sábado, 29 de setembro de 2018

Sai lhali? Salàma! De Murrupula

Sai lhali? Salàma! Estou a realizar um novo programa. Nas últimas semanas tenho visitado os doentes de lepra mais carenciados em suas casas; aqueles a quem a lepra deixou marcas bem visíveis. Para isso, tenho contado com ajuda do activista da respectiva zona. Juntos, visitamos esses doentes. Como aconteceu no dia 17 de Maio em que visitei o Hilário António. Tem 7 filhos e é muito bem disposto. Ficou contente com a minha visita. Foi uma oportunidade para estar mais perto dele e ouvir as suas histórias. Ofereci-lhe pneus para a sua cadeira de rodas, sabão e pomada para as úlceras.

Os doentes, como o Hilário, raramente aparecem nas concentrações, devido às suas limitações físicas. São doentes que já terminaram o tratamento mas que ficaram com sequelas graves. Nas concentrações é impossível um contacto tão próximo com estes doentes. Daí a importância de os visitarmos na própria casa.

Os novos casos que diagnosticámos não necessitam deste acompanhamento. Os novos doentes apenas apresentam manchas. Raramente aparecem doentes com deformidades; mas isso não quer dizer que podemos parar porque diariamente surgem novos casos. É um incentivo para continuarmos; é o resultado do bom trabalho dos voluntários que vim substituir. É gratificante saber que estes novos doentes não vão passar pelas dificuldades do Hilário.

A sarna é uma das doenças dermatológicas que predominam neste distrito em que trabalho, principalmente nas zonas mais isoladas como Nachaca que visitei no dia 16 de Maio. Aqui, a sarna é uma epidemia devida, principalmente, à falta de água e de cuidados de higiene. Eu já ia prevenido. Tinha sido alertado pelo Rajá porque ele visitava esta zona com o Paulo. Preparei uma pomada com a ajuda dos meninos da missão. 

Foram eles que me transmitiram os ingredientes e ainda me ajudaram na preparação porque ainda têm bem presente o tempo em que a preparavam com o Paulo.

No próximo mês agendamos uma visita à escola e pensamos assim obter melhores resultados. Começamos pelos mais novos para lhes incutir hábitos de higiene. Tenho constatado que basta dizer-lhes coisas muito simples como: não basta pôr o medicamento, é preciso lavar a roupa e secar bem ao sol porque o bicho da sarna também está na roupa, para que as coisas comecem logo a melhorar.


Ricardo Leonardo
(Voluntário da APARF)

sábado, 22 de setembro de 2018

Retalhos de Ocua II

Quando se parte para uma terra de missão deve-se partir com o coração aberto

É certo que os nossos irmãos leprosos estão na nossa prioridade mas, então e os outros doentes? As crianças? E todos os que sofrem das mais variadas formas? Não podemos fechar os olhos e colocar as mãos nos bolsos à espera que tudo passe ou que outros o façam por nós.

Quando nos tocam à porta devemos abrir e escutar as suas preocupações... abrir os nossos corações. Foi assim que aconteceu num desses dias. Um simples tocar à porta e... era um casal com uma menina ao colo. A criança vinha aconchegada à mãe envolta numa capulana, com os olhitos brancos cobertos de água, as mãozitas pequeninas e os bracitos tão frágeis que ao pegar-lhe pareciam partir-se. Um caso flagrante de desnutrição.

Os pais da criança vinham magríssimos e cansados. Os pobres não tinham como alimentar a criança, a mãe tinha graves problemas e não tinha leite para a sua filha. Depois de beber um pouco de água e poderem descansar por instantes da longa viagem que tinham feito para atingirem a missão, cerca de 60 Km a pé, carregados de trouxas sob um calor abrasador, foi levada o mais rapidamente para o Hospital mais próximo, embora este fosse apenas um Centro de Saúde.

Ficou internada a soro dias que pareciam intermináveis... até que, finalmente, depois de uma visita teve alta e deixaram-na vir connosco. Ao chegar à missão, deu-se-lhe algum leite. Foi explicado aos pais como o deveriam administrar em casa e foi-lhes dado tudo o que precisavam, desde as latas de leite ao biberão.
Foi um processo lento mas gratificante. Hoje, essa criança já deu os seus primeiros passos e, como ela, aconteceu também à Ricardina, à Beatriz... e a tantas outras crianças que hoje recebem ajuda e apoio da Associação numa terra onde tudo é preciso mas, que por vezes basta que lhe abram o coração.

Sandra Figueiredo

sábado, 15 de setembro de 2018

Irmã "Xupa"

Desde que comecei a acompanhar o PNCTL, no início de Fevereiro, já foram diagnosticados 24 novos casos de lepra neste distrito, fazendo um total de 27 casos novos no primeiro trimestre de 2007 (entre Janeiro e Março). Muitos são casos em que os doentes atrasam a sua ida às unidades sanitárias, desvalorizando as manchas suspeitas, preferindo ir primeiro ao curandeiro (aqui a medicina tradicional tem uma grande presença e força!)... Quando chegam às nossas mãos já têm, algumas vezes, zonas insensíveis e deformidades irreversíveis a nível das mãos e pés… e mesmo reacções lepróticas típicas com nódulos e sinais inflamatórios, aos quais se acrescenta à terapêutica anti-leprótica, um esquema de corticóides, cuja administração deve ter uma vigilância muito cuidadosa, devido aos efeitos secundários.

Gostaria ainda de acrescentar um aspecto que me foi possível vivenciar e observar nestas poucas semanas que ainda estou a trabalhar no PNCTL. Para que haja um bom trabalho da minha parte junto dos doentes, preciso que os doentes compareçam nas datas marcadas às concentrações. Para tal, necessito da ajuda do enfermeiro supervisor, enfermeiros e técnicos das unidades sanitárias e dos voluntários. Estes voluntários têm um papel-chave: são as pessoas, que sem receberem incentivo económico, sinalizam, mobilizam e incentivam os doentes para comparecerem nos dias de concentração de lepra. Todos os dias, dou conta que sem eles o meu trabalho não funciona. Não cabe só aos enfermeiros e técnicos de saúde incentivar e cativar os doentes para frequentarem as concentrações mas também aos voluntários que os conhecem e vivem na mesma comunidade que os doentes.

Assim considero ser importante uma boa relação com este grupo. Tento motivá-los a ajudar os doentes de lepra, incentivando-os com palavras mas também com alguma ajuda material como seja sabão, calendários, camisolas,… mas julgo que não é o suficiente e à semelhança de outros voluntários da APARF, estou a programar uma reunião com a oferta de um almoço de convívio para pedir a sua colaboração e incentivo junto dos doentes de lepra.

O nome pelo qual somos chamados ao longo da nossa vida diz muito acerca de cada pessoa. Cada nome tem a sua raiz, origem, significado, valor,… indica a nossa  posição social / familiar / religiosa / política / laboral… distingue-nos de entre os demais na sociedade. Nestas terras descobri outros nomes, nomes pelos quais me apelidam ao longo do dia e conforme a ocasião, cada nome que me chamam tem o seu sentido e significado.

Começo por me chamar Vanda ao acordar e enquanto partilho o “matabicho” (o pequeno-almoço daqui) com as Irmãs da Apresentação de Maria onde vivo em Nampula, Moçambique.

À saída do portão, encontro os meus amigos e amigas pequeninos que começam a chegar para o início das actividades na escolinha que as Irmãs têm e que apoia cerca de 190 crianças entre os 3 e os 5 anos de idade. Mudo de nome e chamam-me logo Irmã, mesmo sem o ser…

Sigo para mais um dia de visita às concentrações de doentes de lepra e à chegada recebo o nome de Doutora. Lá vou dizendo que sou enfermeira e que me chamo Vanda. Os que já me conhecem de mais vezes tratam-me por Senhora Enfermeira ou Dona Vanda o que não deixa de ser engraçado. Para alguns já sou Mana Vanda, para os que se metem à conversa comigo, com quem partilho o dia a dia do quotidiano, com quem rio e partilho as “minhas preocupações” e com quem treino o meu macua!

Depois quando vou fazer algumas compras aos mercadinhos, tirar umas fotocópias ou simplesmente encher o depósito do carro sou outra vez Irmã, pois para o povo uma mulher branca sozinha, às compras, nas lojas ou ao volante de um carro, a trabalhar em Moçambique só pode ser religiosa pois senão o que é que anda aqui a fazer!?

