terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Uma nova manhã em Iapala - parte I

Deixo-me ficar na cama mais uns minutos depois do alarme tocar. Recordo-me desta noite... ainda nem acredito que recebi um recém-nascido em Moçambique, à luz das velas, como nas mais antigas histórias que ouvia contar! 

Tenho de ganhar coragem para me levantar, mas arrepio-me só de pensar em ir para o duche. Se há coisa a que seria improvável habituar-me é ao duche de água fria pela manhã. Um importante aspecto em que a minha inculturação falharia sem apelo nem agravo... As Irmãs sempre solícitas: “Pode pedir ao cozinheiro que lhe aqueça água para o banho.” Mas nem pensar em indulgenciar nessas mordomias quando a lenha é tão difícil de arranjar... Cumprimento a Amélia, a minha discreta companheira de quarto, uma osga simpática e madrugadora, que a esta hora já se encontra colada aos vidros da janela ao sol (desconfio que terá passado ali a noite...), com as patinhas cheias de dedos esticadas numa enorme preguiça, à espera do pequeno-almoço esvoaçante. Instalou-se no meu quarto há três dias, trazida pelo cozinheiro ante o meu olhar de ponto de interrogação (eu tinha-lhe pedido insecticida pois não tinha rede mosquiteira no quarto, ao que ele respondera: 
– Não sei o que é “set’cida”, Doutóra...
– Remédio para os mosquitos – reformulei.
– Ah, não tem problema!
E horas depois regressou com a Amélia...). A verdade é que esta minha inquilina é uma exímia caçadora de mosquitos e ainda não precisei de usar insecticida. Já vestida, apresso-me para a sala de jantar para tomar o pequeno-almoço de pão com doce de manga, banana-macaco e café natural, deliciosamente perfumado, criado, torrado e moído na própria Missão. 

Chego ao hospital já passa das 07:00 e esperam-me para iniciar a visita. O Rufino, o menino de nove anos que chegou durante a noite, miraculosamente, ainda sem ter feito sequer a segunda dose de quinino, já acordou, levantou-se para ir à latrina e toma agora o pequeno-almoço com o ar vagamente desorientado de quem não conhece o sítio onde está nem faz ideia da forma como lá foi parar... 

(Ditosa pátria que tais filhos tens! Assim vale a pena trabalhar, se ficam bem logo à primeira dose!) 
À excepção deste susto, no internamento foi uma noite calma, sem intercorrências e há poucas novidades dos doentes internados. Como são poucos os que permanecem nas suas camas após o acordar (só mesmo os que não se conseguem pôr de pé é que ficam na cama), para os observar temos de os ir procurar ao pátio. Sempre o mesmo alvoroço cómico todas as manhãs. Nunca me tinha passado pela cabeça uma situação destas, ir para o hospital trabalhar e ter de ir à procura dos doentes para os observar... Mas estão quase todos a melhorar, portanto deixo o trabalho nas mãos dos enfermeiros e vou para a sala de urgência. Não resisto a passar pela maternidade primeiro para visitar o recém-nascido e a mãe. Estão ambos bem. A mãe, então, está radiante com o seu menino tão esperado. 

Na sala de urgência dizem-me que a técnica de Saúde Materno-Infantil não chegou ainda do fim-de-semana em Nampula e vou ter de ser eu a fazer a consulta de urgência da Pediatria, mas o edifício onde funciona o atendimento às crianças é tão escuro que peço para me transferirem a secretária para o pátio interior do hospital. Que falta que nos faz a energia... 

Começa a chegar a procissão do paludismo... cada mulher carregando devotamente o seu andor anémico e febril enfaixado contra o corpo com capulanas coloridas. Vêm bichar quinino e cloroquina, como bichavam milho nos tempos da guerra... A palavra Macua para “medicamento” ou “comprimido” é, de resto, salvo melhor transcrição, “kininu”, delicioso equívoco que me custou alguns dias a desvendar.
Mas, para meu desespero, esta manhã, em vez da mefloquina para profilaxia da malária, tomei por engano o anti-histamínico que tinha destinado para me adormecer na viagem de regresso e me fazer esquecer as saudades deste povo fantástico. Malditas embalagens que me tornam tudo igual na miopia das madrugadas! E o pior de tudo é que só dei por isso a meio da manhã quando comecei a perceber que não podia culpar o café de Iapala pelo sono que sentia. Mais aromático que qualquer Arábica, curto, conciso, contundente, contava com ele para me sacudir a modorra da manhã, mas... tarde demais, não tinha ido a tempo. 
E o cortejo das febres, interminável, estende-se já até ao fundo do pátio sem parar de crescer. Malária, malária, malária, anemia, desnutrição, queimaduras, pneumonias, pielonefrites, bilharziose – endémica na província – uma suspeita de doença celíaca, uma epilepsia e, claro, a SIDA de que suspeito constantemente, embora não possa fazer testes confirmatórios nem tenha anti-retrovirais. É o que mais me dói não poder tratar nestas crianças. E pensar que, pelo menos nelas, a doença se poderia prevenir de modo tão simples... Mas não posso pensar nisso. Tenho de tratar só o que vejo e o melhor que souber. A cólera, felizmente, não anda por estas paragens nesta altura do ano e o sarampo é já praticamente desconhecido graças ao empenho das Irmãs nas campanhas de vacinação. Valha-nos isso, que com este grau de desnutrição o sarampo teria 50% de mortalidade... 

De súbito, o director do hospital vem pedir-me conselho sobre como gerir uma reacção adversa que uma doente está a ter a um medicamento. Vem acompanhado de uma senhora de olhos tristes. 
– Que doença tem a senhora?
– Tem lepra, doutora...
– Lepra?!
(Mas existe lepra nesta zona?!) Uma vergonha estranha invade-me de rompante, assim como uma criança que não sabe a tabuada e que de repente se apercebe que é a única de todos os colegas que ainda não estudou a lição, ou a única que nunca ouviu a música que já todos cantam de cor... 
– Qual é o medicamento que lhe está a fazer reacção?
– Rifampicina.
Felizmente é um medicamento que conheço bem, porque também é utilizado no tratamento da tuberculose e posso responder à questão... Mas uma angústia estranha permanece... Não que seja vergonha não conhecer uma doença que é rara no meu país, mas era como se tivesse acabado de vislumbrar um mundo diferente... Lepra?! Qualquer coisa de irracional pulsa dentro de mim e me grita, contra a minha vontade, que algo de muito grave se passa em meu redor... Mas por que será que tenho esta impressão?, pergunto-me... Por que é que, por exemplo, o meu primeiro caso de malária não me fez sentir assim? Será possível que esteja, depois de não sei quantos anos a estudar Medicina, a cair num preconceito veiculado pelo Antigo Testamento? E logo eu, que até achava que tinha uma mente aberta? [...]

