quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Myo vacanni vacanni

Sai ihali? (Novidades?)

Myo vacanni vacanni. (Vamos pouco a pouco)

Hoje é um dia especial para mim. A Angina Clemente, a primeira doente de lepra que diagnostiquei vai ter hoje alta.

Faz seis meses que diagnostiquei lepra à Angina, uma menina de 12 anos que conheci numa concentração na Escola de Murrupa.

As escolas são avisadas da nossa visita. Normalmente, com um mês de antecedência, é pedido aos professores que seleccionem todas as crianças com manchas.

Quando chegámos à escola, como habitual, já tínhamos os miúdos seleccionados. Era só descobri-los no meio da multidão.

Quando os agrupámos, destacava-se a Angina uma menina bonita aparentemente sem problemas, a julgar pelos outros miúdos esfarrapados que se mostravam mais preocupados. Tinham doenças que os incomodavam. A maioria tinha sarna já em estado crónico, cobrindo grande parte do corpo.

Fizemos duas filas para facilitar o nosso trabalho. Uma das filas ficou a cargo do Supervisor Raja; a outra, os miúdos foram observados por mim e a Angina ficou no meu grupo. Tinha uma mancha nas costas com perda de sensibilidade que não lhe causava dor, não a incomodava e ela não teria a iniciativa de ir ao hospital.

Foi o único doente a ser diagnosticado neste dia. Ela e todos os miúdos seleccionados receberam uma aula de cuidados de higiene e de lepra.

A Angina hoje vai para casa sem nunca ter faltado. Leva a última carteira do tratamento e a formação necessária para que, se os sintomas reaparecerem, ser ela a ter a iniciativa em se apresentar ao activista ou no hospital.

Ricardo Leonardo
Voluntário da APARF

sábado, 20 de outubro de 2018

Carlitos e Sónia

Existe o caso do Carlitos, um jovem de cerca de 20 anos a quem foi diagnosticada lepra multibacilar e que se apresentou logo no início do tratamento com feridas, edemas (os vulgares inchaços) com perda de líquido em ambos os pés, com mau aspecto. Iniciámos o tratamento de lepra, ofereci-lhe uns chinelos e foi encaminhado para realização de pensos em ambos os pés. No mês seguinte, lá veio o Carlitos com os pés numa miséria e decidi ser eu a fazer-lhe os pensos. De imediato, após a concentração fiz-lhe o curativo em ambos os pés e a APARF ofereceu-lhe uns sapatos de cor vermelha, adaptados à sua situação. A realidade que vivo aqui não me permite ver os doentes nem todos os dias, nem todas as semanas, apenas uma vez por mês, já que são cerca de 30 a 35 concentrações que visito com o enfermeiro supervisor durante os 30 dias por mês. Para minimizar este facto, recorro ao bloco de receitas e prescrevo realização de pensos nas unidades sanitárias mais próximas e combino com o doente o esquema de penso e que pomada utilizar. Mais tarde, pude observar novamente os pés do Carlitos e que alegria quando vejo as feridas a cicatrizar vakhani-vakhani (pouco a pouco, em macua) e a cara de contentamento do jovem. Irá dentro em breve ficar curado das feridas e curado da lepra, pois até à actualidade não faltou mês nenhum para receber a sua carteira de medicamentos.

Mas não se pense que vejo assim tantos pés com feridas. Observo também algumas situações de risco em doentes que não usam sapatos e apresentam zonas insensíveis a nível dos pés. Então para diminuir esta situação, a APARF oferece sapatos. Tenho distribuído, dentro das possibilidades e, de acordo com a situação de cada doente, sapatos juntos dos leprosos com quem trabalho. Muitos ganham sapatos como “prémio” de recompensa por finalizarem o tratamento e dou especial atenção às crianças. Por isso, falo-vos da Sónia, uma menina de 9 anos que vive na zona de Nhopera e estuda na escolinha junto à Igreja da Paróquia da Namaíta, local onde a Irmã Rita Valente-Perfeito um dia viveu e trabalhou pela causa dos leprosos. A Sónia foi uma das primeiras pessoas a quem diagnostiquei lepra logo que cheguei. Apresentava apenas uma mancha na mão direita e iniciou esquema para lepra paucibacilar, dose de criança. Ela foi sempre um pouco reservada e tímida e não fala o português. Foi com muita alegria que no mês de Julho lhe ofereci um par de sapatos para ela proteger os seus pezinhos enquanto está a crescer, como recompensa dos 6 meses que tem tomado a sua carteira de medicamentos. Ela sempre veio receber a sua carteira todos os meses acompanhada pela sua mãe com a irmãzinha pendurada nas costas com a capulana. É bom sentir que os doentes se interessam pelo seu tratamento e querem ficar curados. 