Mas o que mais alegria e gozo me dá, acontece quando chego ao meu bairro em Nampula no fim do dia de trabalho e recebo o chamamento das crianças que vivem nas palhotas junto ao muro que rodeia a casa das Irmãs. Então passo a ser apelidada de Irmã “Xupa”. O carro é rodeado por várias crianças como sendo o Flávio, o Amisse, a Dairinha, a Lucinda, a Alice, a Paula, a Amélia de Sousa, o Ildon, o Aconteceu, … e outras que todos os dias aparecem quando chego e começo a buzinar para a sua alegria e contentamento. Já lhes disse que não sou Irmã mas para eles que ainda por cima são crianças, se vivo com as Irmãs também sou uma delas… e ponto final na conversa! Comecei a ser chamada assim já adivinharão porquê…pois um dia distribuí chupas e rebuçados e os pequenos desde aí que os pedem todos os dias… mas para que não se criem hábitos que não possam ser cumpridos no futuro, só distribuo de vez em quando e agora no dia da criança terão outra vez chupas e em dose reforçada! O mais engraçado é que quando chega um carro e que também tem o símbolo da APARF colado, quem lá vem dentro é também apelidado de Irmã Xupa, para confusão e risos dos demais!

Para estes pequenos, a vida é tão simples como brincar na terra, fazer brinquedos com restos de lixo, tomar banho numa bacia na rua onde quem passa pode ver, andar despido, sempre a sorrir e a cantar que me fazem pensar nas diferenças entre estes pequenos e as crianças de Portugal e dos outros países ditos desenvolvidos. Acho que a diferença não é nenhuma: todas adoram brincar em todos os sítios e com tudo, adoram tomar banho, adoram tirar a roupa, adoram sorrir e principalmente… adoram chupas!

Mpakha nihiku nikina (Até qualquer dia)
Enfermeira Vanda Barnabé
(Voluntária da APARF)

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Missão da Namaíta

“Sai Ihali? Salàma!”. Expressão macua para “Que tal as novidades? Tudo bem!”.

Olá amigos, venho contar-vos como têm sido os meus dias por estas terras moçambicanas.

Aqui os dias começam muito cedo…geralmente acordo com o cantar do galo ou com a chamada para a oração matinal dos fiéis muçulmanos na mesquita do bairro onde moro em Nampula, no norte do país. Vivo com as Irmãs da Apresentação de Maria num bairro da periferia da cidade, onde abundam palhotas, mercadinhos, vendedores de carvão, barracas de comércio e algumas casas de congregações religiosas, que apoiam crianças, jovens, mamãs,… que ali vivem nas áreas da educação, saúde, alimentação e outras ajudas.

De manhã cedo, cerca das 6h30 a 7h, não saio de casa para mais um dia de visita às concentrações dos doentes de lepra, sem antes receber os bons dias dados pelas crianças que moram nas palhotas junto à casa das Irmãs. Têm uns olhos e sorrisos tão vivos que espalham alegria e impelem forças e ânimo para o começo de mais um dia.

Como estou a substituir a Anabela (a voluntária que esteve a trabalhar no Programa Nacional de Controle da Tuberculose e Lepra – PNCTL- no distrito de Nampula), trabalho em conjunto com o Sr. Cássimo (enfermeiro supervisor distrital do PNCTL) e juntos seguimos para a concentração que está calendarizada para esse dia. Nem sempre os acessos são fáceis… há locais onde a estrada é alcatroada e se chega facilmente; enquanto noutros a picada é má e é preciso ter muita atenção às crianças, adultos, troncos, buracos, riachos, valas, animais, capim, pedras, latas,… antes de chegar, por vezes, ao local onde os doentes aguardam a nossa visita.

Nesta terra, ter um meio de transporte, seja ele qual for, é essencial. A carrinha que conduzo foi financiada pela APARF e é um bem fundamental. Sem este meio de transporte que utilizo não era possível aceder a locais onde nada chega, onde as pessoas nada têm e onde, por vezes, as crianças nem sequer um carro ou uma mulher de cor branca alguma vez viram! Há mesmo situações em que as crianças estão nas picadas e ao ouvirem o carro, simplesmente desaparecem ou vejo-as a correr como loucas pelo capim dentro, com medo da carrinha e de quem a conduz! Outras vezes, as crianças adoram, querem subir, querem “boleia” ou pedem que apite quando passamos nas picadas junto às suas palhotas ou / e escolas… é sempre uma festa!!!

Tenho de agradecer à APARF, aos sócios e amigos, o facto de eu ter este veículo para utilizar a favor dos doentes, pois sem ele o trabalho que faço não seria possível…

Ao chegar ao local, posto ou centro de saúde, encontro os doentes que já estão à espera, e aguardam persistentes a nossa chegada, para o início das actividades, graças à mobilização do voluntário e do enfermeiro. Organizam-se as fichas dos doentes, separam-se os doentes em tratamento dos casos suspeitos e inicia-se o trabalho. Dá-se prioridade ao enfermeiro da unidade sanitária para realizar o seu trabalho de diagnóstico, reavaliação e distribuição de medicação gratuita aos doentes.

A minha função, em conjunto com o Sr. Cássimo, passa por supervisionar as actividades de cada enfermeiro das unidades para que o PNCTL seja cumprido para benefício dos doentes de Hanseníase. Também colaboro com este enfermeiro no diagnóstico, reavaliação e distribuição da medicação, enquanto os doentes são atendidos, prestando assim o meu apoio sempre que seja necessário.

Em simultâneo, distribuo sabão e outros géneros aos doentes como forma de os ajudar e motivar, já que vivem em locais por vezes muito isolados e onde as condições de alimentação, higiene, saúde e educação não são as melhores.


Enf. Vanda Barnabé (Voluntária da APARF)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Murrupula

Faz hoje um mês que cheguei a Moçambique. Foi precisamente no dia 17 de Janeiro que aterrei em Maputo. Aproveito este momento para fazer um balanço de como tem sido a minha actividade em Moçambique até à presente data.

Como já referi, aterrei em Maputo no dia 17 com a Vanda onde permanecemos até ao dia 19. Apraz-me salientar a boa hospitalidade dos Missionários Combonianos em especial o irmão Martin que foi o nosso cicerone. Mostrou-nos um pouco de tudo na cidade, obras de arquitectura do passado, as novas construções, o modo de vida da população e um do seus projectos que executa numa lixeira, onde as pessoas vivem e se alimentam do lixo. É-lhes vedado o direito de serem pessoas/gente não têm papeis não podem exercer os seus direitos de cidadãos. Ele tenta a todo o custo inverter esta realidade. Conheci também a voluntária Ana Maria que nos compartilhou as suas experiências. Houve ainda tempo para irmos ao seu 16º andar contemplarmos a vista sobre a cidade.

Dia 19 aterrámos em Nampula onde nos separámos. Cada um rumou ao seu novo lar. Foi ainda nesse dia que cheguei a Murrupula já era quase noite. Mas um grupo de resistentes aguardava ansiosamente a minha chegada. Ainda não tinha saído do carro e já eles caminhavam serenamente na minha direcção cantando, em uníssono, para me felicitarem pela minha chegada.

Até ao dia 4 de Fevereiro, dia em que comecei a percorrer as várias comunidades com o enfermeiro Mário Rajá, estive num processo de reconhecimento e adaptação. Conheci algumas comunidades com o padre Jacob e deparei-me com realidades bem diferentes daquelas com as quais até então estava mais familiarizado.

Numa das comunidades, enquanto o padre Jacob tratava de assuntos relacionados com a gestão das tarefas dos seus membros, um nativo chamou-me e revelou-me uma das práticas ancestrais do seu povo, o rito de iniciação, cerimónia que marca a transição da adolescência para a idade adulta. Este homem fez questão que eu o seguisse por um carreiro afastado ligeiramente da aldeia. Deparei-me com um emaranhado de miúdos que rapidamente se ordenou ao som da sua voz. Sentaram-se rapidamente lado a lado à sombra de uns telheiros de palha. Esta voz inquietava-se e esperava ansiosamente que eu visse meticulosamente, um por um, todos os cerca de 80 miúdos pretensos futuros homens e examinasse atentamente o estado de cicatrização das suas circuncisões e, num passo de mágica, cicatrizasse a todos para poderem regressar para junto do seus familiares.

Esse dia é marcado com uma cerimónia a que eu assisti num outro dia com outros personagens.

Estes miúdos são entregues depois de um dia de jejum e uma noite sem dormir num misto religioso, num dia de grande festa.