Patrícia Lopes (Médica)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Se Belém fosse Mahipa

Em Dezembro, em Mahipa, era Natal e entardecia sem que por perto qualquer sinal nos pudesse dar testemunho da data. Tempo de fome, de seca e calor asfixiante, em que a chuva tardava como uma noiva cruel, abandonando as sementeiras e o povo no altar, no desespero de uma boda por mil vezes não consumada, de uma promessa de frescura mil vezes adiada... Era Natal e o calor era irrespirável. Era Natal e ao entardecer não havia luzes nas ruas, ninguém a correr a comprar os presentes de última hora, nenhuma árvore ornamentada. Era Natal e, inquietantemente, faltava o cenário, faltava o tom que o pano de fundo imprime no estado de espírito... mas aparentemente só nós o sentíamos. Tudo o resto decorria na rotineira placidez de África. Se Jesus menino tivesse nascido em Dezembro em Moçambique, uma capulana teria bastado para o aquecer. E se Belém fosse Mahipa, em vez da vaquinha e do burrinho no estábulo, talvez uma qualquer ave do mato tivesse batido as asas num leque improvisado, oferecendo um sopro refrescante ao seu corpinho de menino... Que nestes casos a poesia da religião e o seu lado de Alice no País das Maravilhas, de fábula, magia e metáfora tem sempre forçosamente de assomar.

Mas foi precisamente aqui que a Natureza nos declarou, estridentemente, o quanto tínhamos sido injustos. Que tudo quanto o Norte faz de uma forma sistemática, asséptica e geométrica, África improvisa e encanta. E foi quando, em Mahipa, em frente à casa da Missão, o cajueiro se encheu de centenas de pirilampos, numa árvore de Natal natural erguida na noite, com mil pequenas luzes piscando.

Dra Patrícia Lopes - Médica

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Há festa em Murralelo - parte III

[...]
O tio chega, finalmente, espavorido e com lágrimas nos olhos, estava na machamba, um pouco longe dali. Ficou contente com a proposta de levar o menino para o hospital e deu o seu acordo de imediato. Num segundo tudo ficou pronto para partir, foi como se alguém tivesse ligado novamente a câmara rápida. Até o menino se tentou colocar de pé, mas foi impedido pelo próprio tio, que insistiu em carregá-lo às cavalitas. Quando chegamos, o carro já está pronto para partir porque o motorista já imaginava a gravidade da situação. O menino, surpreendentemente, depois de tomar a água com açúcar não voltou a ter outra convulsão e parece ter já outro brilho no olhar... Mas até quando? Subimos para o carro. Não há lugares sentados para todos, por isso a família vai na caixa aberta do jeep, juntamente com outros doentes que pediram para ser transportados para o hospital: uma grávida em fim de tempo, uma menina com um abcesso dentário e celulite da face e um menino desnutrido, todos com as respectivas famílias. Não podemos avançar muito rápido porque a estrada é péssima e o carro vai muito carregado. Só me apetece chorar... Subitamente vêm-me à memória as aulas de Microbiologia… Como pude ser tão auto-confiante e insistir para que o menino viesse? Aquela melhoria aparente não deve ter sido por termos tratado uma hipotética hipoglicémia, foram provavelmente as típicas “melhoras da morte” da malária cerebral! Por que fui eu dar falsas esperanças e deslocar uma família tão pobre? Para os deixar com uma dor ainda maior? Olho novamente para trás. O menino teve uma nova convulsão. Parece que não aguento mais tanta angústia... Dão-lhe mais água com açúcar e mais uma vez parece melhorar... A Irmã parece ler os meus maus pensamentos: 

– Estamos a fazer o que podemos, já não seria o primeiro doente a morrer-nos no caminho. Mas Nossa Senhora há-de nos ajudar.

Parece que as orações me acalmam um pouco. Não sei quantas vezes mais o menino teve convulsões até chegarmos ao hospital, com ele completamente inconsciente há mais de 15 minutos. Já levo a medicação programada e as contas todas feitas. Enquanto os enfermeiros lhe colocam uma via de acesso venoso, ajudo os outros doentes a descer do carro. Um dos meninos está a tremer de frio... (Arrefeceu durante o fim da tarde). Tento abraçá-lo para o aquecer, mas tem medo de mim. Claramente nunca viu uma mulher branca. Entrego o meu casaco de malha à mãe para vestir o menino, mas tenho de correr para dentro para preparar a medicação. “Meu Deus, não me falhes, se conseguimos chegar até aqui com ele vivo, não é justo que ele nos morra agora, lutou tanto...” A febre volta a subir, mas desta vez foi mais fácil arrefecê-lo e uma hora depois já está novamente fresco. 

O quinino vai correndo gota a gota, lentamente. Ainda faltam três horas para terminar a primeira dose. Quase ao fim das quatro horas abre os olhos e, pela primeira vez, volta a falar. Pergunta onde está, que lugar é aquele. O exame neurológico não mostra alterações. Estamos no bom caminho, acho que está vencida a batalha, felizmente! Ao menos valeu a pena tanto sofrimento… 

Já me posso preocupar com os outros doentes. A grávida está bem, mas é o décimo filho e ainda não há qualquer sinal do trabalho de parto. Vão ser uns dias longos por aqui... A menina do abcesso dentário e celulite da face vai começar o antibiótico e o menino desnutrido está ao colo do cozinheiro do hospital, o Sr. Manuel, que já lhe começou a preparar as soluções de recuperação nutricional, feitas segundo os preceitos da Organização Mundial de Saúde, com um toque da alta cozinha Iapalense, “uns pozinhos do Sr. Manuel”, como o próprio faz questão de dizer. 

Foi um dia rápido! Rápido demais, talvez, para digerir tudo quanto vi... Mal sabia eu que teria mesmo um curso relâmpago de inculturação no primeiro dia. Só espero terminar a minha estadia compreendendo um pouco melhor este povo. A Irmã Lurdes move-se no meio deles como peixe na água, tenho isso a meu favor, pelo menos...

Patrícia Lopes (Médica)

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Há festa em Murralelo - parte II

[...]
No final do almoço somos chamados cá fora. O professor do menino, que nos abordara antes da missa diz-nos: 
– Sabem, Irmãs, o menino que mostrei há bocado... já despediu.
Não compreendo o que diz, entendo as palavras, não o sentido, mas a Irmã Lurdes parece ter tido um choque: – Como?!
– Já despediu, Irmãs, perdeu a vida...

Que horror! Meu Deus, como é que é possível?! Mas nem sequer parecia doente... De tal forma não fiquei preocupada com ele que já só vagamente me lembrava que tinha de perguntar pelo menino antes de ir... Olhamo-nos consternadas. A face triste do menino vem-me à memória com uma angústia brutal. Nem posso acreditar, meu Deus... Tão de repente... e logo uma criança… Ocorre-me então uma pequena luz de esperança: 
– E se estiver só desmaiado outra vez? Alguém lhe viu o pulso, viram se respirava? 
O professor acena negativamente. 
– Onde é que ele está? Vamos lá agora mesmo – decidiu a Irmã Lurdes. 
– Mas é longe, Irmãs, ele está em casa.
– Vamos embora!