A APARF tem ajudado muitos doentes com a oferta de sapatos a quem mais precisa. Só eu posso ver a sua alegria mas garanto-vos que os seus sorrisos são lindos, cheios de felicidade e agradecimento.


Vanda Barnabé (Enfermeira)
Voluntária da APARF

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

"Sai'ehali?"

Para combater o défice de conhecimentos que os doentes de lepra apresentam quando se lhes pergunta qualquer coisa sobre a sua doença, organizei durante o mês de Julho reuniões / palestras sobre a doença de lepra.

Como no distrito de Nampula / Rapale onde faço o meu trabalho voluntário no programa de combate à lepra, existem muitas concentrações, postos e centros de saúde, dividi-o em várias áreas e escolhi o melhor local dentro das possibilidades dos doentes para ali se deslocarem, e organizei estes eventos. 

Durante o mês de Julho realizei 5 reuniões / palestras às quais compareceram um total 75 doentes de lepra em tratamento, dos 85 que pertenciam a estas 5 zonas que defini. Julgo que foi muito positiva a adesão dos doentes a estas reuniões / palestras. Muitos deslocaram-se de sítios “bem escondidos” no meio das montanhas, picadas, cajueiros, … mas no dia que combinei previamente com cada grupo de doentes e voluntários lá apareciam com o convite que ofereci na mão.

Depois de um cumprimento em macua “sai’ehali?” (novidades), lá nos sentámos em esteiras, em troncos, em bancos, … conforme a disponibilidade do local, e iniciámos a nossa conversa informal sobre a doença de lepra. Com a ajuda dos voluntários do programa que traduziam para macua o que eu ia dizendo sobre a doença, estas reuniões / palestras decorreram sempre num ambiente agradável, com espaço para cada um questionar o que quisesse, desse a sua opinião e partilhasse a sua experiência a qualquer momento. 
Falámos sobre a doença de lepra, a sua transmissão, os primeiros sinais, as deformidades e mutilações que podem acontecer, os cuidados a ter com olhos, mãos e pés, o tratamento, as reacções de lepra, o facto do tratamento ser gratuito, o facto de ainda haver lepra no mundo, …entre outros e numerosos aspectos. Um destes relacionou-se com o facto da maioria dos doentes pensar que só as pessoas de raça negra é que sofriam de lepra. Quando expliquei que os akunya (de raça branca) também podiam ter esta doença, ficaram espantados com a “notícia”. É impressionante como chega tão pouca informação a certos locais desta Terra, pois aqui não há electricidade, logo, não há a possibilidade de ter acesso a informação que cada um de nós tem acesso cada vez que liga a televisão, o rádio, o MP3, o computador, a Internet, … enfim rimo-nos todos deste aspecto e seguimos em frente na nossa conversa. Também houve espaço para dar a conhecer a APARF e o seu trabalho aqui nestas terras africanas e não só. Alguns já tinham visto o logotipo do carro noutros carros e locais, mas sem dúvida, a maioria não conhecia o trabalho da Associação em Moçambique, mais propriamente neste distrito. 

É importante saberem, caros amigos, que no fim houve uma pequena ajuda oferecida e distribuída por vós. Sim, pois todos estiveram aqui enquanto falei da APARF. Então saibam que todos os doentes vos agradeceram muito quando abriram o seu saco verde que continha: 1 peça de roupa, 1 pedaço de sabão, 1 saquinho de sal, 1 pacote de bolachas e 1 pão. Houve sorrisos, risadas, abraços e beijos à mukunya Vanda, … sintam que foi a vós que estes sorrisos, risadas, abraços e beijos foram dados. 

Eu senti uma enorme gratificação com a realização destas reuniões / palestras. Nada é mais positivo e bonito que sentirmo-nos úteis junto dos outros e ver que, ainda que pouco façamos, podemos sempre fazer a diferença na vida dos que nos rodeiam.

Em simultâneo com as visitas às concentrações que faço com o enfermeiro supervisor distrital, tento minimizar algumas situações que vou observando. Situações de doenças variadas são as que mais me chamam a atenção, já que sou enfermeira.

Tenho observado outras doenças que por vezes se relacionam com o problema da lepra, como sendo as feridas que se podem desenvolver resultantes da falta de sensibilidade provocada por esta doença. Tenho observado pés e mãos em situações muito deplorantes e “feias”, com mau aspecto de cicatrização. É claro que não posso ficar indiferente e logo o kit de 1ºs socorros da APARF que trago no carro, entra em acção, assim como o bloco de receitas que já tenho na pasta que uso.[...]

