sexta-feira, 19 de julho de 2019

CRIANÇAS COM HISTÓRIA

Na minha actividade como enfermeira voluntária no Hospital Dia do Hospital do Marrere tomei contacto com todas as crianças e famílias que frequentavam a consulta. Conheci várias famílias afectadas com a terrível doença do século – HIV /Sida. 

Partilharam comigo os seus dramas e sofrimento. São histórias tecidas de muitas privações, fome e pobreza das quais eu sou testemunha. Fazem longas caminhadas a pé (mais de 20km), descalças, famintas, para terem uma consulta desta especialidade. As crianças, sendo um grupo vulnerável, ficam ainda mais expostas a todas estas circunstâncias adversas, tendo por isso vivências muito difíceis.

Para que possam avaliar melhor todo este contexto, partilho convosco a história da Dina Feliciano, uma das crianças que foi salva graças à generosidade de muitos associados e leitores da revista da APARF e que, sensibilizadas pelo meu apelo, rapidamente se organizaram fazendo chegar o seu donativo. A Dina nasceu a 26 de Janeiro de 2008. No seu boletim individual de saúde tinha registado 3200 gramas de peso de nascimento. No dia 16 de Maio, foi internada na enfermaria de pediatria por desnutrição severa, diarreia e febre. Fez o tratamento habitual para combater estes problemas. Depois de tratada teve alta mas era necessário resolver o problema da desnutrição, pois a Dina na altura do internamento pesava 2900 gramas, ou seja aos 4 meses de idade tinha menos 300 gramas em relação ao peso de nascimento.

Quando foi enviada para a minha consulta, confesso que fiquei muito perturbada. A Dina chorava muito quando lhe tocava para a pesar e medir, o seu olhar era de muito sofrimento e como podem imaginar o seu corpinho era de uma magreza extrema. Felizmente tinha sempre comigo no gabinete um termo com água fervida, biberões e leite. Preparei um biberão com o leite adequado e felizmente a Dina mamou com muito apetite e após ter saciado a fome adormeceu em seguida no colo da Mãe, que está infectada com o vírus HIV/SIDA.

Esta Mãe era uma doente inscrita na Consulta. Já tinha iniciado o tratamento com antiretrovirais, mas tinha abandonado a consulta e o tratamento. Era uma jovem evidenciando degradação do seu estado geral, muito magra, com várias lesões cutâneas, dificuldade na marcha e uma tristeza insuportável no seu rosto. Estava tão debilitada que não suportava o peso da sua filha ao colo.

Esta jovem Mãe andou a fugir à sua doença e com ela arrastou a sua filha. Tinha falseado os seus dados de residência (situação muito comum), pois não querem que a família e vizinhança saibam da sua doença. Foi “capturada” por um activista (funcionário que tem a responsabilidade de contactar os doentes faltosos e os que abandonam a consulta) por mero acaso, quando efectuava contactos num dos bairros periféricos da cidade. Foi reconhecida, e dada a gravidade da situação de ambas foi convidada a recorrer ao hospital.

A Dina recuperou da sua desnutrição, e no dia 18 de Julho pesava 5600, ou seja, estava prestes a dobrar o peso que tinha quando chegou ao hospital. Estava linda e sorria francamente.

Compreendo a natural necessidade de vinculação dos benfeitores com as crianças a quem ajudam. No entanto, é preciso que tomem consciência da impossibilidade de personalizar os contactos por diversas razões: em primeiro lugar não existe distribuição de correio ao domicílio. Os bairros onde a maior parte das crianças vivem, são um emaranhado de vielas e ruas de terra batida, sem numeração ou qualquer identificação. Os pontos de referência não são as esquinas ou cruzamentos, mas as mangueiras, cajueiros, mercados tradicionais, barraca onde se vende kapanga (bebida tradicional), muro da escola, montanha, igreja, casa do chefe do bairro, etc.

Depois as famílias mudam muito facilmente de bairro, cidade, província ou distrito por variadas razões (busca de melhores condições, fuga de problemas com família ou vizinhos, desagregação das famílias por morte ou separação). Toda esta instabilidade, como compreenderão, inviabiliza neste contexto quaisquer contactos personalizados com os destinatários da vossa ajuda.  

Algumas destas crianças têm a sua sobrevivência ameaçada devido a infecções oportunistas, para as quais muitas vezes não há recursos terapêuticos adequados. Os dados estatísticos dizem-nos que não chegarão a completar os cinco anos de vida.

A vossa generosidade está a contribuir para melhorar a situação nutricional de 30 crianças do Hospital Dia. Algumas delas engordaram em média 2 quilos, começaram a gatinhar e a dar os primeiros passos, e ganharam vontade de sorrir, e essa conquista tem a marca da vossa ajuda. Penso que esse aspecto é de facto o mais importante.