Um dia nas comunidades
O dia começa no centro de saúde onde colaboro em parceria com o enfermeiro Rája. Às 07.00 há uma reunião com o médico e enfermeiros onde diariamente se aborda uma doença. Seguidamente há uma palestra nas imediações do Centro para os doentes que aí se encontram. Depois voltamos ao consultório para prepararmos a nossa saída não sem antes atendermos alguns doentes de tuberculose, lepra; por vezes ainda temos de fazer alguns testes de HIV antes de partirmos.

Chegados à comunidade começamos com uma palestra sobre a lepra, sarna e cuidados de higiene. Depois separamos os doentes; doentes antigos de lepra, doentes antigos de lepra com problemas na vista para posteriormente um técnico vir avaliar. Tomamos nota dos doentes com deformidades nos pés, desenhando os mesmos, casos suspeitos de lepra, doentes suspeitos de tuberculose (tosse prolongada), doentes com sarna.

Distribuímos medicamentos, sabão, por vezes algumas árvores (ainda da plantação do Paulo).

Os novos casos diagnosticados de lepra  perfazem um total de 10: Nachaca 2, Nihessiwe 3, Muchelelene 2 casos, Centro de Saúde de Tiponha 1, Cazuzo 2.

Próximas actividades
Dia 23 de Fevereiro realiza-se um encontro com todos os activistas no Centro de Saúde onde irá decorrer um almoço que irei financiar. Tenho-me apercebido da importância de existir um bom relacionamento com os activistas. Eles é que chegam aos doentes. Têm aparecido muito poucos. Desde a partida do Paulo que o projecto está praticamente parado e deixou de haver visitas às comunidades.

Até à presente data tenho uma lista de 9 pares de sapatos para comprar e entregar a doentes de lepra com deformidades.

Ricardo Leonardo (Voluntário da APARF em Moçambique)

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

África finalmente!

ÁFRICA FINALMENTE !... Desde que me conheço que este local me “chama” e depois de algum tempo a preparar a minha vinda, finalmente no dia 16 de Janeiro de 2007, em conjunto com outro voluntário da APARF, o Ricardo, iniciei a minha viagem para terras moçambicanas.

À chegada a Maputo, senti as diferenças numa cidade marcada pela presença de muitas culturas. Coabitam prédios e palhotas, mercados de rua e centros comerciais, ricos e pobres, jardins arranjados e lixo amontoado na rua, gelados e refrigerantes, cocos e bananas, … mais que tentar gostar da cidade e do que me mostraram, tentei perceber o modo de vida das pessoas daqui… e é uma forma de viver muito diferente da que estava habituada.

Um dos contrastes que me foi possível observar e vivenciar, aconteceu ao “visitar” a lixeira de Maputo, ou pelo menos um desses locais… senti algo que até então nunca tinha sentido ao ver miúdos e graúdos a vasculhar nos montes de lixo que se acumulam por várias centenas de metros. Vê-los com uma espécie de saco de rede que conseguem fabricar com o que encontram, a procurar, frenéticos, todos os restos de desperdício humano que vêm nos carros do lixo, causou-me um desconforto muito grande e uma sensação de impotência. São miúdos que não têm família, abandonados, marginalizados, desempregados, sem saber ler nem escrever, … mas com um sorriso enorme e curiosidade assim que nos avistam… Distribuímos algum pão; tirámos fotografias com eles e um dos mais pequenos chegou perto e pediu, não para lhe tirarmos uma fotografia, mas para sermos nós os modelos fotográficos! Ele tinha uma máquina de fotografia velha, sem uso, que um dia encontrou misturada no lixo… são estes e outros pequenos pormenores e acontecimentos que me fazem questionar muitas coisas que vejo e que sinto… mas mais que tudo questionar a razão pela qual ainda existem locais como esta “lixeira” cheia de vida!

De seguida, voámos até Nampula, cidade no norte do país, que em especial, me irá acolher durante algum tempo e onde me vou dedicar ao trabalho com os doentes de lepra, no Programa Nacional de Controle da Tuberculose e Lepra (PNCTL), colaborando também, sempre que possível com o Hospital Geral do Marrere (HGM), na área em que melhor me enquadre.

Também aqui em Nampula encontrei diferenças em vários aspectos como sejam o clima, a alimentação, o vestuário, a cidade, as estradas, a vegetação, … e é claro as condições de saúde deste povo. Será esta a minha área de trabalho aqui, visto que sou enfermeira desde há quatro anos.

Nas primeiras semanas, estive a acompanhar a Irmã Maria Pedrón (enfermeira) nas consultas externas do HGM. As patologias que observei foram das mais variadas e algumas bem diferentes das que estava habituada no serviço de medicina em que trabalhava no Hospital de Évora. Malária, tuberculose, HIV, diarreias, pneumonias, parasitoses, insuficiências hepáticas e cardíacas, … entre “outras doenças” como a fome, a miséria, a tristeza, a infelicidade, o desconhecimento, …aumentadas pelo estado físico da doença de cada pessoa. As condições deste hospital não são aquelas a que estava habituada em Portugal mas aqui é tudo diferente e há que “ter uma mente aberta” e tentar aproveitar e rentabilizar espaço e equipamento disponíveis. Há doentes a mais para os quartos disponíveis; há pessoas a mais para as camas a ocupar e para as consultas que se prevêem para cada dia; há doentes a mais para o número de funcionários, quer auxiliares (aqui são chamados de serventes), de enfermeiros e técnicos de saúde e médicos!

Dado que a minha actuação será prioritária no apoio aos doentes que sofrem de hanseníase, iniciei no mês de Fevereiro a minha participação no PNCTL, em colaboração com o Sr. Cássimo Martinho, enfermeiro supervisor distrital para o distrito de Nampula.

Nesta área, encontram-se vários postos e centros de saúde espalhados onde vou tentar chegar (sempre que as condições atmosféricas e as estradas o permitam!), de modo a participar nas concentrações de doentes de lepra onde se faz diagnóstico, reavaliação e fornecimento de terapêutica gratuita aos que sofrem desta doença.

Neste momento encontro-me em “integração” acompanhando o Sr. Cássimo nas concentrações, na distribuição de algum material de sensibilização sobre a lepra para os diversos postos e centros de saúde da área do distrito de Nampula e na distribuição de bicicletas fornecidas pelo PNCTL, para uso dos voluntários, visto serem estes que junto das populações identificam e incentivam os doentes a recorrer nas datas marcadas às concentrações.

Espero continuar a enviar notícias do que vou vivendo e aprendendo por estas terras de paisagens e cores lindas e onde as pessoas sorriem sempre… mesmo quando penso que certas vezes não há espaço para um sorriso!!!

Vanda Barnabé (Voluntária da APARF em Moçambique)



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Iapala depois de jantar

Depois do jantar na Missão, como habitualmente, vou de novo ao Hospital ver como estão os doentes cujo estado mais me preocupa, apesar do protesto das Irmãs de que devo descansar e que estou cada vez mais parecida com a Irmã Sarala, a Irmã enfermeira que agora se encontra de férias na sua terra natal, na Índia. Ao que me têm dito, parece que, mesmo sem a conhecer, entretanto absorvi um pouco da sua maneira de trabalhar e de lidar com os doentes, o que penso que se deve, em parte, ao modo como eles próprios lidam comigo e às expectativas que noto que têm em mim.

Ontem, por exemplo, pediram-me para fazer o penso de uma cesariana a uma jovem mamã. Tudo bem. A ferida cirúrgica estava com óptimo aspecto e em fase adiantada de cicatrização, pelo que apenas a desinfectei, e já estava a colocar algumas compressas esterilizadas sobre a ferida quando notei que havia um silêncio estranho à minha volta... Olhando em redor, todos estavam com os olhos postos em mim num olhar que não consegui perceber se era de espanto ou de reprovação. O que seria que se passava? Fitei a técnica de Saúde Materna num olhar não menos interrogativo... "O que se passa, D. Aida?" "Então, Doutora, não põe nada?" "Mas... na ferida?! Pôr o quê?" "A pomada da Irmã Sarala." A pomada da Irmã Sarala! De facto, já tinha ouvido várias vezes elogiar o poder cicatrizante da pomada fabricada artesanalmente pela Irmã com base em plantas medicinais e não me custava nada acreditar na sua eficácia, uma vez que várias pomadas cicatrizantes que se vendem na Europa são também elas próprias produzidas à base de extractos vegetais. Assim, vi-me absolutamente forçada a aplicar a dita pomada, rezando a todos os meus santinhos para que tivesse sido feita em condições de assepsia e a ferida não se infectasse... Mais tarde pude constatar em vários doentes as suas notáveis propriedades regenerativas, ficando, portanto, esclarecido e inteiramente justificado o silêncio interrogativo na minha primeira tentativa de fazer um penso. É admirável a articulação entre a Medicina Tradicional e a Medicina Científica que a Irmã Sarala, com o curso tirado na Índia e a especialização na Alemanha, domina magistralmente e são estas coisas que me fazem sentir pequenina perante um tipo de conhecimentos que provavelmente nunca vou poder adquirir ou aplicar...