Vanda Barnabé (Enfermeira)
Voluntária da APARF



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

NAMAÍTA - NAMPULA

A experiência que estou a viver todos os dias no distrito de Nampula, em Moçambique, permite-me observar os doentes de lepra todos os dias em que vou para o “mato” ao seu encontro e onde trabalho junto deles, tentando minimizar as suas dificuldades face a esta doença. No entanto, observo “outras lepras” também existentes como a fome, a falta de vestuário e calçado, a falta de conhecimentos sobre higiene e alimentação, … e muitas “outras lepras”.

Tento diminuir, na medida que me é possível, essas “lepras” distribuindo géneros como sal, sapatos, roupa, medicamentos, … mas também uma palavra amiga (se possível em macua - mas o próprio gesto muitas vezes suprime as palavras!), um sorriso, um abraço, um beijo, … (a maior parte das populações das aldeias fala macua e não compreende o português)

Não observo somente estas “outras lepras” no “mato” mas também na cidade de Nampula onde vivo. Existem muitos “meninos de rua” na cidade e estão localizados em sítios já por eles definidos. Eu chamo-lhe zonas, onde cada um tenta ganhar qualquer coisa. Já me habituei a encontrar em certos locais as mesmas caras que me fixam mais facilmente que eu os fixo a eles e alguns já sabem o meu nome. O Agostinho, o Bruno, o Gabriel, … são apenas alguns destes meninos e jovens com quem me cruzo muitas vezes e a quem, por conseguinte, não posso ficar indiferente. Pedem qualquer coisa pela sua “protecção” para com o carro, que como já falei é um bem essencial nesta terra. Então lá o ficam a guardar ou oferecem a sua ajuda para carregar os sacos que posso ter nas mãos, pedindo, em qualquer dos casos, algo em troca, no fim. Quase sempre pedem dinheiro, que dizem ser para ir comprar comida, mas eu já decidi que musurukhu (dinheiro) não dou. Então ofereço-lhes comida, que já tenho no carro ou que vou comprar no momento, como pão, bolachas, fruta, … algumas vezes, também faço uma “consulta médica” no meio da rua quando me aparecem com feridas, olhos infectados, constipados, … e dou medicação que tenho sempre no kit da APARF que está no carro. 

Sei que esta atitude pode contribuir para que a sua situação perdure e se arraste sem ter fim e acabar por se tornar um hábito (e os hábitos são fáceis de ganhar mas difíceis de perder!) que alguns condenam e criticam. No entanto não consigo ficar indiferente à sua situação e principalmente quando me pedem “Dá-me uma quinhenta!”, ou seja meio metical (cambiado em euros chega a 1 cêntimo!) e eu os vejo com uma cara de fome, doença, tristeza, … não consigo dizer que não. Volto a frisar que estes hábitos que se criam são difíceis de romper mas estes pequenos não me pedem chupas como os pequenos que vivem no meu bairro e a esses eu consigo “resistir mais facilmente” pois a sua situação é diferente … Cabe-me a mim tentar perceber a sua história. Quando isto se pergunta aos pequenos, eles tentam dissimular e arranjar desculpas para a sua situação: são órfãos, os pais vieram para a cidade e não têm emprego, têm muitos irmãos e o dinheiro é pouco em casa, os pais são bêbados ou abandonaram-nos, … as razões são muitas e para as quais não tenho resposta nem solução. No entanto, a sua situação mantém-se e vai-se arrastando todos os dias. Da minha parte ganham comida que talvez seja a primeira com que enchem a barriga nesse dia ou não, ganham uma palavra amiga, ganham um sorriso, … mas eu fico feliz comigo própria e isso é que conta para mim. Tentar ver o rosto de Cristo e de Raoul Follereau no rosto do Agostinho, do Bruno, do Gabriel, … no meio de toda esta situação não é fácil mas é possível.
[...]
Vanda Barnabé (Enfermeira)
Voluntária da APARF

sábado, 29 de setembro de 2018

Sai lhali? Salàma! De Murrupula

Sai lhali? Salàma! Estou a realizar um novo programa. Nas últimas semanas tenho visitado os doentes de lepra mais carenciados em suas casas; aqueles a quem a lepra deixou marcas bem visíveis. Para isso, tenho contado com ajuda do activista da respectiva zona. Juntos, visitamos esses doentes. Como aconteceu no dia 17 de Maio em que visitei o Hilário António. Tem 7 filhos e é muito bem disposto. Ficou contente com a minha visita. Foi uma oportunidade para estar mais perto dele e ouvir as suas histórias. Ofereci-lhe pneus para a sua cadeira de rodas, sabão e pomada para as úlceras.