Com o coração completamente aos pulos lá sigo o professor, atrás da Irmã Lurdes e do Padre Filomeno. Sinto-me inteiramente responsável por esta morte, nem quero acreditar... Avançamos hors piste, a corta mato. Não há sequer um caminho por onde possa passar uma bicicleta. Chegamos por fim à casa do menino, após uma caminhada que deve ter demorado uns bons 15 minutos. A família está reunida cá fora sob o alpendre da casa, fitando o menino com um ar consternado, como se estivessem a velar um caixão. O menino deitado no chão, com a cabeça apoiada sobre os joelhos de um jovem adulto está vivo! Consciente e orientado. Suspiro de alívio. Graças a Deus! Mas está a arder em febre. Deve ter tido uma crise convulsiva e depois entrado em coma durante alguns minutos e a família pensou que tinha morrido. Tem malária cerebral de certeza! Está prostradíssimo, suado e com a tonalidade acinzentada que só se vê nas doenças mais graves. Temos de o levar para o hospital o mais rápido possível, mas sabe Deus se lá conseguirá chegar vivo... Começo a observar o menino, que no mesmo instante começa a fazer movimentos periódicos com os olhos. Vai convulsar novamente. 
– Vamos deitá-lo, que é melhor.
Durante minutos intermináveis o menino é sacudido por movimentos dos quatro membros, ante o choro manso da família. 
– Temos de o levar para o hospital o mais rápido possível, senão morre de certeza!, digo à família, mas ninguém me parece ter compreendido. Peço ao Padre Filomeno para me traduzir para macua, mas também ele permanece calado, como se nem tivesse prestado atenção. O que será que se passa? Por que é que de repente ficou tudo em câmara lenta? Por que é que ninguém se move, ninguém fala, ninguém faz nada para salvar este menino?
– O que é que se passa, Irmã, não vamos?
– Espera um pouco, não te impacientes, o pai e a mãe estão a decidir se levam ou não o menino para o hospital. 

(Terei ouvido bem?) – A decidir se o levam ou não?! Mas não sabem que o menino vai morrer de certeza se não o levarem?

– Tem calma, esta cultura é muito especial, há valores que se sobrepõem a todos os outros. Se por acaso acontece o menino morrer longe daqui, a sua alma nunca mais vai encontrar o caminho de volta, nunca poderá ser feliz na outra vida e a família vai sentir-se responsável por isso.

O menino começa novamente a convulsar e ajoelho-me para o amparar enquanto a família se coloca de pé em redor, com uma face solene. 

– Estão a dizer que os antepassados já tomaram conta do menino, já estão no corpo dele. Para eles é como se já estivesse morto...
De facto, que outra interpretação é que uma cultura que nunca teve contacto com a ciência, poderia dar a uma convulsão? Se calhar foi por isso que disseram há pouco que ele tinha morrido, quando era óbvio que ainda estava vivo. Mas assim não vai haver maneira de convencer a família de que o menino ainda pode sobreviver... Mas a Irmã continua a falar calmamente com os pais, expondo os seus argumentos, ajudada pelo Padre Filomeno. Diz que podemos tratar a doença do menino e, se ele sobreviver, os antepassados não vão entrar no corpo dele. 

Eu estou completamente fora de mim, estamos a perder um tempo precioso, já podíamos estar a chegar ao carro e o menino está com convulsões quase de cinco em cinco minutos. Os pais, por fim, dão sinal de anuimento e a mãe desaparece dentro de casa, para colocar roupa, comida e uma panela dentro de um cesto para irem para o hospital. 
– Vamos?
– Ainda não, foram chamar o tio.
– Como?! Chamar o tio para quê, se os pais já concordaram? É preciso chamar a família toda?
– Fala mais baixo, que eles podem compreender-te! Entre os macuas quem tem direito e exerce o poder paternal sobre as crianças não é o pai, mas o irmão mais velho da mãe. O pai pode dar a sua opinião, mas quem tem efectivamente o poder de decisão é o tio, e isso é incontornável.

Mais uma convulsão. A situação é crítica, mas temos de tentar mantê-lo vivo até chegarmos ao hospital. Só então começo a raciocinar em termos médicos, vamos arrefecê-lo, dar-lhe paracetamol e cloroquina. Nada disto vai resolver o problema, mas pode ser que o ajude a não piorar. Outra causa tratável de convulsão é a hipoglicémia, que é muito frequente na malária maligna. Vamos dar-lhe água com açúcar.
A família olha-me, consternada:
– Não temos açúcar, Irmã.

Meu Deus, como é possível uma pobreza a este ponto? O que é que eu estou aqui a fazer, no meio de uma cultura que não conheço e não compreendo e ainda por cima com a fantasia de que consigo tratar alguém sem meios nenhuns... Procuro na carteira, esperançada de encontrar algum pacote esquecido de um café de Lisboa e, de facto, lá encontro alguns pacotes de açúcar, que coloco num copo de água que me trazem. [...]

Patrícia Lopes (Médica)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Juntem-se a mim. É preciso mais Voluntários

Sai sai owani? Sàlama appathani aka.

Olá amigos
Venho contar-vos a história de 3 doentes de lepra que já concluíram o tratamento mas a quem a doença deixou marcas para toda a vida. 

O distrito de Nampula /Rapale, onde trabalho, é um pouco diferente dos demais distritos que o rodeiam. Aqui os doentes, com quem trabalho e que se têm deslocado aos locais de concentração, são na sua maioria doentes de lepra em tratamento ou doentes suspeitos. Por vezes, aparecem doentes antigos de lepra que apresentam novas manchas ou reacções lepróticas, iniciando, neste caso, outra medicação mais específica, mas a maioria dos doentes não vem ao meu encontro apenas porque é doente antigo de lepra, como pude observar nos locais das concentrações do Ricardo.

Mas durante as minhas actividades já comecei a encontrar-me com estas pessoas e, de acordo com as suas necessidades, relacionadas com as suas mutilações, tento dar a melhor resposta que me seja possível. Assim aconteceu um dia no Centro de Saúde (C.S.) da Namaíta em que, por outra razão, foi pedida a comparência de alguns doentes antigos de lepra daquele local. O voluntário fez a mobilização e eu conheci a D. Amina Pagela, o Sr. Silvestre Amade e a D. Maria Cotopola. A todos a lepra deixou sequelas profundas: mutilações nos pés e mãos, e a uma delas muito marcada. De imediato, me dei a conhecer e conversámos um pouco em makua e português. Vi que precisavam da ajuda da APARF, ou não fosse para eles que eu aqui me encontro. Marquei com o voluntário uma data e ele comunicou a estes 3 doentes que vieram ao meu encontro no dia 20 de Setembro de 2007, na palhota de um deles, junto ao C. S. da Namaíta.
Então nesse dia lá estavam à minha espera e com sorrisos nos lábios. Cumprimentámo-nos e voltei a dar a conhecer a APARF e o meu trabalho neste distrito em favor dos doentes de lepra, em seu favor. Em conversa, soube que eles, em especial o Sr. Silvestre, conheceram e viveram junto da Irª Maria Rita Valente-Perfeito, da Irª Sacre Coeur e da Irª Clara e lembram--se bem de como foi viver na época da guerra em Moçambique. Falaram-me das dificuldades que viveram, da ajuda preciosa que estas irmãs deram a quem vivia nesta área e do trabalho que as Irmãs faziam com os leprosos. Quando os informei que a Irª Maria Rita vivia agora em Portugal, que colabora com a APARF, ficaram radiantes em saber. Mandam cumprimentos e abraços e um grande “koxukhuru vanjene” (muito obrigado!) às Irmãs, em especial à Irª Maria Rita, com quem conviveram mais.