Não se trata de um “projecto de apadrinhamento”, mas sim de uma atitude verdadeiramente altruísta de todos, pois trata-se de FAZER BEM SEM OLHAR A QUEM. São crianças desfavorecidas e doentes que precisam de uma oportunidade de deixar de ter fome.

Maria Eugénia Ferreira
Enfermeira voluntária no Hospital do Marrere e Responsável do Projecto SOS - Crianças em Risco

sexta-feira, 31 de maio de 2019

SOS - CRIANÇAS EM RISCO / MOÇAMBIQUE

No meu trabalho de voluntária, contacto, diariamente, com crianças desnutridas e infectadas com HIV/SIDA. É uma experiência muito perturbadora e angustiante.

É impossível ficar indiferente perante crianças cujos sinais de desnutrição são tão chocantes. No seu corpo minguado, de rosto envelhecido, cabelo descolorido, ventre aumentado de volume, sobressai um olhar profundo que nos provoca uma enorme inquietação. Choram quando tentamos o contacto físico pois tudo nelas é sofrimento. As mães, que as carregaram no ventre, foram vítimas de períodos de fome, facto que condicionou o desenvolvimento do feto.

Se a mãe amamentar desde o nascimento até aos 24 meses, 10 a 20% das crianças adquirem a infecção por HIV/Sida. Perante estes dados torna-se praticamente inevitável a transmissão da doença. A introdução da alimentação artificial comporta alguns riscos. No entanto, muitas crianças podem melhorar, se beneficiarem deste tipo de alimentação.

Na minha experiência constato que nenhuma família dispõe de possibilidades económicas para adquirir o leite e papas necessárias para sobrevivência do seu filho. Em média, a alimentação de uma criança custa 30 euros por mês (1 EURO POR DIA), verba que lhes é completamente impossível disponibilizar do magríssimo orçamento familiar.

Há várias maneiras de poderem ajudar a melhorar o futuro destas crianças:
AJUDA INDIVIDUAL – contribuir com um determinado montante mensal. 
AJUDA COLECTIVA – Criar grupos (4 ou 5 colegas ou amigas) em que cada uma contribua com uma quantia mensal até perfazer aquela verba. 
AJUDA FAMILIAR – Fazer uma recolha de fundos entre a família e amigos com o objectivo de sustentar a alimentação mensal de uma criança.
Ajude as crianças a ganharem vontade de sorrir. Não lhes negue essa oportunidade.

6 Biberões de leite para uma criança = preço de 1 “bica” 

Eugénia Ferreira - Enfermeira

segunda-feira, 27 de maio de 2019

NELSON - O MEU MENINO GAIATO - Parte V

(Continuação...)

Um mês depois, já em Portugal, no meu ano de finalista, completamente embrenhada no estágio de Cirurgia que me ocupava dia e noite, recebi um telefonema que haveria de mudar a minha vida. Do outro lado da linha, no meio de emoção contida e ruído de interferências, a Tia Cármen fazia-me um pedido extraordinário: o menino que eu tratara da tuberculose pulmonar estava em Lisboa, internado no Hospital de Santa Maria e seria eu, se fosse possível, que ficaria responsável por cuidar dele. Que lhe dizia? Podia ser? 

Parecia um sonho e um pesadelo ao mesmo tempo... O que tinha o menino para estar internado? Ainda não se sabia ao certo, ficara com metade do corpo paralisada de repente, respondia a Tia Cármen, quase a rebentar em lágrimas, que cuidasse bem dele, por favor...

Não foi fácil encontrá-lo naquele hospital labiríntico, até porque no meio do telefonema da Tia Cármen, durante uma cirurgia de emergência no Hospital de São José, a última coisa que me ocorreria teria sido perguntar pelo apelido do menino. Algumas horas depois, mal acreditando no que via, fui dar com ele num quarto de isolamento, onde o tinham colocado por causa da tuberculose, completamente sozinho, a chorar convulsivamente. Pedi para ir ter com ele e, depois de muita insistência, lá me deixaram entrar com bata, máscara, touca e muitos avisos de que “tenha cuidado, ele tem tuberculose, todo o cuidado é pouco!” 

Como é que a vida consegue às vezes ser tão cruel para uma criança? Aquele menino tinha perdido os pais, tinha-se adaptado com dificuldade a um orfanato, sobrevivido a uma doença tão grave e, em poucos dias, a vida pregara-lhe uma rasteira novamente... tinha deixado de se conseguir movimentar, correr, falar e tinha sido colocado num avião, atravessado meio mundo completamente sozinho para ir depois para um quarto de isolamento num país que não era o seu, no meio de pessoas a quem não conseguia ver o rosto e que cuidavam dele apenas pelo tempo estritamente necessário... Será que poderia algum dia recuperar disto? 