Na rua, esta noite, um nevoeiro andante invade todos os espaços numa incontinência cinzenta e fria, cobrindo as montanhas de um véu glaucomatoso. A lanterna continua a ser a minha melhor aliada na cerração da lua nova e da névoa para escrutinar o piso térreo tentando não pisar nenhuma cobra. Aqui de nada vale a valentia dos que afirmam não ter medo de ofídios: ingenuidade! não dispomos de antídoto para mordeduras venenosas e nem quero imaginar como é que faria a mim própria o desbridamento de uma ferida sem qualquer anestesia... Há dias, quando estávamos completamente sem energia, por lapso esqueci-me da lanterna e com o vento não podia sair do Hospital com a vela acesa. Não passava muito das 20:00, mas como estava completamente escuro já todos no Hospital estavam deitados, e foi à pálida luz do meu oftalmoscópio que consegui não tropeçar nos doentes e nas famílias que dormiam no chão cá fora, um pouco por todo o lado, isto apesar de haver camas vagas... Vários colegas me tinham perguntado a que propósito levava eu o oftalmoscópio para Moçambique, se não poderia tratar quase nenhuma das patologias que podia diagnosticar com ele. Mal eu sabia da sua futura utilidade...

À porta do Hospital está um homem com uma criança que aparenta uns oito ou nove anos, pai e filho sentados no chão, com o menino reclinado sobre o tronco do pai, entre as suas pernas abertas - cuidado habitualmente dedicado aos doentes e sinal inequívoco da sua preocupação pelo filho. Ao lado uma bicicleta e um cesto com roupa e comida. Nestes dias já aprendi a descortinar estes pequenos sinais: Vêm de longe... Assim, a esta hora, para além dos cuidados médicos, é necessário providenciar-lhes também o jantar e uma cama para dormirem. Abaixo-me para os cumprimentar, tal como aprendi com a Irmã Lurdes, sinal de boa educação nesta cultura - cumprimentá-los de pé teria sido provavelmente interpretado como rudeza ou arrogância da minha parte - e só então os convido para entrar. O menino parece ter-me compreendido e põe--se de pé rapidamente, encarando-me de frente com um olhar vivo e intenso, algo extremamente raro que me surpreende, já que as crianças habitualmente desviam o olhar envergonhado quando as observo. Desta vez, então, fiquei cativada à primeira vista! É um menino adorável. Para além disso, posso apreciar que tem bom estado geral, uma aparência razoavelmente cuidada para os padrões daqui, sobretudo considerando que deve estar em viagem há algum tempo e não parece de todo estar doente... 

Ao que me dizem, estão de viagem, sempre de bicicleta, há mais de dois dias e no mapa improvisado desenhado pelas Irmãs consigo encontrar o nome da aldeia de onde vêm: fica a cerca de 100 km daqui e não há sequer estradas nessa direcção por onde possa passar um jeep! Ao longo da conversa o menino continua a surpreender-me com uma inteligência e vivacidade invulgares e um domínio da língua portuguesa nada comum para uma criança que viveu toda a vida numa aldeia extremamente isolada. O motivo da consulta, pelo que consegui perceber, é uma dor intensa na perna, embora objectivamente não consiga descortinar qualquer lesão ou alteração neuro-muscular. Nos meus primeiros dias em Iapala costumava surpreender-me com o cuidado extremo que os pais dedicam aos filhos, o que era flagrantemente resultado de uma deformação profissional: as famílias numerosas, de sete ou mais filhos que vivem abaixo do limiar de pobreza, e que aqui são a maioria, em Portugal são geralmente famílias disfuncionais e as crianças demasiadas vezes vítimas de maus tratos e negligência. Mas claro que rapidamente formei auto-crítica e percebi que Portugal e Moçambique são duas realidades de forma nenhuma directamente comparáveis. Mas mesmo assim, há qualquer coisa aqui que não bate certo... Uma dor que não impede a marcha nem as actividades normais parece-me muito pouco para o esforço de uma viagem tão grande e arriscada. 

O pai tem bastante mais dificuldade no domínio da língua e parece ansioso, tentando explicar-me qualquer coisa de preocupante no estado de saúde do filho, mas que não compreendo. Já virei o miúdo dos pés à cabeça e a única coisa que consegui objectivar é que se encontra sub-febril e um pouco inquieto, a roçar o agitado. Mas mais provavelmente se trata de malária do que qualquer outra coisa mais grave. Não entendo... Só se estão de viagem para qualquer sítio e passaram por aqui para poderem dormir abrigados e tomar uma refeição quente. É uma hipótese que me parece muito mais plausível. De qualquer forma, geralmente sobra um pouco de comida e temos duas camas vagas no quarto do isolamento que se podem perfeitamente ocupar por uma noite. E quem é que os poderá censurar? Mais vale que durmam aqui do que ao relento no mato, onde há tantos perigos e não comer depois de uma viagem tão extenuante deve ser horrível. 

Em poucas linhas a nota de entrada fica feita: amanhã se fará o teste para ver se o menino de facto tem malária e vou falar com um auxiliar para lhes providenciar a acomodação. Agora a dúvida: perante uma suspeita tão ténue de malária não complicada devo tratar já ou não? Decido-me a não tratar sem fazer o teste primeiro. Vou--lhe dar apenas um paracetamol para lhe aliviar a dor na perna e baixar a temperatura... Regresso então com o comprimido e um copo de água mas, quando o entrego ao menino, este dá um grito apavorado... Gelei.  

O olhar do pai diz-me finalmente que era isto que estava há pouco a tentar comunicar-me: o filho tem pavor da água há alguns dias e não consegue engolir... Da porta a Irmã Lurdes, que tinha acabado de chegar para me obrigar a ir descansar, ainda assistira à cena e olha-me consternada. Também ela acabou de compreender que o menino tem raiva e sendo assim não há qualquer hipótese de cura... Está tudo finalmente explicado, a dor na perna, a ansiedade do pai, a viagem extenuante numa tentativa desesperada de salvar este filho tão especial, o brilho quase selvagem no olhar do menino, a agitação, a febre... "O menino foi mordido por um cão?" O pai nega, ansiosamente... Para além de não conseguir engolir, também está agitado e às vezes agressivo, diz. Examinando melhor o local para onde o menino aponta, realmente compreendo que não pode ter sido um cão a fazer uma cicatriz de mordedura tão pequena. "Que bicho lhe mordeu?", pergunto, compreendendo subitamente a verdadeira origem desta expressão popular. O pai responde que nenhum, nenhum bicho, é isso que o intriga - pela conversa, agora com a Irmã Lurdes a traduzir, percebo que ele conhece os sintomas da raiva e tem essa suspeita no filho. Teve uma pequena ferida há algum tempo na perna, mas nem sequer ligou importância. "Costuma dormir ao relento?", pergunto. Um ligeiro aceno de anuimento. Só pode ter sido um morcego... Nem posso acreditar... E pensar que, se não fosse este pequeno incidente com o copo de água, o diagnóstico desta doença terrível haveria de se me escapar por entre as unhas! 

O que será que o pai espera de nós? Será que não sabe que a raiva nesta fase já não tem cura e tem esperança de que façamos algo, ou pretende só a confirmação do diagnóstico? Mas mais vale esperar pela manhã para ter essa conversa tão delicada. Pai e filho devem estar exaustos... A Irmã Lurdes, já habituada aos muitos casos de raiva que aparecem por ano, desfaz o comprimido, coloca-o numa colher e senta-se ao lado do menino: "Se eu te tapar os olhos, achas que consegues tomar o remédio para passar a dor? Vais sentir-te melhor..." Com os olhos vendados para não ver a água que o apavora e lhe provoca espasmos intensos na garganta, a muito custo, consegue engolir o comprimido desfeito e algumas colheres de água...