Os doentes, como o Hilário, raramente aparecem nas concentrações, devido às suas limitações físicas. São doentes que já terminaram o tratamento mas que ficaram com sequelas graves. Nas concentrações é impossível um contacto tão próximo com estes doentes. Daí a importância de os visitarmos na própria casa.

Os novos casos que diagnosticámos não necessitam deste acompanhamento. Os novos doentes apenas apresentam manchas. Raramente aparecem doentes com deformidades; mas isso não quer dizer que podemos parar porque diariamente surgem novos casos. É um incentivo para continuarmos; é o resultado do bom trabalho dos voluntários que vim substituir. É gratificante saber que estes novos doentes não vão passar pelas dificuldades do Hilário.

A sarna é uma das doenças dermatológicas que predominam neste distrito em que trabalho, principalmente nas zonas mais isoladas como Nachaca que visitei no dia 16 de Maio. Aqui, a sarna é uma epidemia devida, principalmente, à falta de água e de cuidados de higiene. Eu já ia prevenido. Tinha sido alertado pelo Rajá porque ele visitava esta zona com o Paulo. Preparei uma pomada com a ajuda dos meninos da missão. 

Foram eles que me transmitiram os ingredientes e ainda me ajudaram na preparação porque ainda têm bem presente o tempo em que a preparavam com o Paulo.

No próximo mês agendamos uma visita à escola e pensamos assim obter melhores resultados. Começamos pelos mais novos para lhes incutir hábitos de higiene. Tenho constatado que basta dizer-lhes coisas muito simples como: não basta pôr o medicamento, é preciso lavar a roupa e secar bem ao sol porque o bicho da sarna também está na roupa, para que as coisas comecem logo a melhorar.


Ricardo Leonardo
(Voluntário da APARF)

sábado, 22 de setembro de 2018

Retalhos de Ocua II

Quando se parte para uma terra de missão deve-se partir com o coração aberto

É certo que os nossos irmãos leprosos estão na nossa prioridade mas, então e os outros doentes? As crianças? E todos os que sofrem das mais variadas formas? Não podemos fechar os olhos e colocar as mãos nos bolsos à espera que tudo passe ou que outros o façam por nós.

Quando nos tocam à porta devemos abrir e escutar as suas preocupações... abrir os nossos corações. Foi assim que aconteceu num desses dias. Um simples tocar à porta e... era um casal com uma menina ao colo. A criança vinha aconchegada à mãe envolta numa capulana, com os olhitos brancos cobertos de água, as mãozitas pequeninas e os bracitos tão frágeis que ao pegar-lhe pareciam partir-se. Um caso flagrante de desnutrição.

Os pais da criança vinham magríssimos e cansados. Os pobres não tinham como alimentar a criança, a mãe tinha graves problemas e não tinha leite para a sua filha. Depois de beber um pouco de água e poderem descansar por instantes da longa viagem que tinham feito para atingirem a missão, cerca de 60 Km a pé, carregados de trouxas sob um calor abrasador, foi levada o mais rapidamente para o Hospital mais próximo, embora este fosse apenas um Centro de Saúde.

Ficou internada a soro dias que pareciam intermináveis... até que, finalmente, depois de uma visita teve alta e deixaram-na vir connosco. Ao chegar à missão, deu-se-lhe algum leite. Foi explicado aos pais como o deveriam administrar em casa e foi-lhes dado tudo o que precisavam, desde as latas de leite ao biberão.
Foi um processo lento mas gratificante. Hoje, essa criança já deu os seus primeiros passos e, como ela, aconteceu também à Ricardina, à Beatriz... e a tantas outras crianças que hoje recebem ajuda e apoio da Associação numa terra onde tudo é preciso mas, que por vezes basta que lhe abram o coração.

Sandra Figueiredo

sábado, 15 de setembro de 2018

Irmã "Xupa"

Desde que comecei a acompanhar o PNCTL, no início de Fevereiro, já foram diagnosticados 24 novos casos de lepra neste distrito, fazendo um total de 27 casos novos no primeiro trimestre de 2007 (entre Janeiro e Março). Muitos são casos em que os doentes atrasam a sua ida às unidades sanitárias, desvalorizando as manchas suspeitas, preferindo ir primeiro ao curandeiro (aqui a medicina tradicional tem uma grande presença e força!)... Quando chegam às nossas mãos já têm, algumas vezes, zonas insensíveis e deformidades irreversíveis a nível das mãos e pés… e mesmo reacções lepróticas típicas com nódulos e sinais inflamatórios, aos quais se acrescenta à terapêutica anti-leprótica, um esquema de corticóides, cuja administração deve ter uma vigilância muito cuidadosa, devido aos efeitos secundários.