Assim que fechei a porta do quarto tirei aquela máscara e a touca ridículas que nunca me passara pela cabeça utilizar em Moçambique, mesmo no auge da sua doença, mas nem assim o menino deu sinais de me reconhecer. Só depois de muitas horas a falar-lhe da Casa do Gaiato, da Tia Cármen, do Senhor Padre e dos outros meninos da Casa é que deu sinais de querer voltar à realidade e se decidiu, com muita dificuldade, a articular uma única frase: “Amanhã vai vir?” Claro que viria... Todos os dias.
Diziam-me que se suspeitava de que a causa da paralisia fosse uma doença infecciosa tropical (como se os meninos africanos não pudessem ter as mesmas doenças sofisticadas dos meninos europeus...) e ainda passaram alguns dias até me darem o diagnóstico definitivo: era um tumor maligno do cérebro e o menino tinha poucos meses de vida... Confirmava-se, infelizmente, a minha primeira impressão sobre ele: o meu menino nunca tinha sido deste mundo... O Neuropediatra Nuno Lobo Antunes, uma das pessoas mais experientes no assunto do nosso país e que o acompanhou desde o início avisou-me que estes meninos, com tumores do tronco cerebral, morrem sempre duas vezes, mas nem nisso a sua vida foi linear: o meu menino morreu muitas mais, mas renasceu à minha frente outras tantas! E quando, por fim, se despediu de vez, tenho a certeza de que renasceu para o colo aberto de seus pais, que no céu há muito o esperavam.

Mas, assim, esta morte prematura anunciada foi como se tivesse sido a minha permissão para fazer o que nunca poderia ter feito com um filho de verdade: durante o tempo em que esteve comigo, estraguei-o com mimos, fiz-lhe deliberadamente as vontades todas. Pouco tempo depois o menino teve ordem para deixar o isolamento e, com a radioterapia, depressa voltou a falar e a parte do corpo paralisada ganhou vida novamente. O seu primeiro desenho ainda o tenho. E a sua primeira birra, sinal de que já estava seguro de que não me iria perder, foi o meu orgulho! A primeira frase que articulou correctamente ainda hoje me faz rir por causa do sotaque cerrado de que já não estava à espera... Levei a sério a missão de gozar aquele anjo enquanto cá esteve: deitávamo-nos tarde, víamos os mesmos filmes vezes sem conta, comíamos chocolates todos os dias, brincávamos a tudo o que nos passava pela cabeça, dançávamos danças africanas no meio da galhofa geral, cantávamos as músicas todas dos desenhos animados em karaoke... O meu único Natal com ele foi isso mesmo: único! E ele o meu menino Jesus... Para sempre menino. É ele o responsável de, por vezes, me assaltar uma vontade incontrolável de regressar a um país que não é o meu, mas que quero à viva força que não cresça sem mim... E é também ele o eterno culpado de eu ter escolhido ser Pediatra e afirmar a todos os pais, com verdadeiro conhecimento de causa, que basta que uma criança tenha quem se preocupe com ela para voltar a ter vontade de viver e ser feliz, mesmo que tenha passado pela mais dura das experiências.

Obrigada a todos e votos de um excelente ano, com muita saúde e felicidade.

Patrícia Lopes
(Médica)


quarta-feira, 22 de maio de 2019

NELSON - O MEU MENINO GAIATO - Parte IV

(Continuação...)

Havia que começar rapidamente o tratamento, mas se inicialmente parecia uma situação banal que se haveria de controlar facilmente, em pouco tempo comecei a ficar cada vez mais preocupada: o menino piorava a cada momento... Com ele nos meus braços passei aquela que até aí foi a noite mais longa da minha vida, angustiada com a nítida sensação de que alguma coisa de muito grave me estava a escapar, angustiada por aqueles olhos doces em sofrimento, que não se fecharam em toda a noite, angustiada pela dificuldade respiratória que voltava sempre, por mais aerossóis que lhe fizesse e pelo seu silêncio, apesar dos meus esforços para que me dissesse o que sentia e onde lhe doía. Só adormeceu ao amanhecer, exausto, quando a febre finalmente cedeu às várias doses de paracetamol e às toalhas com água morna com que tentei a noite inteira acalmar a febre sempre a subir, em tremores constantes e depois de já lhe ter enfiado dois antibióticos pela veia. Aquela doença seria malária, com certeza, porque tinha visto com os meus próprios olhos o parasita ao microscópio, mas não podia ser só malária, não podia mesmo... Pelo que auscultava, parecia-me ter uma pneumonia com derrame pleural. 