Não consegui dormir quase nada esta noite. Nem eu nem as Irmãs. Não nos podemos oferecer para cuidar do menino no hospital porque o prognóstico é fatal a breve trecho e na cultura Macua os mortos não podem ser enterrados longe do local onde nasceram, sob pena de a alma nunca mais encontrar o caminho para o céu. E não havendo estradas para aquela zona também não podemos ir levar o menino a casa... Mas de manhã o pai é categórico: quer ser ele próprio a cuidar do filho, e levá-lo para casa o mais rápido possível para lhe poder dar algum carinho e descanso no final da vida e levá-lo a despedir-se dos seus... Mas aceitou de bom grado os analgésicos e sedativos e o transporte de jeep até onde a estrada termina. Emocionou-me a aceitação e a compostura daquele pai de família, mantendo o pragmatismo e o cuidado com o filho, em circunstâncias tão terríveis e tão revoltantes.

Quanto a nós, há que persistir, embora o trabalho nos custe a pegar... 

Dra. Patrícia Lopes

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A caminho da Missão de Iapala

Já passa do meio dia quando aterro pela primeira vez na cidade de Nampula, no Norte de Moçambique, em Agosto do ano passado, tendo como destino a Missão de Iapala, a 180 km de distância, onde ficaria a trabalhar como voluntária no hospital da Missão, uma vez que sou médica, recém licenciada e com uma paixão inexplicável por África, nascida dos encantos da minha primeira vez na savana um ano antes. Sou de imediato acolhida com a vivacidade da Irmã Conceição, que me leva a dar uma volta de carro pela cidade. Um breve conhecimento da capital de província e o meu último contacto com o ambiente urbano, antes da partida para a Missão de Iapala.

... Vêm chamar-me para ir ver uma mulher que tem um recém-nascido de poucos dias ao colo. É o neto. A mãe está doente e teve de ser transportada para a cidade, sem possibilidade de cuidar da criança, uma situação extremamente delicada. “Ihali, Irmã?”, cumprimenta-me. (Como está, Irmã?) Já nem sequer tento desfazer o engano. Não há maneira de convencer as pessoas de que não sou religiosa e não me devem tratar por Irmã. De qualquer modo acho que não acreditariam em mim, pois se já tenho 24 anos e ainda não tenho filhos... A avó, aflita, só fala Macua e não a compreendo, mas o enfermeiro diz-me que me pede leite em pó para dar à criança. Nós temos leite para lactentes no armazém do hospital, mas o problema é a água... É praticamente impossível conseguir água potável nas aldeias que rodeiam a Missão e portanto fornecer-lhe o leite é uma irresponsabilidade da minha parte e poderá mesmo equivaler a uma condenação da criança a sucumbir a uma gastroenterite. Os adultos já estão habituados e praticamente imunes às bactérias e parasitas mais corriqueiros, mas os recém-nascidos são muito frágeis. “Onde vive?” A sua aldeia fica a 50 km daqui. Já passei por lá com a Irmã Lurdes na campanha de vacinação e sei que não tem uma fonte de água potável, pelo que as pessoas vão buscar a água que bebem ao rio – que na estação seca quase não passa de vários charcos de água parada a céu aberto – lavam-se no rio e é também nele que fazem os despejos. E está fora de questão ferver a água para preparar o leite, já que a pouca lenha que as famílias conseguem arranjar mal dá para cozinhar. Aliás, em todas as famílias há pelo menos uma pessoa cuja única função diária é ir buscar lenha.

Ponho o problema à Irmã Lurdes, que me diz para a levar à D. Catarina. A parteira do Hospital é uma mulher robusta, com uma personalidade forte e determinada, viúva e mãe de dez filhos, infelizmente nem todos vivos. Já não é nova, como o afirmam as suas rugas e a ausência de alguns dentes, e o que lhe falta em conhecimento científico sobra-lhe em experiência. Tem sobretudo uma intuição fortíssima, em que já confio quase cegamente. Na maternidade, onde raramente estou porque tenho imenso trabalho noutros serviços, sem o apoio de um aparelho para registar a evolução da frequência cardíaca do feto e das contracções uterinas fico completamente cega, sem qualquer referência para me orientar e os meus parcos conhecimentos de Obstetrícia servem-me para muito pouco... Ela, pelo contrário, não arreda pé da sala de partos, dure o trabalho de parto quanto tempo durar, conversa com as mamãs, canta canções às mais novas, faz-lhes massagens de relaxamento no intervalo de cada contracção – a única forma de analgesia de que dispomos, e já várias vezes antes me chamou, preocupada, a dizer que há um feto em sofrimento que tem de ser transferido para o Hospital distrital, onde há um bloco operatório. Nem sequer consigo imaginar como é que ela, sem auscultar o feto, percebe o que se passa, mas quando me pede para chamar a Irmã Lurdes para transportar a mamã, quase invariavelmente tem razão, tal como posteriormente se acaba por confirmar no Hospital distrital. 

É portanto, à D. Catarina que levo a avó, que deve ter bem mais de 40 anos, ou seja, já idosa para os padrões africanos. Exponho-lhe a situação após o que se levanta seriamente, sem uma palavra. Deve talvez ir tentar encontrar uma ama de leite entre as várias puérperas do Hospital, penso. Mas, para meu assombro, regressa pouco depois com um preparado de ervas que fricciona no peito da mulher e dá-lhe a comer uma espécie de leguminosa crua de que não percebo o nome e que ela ingere sem um protesto, enquanto a D. Catarina lhe estimula o peito. Não sei porquê sinto-me nitidamente a mais neste momento, há qualquer coisa que não compreendo e onde não pertenço... Retiro-me, pois, no momento em que a D. Catarina lhe coloca o bebé ao peito. Quando regresso, ao fim da tarde, o bebé já começou a mamar um pouco e a avó parece animada. Dias depois, o bebé tinha recuperado algum peso e interroguei a avó, por curiosidade, sobre que altura tinha o seu filho mais novo (já desisti de perguntar a idade...). Pela resposta devia ter uns dez anos... 

Perguntei depois à D. Catarina como conseguira tal coisa, ao que ela respondeu, muito simplesmente, “Não fui eu, foi o bebé. São os filhos que fazem o leite das mães!” É incrível! Não que eu não soubesse esta lição da Fisiologia, mas ver resumido de forma tão simples e em forma de adágio aquilo que eu tinha aprendido com hormonas e feed-backs negativos deixou-me simplesmente atarantada... Mais ninguém parece surpreendido com este autêntico milagre! Explica-me depois a Irmã Florinda, uma jovem africana da minha idade, que se trata de uma situação muito habitual nesta cultura e são as avós ou as tias que assumem o cuidado e a amamentação dos recém-nascidos quando as mães, por qualquer razão faltam. Tempos depois, já de regresso a casa, viria a descobrir que este fenómeno, que me pareceu tão exótico e culturalmente estranho, e que eu conhecia no reino animal mas não me parecia possível entre os humanos, não é assim tão raro e é actualmente alvo de vários estudos científicos. Eu só falo por mim, mas há tanto a aprender com África...

Dr. Patrícia Lopes - Médica

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Voluntários da APARF em Moçambique Parte IV

ASPECTOS SÓCIO-ECONÓMICOS

A percentagem da população que, segundo os Censos de 1997, se encontrava abaixo do limiar da pobreza absoluta era de cerca de 65% na província de Nampula (a linha de pobreza absoluta em Moçambique foi calculada em 5.433,00 Meticais/dia aos preços médios no país em Abril de 97). (cerca de 35 cêntimos)

A principal ocupação da população é a agricultura de subsistência, sendo os produtos utilizados para consumo próprio e para comercialização em muito pequenas quantidades. As plantas alimentícias mais cultivadas são a mandioca, milho, sorgo (mapira), várias espécies de feijão, amendoim e arroz, não havendo o hábito de plantar árvores de fruto, à excepção da papai eira, em parte por questões culturais e em parte porque o tempo que as árvores demoram a crescer não permite às famílias que as plantam usufruir destas, uma vez que periodicamente se deslocam para habitar noutros locais. As outras árvores de fruto existentes na região são a bananeira, mangueira, cajueiro, laranjeira e limoeiro. Os animais criados para consumo doméstico são sobretudo as galinhas, os cabritos, e os porcos. No entanto, esses animais são frequentemente utilizados para comercialização no sentido de obter moeda de troca para a compra de produtos como roupa e bebidas, mais do que para consumo próprio, não contribuindo para atenuar o problema da desnutrição.