Bem mas eu não estive só a conversar com eles. Também levava no carro da APARF, algo que lhes era muito útil: sapatos, mantas, roupa, sabão e sal. Foi distribuído a cada um deles, conforme as suas necessidades e mutilações, calçado adequado. Ficam “otteliwa murima vanjene” (muito felizes) com os sapatos novos. 

Dos três, a D. Amina Pagela é a que apresenta mais mutilações. As mãos perderam todos os dedos e os pés também, apenas ficaram uns cotos que ela reaprendeu a utilizar na sua vida diária. Ela é a que vive mais perto do C. S. da Namaíta e vive com a filha e 5 netos todos ainda pequenos. Quando recebeu o saco com o que a APARF lhe ofereceu agradeceu-me com um tímido “obrigado” em português e com os olhos a esconder uma lágrima, que me deixou muito sensibilizada e feliz por estar aqui, na Namaíta, em Moçambique, a ajudar quem mais precisa e a viver o que eu sempre desejei: uma experiência junto dos mais necessitados e esquecidos de todos. Neste local são os leprosos e é para eles, em especial, que eu aqui estou.

Depois de 11 meses de experiência nestas terras de Nampula, muito tenho de vos contar, pois o que vivi e vivo todos os dias não dá para descrever num pequeno texto como este… Tenho aprendido muito sobre a doença de lepra. Tenho aprendido muito sobre a cultura local. Tenho aprendido alguma coisa sobre a língua makua! Tenho aprendido muito com os leprosos. E é para eles que eu aqui me encontro e foi para eles que trabalhei estes meses que passaram.

Tive o privilégio e a sorte de não estar só, pois tive e senti sempre o vosso apoio através de cartas, telefonemas, e-mails, mensagens, visitas, … mas também o apoio de todos aqueles que aqui me rodearam e rodeiam todos os dias. Mas, também, durante estes meses, tive a companhia do Ricardo, que me ajudou, apoiou e acompanhou durante as minhas actividades aqui. Ter alguém perto de nós que vem da mesma Associação, tem a mesma cultura, o mesmo espírito, partilha os mesmos ideais, a mesma idade, a mesma experiência, … é um grande apoio, no início, quando se chega a um local novo e onde não se conhece ninguém. Depois com o passar do tempo, é alguém com quem desabafar, partilhar o dia a dia do trabalho com os doentes de lepra e o partilhar ideias e actividades para benefício destes. Foi, neste espírito, e para aumentar também a minha visão acerca dos doentes de lepra, que acompanhei o Ricardo durante uma semana nas suas visitas aos leprosos no “seu distrito de Murrupula”. 

 Vimos muitos doentes com sarna, casos suspeitos de lepra e casos antigos… visitámos novos locais de concentração, onde não é possível chegar todos os meses, devido às condições atmosféricas,… acompanhei o dia a dia do Ricardo, que distribuiu sabão, medicamentos, roupa, palavras de incentivo e motivação aos doentes e voluntários…  posso dizer que também colaborei, com o Ricardo e os seus doentes, fazendo alguns pensos e observando alguns doentes que padeciam de “outras lepras”…
Os doentes que aparecem nas concentrações são também muitos doentes antigos de lepra, que já concluíram o seu tratamento. Este distrito estava considerado como endémico no ano de 2006 mas este ano é o distrito de Nampula / Rapale, onde eu trabalho, que tem o maior número de casos de lepra. Isto não significa que a lepra acabou em Murrupula ou nos outros distritos da Província de Nampula, pois ainda existem muitos doentes como pude ver e saber, acompanhando o Ricardo. Estes doentes irão sempre precisar de ajuda, ora de sal, sabão, calçado, mantas, roupa, medicamentos para feridas, para a sarna, pomadas oftálmicas, … e o Ricardo tenta fazer o que de melhor pode para minimizar as suas “preocupações”. 

Todos os dias aprendemos coisas novas e foi com o Ricardo que comecei a descobrir a problemática da sarna, que também existe no “meu distrito”. Esta doença não está tão disseminada aqui onde me encontro, pois o distrito de Nampula / Rapale envolve a área rural da cidade de Nampula. Logo são zonas mais próximas dos grandes hospitais da cidade, teoricamente dos cuidados de saúde. Mas na prática, há locais que eu também visito e alguns deles ficam nas periferias com os distritos vizinhos, onde observo muita sarna. Foi graças à “famosa pomada caseira da Missão de Murrupula”, cujos conhecimentos já vieram de outros voluntários, que pude também dar uso a esse medicamento tão eficaz para esta doença. 

A semana que acompanhei o Ricardo veio aumentar a minha visão sobre os doentes de lepra e confirmar o que eu já sabia: muito falta ainda a fazer nestes locais, ora seja em Nampula, ora em Murrupula, ora nos outros distritos da Província de Nampula e restantes de Moçambique. É preciso que mais voluntários venham para estas terras, para que juntos possamos ajudar estes doentes que tanto precisam e que tanto oferecem também.

Caros amigos, antes de me despedir quero aqui deixar um “koxukhuru vanjene” (muito obrigado) a todos os que, em especial durante este ano de 2007, me ajudaram e apoiaram aqui em Nampula; e um “koxukhuru vanjene” a todos os amigos da APARF, os amigos dos leprosos, que possibilitaram a minha estadia aqui… mas espero que continuem a apoiar pois eu irei a Portugal no mês de Dezembro de 2007 mas voltarei para continuar o meu muteko (trabalho) junto dos doentes de lepra, dos que considero “meus doentes”! 

Feliz Natal e Feliz Ano Novo  Mpakha nihiku nikina

Da vossa amiga Vanda
(Voluntária da APARF)

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Há festa em Murralelo - parte I

Na minha primeira manhã em Iapala fui com a Irmã Lurdes de comboio até à aldeia de Murralelo, a cerca de 100 km da casa da missão para assistir à festa da Primeira Comunhão dos meninos. Rapidamente chegou a hora da partida e entrámos no comboio depois de adquirir os bilhetes de segunda classe. A visão no primeiro embate foi indescritível! Desde galinhas a grandes sacas de carvão, passando por molhos de cana-de-açúcar e frutos embalados na tradicional forma improvisada com capulanas, enormes volumes ocupavam o espaço disponível do vagão que nos coube em sorte, tudo na maior desorganização possível. Lá nos conseguimos acomodar, no meio de uma quantidade enorme de gente, sobre uma saca de carvão, perto de uma mamã que, impassível, dava de mamar ao filho, enquanto com a mão livre segurava duas galinhas vivas, presas uma à outra pelas patas com uma corda. O olhar divertido da Irmã Lurdes dizia-me que fora de propósito que não me falara do que iria encontrar, para que visse com os meus próprios olhos.