Gostaria ainda de acrescentar um aspecto que me foi possível vivenciar e observar nestas poucas semanas que ainda estou a trabalhar no PNCTL. Para que haja um bom trabalho da minha parte junto dos doentes, preciso que os doentes compareçam nas datas marcadas às concentrações. Para tal, necessito da ajuda do enfermeiro supervisor, enfermeiros e técnicos das unidades sanitárias e dos voluntários. Estes voluntários têm um papel-chave: são as pessoas, que sem receberem incentivo económico, sinalizam, mobilizam e incentivam os doentes para comparecerem nos dias de concentração de lepra. Todos os dias, dou conta que sem eles o meu trabalho não funciona. Não cabe só aos enfermeiros e técnicos de saúde incentivar e cativar os doentes para frequentarem as concentrações mas também aos voluntários que os conhecem e vivem na mesma comunidade que os doentes.

Assim considero ser importante uma boa relação com este grupo. Tento motivá-los a ajudar os doentes de lepra, incentivando-os com palavras mas também com alguma ajuda material como seja sabão, calendários, camisolas,… mas julgo que não é o suficiente e à semelhança de outros voluntários da APARF, estou a programar uma reunião com a oferta de um almoço de convívio para pedir a sua colaboração e incentivo junto dos doentes de lepra.

O nome pelo qual somos chamados ao longo da nossa vida diz muito acerca de cada pessoa. Cada nome tem a sua raiz, origem, significado, valor,… indica a nossa  posição social / familiar / religiosa / política / laboral… distingue-nos de entre os demais na sociedade. Nestas terras descobri outros nomes, nomes pelos quais me apelidam ao longo do dia e conforme a ocasião, cada nome que me chamam tem o seu sentido e significado.

Começo por me chamar Vanda ao acordar e enquanto partilho o “matabicho” (o pequeno-almoço daqui) com as Irmãs da Apresentação de Maria onde vivo em Nampula, Moçambique.

À saída do portão, encontro os meus amigos e amigas pequeninos que começam a chegar para o início das actividades na escolinha que as Irmãs têm e que apoia cerca de 190 crianças entre os 3 e os 5 anos de idade. Mudo de nome e chamam-me logo Irmã, mesmo sem o ser…

Sigo para mais um dia de visita às concentrações de doentes de lepra e à chegada recebo o nome de Doutora. Lá vou dizendo que sou enfermeira e que me chamo Vanda. Os que já me conhecem de mais vezes tratam-me por Senhora Enfermeira ou Dona Vanda o que não deixa de ser engraçado. Para alguns já sou Mana Vanda, para os que se metem à conversa comigo, com quem partilho o dia a dia do quotidiano, com quem rio e partilho as “minhas preocupações” e com quem treino o meu macua!

Depois quando vou fazer algumas compras aos mercadinhos, tirar umas fotocópias ou simplesmente encher o depósito do carro sou outra vez Irmã, pois para o povo uma mulher branca sozinha, às compras, nas lojas ou ao volante de um carro, a trabalhar em Moçambique só pode ser religiosa pois senão o que é que anda aqui a fazer!?

Mas o que mais alegria e gozo me dá, acontece quando chego ao meu bairro em Nampula no fim do dia de trabalho e recebo o chamamento das crianças que vivem nas palhotas junto ao muro que rodeia a casa das Irmãs. Então passo a ser apelidada de Irmã “Xupa”. O carro é rodeado por várias crianças como sendo o Flávio, o Amisse, a Dairinha, a Lucinda, a Alice, a Paula, a Amélia de Sousa, o Ildon, o Aconteceu, … e outras que todos os dias aparecem quando chego e começo a buzinar para a sua alegria e contentamento. Já lhes disse que não sou Irmã mas para eles que ainda por cima são crianças, se vivo com as Irmãs também sou uma delas… e ponto final na conversa! Comecei a ser chamada assim já adivinharão porquê…pois um dia distribuí chupas e rebuçados e os pequenos desde aí que os pedem todos os dias… mas para que não se criem hábitos que não possam ser cumpridos no futuro, só distribuo de vez em quando e agora no dia da criança terão outra vez chupas e em dose reforçada! O mais engraçado é que quando chega um carro e que também tem o símbolo da APARF colado, quem lá vem dentro é também apelidado de Irmã Xupa, para confusão e risos dos demais!