De manhã eu própria estava exausta e mais angustiada do que nunca. Não tinha coragem de descansar um minuto que fosse porque tinha a certeza de que ele poderia desistir a qualquer momento… das raras vezes em que abria os olhos já não sorria e o seu olhar de abandono dava-me a sensação de que não queria lutar mais… Não me esquecia de que tinha perdido os pais havia pouco tempo e ainda não tinha criado laços fortes com ninguém, nem mesmo com a Tia Cármen… Como é que uma criança haveria de ter alento e querer lutar nestas condições? A pouco e pouco foi respirando cada vez mais devagar… Ia parando lentamente, em pausas cada vez mais longas. Não sei quanto tempo mais fiquei a chorar sem coragem de aceitar o que se passava... De manhã o Vicente entrou, veio sentar-se ao meu lado, tirou-me o menino dos braços, deitou-o na cama e cobriu-o com um lençol. Abracei-o sem dizer nada. 

– Não chore, tia Patrícia. Tem de dormir, eu agora fico aqui, não vou à escola.
– Tens de ir, Vicente.
– Não, os professores já sabem que eu não vou porque um menino está muito doente. E este, quando chegou, dormia sempre comigo antes de a Tia Cármen vir.... Chamava pai a mim...

Comecei a chorar outra vez. Mas não me dava por achada. Enquanto houvesse mais alguma doença para tratar haveria de tratá-la! Durante a nossa conversa, talvez por ouvir a voz do Vicente, o seu primeiro pai naquela casa, abriu os olhos novamente e a respiração foi-se regularizando… Bendita manhã, que parece que torna sempre tudo menos terrível. Aquela sensação de absoluta certeza de que o menino ia morrer deu lugar a alguma esperança... podia ser que fosse só uma pneumonia que se tivesse aproveitado da fragilidade causada pela malária. 

– Ele tem mais qualquer coisa, Vicente, não é só malária, de certeza. Se amanhã ainda tiver febre, temos de ir ao Hospital Central.
– Vá descansar, tia Patrícia. Eu acordo-a se ele piorar.
Nem três horas depois, a febre voltava a subir e o Vicente foi-me acordar depois de tentar baixá-la em vão durante duas horas... De novo o olhar de despedida e a dificuldade respiratória. 
– Não aguento mais, temos de o levar para o hospital.
– Não, tia Patrícia, vamos esperar mais um pouco, o senhor Padre não vai concordar.
– Porquê?
– Tia Patrícia não conhece o Hospital Central. Todos morrem lá.
– Isso não pode ser verdade, Vicente.
– Não, tia Patrícia. Tia Patrícia não conhece o Hospital Central... Ele vai melhorar, malária é assim mesmo...

Acabámos por ir para o Hospital Central no dia seguinte, depois de mais um dia de febre, tremores e dificuldade respiratória cada vez mais intensa. Tínhamos repetido a análise e já não havia qualquer parasita em circulação. 

– Eu sabia que não era só malária, não podia ser...

Quando vi a radiografia abri a boca de espanto e a prova tuberculínica, dias depois confirmou o diagnóstico: era uma tuberculose pulmonar com um derrame pleural enorme. Mas o Vicente tinha razão quando tinha dito que eu não imaginava o que era o Hospital Central... Se tinha pensado que talvez fosse melhor o menino ficar internado, mudei de ideias no mesmo momento. Nem por sombras o deixaria no hospital. Quando me vim embora para Portugal, o menino já estava a melhorar, a febre baixava mais rapidamente e tinha feito alguns progressos na comunicação. Adorava estar ao colo e, de vez em quando, olhava para mim como que para ver se eu estava mesmo ali, se estava mesmo com ele... E pelo menos já não comunicava só com aquele sorriso lindo, já falava!


(Continua...)

sexta-feira, 17 de maio de 2019

NELSON - O MEU MENINO GAIATO - Parte III

(Continuação...)

De manhã, ao pequeno-almoço, falava também muitas vezes do “hóspede” que dormia no seu quarto, de como tinha passado a noite, se tinha tido pesadelos ou dormido tranquilamente. Mas só fiquei a saber quem era o tão falado hóspede quando uma noite ela me pediu para o observar porque o menino tinha passado o dia especialmente abatido e suspeitava de que poderia estar doente. Ele e o irmão tinham vindo viver para a Casa do Gaiato poucos meses antes, após a morte dos pais em circunstâncias que nunca cheguei a perguntar. Tinha cinco anos, mas era tão franzino e frágil que aparentava apenas três ou quatro e embora falasse correctamente, parecia que nunca abria a boca para dizer o que quer que fosse. Era o seu protegido porque era o mais novo na casa e estava a ter especial dificuldade na adaptação. E era um menino lindo... Tão lindo que não parecia deste mundo...

Nessa noite, quando peguei nele, leve como um anjo, para o levar para a enfermaria, reparei que tinha as mãos frias porque estava a arder em febre e que tinha alguma dificuldade respiratória. Apesar disso sorria-me, olhos nos olhos, com uma doçura tão triste e tão profunda que só me apeteceu chorar. Pedi ajuda ao Vicente, um Gaiato praticamente da minha idade cuja tarefa na casa era tratar da enfermaria e que se tinha tornado o meu principal aliado a cuidar dos meninos. Nem dois minutos depois, quando o menino já estava quase a adormecer ao meu colo, o termómetro marcava 40,2 ºC. 