Em menos de cinco minutos o comboio iniciou a sua marcha, a passo de caracol. A cada quinze ou trinta minutos havia uma paragem e a vida dentro e fora do comboio sofria uma revolução. Em todas as paragens havia um aglomerado enorme de pessoas e toda a gente se levantava e acorria à janela, para vender ou comprar produtos. Tudo era transaccionado no meio da maior agitação, desde galinhas até rebuçados, passando por pilhas, peneiras, carvão, garrafões de óleo, sabão, comida, roupa... 

Em três horas fizemos os 100 km até próximo da aldeia e, por sorte, nem dois minutos depois de sairmos do comboio, cruzámo-nos com um jeep que seguia a direcção da aldeia. Num instante chegámos a Murralelo e fomos muitíssimo bem recebidas pelo Padre Filomeno, um missionário mexicano, que me apresentou entusiasticamente ao régulo da aldeia.
 – Não vos esperávamos... Mas eu já devia ter adivinhado... Como é que vieram?
– De comboio. Queria mostrar à Patrícia como é o nosso “Expresso do Oriente”. Mas alguma vez eu iria perder a Primeira Comunhão dos meus meninos?, a Irmã Lurdes fingindo-se ofendida... Tinha sido ela a principal impulsionadora desta celebração.

Durante a viagem de comboio a Irmã tinha-me falado da importância desta festa, carregada de simbolismo quer religioso, quer cultural e com um significado muito particular na História recente de Moçambique. Durante a guerra civil a instabilidade era tanta e as estradas tão perigosas, que não era possível os padres deslocarem-se para fazer qualquer celebração. Nem mesmo os funerais tradicionais ou os rituais de iniciação, tão importantes na cultura macua, eram cumpridos. Nos anos da guerra ninguém construiu casas, ninguém cultivou os campos, ninguém dormia uma semana seguida no mesmo local... Só depois de a guerra civil ter terminado é que foi possível reconstruir as estradas, e a paz recente foi terreno fértil para reavivar os rituais. Era, portanto, chegada a altura da Primeira Comunhão dos primeiros bebés que tinham sido baptizados depois da guerra! A alegria das pessoas era evidente, expressa na forma como se vestiam, como tinham ornamentado a igreja com flores do campo, como tinham construído um enorme telheiro para celebrar a missa no exterior, uma vez que a afluência seria tal que a multidão não caberia na igreja. “Temos uma Paz que já deu frutos!”, era uma ideia que se ouvia um pouco por todo o lado. Tocante, sem dúvida, e que privilégio, assistir a um acontecimento destes!

De súbito, o chamamento para a celebração interrompe as apresentações. Volto-me, incrédula, para a origem do som que me parece ser de um sino, para descobrir que se trata de uma jante de um pneu de um jeep, pendurada num tronco de árvore, que o animador paroquial toca solenemente como se fosse um gongo. Está na hora da missa!

De caminho somos interceptadas por um professor de uma das turmas que hoje fará a Primeira Comunhão, que se aproxima trazendo pela mão um menino com ar triste, que aparenta uns 8 ou 9 anos. “Quando estava a jogar futebol, há uma hora, caiu para o chão e ficou estendido. Só acordou depois.” Faço várias perguntas ao professor, mas não o viu cair. Ninguém sabe, portanto, se tropeçou ou se desmaiou. A Irmã Lurdes põe-lhe a mão na testa. Está fresco... E não tem má cara... Um exame neurológico sumário não revela alterações, deve ter tido uma breve perda de consciência depois do traumatismo craniano, penso. Como se tivéssemos telepatia a Irmã leva a mão à carteira para ir buscar os medicamentos que sempre a acompanham: 
– Vai tomar este comprimido de paracetamol e vai-se deitar agora. Antes de irmos venham-nos dizer como está.
– Obrigado, Irmã.

Continuamos para a missa, pois já se ouvem os cânticos da entrada. (Batuques e vozes. Batuques e vozes apenas. Fico sempre surpreendida de como conseguem criar uma harmonia tão simplesmente bonita e envolvente.) Estaquei à entrada do telheiro, deslumbrada por aquela missa de uma alegria ritmada e ruidosa: um conjunto de mulheres e meninas, vestidas com capulanas iguais avançam pelo espaço central, dançando com uma coreografia simples, mas cheia de força e energia, com toda a assembleia compenetrada em bater palmas ritmicamente. Uma voz feminina sobrepõe-se às outras, clara e cristalina, vibrando ágil, quase no limite do sobreagudo (Como é possível? Para haver quem cante assim é preciso haver quem ensine... ou... quer dizer... ou não?)! Ouve-se, a intervalos, o alarido de algumas mulheres, marcando os silêncios das solistas e o padre Filomeno, ao fundo, dança também e bate palmas acompanhando a assembleia. Ao fim de alguns minutos, após um ralentando irrepreensível, faz-se silêncio e o padre começa a celebração em Macua, uma língua subitamente eufónica e melodiosa. Não consigo deixar de me sentir esmagada por esta cultura, que absorveu uma religião milenar e a traduziu com os cinco sentidos, que lhe deu uma cara alegre e jocosa, um novo som, um novo ritmo, que virou do avesso uma religião sisuda e dança agora ao som das suas palavras africanas. Depois da missa, que durou mais de duas horas sem que se desse pelo tempo, somos recebidos na sala das visitas da aldeia, para o almoço, que cheira deliciosamente... Galinha com arroz e feijão, temperada de uma forma que nunca tinha comido. [...]

Patrícia Lopes (Médica)

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Um dia com o Ricardo

A Eugénia, enfermeira portuguesa, voluntária no Hospital de Marrere, acompanhou o Ricardo (voluntário da APARF ao serviço dos doentes de lepra) e conta-nos um dia de trabalho.

A viagem de mota com o Ricardo até foi bem divertida. Decorridos poucos quilómetros os meus receios ficaram ultrapassados e consegui cumprir o prometido.De facto, há locais onde os voluntários só podem chegar por este meio de transporte, e alguns só durante a época seca, devido ao caudal dos rios na época das chuvas.

A “brigada” desta vez deslocava-se em duas motas. Eu viajava com o Ricardo e a Vanda com o Enf. Rajá que é o colega responsável pelo Programa Nacional de Controle de Lepra e Tuberculose no distrito de Murrupula.