Para estes pequenos, a vida é tão simples como brincar na terra, fazer brinquedos com restos de lixo, tomar banho numa bacia na rua onde quem passa pode ver, andar despido, sempre a sorrir e a cantar que me fazem pensar nas diferenças entre estes pequenos e as crianças de Portugal e dos outros países ditos desenvolvidos. Acho que a diferença não é nenhuma: todas adoram brincar em todos os sítios e com tudo, adoram tomar banho, adoram tirar a roupa, adoram sorrir e principalmente… adoram chupas!

Mpakha nihiku nikina (Até qualquer dia)
Enfermeira Vanda Barnabé
(Voluntária da APARF)

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Missão da Namaíta

“Sai Ihali? Salàma!”. Expressão macua para “Que tal as novidades? Tudo bem!”.

Olá amigos, venho contar-vos como têm sido os meus dias por estas terras moçambicanas.

Aqui os dias começam muito cedo…geralmente acordo com o cantar do galo ou com a chamada para a oração matinal dos fiéis muçulmanos na mesquita do bairro onde moro em Nampula, no norte do país. Vivo com as Irmãs da Apresentação de Maria num bairro da periferia da cidade, onde abundam palhotas, mercadinhos, vendedores de carvão, barracas de comércio e algumas casas de congregações religiosas, que apoiam crianças, jovens, mamãs,… que ali vivem nas áreas da educação, saúde, alimentação e outras ajudas.

De manhã cedo, cerca das 6h30 a 7h, não saio de casa para mais um dia de visita às concentrações dos doentes de lepra, sem antes receber os bons dias dados pelas crianças que moram nas palhotas junto à casa das Irmãs. Têm uns olhos e sorrisos tão vivos que espalham alegria e impelem forças e ânimo para o começo de mais um dia.

Como estou a substituir a Anabela (a voluntária que esteve a trabalhar no Programa Nacional de Controle da Tuberculose e Lepra – PNCTL- no distrito de Nampula), trabalho em conjunto com o Sr. Cássimo (enfermeiro supervisor distrital do PNCTL) e juntos seguimos para a concentração que está calendarizada para esse dia. Nem sempre os acessos são fáceis… há locais onde a estrada é alcatroada e se chega facilmente; enquanto noutros a picada é má e é preciso ter muita atenção às crianças, adultos, troncos, buracos, riachos, valas, animais, capim, pedras, latas,… antes de chegar, por vezes, ao local onde os doentes aguardam a nossa visita.

Nesta terra, ter um meio de transporte, seja ele qual for, é essencial. A carrinha que conduzo foi financiada pela APARF e é um bem fundamental. Sem este meio de transporte que utilizo não era possível aceder a locais onde nada chega, onde as pessoas nada têm e onde, por vezes, as crianças nem sequer um carro ou uma mulher de cor branca alguma vez viram! Há mesmo situações em que as crianças estão nas picadas e ao ouvirem o carro, simplesmente desaparecem ou vejo-as a correr como loucas pelo capim dentro, com medo da carrinha e de quem a conduz! Outras vezes, as crianças adoram, querem subir, querem “boleia” ou pedem que apite quando passamos nas picadas junto às suas palhotas ou / e escolas… é sempre uma festa!!!

Tenho de agradecer à APARF, aos sócios e amigos, o facto de eu ter este veículo para utilizar a favor dos doentes, pois sem ele o trabalho que faço não seria possível…

Ao chegar ao local, posto ou centro de saúde, encontro os doentes que já estão à espera, e aguardam persistentes a nossa chegada, para o início das actividades, graças à mobilização do voluntário e do enfermeiro. Organizam-se as fichas dos doentes, separam-se os doentes em tratamento dos casos suspeitos e inicia-se o trabalho. Dá-se prioridade ao enfermeiro da unidade sanitária para realizar o seu trabalho de diagnóstico, reavaliação e distribuição de medicação gratuita aos doentes.

A minha função, em conjunto com o Sr. Cássimo, passa por supervisionar as actividades de cada enfermeiro das unidades para que o PNCTL seja cumprido para benefício dos doentes de Hanseníase. Também colaboro com este enfermeiro no diagnóstico, reavaliação e distribuição da medicação, enquanto os doentes são atendidos, prestando assim o meu apoio sempre que seja necessário.

Em simultâneo, distribuo sabão e outros géneros aos doentes como forma de os ajudar e motivar, já que vivem em locais por vezes muito isolados e onde as condições de alimentação, higiene, saúde e educação não são as melhores.


Enf. Vanda Barnabé (Voluntária da APARF)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Murrupula

Faz hoje um mês que cheguei a Moçambique. Foi precisamente no dia 17 de Janeiro que aterrei em Maputo. Aproveito este momento para fazer um balanço de como tem sido a minha actividade em Moçambique até à presente data.

