sorriso em cada vez que me visita é uma enorme alegria. São estas pequenas conquistas que nos dão ânimo para prosseguir com o nosso trabalho, como voluntária neste país Africano (um dos mais pobres do Mundo), onde estamos rodeadas de carências múltiplas e onde tomamos consciência da dimensão das várias faces da pobreza. Com base na experiência destes meses de trabalho e da consciencialização da multiplicidade de problemas destes grupos de pessoas vulneráveis (com particular atenção para as mulheres com crianças), adolescentes e idosos sem família, parece-me ser urgente criar uma estrutura de apoio a estas situações. É muito importante proporcionar-lhes a aquisição de conhecimentos básicos sobre higiene, confecção de refeições equilibradas e variadas com recurso aos produtos cultivados nas suas machambas, gestão dos medicamentos e consultas, controle das tomas na fase de indução dos tratamentos, visitas domiciliárias. Há muito trabalho para fazer. Os recursos são muito escassos. Mas, na minha modesta opinião, também urge formar equipas de técnicos com uma sensibilidade diferente para toda esta problemática do sofrimento que esta doença arrasta consigo. É ainda muito urgente realizar campanhas de informação e prevenção sobre este flagelo a começar nas crianças em idade escolar, nas escolas secundárias, nas universidades, nas pequenas comunidades. Para esta enorme tarefa todos os actores sociais devem ser convocados desde os régulos, curandeiros, autoridades administrativas e da educação, a Igreja, os políticos, os artistas ou seja todos os que possam concorrer para a mudança de comportamento deste povo tão resignado.

Eugénia Ferreira
(Enfermeira)

sexta-feira, 8 de março de 2019

AS CRIANÇAS DE MOÇAMBIQUE SÃO AS MAIS LINDAS DO MUNDO!

Bem, as crianças são sempre o que de mais bonito existe no mundo e não só em Moçambique! Mas aqui neste país maravilhoso em que vivo, tenho o privilégio de conviver com aqueles pedacinhos de gente, pequenos no tamanho e grandes na generosidade! Gosto indiscriminadamente de qualquer criança: das que brincam na entrada do “meu” prédio, das que todas as manhãs se cruzam comigo a caminho da escola, das que viajam ao meu lado nos transportes públicos. 

Mas as crianças que mais pensamentos ocupam na minha mente, aquelas que reinam no universo dos meus afectos, são as do Infantário 1º de Maio, em Maputo. Na verdade, a palavra Infantário não é a mais adequada, porquanto se trata de um orfanato que recolhe crianças “órfãs de sida” ou abandonadas.

Vai ser este pequeno mundo que iremos conhecer através destes pequenos escritos. Neste primeiro, ficaremos pela apresentação: o número de residentes não é constante, varia de 30 a 50 crianças. As idades oscilam entre semanas de vida e os oito, nove anos de idade - são apenas três ou quatro as crianças desta faixa etária; normalmente os “crescidos” são transferidos para outra instituição. Confesso que o meu encantamento recai sempre sobre os mais pequeninos.

São crianças infelizes? Não diria taxativamente que sim..., as crianças africanas têm dentro delas um manancial inesgotável de alegria! Mas um olhar atento vai encontrar aqui e ali um outro olhar triste.

São crianças felizes? Também não exactamente - como é óbvio. Não têm colo de mãe ou pai, não têm atenção individual da família, o lar delas é uma casa grande cheia de irmãos e irmãs nas mesmas circunstâncias, uma casa onde as dificuldades de ordem material se fazem sentir. Fazem? não! Faziam!!!! É que estas crianças agora têm a ajuda preciosa daquela APARF que cuida das muitas lepras do mundo. De há uns meses para cá, não faltam os medicamentos desde os de “tinha” até às vitaminas necessárias a esta pequenina maravilhosa população. E de há uns meses para cá também a alimentação é melhorada com um abastecimento mensal de carne e peixe.

Ana Maria
(Voluntária)

segunda-feira, 4 de março de 2019

A HISTÓRIA DE UMA PAIXÃO - Parte VI

(Continuação...)

Depois do trabalho no Centro de Saúde eram os meninos que preenchiam o fim das minhas tardes e as noites. O meu quarto na Casa do Gaiato era na casa dos meninos dos 8 aos 10 anos e rendi-me a eles desde o primeiro dia, em que, horas depois da minha chegada, me foram colocar na mesa de cabeceira uma flor silvestre que crescia dentro de uma casca de coco... À noite ajudava-os com os trabalhos de casa; como ainda faziam chichi na cama levantava-me para os mandar à casa de banho poucas horas depois de adormecerem, embora as reacções de pânico de alguns quando eram acordados me perturbassem de sobremaneira... Que histórias de vida terríveis estariam por detrás dessas reacções? Nunca tinha lidado com situações dessas, mas descobri que afinal era fácil tranquilizá-los e chamá-los à realidade: 

– Aqui estás seguro... ninguém te vai fazer mal.

Tornei-me a solução de recurso nas brigas, tão frequentes quanto seriam de prever numa casa só de rapazes... 

Alguns dos meninos mais velhos, agora já com 17 ou 18 anos, tinham andado na guerra. Apercebi-me disso já quase no fim da minha estadia no meio de uma conversa com os mais novos, uma frase cruzada captada de raspão, que na altura não me fez muito sentido porque não podia conceber os meus meninos numa situação tão monstruosa. Mas claro, se tinha acontecido com tantas crianças, por maioria de razão poderia ter acontecido a estas, tão desprotegidas... E nessa noite a frase ecoava-me nos ouvidos, não tanto pelo sentido como pela expressão comprometida do menino que a tinha dito e o olhar fulminante dos outros que o rodeavam. Claramente era um assunto tabu, não entre eles, mas entre eles e os adultos. Ainda assim só consegui ter a certeza de que aquela interpretação não tinha sido fantasia minha quando o Padre Zé Maria mo confirmou. Não se alongou: 

– O que é que isso interessa agora? Já basta tudo quanto sofreram. Há dois anos apareceram aí uns oficiais do exército a perguntar quais é que tinham sido os meninos, queriam nomes, sabe-se lá para quê, mas eu recusei-me a responder. Quase todos agora são adolescentes normais. Só um ou dois é que o psiquiatra achou que precisavam de acompanhamento. Para quê desenterrar o que já lá vai se não os ia ajudar em nada? Mais vale que esqueçam...

Mas não, não esqueciam. Eram diferentes dos outros. E seriam sempre diferentes… Para os mais novos, os que tinham sido mobilizados eram respeitados e reverenciados como uma espécie de heróis e rodeavam-nos para ouvir as suas histórias. Mas os mais velhos escutavam-nos mais com compaixão do que com respeito ou inveja. Entendiam a sua fragilidade… Não me foi difícil depois perceber quais eram estas “estrelas” que tinham um estatuto diferente e assisti a uma ou outra discussão em que não se abordava directamente o assunto da guerra, mas em que se notava claramente o seu fascínio por armas... Realidades tão diferentes e histórias de infâncias tão terríveis e tão distintas da minha… Mas foi pelo amor por eles que aprendi a amar Moçambique e a querer cada vez mais voltar.


Patrícia Lopes
(Médica)