– Malária!, disse o Vicente imediatamente, como um reflexo pavloviano. 

Foi aí que aprendi a fazer o teste: uma picadinha no dedo (partiu-se-me o coração de ver o menino chorar...), espalhar uma gota de sangue na preparação de vidro, após o que foi fixada numa estufa a 37 ºC. Quer dizer, teria sido fixada numa estufa a 37 ºC se houvesse estufa... Como não havia estufa, a preparação foi ao forno da cozinha. Depois aplicou-se o corante e a preparação foi a secar, ao pé da ventoinha... (No meio disto tudo ainda lá estaria a gota de sangue? Não teria sido cozinhada, ainda não se teria dissolvido, as células ainda não teriam rebentado com as diferenças de temperatura?) Estava lá tudo. E o agente da malária também. Plasmodium falciparum, o tipo mais perigoso! 

(Continua...)

segunda-feira, 13 de maio de 2019

NELSON - O MEU MENINO GAIATO - Parte II

(Continuação...)

Contou-me uma tarde a sua dura experiência de uma infância passada durante a guerra civil de Espanha, em que mais do que uma vez tinha sido obrigada a fugir a pé com a família. Nesse dia, já rendida àquela personagem maternal, divertida e invulgar, pedi-lhe para me falar dos seus trabalhos artísticos e ela contou-me simplesmente que o maior prémio de pintura que alguma vez tinha recebido retratava um enorme campo de girassóis. Dias depois mostrou-me uma fotografia desse quadro, em que os girassóis eram retratados a partir de baixo, com os caules cheios de espinhos e a luz do pôr-do-sol adivinhando-se coada pelas corolas das enormes flores. Mas longe de ser a visão serenamente bucólica que eu tinha imaginado pela descrição, a imagem veiculava uma desconcertante sensação de movimento e opressão. 

– Este quadro chama-se “A Fuga”. Durante anos tive a obsessão de pintar girassóis vistos por baixo porque tinha de deitar cá para fora a imagem do pior dia da minha vida, que foi o dia em que perdi o meu pai e tivemos de fugir de casa sem levar nada connosco, através de um campo de girassóis. Eu era muito pequena e só tenho a recordação de enterrar os sapatos na areia mole e mal conseguir avançar, como nos pesadelos. E os girassóis eram altíssimos e tinham uns espinhos enormes que não picavam, mas arranhavam a pele até ficar toda em ferida.

Estava explicada, portanto, a sua vocação do ensino da expressão plástica aos meninos. Ao ensiná-los a pintar estava a transmitir-lhes a sua melhor defesa da personalidade, a ensinar-lhes que pintando as suas angústias e medos poderiam mais facilmente vencê-los. Mas não eram só aulas de pintura que leccionava. Depois dos desenhos, os meninos contavam a história do desenho, falavam sobre as personagens, inventavam diálogos, projectavam-se nas figuras. Era magistral a forma como a Tia Cármen, sem nunca ter tido aulas de Psicologia, respondia às angústias dos meninos referidas às personagens no papel. Era comentado por todos, sobretudo pelas educadoras da escolinha, que os mais pequenos tinham ficado muito mais calmos desde que a Tia Cármen tinha chegado. Pudera... 


(Continua...)

terça-feira, 7 de maio de 2019

NELSON - O MEU MENINO GAIATO - Parte I

Em 2003, ainda antes do meu ano de finalista de Medicina, parti em voluntariado para a Casa do Gaiato de Maputo. E no meio da savana, entre o trabalho no Centro de Saúde e as noites com os meninos do orfanato havia o jantar com o senhor Padre José Maria e os outros voluntários da casa. Eram todos pessoas fascinantes, que me acolheram desde a primeira hora. Acabei por fazer uma amizade especial com a Tia Cármen, uma entusiástica voluntária espanhola, antiga empresária e viúva de um português, que há mais de dois anos deixava os filhos e os netos durante o ano lectivo para ir para a Casa do Gaiato dar aulas de pintura e expressão plástica. 

Na minha perspectiva, a Tia Cármen tinha vindo para ser a avó da casa, a figura de referência que os meninos, sendo órfãos, não tinham. Uma avó autêntica, com uma insuficiência cardíaca ligeira, uma doença pulmonar obstrutiva crónica que me deu trabalho controlar e, sobretudo, com uma enorme paixão pelos mais pequenos e com uma missão auto-proclamada, que era deixá-los ser meninos e ajudá-los a brincar. Afirmava com muita graça que havia dois tipos de voluntários em África, os que se dedicavam ao ensino, à saúde e ao desenvolvimento económico-social e os que se dedicavam a construir infra-estruturas. Mas ela não tinha vindo para uma coisa nem para outra. Tinha vindo para incentivar os seus meninos a sonhar e apoiar os seus sonhos porque acreditava piamente que só a expressão dos sentimentos fazia crescer. Sobretudo para aqueles meninos tão pequenos e que já tinham sofrido tanto. “Porque sem sonhos não há desenvolvimento e sem entusiasmo não há trabalho!”, terminava. 