Como já referi, aterrei em Maputo no dia 17 com a Vanda onde permanecemos até ao dia 19. Apraz-me salientar a boa hospitalidade dos Missionários Combonianos em especial o irmão Martin que foi o nosso cicerone. Mostrou-nos um pouco de tudo na cidade, obras de arquitectura do passado, as novas construções, o modo de vida da população e um do seus projectos que executa numa lixeira, onde as pessoas vivem e se alimentam do lixo. É-lhes vedado o direito de serem pessoas/gente não têm papeis não podem exercer os seus direitos de cidadãos. Ele tenta a todo o custo inverter esta realidade. Conheci também a voluntária Ana Maria que nos compartilhou as suas experiências. Houve ainda tempo para irmos ao seu 16º andar contemplarmos a vista sobre a cidade.

Dia 19 aterrámos em Nampula onde nos separámos. Cada um rumou ao seu novo lar. Foi ainda nesse dia que cheguei a Murrupula já era quase noite. Mas um grupo de resistentes aguardava ansiosamente a minha chegada. Ainda não tinha saído do carro e já eles caminhavam serenamente na minha direcção cantando, em uníssono, para me felicitarem pela minha chegada.

Até ao dia 4 de Fevereiro, dia em que comecei a percorrer as várias comunidades com o enfermeiro Mário Rajá, estive num processo de reconhecimento e adaptação. Conheci algumas comunidades com o padre Jacob e deparei-me com realidades bem diferentes daquelas com as quais até então estava mais familiarizado.

Numa das comunidades, enquanto o padre Jacob tratava de assuntos relacionados com a gestão das tarefas dos seus membros, um nativo chamou-me e revelou-me uma das práticas ancestrais do seu povo, o rito de iniciação, cerimónia que marca a transição da adolescência para a idade adulta. Este homem fez questão que eu o seguisse por um carreiro afastado ligeiramente da aldeia. Deparei-me com um emaranhado de miúdos que rapidamente se ordenou ao som da sua voz. Sentaram-se rapidamente lado a lado à sombra de uns telheiros de palha. Esta voz inquietava-se e esperava ansiosamente que eu visse meticulosamente, um por um, todos os cerca de 80 miúdos pretensos futuros homens e examinasse atentamente o estado de cicatrização das suas circuncisões e, num passo de mágica, cicatrizasse a todos para poderem regressar para junto do seus familiares.

Esse dia é marcado com uma cerimónia a que eu assisti num outro dia com outros personagens.

Estes miúdos são entregues depois de um dia de jejum e uma noite sem dormir num misto religioso, num dia de grande festa.

Um dia nas comunidades
O dia começa no centro de saúde onde colaboro em parceria com o enfermeiro Rája. Às 07.00 há uma reunião com o médico e enfermeiros onde diariamente se aborda uma doença. Seguidamente há uma palestra nas imediações do Centro para os doentes que aí se encontram. Depois voltamos ao consultório para prepararmos a nossa saída não sem antes atendermos alguns doentes de tuberculose, lepra; por vezes ainda temos de fazer alguns testes de HIV antes de partirmos.

Chegados à comunidade começamos com uma palestra sobre a lepra, sarna e cuidados de higiene. Depois separamos os doentes; doentes antigos de lepra, doentes antigos de lepra com problemas na vista para posteriormente um técnico vir avaliar. Tomamos nota dos doentes com deformidades nos pés, desenhando os mesmos, casos suspeitos de lepra, doentes suspeitos de tuberculose (tosse prolongada), doentes com sarna.

Distribuímos medicamentos, sabão, por vezes algumas árvores (ainda da plantação do Paulo).

Os novos casos diagnosticados de lepra  perfazem um total de 10: Nachaca 2, Nihessiwe 3, Muchelelene 2 casos, Centro de Saúde de Tiponha 1, Cazuzo 2.

Próximas actividades
Dia 23 de Fevereiro realiza-se um encontro com todos os activistas no Centro de Saúde onde irá decorrer um almoço que irei financiar. Tenho-me apercebido da importância de existir um bom relacionamento com os activistas. Eles é que chegam aos doentes. Têm aparecido muito poucos. Desde a partida do Paulo que o projecto está praticamente parado e deixou de haver visitas às comunidades.

Até à presente data tenho uma lista de 9 pares de sapatos para comprar e entregar a doentes de lepra com deformidades.

Ricardo Leonardo (Voluntário da APARF em Moçambique)

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

África finalmente!

ÁFRICA FINALMENTE !... Desde que me conheço que este local me “chama” e depois de algum tempo a preparar a minha vinda, finalmente no dia 16 de Janeiro de 2007, em conjunto com outro voluntário da APARF, o Ricardo, iniciei a minha viagem para terras moçambicanas.