Na localidade de Baroni -1, no espaço social da aldeia (um enorme terreiro com uma refrescante sombra de uma frondosa mangueira) éramos esperados pelo “activista” Sr. Alberto e ainda por cerca de 150 pessoas, das quais a maioria eram crianças. Tratava-se de uma concentração, ou seja uma reunião, para a qual são convocados os antigos doentes, as pessoas que apresentam manchas na pele e ainda outras pessoas com alguma doença para beneficiarem da visita do Enfermeiro Rajá. Feitos os cumprimentos e as apresentações das forasteiras (eu e a Vanda), o activista deu início à sua palestra sobre a Lepra, abordando os aspectos ligados ao diagnóstico precoce, ao tratamento e formas de acesso aos medicamentos específicos desta doença. Em seguida, o Enfermeiro Rajá fez uma sessão de esclarecimento sobre a tuberculose pulmonar, com o objectivo de alertar as pessoas para os sinais e sintomas da doença, de forma a estimular a população para a procura dos técnicos de saúde. Entre os doentes, destacava-se um homem já de idade (a esperança média de vida é de cerca de 40 anos) que seguia muito atentamente as exposições. O Sr. Poeira, fez algumas perguntas e revelando algum talento para as artes cénicas, encenou ali algumas questões resultantes do isolamento, que é necessário para evitar a transmissão da tuberculose. Mais uma vez, ressaltaram neste contexto, as crenças que sustentam alguns comportamentos de risco face à transmissão desta doença, pois as pessoas preferem manter o convívio com  os doentes sem as necessárias precauções, em vez de as conduzirem aos locais, onde podem iniciar o tratamento, e por esse facto, fazer um período de separação da família.

Concluída esta sessão de formação dirigida àquela população, as pessoas que apresentavam manchas suspeitas de lepra foram observadas pelo Ricardo e Enf. Rajá e felizmente não foram sinalizados novos casos. O Ricardo, não tinha qualquer formação na área da saúde (à excepção do curso de lepra), quando iniciou o seu trabalho de voluntário. No entanto cumpre muito bem o que a Associação espera dele, ou seja, contribuir para o despiste precoce deste flagelo, apoiar os antigos doentes, colaborar com o Responsável do Programa, e minorar o sofrimento dos mais pobres através de pequenas ajudas, para além de estimular e apoiar o trabalho do grupo de voluntários, que estão na base e sustentam este projecto. 

Havia vários casos de sarna (doença muito comum) na população africana devido à falta de higiene. Costumo dizer que, muitos problemas de saúde se resolveriam com muita água e sabão, consumo de água potável, comida e desparasitantes. Para acudir às necessidades de tratamento de sarna, o Paulo Bica (anterior voluntário da APARF na Missão de Murrupula) e eventualmente dotado com uma costela de druida ou curandeiro, confeccionou uma pasta feita com sabão, óleo, açúcar e um desinfectante (savlon) que tem dado muitos bons resultados. Claro que, as medidas de higiene que se aconselham, quando se distribui a pomada, o estímulo ao arejamento das esteiras, o recurso a roupa limpa após a aplicação da pomada, são aspectos muito importantes, mas não retira o mérito nem as propriedades terapêuticas deste remédio caseiro. Este fica muito barato, é distribuído gratuitamente, e ninguém ficou  por tratar pois o Ricardo levava a mochila bem recheada de saquinhos de plástico com a pomada. Exige-se um planeamento cuidadoso do trabalho, previsão de contratempos e problemas que podem inviabilizar a execução do trabalho, porque os doentes de lepra não podem interromper o tratamento, e as avaliações da evolução da doença obedecem a um calendário próprio. 

O Enf. Rajá fez algumas consultas e distribuiu medicamentos para combater os sintomas que muita gente apresenta (dores de coluna “muthana”, febres, dores de barriga “bexiga” e as famosas hérnias “chibatas ou conhunhos”. Aconselhou algumas pessoas a deslocar-se ao Centro de Saúde, pois tinham alguns sintomas que evidenciavam provável tuberculose. O Ricardo distribuiu sabão pelos antigos doentes, mães com bebés pequenos e pessoas com sarna e feridas cutâneas... Eu e a Vanda ocupámo-nos a fazer tratamentos às feridas mais graves. 

Terminados os trabalhos presentearam-nos com banana maçã, e uma galinha assada na brasa. Estes gestos simbolizam o agradecimento da nossa visita, pois apesar de muito pobres gostam de receber e tratar bem os visitantes.
Quando iniciámos a viagem de regresso, o sol estava a pique e fustigava-nos com a sua inclemência. A corrente da mota do Ricardo saltou do lugar, o que obrigou a uma paragem inesperada. Não pude ajudar, pois foi necessária a intervenção do Rajá que, tendo dado pela nossa ausência, voltou atrás e ajudou a solucionar este pequeno acidente.

Aqui os voluntários têm de ser polivalentes, criativos, empenhados, aventureiros, abnegados, resistentes, pacientes, ter capacidade de adaptação ás circunstâncias, caso contrário não poderão dar resposta à multiplicidade de problemas que diariamente acontecem, nem suportar o esforço diário das deslocações feitas em condições muito difíceis.

No final deste dia posso confessar que o balanço desta experiência é muito positivo. Venci o medo de andar de mota, conheci o Sr. Poeira que revelou ser muito interventivo e com talento para o teatro e que no final da manhã desemperrou a língua e falou muito bem o português quando fez uma fotografia com a “mukunya”(branca). Constatei mais uma vez a pobreza e falta de condições do povo que vive em locais muito isolados, sem recurso a médico ou enfermeiro. Ao Ricardo antes de mais devo agradecer toda a paciência que teve comigo, as atenções na condução para que eu aguentasse as irregularidades do piso, a possibilidade de ter tido mais esta experiência, a disponibilidade em permitir que observasse o seu trabalho. Não é demais salientar o precioso contributo que, jovens como o Ricardo e a Vanda, dão para melhorar um pouco a vida de tanta gente anónima, que padece de um flagelo que, alguns dos que me lêem, só conhecem através da parábola da Bíblia.

Eugénia Ferreira

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O meu dia de anos

No passado dia 26 de Agosto fiz 26 anos. É verdade, casei os dias com os anos e não podia ter sido mais especial. O dia começou com uma cerimónia de três horas na igreja de Murrupula com cerca de mil espectadores. Esta palavra espectadores não pode ser empregue porque, aqui, as pessoas participam de uma forma activa, emanam alegria e energia, cantam, dançam, riem, vibram em uníssono como se fossem um só corpo, sem a tosse crónica tão característica das nossas cerimónias que tanto nos incomoda. Aqui, podíamos ficar todo o dia que ninguém se impacientava a olhar para o relógio. Aqui, as horas passam rápido. Fomos convidados a participar, dançámos e cantámos. As cerca de mil pessoas cantaram-me os parabéns e agradeceram a minha presença. Fui chamado ao altar e ainda tive tempo de soltar umas palavras tremidas mas que emanavam uma alegria que até então desconhecia.

Terminada a cerimónia fomos para a Missão. A festa agora era presidida pelo Padre Jacob, missionário de S. João Baptista com quem vivo. Estiveram presentes o Sr. João, presidente da APARF e Sr. Ramiro, colaborador, que me entregaram as tão aguardadas encomendas (mimos) de Portugal. Aqui, quando recebemos uma encomenda, até uma chouriça pode ser olhada com a veneração de uma peça de joalharia.
Os rapazes internos e os seminaristas também prestaram a sua homenagem. O dia só acabou na cidade, em casa das Irmãs de S. João Baptista. Mais uma vez soprei as velas. Foi um dia muito preenchido, repleto de júbilo.