(continua...)

sexta-feira, 3 de maio de 2019

NAMAÍTA - MOÇAMBIQUE

Olá amigos e família

Venho dar-vos grandes notícias… já choveu… mas foi apenas 2 dias na cidade de Nampula. Nos arredores apenas 1 dia em alguns locais. Mas muita gente já correu para os campos para semear o amendoim, milho, … tão imprescindíveis e base da alimentação do povo. Agora é esperar que germine e rezar para a chuva começar outra vez mas faseada para que não estrague definitivamente o que já se semeou… vamos aguardar confiantes!

Eu estou bem e o trabalho também. Entre novos doentes diagnosticados já vamos no número 42 em 2008. Mantêm-se as reavaliações sensitivas e motoras aos doentes, de modo a prevenir o aparecimento de reacções de lepra, principal causa de desenvolvimento de úlceras, deformidades e mutilações. Este mês, a APARF está a terminar a distribuição de  t-shirts e bonés com a frase em makhua “Nrowe Nimalihe Makokho”: “Vamos Acabar com a Lepra”. Os doentes agradecem o gesto pois sempre é um bem essencial que lhes faz falta e ao mesmo tempo é uma forma de união do grupo, união pela mesma causa, de trabalho conjunto para o mesmo fim: a luta e erradicação desta terrível doença entre este povo. Já alguns aparecem com elas vestidas logo na concentração seguinte. Chamo-lhe a equipa dos “verdinhos da APARF” mas eles ficam tão bonitos e gostam de andar assim “equipados”... deixo-vos 1 foto para que possam ver! Todos sorriem muito quando lhes oferecemos os bonés: mesmo as mamãs…usam-no sempre mesmo com o seu lenço, típico entre as mulheres africanas, que fica por baixo...

Depois do trabalho com os doentes antigos na Namaíta, Amina e restantes companheiros de doença, houve a oportunidade de subir a uma das montanhas que imponentemente se erguem e dão abrigo nas encostas à localidade da Namaíta, que tanto estimo e gosto de visitar nas actividades com os doentes. A maioria dos leprosos está nesta área, por isso ela é muito querida para mim e tenho muito gosto em vir trabalhar para esta zona. Bem, lá subi à montanha, vizinha das duas Phalalani, e a vista era simplesmente fantástica. A subida não foi fácil pois era um pouco inclinada mas tinha chovido no dia anterior e a terra estava macia, facilitando a escalada de uma mukunya, o voluntário Carlitos Hilário e a sua família, a esposa Carlota e três dos seus filhos: o Tino, a Sandra e o Daudino. Deu para observar a localidade, a aldeia da Namaíta e a sua extensão, as pessoas que estavam a capinar e a iniciar a sementeira, a represa, onde o Nito toma banho dado pela mukunya Vanda, a montanha de Nhopera, onde viveu a Ir. Maria Rita Valente-Perfeito... O panorama era lindo. Apetecia ficar apenas ali sentada a contemplar todas as maravilhosas vistas. Depois da descida, acabámos por encontrar uma mamã que estava a “apanhar” muché, uma espécie de formigas, que se comem. Pois eu nem sabia que já havia um pequeno prato delas à minha espera fritas, como aperitivo para o nosso almoço. Como uma boa visitante e curiosa, lá experimentei o tal muché…e… come-se!!! Parecia que se estava a comer amendoim ou tremoços antes da refeição… em tempos de carência, antes das sementeiras estarem prontas e de haver outra vez comida, tudo vale, desde que o estômago fique enganado e se tenha força para ir novamente capinar e semear no próximo dia… para mais tarde encher a barriga com os produtos da machamba…

Beijinhos e estaremos unidos em oração.
Vanda (Voluntária da APARF)

sexta-feira, 26 de abril de 2019

POR UM MUNDO SEM LEPRA

Olá família e amigos

Sai’ihali? Salama…
Desculpem antes de mais, nada dizer, mas andei muito preenchida e com visitas de Portugal… já passo a contar…

Entre os preparativos para a chegada da visita da APARF, lá andei a organizar tudo como uma boa formiguinha para que nada falhasse nas visitas e reuniões…e lá aterraram o Sr. João e o Sr. Carlos, Presidente da Direcção e membro da Mesa da Assembleia da Associação, respectivamente, em Nampula, durante 10 dias. 