À chegada a Maputo, senti as diferenças numa cidade marcada pela presença de muitas culturas. Coabitam prédios e palhotas, mercados de rua e centros comerciais, ricos e pobres, jardins arranjados e lixo amontoado na rua, gelados e refrigerantes, cocos e bananas, … mais que tentar gostar da cidade e do que me mostraram, tentei perceber o modo de vida das pessoas daqui… e é uma forma de viver muito diferente da que estava habituada.

Um dos contrastes que me foi possível observar e vivenciar, aconteceu ao “visitar” a lixeira de Maputo, ou pelo menos um desses locais… senti algo que até então nunca tinha sentido ao ver miúdos e graúdos a vasculhar nos montes de lixo que se acumulam por várias centenas de metros. Vê-los com uma espécie de saco de rede que conseguem fabricar com o que encontram, a procurar, frenéticos, todos os restos de desperdício humano que vêm nos carros do lixo, causou-me um desconforto muito grande e uma sensação de impotência. São miúdos que não têm família, abandonados, marginalizados, desempregados, sem saber ler nem escrever, … mas com um sorriso enorme e curiosidade assim que nos avistam… Distribuímos algum pão; tirámos fotografias com eles e um dos mais pequenos chegou perto e pediu, não para lhe tirarmos uma fotografia, mas para sermos nós os modelos fotográficos! Ele tinha uma máquina de fotografia velha, sem uso, que um dia encontrou misturada no lixo… são estes e outros pequenos pormenores e acontecimentos que me fazem questionar muitas coisas que vejo e que sinto… mas mais que tudo questionar a razão pela qual ainda existem locais como esta “lixeira” cheia de vida!

De seguida, voámos até Nampula, cidade no norte do país, que em especial, me irá acolher durante algum tempo e onde me vou dedicar ao trabalho com os doentes de lepra, no Programa Nacional de Controle da Tuberculose e Lepra (PNCTL), colaborando também, sempre que possível com o Hospital Geral do Marrere (HGM), na área em que melhor me enquadre.

Também aqui em Nampula encontrei diferenças em vários aspectos como sejam o clima, a alimentação, o vestuário, a cidade, as estradas, a vegetação, … e é claro as condições de saúde deste povo. Será esta a minha área de trabalho aqui, visto que sou enfermeira desde há quatro anos.

Nas primeiras semanas, estive a acompanhar a Irmã Maria Pedrón (enfermeira) nas consultas externas do HGM. As patologias que observei foram das mais variadas e algumas bem diferentes das que estava habituada no serviço de medicina em que trabalhava no Hospital de Évora. Malária, tuberculose, HIV, diarreias, pneumonias, parasitoses, insuficiências hepáticas e cardíacas, … entre “outras doenças” como a fome, a miséria, a tristeza, a infelicidade, o desconhecimento, …aumentadas pelo estado físico da doença de cada pessoa. As condições deste hospital não são aquelas a que estava habituada em Portugal mas aqui é tudo diferente e há que “ter uma mente aberta” e tentar aproveitar e rentabilizar espaço e equipamento disponíveis. Há doentes a mais para os quartos disponíveis; há pessoas a mais para as camas a ocupar e para as consultas que se prevêem para cada dia; há doentes a mais para o número de funcionários, quer auxiliares (aqui são chamados de serventes), de enfermeiros e técnicos de saúde e médicos!

Dado que a minha actuação será prioritária no apoio aos doentes que sofrem de hanseníase, iniciei no mês de Fevereiro a minha participação no PNCTL, em colaboração com o Sr. Cássimo Martinho, enfermeiro supervisor distrital para o distrito de Nampula.

Nesta área, encontram-se vários postos e centros de saúde espalhados onde vou tentar chegar (sempre que as condições atmosféricas e as estradas o permitam!), de modo a participar nas concentrações de doentes de lepra onde se faz diagnóstico, reavaliação e fornecimento de terapêutica gratuita aos que sofrem desta doença.

Neste momento encontro-me em “integração” acompanhando o Sr. Cássimo nas concentrações, na distribuição de algum material de sensibilização sobre a lepra para os diversos postos e centros de saúde da área do distrito de Nampula e na distribuição de bicicletas fornecidas pelo PNCTL, para uso dos voluntários, visto serem estes que junto das populações identificam e incentivam os doentes a recorrer nas datas marcadas às concentrações.

Espero continuar a enviar notícias do que vou vivendo e aprendendo por estas terras de paisagens e cores lindas e onde as pessoas sorriem sempre… mesmo quando penso que certas vezes não há espaço para um sorriso!!!

Vanda Barnabé (Voluntária da APARF em Moçambique)