FURO DE ÁGUA
Dia 13 de Setembro fui sozinho à comunidade do Namilo. O enfermeiro Rajá, com quem trabalho, teve de ir à cidade proceder ao levantamento dos medicamentos.

No Namilo, deparei-me com vários problemas mas um deixou-me particularmente preocupado. Nesta comunidade, a falta de água é o maior problema. O furo que abastece a população não se encontra a funcionar há cerca de 7 meses. Doenças como a sarna (a mais facilmente detectável), estão a surgir em grandes proporções. Estamos numa época em que os caudais dos rios são reduzidos e na sua maior parte a água já não corre, ficando estagnada e imprópria para o consumo. Vou mover todos os esforços para que as entidades responsáveis venham proceder à reparação deste furo.

FUTEBOL
Os voluntários da lepra que trabalham comigo no distrito de Murrupula e os voluntários que trabalham no distrito de Nampula com a Vanda, fizeram um desafio de futebol aquando do nosso encontro. A nossa equipa ganhou 3 a 0.

Fui eu a inaugurar o marcador num gesto de pura sorte, um chapéu de fora da área, mas devo confessar que a minha equipa não era constituída na sua totalidade por voluntários, devido principalmente às suas idades, tivemos de requisitar alguns miúdos do bairro.

A partir deste dia os miúdos do bairro e alguns voluntários não mais pararam de jogar. Já toda a gente ouviu falar nesta equipa que tem treinado e defrontado várias equipas. Tem feito as deslocações por sua conta. A ajuda que tiveram foi no dia do jogo com os voluntários “da Vanda” que receberam de nós (voluntários da APARF) sapatilhas, e da AIFO, camisolas. Eu queria recompensar o esforço na divulgação do trabalho que realizamos no programa da lepra e tuberculose. Gostava de lhes oferecer um equipamento.

Ricardo Leonardo
(Voluntário da APARF)

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Um dia com a Vanda

A Eugénia Ferreira exerceu a sua profissão de Enfermeira como chefe do Bloco Operatório do Hospital Pediátrico de Coimbra. Actualmente, em Moçambique, a trabalhar como Voluntária no Hospital de Marrere quis conhecer o trabalho dos Voluntários da APARF ao serviço dos doentes de lepra naquele país e vem-nos contar “um dia com a Vanda”.

Sempre tive muita vontade de conhecer o trabalho desenvolvido pelos voluntários da APARF aqui em Moçambique. Apesar de falar muitas vezes com ambos (Ricardo e Vanda) acerca das suas actividades, era forçoso reservar um dia para acompanhar no terreno de modo a ter contacto com a realidade do trabalho desenvolvido nesta área da  lepra. Por questões logísticas e de proximidade passei um dia com a Vanda. Pela manhã saímos em direcção a Rapale, passando pela Faina para apanhar o Sr. Cássimo, enfermeiro Supervisor do Distrito de Nampula / Rapale para o Programa Nacional de Controlo de Tuberculose e Lepra. Este colega moçambicano trabalha há 10 anos nesta área, conhece muito bem todo o distrito, tem todos os doentes sinalizados, e claro, é o responsável pelo controle destes doentes. A Vanda trabalha em estreita colaboração com ele e desenvolve um trabalho notável como eu já suspeitava. É uma apaixonada pelo bem estar dos doentes, estabelece com eles uma relação muito afável, preocupa-se genuinamente com eles, estabelece compromissos com os mesmos de modo a favorecer a adesão ao tratamento que é muito longo, incute-lhes esperança e conhece-os como se fossem parte da sua família moçambicana.

No meio da vila de Rapale encontramos o Carlitos, um dos seus doentes que tinha sido já “capturado” pelo activista local. Enquanto a Vanda e Senhor Cássimo procediam às formalidades burocráticas do início da semana, tratei as feridas das pernas e pés do Carlitos. Estavam impregnadas de pó, restos de violeta de genciana e crostas muito secas. Arregacei as mangas que não tinha, calcei umas luvas e fiz–lhe uma boa limpeza, remoção das crostas, aplicação de pomadas e fechei com ligaduras de modo a ficarem livres de sujidade e moscas. Foi a única coisa de útil que fiz pelos doentes de lepra, mas senti-me muito gratificada por poder ser útil.

Terminados os trabalhos que ali nos levaram e não havendo outra alternativa de caminho, regressámos a Nampula para então nos dirigirmos para a Caramaja. Desviamo-nos da picada principal e dirigimo-nos a Ratane -B onde éramos esperados por um grupo de pessoas com suspeita de doença que tinham sido sinalizadas pelo activista local o Sr. Agostinho Quatro Horas. O calor já apertava quando estacionámos a viatura junto do local habitual da reunião, ou seja à sombra de um cajueiro.

Confirmaram-se 3 doentes, dois dos quais eram as autoridades locais, o Sr. Elias cabo de zona e o Sr. Rachide comandante da polícia comunitária. Dois antigos doentes também compareceram e as mutilações que a doença deixou eram bem evidentes. A Vanda ofereceu – lhes sandálias e sabão ficando muito agradecidos com estes presentes. Curiosamente, os suspeitos que depois de observados pelo experiente Sr. Cássimo os declarou livres de doença, ficaram muito tristes. Esta manifestação de tristeza deve-se ao facto de não puderem ser contemplados mensalmente com a visita dos técnicos e não poderem receber pequenas ajudas que se traduzem em sal, sabão, roupa, pão, sandálias ou cobertores. É muito estranho, mas neste contexto de pobreza extrema, ser alvo de ajuda e de atenções naquelas comunidades longínquas só acontece quando se tem esta doença o que explica aquela manifestação de tristeza. No posto de saúde da Caramaja o Sr. Cardoso, antigo doente e agora colaborador dos técnicos com o estatuto de voluntário, pede frequentemente ao Enfermeiro deste posto algumas carteiras de medicamentos contra a lepra, como remédio para outro tipo de queixas que já não têm como causa a doença de que padeceu e da qual felizmente está curado e sem mutilações. Como já tenho observado noutros contextos os doentes atribuem aos comprimidos um poder mágico. Raramente expressam bem as suas queixas, mas vêm pedir comprimidos como quem pede um copo de água para matar a sede.

Neste posto de Saúde onde chegámos já por volta das 13 horas, foram vistos vários doentes. Destes o Amisse teve alta e ganhou umas sandálias novas. A Cacilda, uma menina de 12 anos, e outros mantêm ainda o tratamento por mais alguns meses.

Os doentes que faltaram à consulta serão contactados pelo voluntário local que lhes fará chegar os medicamentos necessários para darem continuidade ao seu tratamento.

Um dos factores de sucesso para a cura desta doença, bem como das doenças de longa duração, prende-se com a adesão dos doentes ao tratamento que é longo (seis a doze meses). É nesta vertente que a Vanda aposta fortemente. A sua formação científica como enfermeira e as suas características pessoais permitem-lhe usar estratégias para criar uma relação com os doentes que extravasa o âmbito profissional. É interessante perceber que faz o seu trabalho com muita entrega, esforça-se por se fazer compreender utilizando muitos termos em língua makua, e que procura dentro do possível ajustar as suas ajudas às particularidades de cada um deles, o que é bem revelador da sua dedicação. 