Visitámos várias concentrações de doentes de lepra. Conversámos com vários doentes que estão em tratamento e que já tiveram alta. Conhecemos algumas das suas histórias e ouvimos algumas das suas preocupações,… distribuímos alguns bens essenciais como sabão, sal, pomada para úlceras, sardinhas enlatadas, pão… Tirámos fotos juntos, partilhámos uns com os outros o que temos e o que pudemos ajudar…

Visitámos a casa da Amina, a que a APARF construiu em Abril… e todos os membros da família estavam oreras (bonitos)… Tinham tomado banho e vestiam roupas novas… Estavam apresentáveis… Não é desta forma que se encontram nos outros dias e nesse domingo, além de ser o dia do Senhor, estavam cheirosos e merecidos (expressão makhua para bonito)! Desta vez, levei as visitas até às casas dos doentes antigos de lepra que costumo visitar… andámos em visitas ao domicílio, sempre carregados com as preciosas ofertas e também uns miminhos para as crianças, filhas e netos dos doentes… Como sorriram com os carrinhos e bonecas que lhes oferecemos… Na casa do Silvestre Amade (que conhece a Ir. Maria Rita Valente-Perfeito) fomos recebidos com esteiras e uma mesa coberta com capulana e um vaso de flores da machamba… Ficámos surpresos e felizes… Depois da mensagem lida pelo doente, as visitas receberam ofertas: o Sr. João recebeu um molho de canas de açúcar e o Sr. Carlos teve que segurar numa galinha que recebeu das mãos da esposa do doente… São ofertas simbólicas e preciosas pois quando chega uma visita, deve-se oferecer o que de melhor existe em casa, mesmo que a família fique sem nada para a sua próxima refeição, é assim que deve actuar um bom makhua.

A visita aos projectos da APARF abrangeu três Províncias de Moçambique e na deslocação ao distrito do Gilé (Zambézia), houve a necessidade de ultrapassar várias pontes muito rudimentares e uma delas (a da foto!) deu-me mesmo para duvidar. Mas entre as instruções de amigos e companheiros já habituados a estas andanças graças a Deus lá passámos… as rodas tiveram de entrar mesmo nas tábuas certas e não descair para os buracos… não ficassem lá presas e depois nem quero pensar como seria… bem o normal para quem conhece esta realidade africana!!! Das várias situações e locais que visitámos gostaria de vos falar do que me deixou chocada: crianças desnutridas em grau muito avançado que julgo não haver salvação possível… faz partir o coração ver aquelas carinhas de sofrimento que já nem forças têm para chorar que as mamãs aconchegam ao colo, num esforço de dar força e vida à sua criança… a realidade que vi e ouvi é difícil de aceitar: são locais onde falta tudo. Não há luz eléctrica. Água canalizada não é uma realidade para todos. A zona é pobre a nível de cereais. A mandioca é o que mais abunda mas não é nutritivo para estes pequenos. A formação das mamãs não existe. As estradas de acesso são picadas (de terra batida) e más. Fica distante da grande cidade. Todos estes factores ajudam de forma a piorar as condições para aquelas gentes e aquelas crianças… É preciso fazer formação com as mamãs, ensinar a alimentação das crianças desde cedo com os produtos existentes na zona, ajudar com a oferta de alguns suplementos ou condimentos para a sua alimentação, acompanhar o desenvolvimento e crescimento das crianças, formar mamãs que possam nas comunidades mais distantes transmitir a outras estes ensinamentos… Há tanto a fazer nesta área como noutras e não falando da lepra… que pode estar aparentemente a diminuir no distrito onde colaboro mas noutros locais e Províncias mantêm-se os números elevados! Reafirmo o que já escrevi na revista da APARF: é preciso mais pessoas generosas, com vontade de ajudar, mais voluntários para colaborar com o povo para que vakhani-vakhani (pouco a pouco) a realidade vá mudando para bem dos mais pobres e sofredores.

Deixo-vos também uma pequena lista de alguns dos nomes dos chapas (carrinhas toyotas de 9 lugares que fazem o transporte de passageiros tipo autocarro), dos taxis e dos machibombos (uma espécie de autocarro mas mais pequeno para viagens longas), que os deixarão a rir e a pensar um pouco:

- Ao destino ninguém foge
- O.V.N.I.
- Deus é Amor
- Deixem falar
- Eu quero o Amarelo (e o chapa está pintado de amarelo, de facto!)
- Confuso
- Red Devil
- Não se nega
- Força da amizade
- Don’t stress ok?!
- Eu chego
- Eu passo
- Trans Charia
- 100 % moçambicano
- Vamos

Bem, deixo-vos beijinhos e força para o início das aulas, do trabalho e das actividades…
Obrigada pelo vosso apoio e amizade

Vanda (Voluntária em Moçambique)

sexta-feira, 19 de abril de 2019

PÉS DO POVO

Geralmente poucos pensam nos nossos pés e lhes dão a devida atenção. Aqui em Moçambique, onde a maioria da população anda descalça, comecei a observar e a dar mais atenção a esta parte essencial do nosso corpo, pois é graças a eles que temos a capacidade de caminhar e ver o mundo com outros olhos e de outra forma.