A alimentação é muito pouco variada, com fontes pobres de proteínas, a maioria das quais de origem vegetal. A base da alimentação é a mandioca, a planta mais facilmente cultivável nesta região, requerendo pouca água, criando-se em vários tipos de solo, pelo que é a fonte mais importante de calorias, embora não possua fibras, proteínas, vitaminas ou minerais essenciais.

Por conseguinte, existe um défice muito importante de proteínas, vitaminas e minerais na alimentação, sobretudo durante os meses de Novembro até ao final de Janeiro, que coincidem com o período em que as reservas do ano anterior já se esgotaram e se inicia a nova sementeira, não havendo nenhuma colheita durante esses meses. Há, portanto, muitos casos de desnutrição - marasmo e kwashiorkor - agravados ainda pelos vários tabus culturais relacionados com a alimentação (por exemplo, a interdição de as mulheres grávidas amamentarem os filhos ou de comerem determinados alimentos, como ovos - havendo a crença de que a criança nascerá sem cabelo) e agravados também pelas muitas doenças debilitantes que pululam por toda a província, como a SIDA e as suas doenças oportunistas, a malária e as parasitoses intestinais.

Há ainda o problema da conservação dos alimentos. A carne ou o peixe têm de ser consumidos de imediato, ou então são secos em péssimas condições de higiene. Os cereais são também secos e/ou fumados, ficando empobrecidos em vitaminas e minerais e dando origem a potenciais agentes cancerígenos.
Contribuindo também para a desnutrição, doenças, debilidade e pobreza, o alcoolismo é uma situação extremamente prevalente, sobretudo entre os homens, não havendo infra-estruturas, medicamentos ou pessoal com formação para a desabituação alcoólica.

CENTRO DE SAÚDE DA NAMAÍTA

Existe um único Centro de Saúde (CS) para os cerca de 40.000 habitantes da área da Namaíta (o CS de Namucaua recentemente inaugurado ainda não se encontra a funcionar por falta de equipamento e mobiliário). Os doentes que vivem mais afastados do CS têm de percorrer uma distância de cerca de 32 km a pé ou de bicicleta para receberem assistência.

Anabela Torres Alves (Enfermeira)
Patrícia Martins Lopes (Médica)

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Voluntários da APARF em Moçambique Parte III

PROBLEMAS DE SAÚDE DA POPULAÇÃO 

Segundo a percepção dos enfermeiros do CS, as doenças mais prevalentes nesta área são a malária, as parasitoses intestinais, diarreias de várias etiologias, doenças de transmissão sexual, incluindo a infecção pelo VIH, a tuberculose nos adultos e, nas crianças, as pneumonias, anemias e desnutrição. Os principais motivos de transferência urgente de doentes para o HCN são a dificuldade respiratória, anemia grave e malária complicada.

Existe um problema sério de falta de formação dos funcionários do CS, quer a nível humano, quer a nível científico, bem como uma grande desmotivação, que se prende por um lado, pela falta de recursos e condições de trabalho e, por outro, pelos salários extremamente reduzidos, situação que se repete sistematicamente um pouco por todo o país. Esta situação levanta várias questões complexas: por um lado, existem localmente, de facto, muitas plantas e outros produtos orgânicos ou inorgânicos com propriedades medicinais e os médicos tradicionais têm também frequentemente conhecimentos sobre medidas gerais de tratamento de doenças e fazem o aconselhamento de hábitos de vida saudáveis. No entanto não têm uma aprendizagem formal, desconhecendo conceitos básicos sobre os mecanismos de doença, o seu exercício não é regulamentado, não há geralmente possibilidade de controlo da dose terapêutica administrada, o que condiciona muitos óbitos por envenenamento por substâncias tóxicas, as vias de administração são muitas vezes inadequadas (por exemplo, é extremamente habitual a administração de preparados tradicionais através da incisão da pele com objectos cortantes não esterilizados, com todos os riscos inerentes a estas práticas) e habitualmente cobram honorários muito superiores às taxas moderadoras cobradas pelas unidades sanitárias. Por outro lado, embora as duas formas de Medicina não sejam totalmente antagónicas ou mutuamente exclusivas, a falta de cooperação entre os médicos tradicionais e os profissionais de saúde leva a que os doentes não sejam referenciados ou, pelo menos, encorajados a recorrer a uma unidade sanitária quando a situação clínica assim o impõe. Uma outra questão a ser considerada na Medicina tradicional é o aspecto espiritual e cultural. O povo macua tem uma cultura muito rica em crenças, rituais, cerimónias e a doença é encarada como um fenómeno biológico, social e psicológico complexo. Embora isto seja considerado por muitos peritos em Medicina como difícil de entender e explicar, não é possível fazer qualquer progresso na compreensão da questão sem abordar os aspectos espirituais da Medicina tradicional, visto que toda a cultura macua e o seu sistema de crenças se baseia na convicção do poder dos espíritos ancestrais e em poderes sobrenaturais. Sob este prisma, a Medicina tradicional, englobando rituais e cerimónias, está mais adaptada à cultura local e permite mais facilmente aos doentes atribuir um sentido inteligível à doença do que a Medicina científica, gozando de maior confiança por parte da população, que acredita no poder do mukulukhana para invocar a intervenção dos antepassados.

VIH/SIDA

No que se refere à infecção pelo VIH/SIDA nas mulheres grávidas e crianças, este constitui um problema de particular relevância, uma vez que uma intervenção atempada pode prevenir a transmissão vertical (da mãe para o filho) da infecção, aumentando a esperança de vida da criança e melhorando definitivamente a sua qualidade de vida. Por outro lado, a gravidez constitui uma oportunidade privilegiada de intervenção a nível de aconselhamento, dado que é um período em que a mulher se encontra mais receptiva à aprendizagem de aspectos relacionados com a sua própria saúde e a do seu filho, sendo também maior a probabilidade de aceitar a realização do teste, sobretudo se lhe for oferecida a oportunidade de realizar uma terapêutica para reduzir a transmissão vertical. Nos países europeus e nos EUA, a prevenção da transmissão vertical (PTV) pressupõe a realização de terapêutica antiretroviral (PTV), bem como cesariana electiva:, terapêutica endovenosa durante o parto e aleitamento artificial exclusivo, caso em que se consegue uma redução da transmissão na ordem dos 100%. No entanto, em Moçambique estas medidas seriam absolutamente impraticáveis na generalidade das unidades sanitárias e pouco exequíveis nos maiores e mais bem equipados hospitais, sobretudo se considerarmos que a quantia per capita atribuída pelo Ministério da Saúde é de apenas poucos dólares por ano. Assim, qualquer intervenção a este nível, para poder ser assumida e apoiada pelo estado deverá ser relativamente eficaz, de baixo custo e necessitar de poucos recursos humanos e materiais. Existem muitos estudos recentes que demonstram que uma dose única de um fármaco anti-retroviral (nevirapina) administrada por via oral à mãe durante o parto, assim como uma dose do mesmo fármaco administrada à criança logo após o nascimento reduz em 50% a transmissão vertical, com um custo total de cerca de 0,50 € (calculado a partir do custo do medicamento genérico na Medimoc). Dada a elevada taxa de natalidade do país (mais de metade da população de Moçambique tem menos de 18 anos de idade), trata-se de uma intervenção extremamente urgente e que deve ter prioridade relativamente à TARV dos adultos, uma vez que permite reduzir o aumento da prevalência da infecção por VIR, bem como a mortalidade infantil. É também a intervenção com melhor relação custo-benefício, pode ser integrada nas consultas de SMI já praticadas nos CS, sem quaisquer meios adicionais, não requerendo outro espaço físico ou um aumento de pessoal do quadro. Necessita, no entanto, da existência de um espaço físico com privacidade para a realização do aconselhamento, de formação específica do pessoal em aconselhamento e noções básicas de PTV durante a gravidez, parto e amamentação, da existência de um laboratório na unidade sanitária e de reagentes para a realização do teste diagnóstico.

O CS da Namaíta tem um movimento de cerca de 300 a 600 consultas de Serviço Materno Infantil (SMI) por mês, entre consultas pré-natais e de puerpério, realizadas por uma enfermeira de SMI e quatro parteiras. O número de partos mensais é habitualmente entre 60 a 80.