No meu papel de enfermeira aposentada e igualmente voluntária, mas no Hospital do Marrere no Hospital de Dia de doentes com HIV – SIDA confirmei que de facto é um trabalho muito duro, pois é necessário ir ao encontro dos doentes, a maior parte das vezes em locais muito pouco acessíveis, por maus caminhos, aguentar fome e sede pois não há locais onde petiscar ou tomar uma bebida fresca, e possuir um grande gosto pelo trabalho em favor deste grupo de pessoas com lepra, em regra muito desfavorecidos e excluídos. 

É justo, por isso render a minha admiração por estes jovens voluntários que deixaram família e amigos, o conforto do lar, o acesso aos bens de consumo, as facilidades que a “civilização” proporciona para se dedicarem a este povo vencido pela doença e pobreza.

Irei tentar perder o medo de andar de mota para acompanhar o Ricardo no seu trabalho de voluntário no distrito de Murrupula e certamente darei igualmente testemunho das suas actividades com os doentes de lepra naquela zona.

Eugénia Ferreira

sábado, 3 de novembro de 2018

Um Dia Depois da Noite - parte II

[... continuação...]

A sala de partos, alumiada por uma única vela, está cheia de penumbra e múltiplas sombras enormes nas paredes, mas consigo distinguir claramente a face da jovem grávida que trouxemos de Murralelo, que afinal era uma das professoras da escola da aldeia. Todos os partos anteriores tinham sido em casa mas, apesar de ser ainda jovem, este já é o décimo filho e fiquei a saber que no ano passado teve um nado-morto após um trabalho de parto particularmente complicado e por isso tinha decidido dar à luz este “menino de ouro” no hospital da missão, deixando os outros filhos ao cuidado das tias e dos irmãos mais velhos. Deitada, completamente despida sobre a marquesa surpreende-me o seu corpo completamente tatuado do peito para baixo, até aos joelhos, com padrões em relevo bem delineados e quase perfeitamente simétricos, que só podem ter sido realizados com recurso a incisões cutâneas bastante profundas de forma a fazer este tipo de cicatriz. Tento não fazer uma expressão que denuncie o meu sentimento de horror por aquele corpo martirizado. Beleza, a quanto obrigas... Ao seu lado, a D. Catarina tem a mão sempre pousada sobre o ventre da jovem mãe, num quadro que faz evocar a maternidade de outros tempos.

A parturiente está a gemer, com a dilatação quase completa. Felizmente, tem tido sempre as mãos experientes da D. Catarina a massajá-la para a ajudar a relaxar. Este parto não está a correr bem. As contracções estão muito espaçadas e a D. Catarina está preocupada. A bolsa das águas já rompeu há muitas horas e a senhora está a ficar com febre. E o pior de tudo é que o útero se está a contrair pouco e a senhora corre o risco de ter uma grande hemorragia no pós-parto... Ausculto os batimentos cardíacos do feto, que estão anormalmente acelerados... Sei o que isso quer dizer: Infecção!

– Não podemos colocar um antibiótico à senhora?
– Sim, Doutora, mas tem de prescrever.
– Claro, prescrevo já. E não têm nada para aumentar as contracções?
– Talvez haja oxitocina no armazém... Se a Doutora tiver a chave.
– Tenho, vou ver se encontro alguma coisa que nos sirva...

Havia, felizmente, uma ou duas ampolas com o princípio activo escrito em alemão, certamente cedidas por alguma ONG que coopera com as Irmãs.

Em pouco tempo as contracções tornaram-se mais próximas e prolongadas.
– Já está quase, faça força outra vez. Quer fazer o parto, Doutora?
– Não, nem pensar! Nunca fiz nenhum...
– Não acredito, Doutora está a mentir!
– Não, é verdade. Ou melhor, fiz um, mas com muita ajuda...
– Eu ajudo também. Doutora vai fazer o parto.

Não havia como argumentar, a D. Catarina tinha decidido que quem faria o parto seria eu. Arregacei as mangas e calcei as luvas mesmo a tempo de receber o bebé. Foi muito fácil este parto, realmente, foi quase só amparar o períneo e impedir que o bebé caísse estatelado no chão... Graças a Deus! A natureza providenciou tudo o resto. E à pálida luz da vela houve um momento incrível de expectativa e silêncio absoluto, em que entreguei o menino à D. Catarina, que o esperava calmamente ao meu lado, com uma capulana nas mãos. O bebé teve choro imediato, num grito que encheu a noite e os gemidos e receios da mãe transformaram-se em riso e agradecimento.

– Nasceu! Nasceu e é macho! Papá, nasceu e é macho!

O grito de júbilo da D. Catarina enquanto eu cortava o cordão umbilical e o alarido das familiares da parturiente que se seguiu só pode ter acordado o hospital inteiro! Também eu estou quase de lágrima a assomar ao cantinho do olho... Ainda nem acredito que, sem contar com nada disto, recebi um bebé pelas minhas próprias mãos. 

– Parabéns, mamã! É um rapaz lindo! Como é que se vai chamar?
– Ainda não. Há-de chamar depois.
– Pois, Doutora – responde a D. Catarina – os bebés não podem ter nome antes de nascer. Até podem morrer! Só depois de nascer se pode fazer cerimónia e dar nome, antes não.

(Estou sempre a pôr o pé na poça, credo...)

Sim, mas faz sentido, eu já sabia que na cultura macua o conceito de futuro é tabu. O futuro é propriedade dos antepassados e fazer planos pode ser uma intrusão num terreno interdito, um terreno que não pertence às pessoas e a falta pode ser gravemente punida... Bem, mas já que não percebo a cultura, tenho de me preocupar com as coisas que sei fazer. O bebé está óptimo e coloco-o ao peito da mãe. Inspecciono a placenta, que veio intacta, o útero também está bem contraído, graças a Deus e à ONG alemã – e não há sinais de hemorragia grave.

Agora tenho de me ir deitar urgentemente, antes que me demova de vez a perspectiva de voltar a atravessar o caminho para casa, escrutinando todos os acidentes de terreno com uma lanterna. Antes que o momento de magia que acabei de viver me invada totalmente e me faça fazer qualquer coisa completamente louca, como ficar a dormir aqui mesmo, ao relento nesta noite fantástica, invadida pelo cheiro intenso da savana e adormecer a olhar a paisagem das estrelas e das montanhas a arder aqui e ali, no chão da varanda do hospital, juntamente com os familiares dos doentes. Quando chego à casa da Missão cruzo-me com as Irmãs que já se levantaram para rezar as Laudes na capela.

– Era rapaz não era? – perguntam.
– Sim, nasceu um rapaz agora mesmo, como é que sabem?

– Pelo alarido que até aqui se ouviu... só podia mesmo ser um rapaz!
Patrícia Lopes (Médica)
Voluntária da APARF