A doença de lepra afecta a sensibilidade dos olhos, mãos e pés. Por esta razão torna-se muito importante e faz parte dos testes motores e sensitivos que se realizam aos doentes, a observação dos pés. Tenho visto pés muito diferentes, que a meu ver revelam muito sobre as condições sócio-económicas dos doentes que visito e contacto. 

No mato, nas zonas rurais que circundam a cidade de Namphula, observam-se, muitas vezes, pés descalços com gretas, com feridas e com as zonas plantares muito enrijecidas pelos trabalhos duros na machamba (hortas) que cada um faz para obter algum do seu sustento. Imagino que estas pessoas viverão com dificuldades e muitas vezes trajam de forma precária e sem condições. Geralmente acontece em locais onde o acesso de carro é difícil, em sítios longe da cidade e bem escondidos nas montanhas, onde poucos chegam, quer a nível da saúde, quer de educação, quer a nível do comércio… 

Visito também outros locais que me parecem ter mais condições, onde os doentes aparecem quase todos de chinelos calçados, bem apresentados, onde as superfícies plantares estão mais lisas, com aparência mais cuidada, sem ferimentos e com poucos sinais de quem trabalha na dura machamba de sol a sol, sem uso de calçado. Isto observa-se em locais onde o acesso aos cuidados de saúde é mais fácil; em que os doentes vivem perto da estrada principal onde passam transportes, onde há um acesso fácil a todos os meios, quer de saúde, educação, comércio, … 

Mas não se pense que observo sempre os pés dentro destes contextos. Muitas vezes no meio do mato, por detrás da montanha, aparecem doentes que trabalham exclusivamente nas machambas, que poucas ou nenhumas vezes saem dali para visitar a cidade e outros locais ditos mais civilizados, e observo-os com os pés em perfeitas condições, sem nada para registar na sua ficha após a sua reavaliação… e penso que nunca teria os meus pés em perfeitas condições como observo a doentes que nunca usaram uns sapatos, uns chinelos na vida e que trabalham no campo… Quando é o momento de lhes oferecer um par de chinelos novos porque terminaram o tratamento ou estão quase a terminá-lo e a oferta é uma forma de os motivar a finalizá-lo, vejo que ficam muito felizes com o gesto pois muitos nunca tiveram sapatos. 

No entanto, acabo também por constatar e aperceber-me que muitos doentes apenas usam o calçado oferecido nos dias de concentração pois não os querem estragar… querem mostrar-me que o conservam e que o usam apenas em situações e ocasiões especiais: para vir ter com a mucunya (branca em makua) no dia combinado ou para ir rezar ao domingo na igreja, mesquita ou noutro local de culto. Quando me apercebo disto tento dar a perceber a importância do seu uso diário para que protejam os pés, que podem ser muito afectados pela doença de lepra e pelas feridas tão difíceis de tratar e curar… Mas como não estão habituados a usar sapatos ou chinelos, que às vezes apenas os atrapalham ainda mais para caminhar, acenam-me com a cabeça em sinal de compreensão, riem-se para mim e lá os vejo de partida para as suas palhotas com umas “coisas novas e coloridas” nos pés. 
Julgo que basta um rápido olhar para os pés de um doente que frequenta as concentrações de lepra para que, de uma forma um pouco subestimada, grosseira e rápida, se possa tentar imaginar e distinguir a condição socio-económica de cada um. Se tem algumas posses, poderá ter um par de chinelos ou sandálias e ter os pés sem feridas, aparentemente cuidados; se for mais pobre, então poderá vir sempre descalço, poderá ter algumas feridas ou ainda poderá pedir um par de chinelos emprestados apenas para trazer à concentração.

A APARF tem oferecido calçado aos doentes de lepra que estão a fazer tratamento e aos doentes de lepra antigos, que já concluíram o seu tratamento há muito tempo mas que se cruzam connosco nas concentrações. Têm sido feitos pensos a várias úlceras e feridas provocadas pela lepra, umas mais complicadas que outras mas quase todas têm acabado por cicatrizar mais tarde ou mais cedo. Para complementar e ajudar neste processo de cicatrização, a APARF tem oferecido pomada e medicamentos aos doentes em questão. 

O uso de calçado é essencial para que os pés estejam protegidos. Ora são chinelos, ora sandálias, ora sapatos, tudo é oferecido pela APARF consoante as condições do doente e o estado dos seus pés…que afinal são um útil indicador que me ajuda a perceber as condições de vida muitas vezes difíceis deste povo moçambicano.

Mpakha nihiku nikina

Vanda - Voluntária da APARF em Moçambique