Possui uma sala de partos com uma marquesa ginecológica e duas balanças para recém-nascidos (RN), embora não disponha de equipamento de reanimação de RN ou de equipamento para cuidados intermédios, como incubadora. Segundo informação da Directora do CS, o número de partos é extremamente reduzido em comparação com a taxa de natalidade da área de influência do CS. De facto, a impossibilidade de as grávidas no [mal da gestação se deslocarem até ao CS para a realização do parto, leva-as a dar à luz no domicílio, onde não recebem assistência adequada nem têm possibilidade de ser transferidas para um hospital de referência caso sUIjam complicações. Uma solução que comprovadamente já demonstrou a sua eficácia em outras unidades sanitárias do país seria a existência de uma Casa de Mães à Espera, onde pudessem aguardar com segurança o desencadeamento do parto. O período de espera é igualmente um momento privilegiado para as mães receberem informação qualificada sobre como cuidar do RN, cuidados a ter na amamentação e alimentação da criança para reduzir a probabilidade de transmissão do VIR e evitar o surgimento de outras doenças, anticoncepção no pós-parto, etc.

LEPRA

Uma das implicações das condições higieno-sanitárias da população descritas acima é que o bacilo da Lepra, uma vez que possui a capacidade de permanecer viável durante vários anos na terra, tende a perpetuar-se, mesmo na população que já recebeu tratamento, dando-se a inoculação por via transcutânea, já que o contacto prolongado das pessoas com a terra favorece a inoculação por esta via. No que se refere especificamente à prevalência da Lepra, segundo a informação publicada pelo Jornal Nacional Savana, de 3 de Fevereiro de 2006, o distrito de Nampula-Rapale é o terceiro mais afectado pela Lepra a nível nacional, com 13 doentes por cada 10.000 habitantes, juntamente com o distrito de Mogovolas. Em primeiro e em segundo lugar estão os distritos de Mogincual e Murrupula, com uma prevalência de 15 e 14,1 por 10.000 habitantes, respectivamente. Em Dezembro de 2005 encontravam-se 206 doentes de lepra em tratamento no distrito de Nampula-Rapale - 151 doentes com lepra multibacilar (MB) e 55 com lepra paucibacilar (PB), dos quais 121 doentes na área da Namaíta. Para além dos doentes em tratamento, existe ainda um número não quantificado, mas extremamente significativo de pessoas com deformidades, úlceras e outras sequelas físicas, psicológicas e sociais da lepra, uma vez que se trata, por um lado, de uma área com elevada prevalência de lepra e, por outro, pelo facto de na Namaíta ter existido uma leprosaria que foi desactivada durante a guerra civil que se seguiu à Independência, tendo a maioria dos doentes que tinham sido afastados da família permanecido nesta zona. Todos estes doentes poderiam beneficiar de um programa de reabilitação sócio-económica adequado à sua situação.

Relativamente ao tratamento, todas as unidades sanitárias da área da Namaíta recebem os fármacos preconizados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para a terapêutica, disponibilizados gratuitamente aos doentes, com poucas rupturas de stoc~ existindo, no entanto, dificuldades pontuais na disponibilidade de prednisolona (Prednipac®) para o tratamento das reacções da lepra. O responsável na área da Namaíta pelo Programa Nacional de Controlo da Tuberculose e Lepra (PNCTL) é um enfermeiro básico/assistente técnico de saúde e colaboram no programa catorze voluntários seleccionados pelo Supervisor Distrital do PNCTL e formados pelo próprio e pela Direcção Provincial de Saúde. Os voluntários exercem a sua intervenção na área da Lepra, fazendo palestras em escolas, igrejas, mercados, acompanhando os casos suspeitos de Lepra ao CS, sensibilizando a população, veiculando informação sobre a doença, o tratamento e as datas das concentrações de doentes. Têm também a responsabilidade de assegurar a adesão dos doentes à terapêutica, procurando-os no domicílio quando não se apresentam na data marcada para receber a terapêutica. Dispõem de viaturas próprias (bicicletas). São realizadas periodicamente concentrações de doentes, dinamizadas pelos voluntários em dezasseis pontos da área da Namaíta, incluindo os Postos de Saúde já referidos ou, na sua ausência, sob um telheiro de capim, que serve como ponto de referência e local de maior privacidade para a observação dos doentes.

De uma forma genérica, pode afirmar-se que os principais problemas ao nível do diagnóstico e tratamento dos casos activos são:

- Ausência de realização de actividades de sensibilização e despiste nas escolas (embora esteja previsto o seu início a curto prazo, com um sistema de incentivo para a escola e para os alunos mais dinâmicos, à semelhança dos incentivos dados pelos voluntários da APARF aos doentes em tratamento);
- Dificuldades na comunicação à distância com os voluntários para confirmação das datas das concentrações e suas eventuais alterações (uma forma encontrada por Paulo Bica, voluntário da APARF, presentemente a trabalhar na Missão de Murrupula, para resolver este problema foi o anúncio público na rádio das datas das concentrações à hora de um programa de grande audiência);
- Falta de preparação dos activistas e profissionais de saúde para reconhecer e tratar as complicações da doença, bem como para o ensino do auto-cuidado;
- Negligência no seguimento e reavaliação dos doentes;
- Deficiências no registo da história clínica, complicações e terapêutica;
- Falta de adesão regular à terapêutica por parte dos doentes;
- Desvio de medicamentos ou a sua venda;
- Não referenciação às unidades sanitárias em caso de dúvida diagnóstica ou no surgimento de complicações.

Relativamente aos casos já tratados mas que permanecem com sequelas físicas, psicológicas ou sociais, porém, há uma grande lacuna ao nível da reabilitação física e sócio-económica.

Neste sentido, a voluntária da APARF, Anabela Alves, enfermeira licenciada, iniciou recentemente em colaboração com voluntários, uma actividade de cuidados continuados domiciliários junto das pessoas afectadas pela Lepra, promovendo o ensino do auto-cuidado e a sua reabilitação física. No entanto, a reabilitação sócio-económica e psicológica é uma questão que permanece por abordar.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Voluntários da APARF em Moçambique Parte II

HABITAÇÃO E ABASTECIMENTO DE
ÁGUA E ENERGIA

O tipo de habitação é quase exclusivamente o tradicional, com paredes em matope, telhado em capim, pavimento de terra, com uma ou duas aberturas e uma a quatro divisões numa área coberta muito reduzida. O mobiliário é praticamente inexistente, dormindo as pessoas sobre uma esteira ou, por vezes, em cama manufacturada artesanalmente com capim e bambu.

Na cultura Macua, a habitação não é encarada como estrutura permanente, onde a família se fixa durante muitos anos, pois as condições ambientais conduzem à degradação rápida das casas ao longo de 3 a 5 anos, colocando os habitantes em risco caso não seja construída uma nova habitação. Outro factor que leva as famílias a mudar periodicamente de residência e que, não havendo o hábito de adubar ou estrumar a terra, os nutrientes do solo esgotam-se de uma forma relativamente rápida, pelo que as pessoas se deslocam para outros locais, a fim de encontrar solos mais férteis para cultivo.
Por vezes, nas imediações da habitação, existe uma latrina, com ou sem fossa cavada directamente na terra, mas muitas vezes as pessoas deslocam-se ao mato para urinar ou defecar, pelo que na estação das chuvas, a água escoa em superfície livre para os cursos de água muitas vezes transporta agentes infecciosos gastrointestinais, potenciando os surtos de disenteria e cólera.
Os ratos, os mosquitos, as moscas e os morcegos são um problema grave, atraídos pela comida mal acondicionada, pelo lixo e latrinas a céu aberto, não existindo, na maior parte das vezes, barreiras físicas à sua entrada nas habitações (porta, janela, redes mosquiteiras), sendo vectores de doenças como as gastroenterites, malária, filaríase, míase, e raiva.

A área da Namaíta não possui energia eléctrica, embora exista rede de telefone móvel de sinal inconstante e pouco fiável e emissora de rádio. São quase exclusivas as fontes de energia de muito baixo rendimento: a lenha e o carvão, este último produzido artesanalmente a partir de árvores cortadas, o que, apesar de ser uma fonte importante de rendimento para muitas famílias pelo seu valor comercial, constitui um potencial contribuinte para a desertificação por estas árvores não serem plantadas novamente. Está, no entanto, prevista, a breve trecho, a chegada de electricidade à Namaíta (energia com origem na Barragem de Cahora Bassa), ficando na mesma linha de electricidade que irá fornecer o distrito de Murrupula. O edifício principal do CS (onde está incluída a enfermaria e a Maternidade) dispõe de instalação eléctrica e de um gerador a gasolina, mas que se encontra avariado desde há mais de três meses. 

Segundo a informação do Administrador do distrito de Nampula-Rapale, a área da Namaíta possui dezasseis pontos de abastecimento de água (treze poços e três furos, cinco dos quais operacionais e onze avariados), não se dispondo de informação sobre a qualidade da água. Os rios principais que atravessam a área são os rios Meluli e Namaíta. Os poços artesanais e os cursos de água são os pontos de abastecimento primordiais por parte da população em geral, e a água é utilizada para beber, cozinhar, lavagem do corpo, lavagem da roupa e despejos. A falta de acesso à água, sobretudo durante a estação seca, está na origem das péssimas condições de salubridade em que vive a maior parte das famílias e a má utilização dos recursos hídricos é fonte de muitas doenças, como a bilharziose, gastroenterites, disenterias, cólera, malária, etc, sobretudo durante a estação das chuvas. 

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Voluntários da APARF em Moçambique Parte I

A Anabela é enfermeira e está desde Agosto de 2005 ao serviço dos doentes da Namaíta, província de Nampula, e a Patrícia é médica e fez equipa com a Anabela durante cinco semanas. Hoje vêm fazer-nos o enquadramento da sua zona de intervenção:

CARACTERIZAÇÃO DEMOGRÁFICA, GEOGRÁFICA E DE ALGUNS ASPECTOS DE SAÚDE

A Namaíta tem uma área de superfície de 672 Km2, com 39.431 habitantes (informação da Direcção Distrital) e está incluída no Distrito de Nampula-Rapale, sendo o tipo de população predominantemente dispersa.

É atravessada pela estrada nacional que faz a ligação da cidade de Nampula à vila de Murrupula, continuando em direc-ção ao Sul do país. O Centro de Saúde (CS) da Namaíta dista 35 Km do Hospital Central de Nampula (HCN), localizando-se a cerca de 100 m da estrada de acesso à cidade, pelo que o tempo de evacuação dos doentes em ambulância é de cerca de 20 minutos, quer na estação seca, quer na estação das chuvas. Algumas localidades, porém, não têm qualquer via de acesso e a maior parte dos caminhos de terra batida por onde é possível passar com uma viatura têm o piso em péssimo estado. Esta limitação cria um grande isolamento das comunidades, sendo praticamente impossível realizar trocas comerciais e ter acesso a outros serviços vitais. Existem, ao todo, quatro localidades na área da Namaíta: Mutolo, Nicolo-mua, Eone e Namaíta-Sede e três pequenos Postos de Saúde (Muleheia, Natoa, Mutolo), que são unidades sanitárias sem camas para internamento ou maternidade, com uma gama de medicamentos muito limitada e geralmente não adequada às necessidades dos doentes e apenas têm como pessoal um enfermeiro e um servente.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

A Anabela ministra cuidados de saúde

PROGRAMA NACIONAL
DE CONTROLO
DE TUBERCULOSE E LEPRA
Programa de controlo da Lepra no Distrito

Durante o mês de Dezembro, acompanhada pelo Supervisor Distrital - Sr. Cassimo, estive nas unidades sanitárias/concentraq6es de: Cararnaja, Natoa, Micua, Namaíta, Muleheia, Namucaua, Mutolo, Nassupa. Com o Enfermeiro Eusébio fui a Nhopera, Naiculo, Napacala e Mutothone, aonde não encontrámos doentes. Não conseguimos chegar a Nalama devido aos estragos causados pela chuva na picada.

No total, observei 17 pessoas com manchas suspeitas de Lepra, tendo confirmado oito, todas do tipo Multibacilar, das quais duas crianças, e reavaliei quinze doentes. Sempre com a preciosa ajuda do Sr. Cassirno, a quem agradeço a disponibilidade e colaboração.

Sinto, ainda, dificuldade na avaliação dos nervos mas menos que no início. Lamento não poder conversar (ouvir a pessoa, explicar e esclarecer dúvidas), com a maioria dos doentes, sem necessidade de um intérprete, pois não falam português. Estou a esforçar-me por aprender macua, pelo menos um pouco.

Com saudações cordiais.

Anabela Torres Alves
(Voluntaria da APARF)
Narnpula/Rapale

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Retalhos de Ocua I

Laura Baptista, uma jovem macua da comunidade de Napela que, apesar da sua tenra idade, aguardava ansiosamente o nascimento da sua primeira sorte (nome que se da ao nascimento do primeiro filho).

Apareceu num dos encontros que se realizaram naquela comunidade, sobre a doença. No final da palestra perguntei quem teria manchas entre os que me ouviam. Laura levantou o braço e aproximou-se. Bastou levantar um pouco a camisolita que trazia para ver que a mancha que tinha (lhe ocupava grande parte das costas. Foi feito o teste e deu positivo. Laura tinha Lepra. Contraiu Lepra muito nova através da convivência com os tios. Curiosamente e ao contrário de outros doentes a quem já tinha diagnosticado a doença, Laura encontrava-se serena e atenta a todas as indicações de corno se haveria de curar.

Todo o medicamento ficou nas mãos do socorrista daquela comunidade, como também a tarefa de manter os doentes, sem falha, de o tomar para que todos fossem curados, incluindo a Laura. Isto era feito para o caso de eu não conseguir acompanhar todo o tratamento. E assim sucedeu, após algumas visitas aquela comunidade em que a estrada, feita de vermelho matope, ficou completamente alagada e impossível de transitar.

Os meses foram passando a passos largos até que finalmente se pôde atravessar através do mato cerrado de alto capim e visitar aqueles doentes. Para Laura aguardava-se o grande dia, o dia em que deixaria de ser doente, o dia que lhe poderia dizer, estás curada!

Depois de horas de caminho tortuoso chegamos a comunidade, fomos recebidos de braços abertos e com um acolhimento deveras impressionante por um povo que transborda de alegria apesar do sofrimento e que sabe acolher como ninguém. O meu trabalho começou por fazer uma pequena chamada, mas a Laura não estava entre os presentes. Mesmo assim comecei a cuidar dos outros doentes. Quando terminei perguntei ao socorrista porque e que a Laura não estava presente. Sem o deixar responder continuei dizendo que tinha para ela sabão de que tanto precisava e que trazia comigo a notícia de que todo o doente anseia: “estás curada”. Escutou-me atento sem me interromper e olhando-me com os olhos de tristeza disse-me: “A Laura faleceu!" Fiquei sem reacção e a única coisa que me surgiu foi - como?!, ao que o socorrista respondeu que tudo tinha acontecido durante o parto. Não teve assistência a tempo e a criança, apesar de ter nascido aparentemente bem, a mãe sucumbiu. Fiquei chocada com o que acabara de ouvir e perguntei onde estava a criança. Junto com a tia para ser amamentada, respondeu. Peguei na sacola que trazia comigo e pus-me a caminho com o socorrista para a visitar. Queria ver com os meus próprios olhos! Ao chegar a urna palhota feita de capim seco e matope encontrei nos braços de urna jovem o menino com os olhos reluzentes e um sorriso inexplicável! Não resisti e peguei-lhe. Estava completamente nu, mas tal não me fez qualquer diferença pois a vontade de o ter nos meus braços era bem maior. Tentei informar-me o melhor possível do que acontecera. O pai da criança parecia estar ainda em estado de choque, a tristeza de a ter perdido estava escrito no seu olhar.

Tive que partir. O dia ia avançado e tinha de regressar. Deixei com o pai da criança o sabão que seria para a Laura. Regressei a casa com um sentimento de tristeza, confundido com alegria. Espero que ainda hoje essa criança seja tratada com todo o carinho corno qualquer criança do mundo necessita.

Sandra Figueiredo

terça-feira, 3 de julho de 2018

Um dia de trabalho na Namaíta

São 06h30m, já tomei o pequeno-almoço e preparei a água para levar. Está muito calor, é preciso prevenir a desidratação! Entro no carro e parto rumo a mais um dia de trabalho. À saída da cidade (Nampula), paro, entra um passageiro, o enfermeiro Supervisor Distrital do Programa Nacional Contra Tuberculose e Lepra (PNCTL) e prosseguimos viagem. Há sempre muitas pessoas à beira da estrada, umas a pé, outras de bicicleta. A bicicleta é o principal meio de transporte para a maior parte da população. Serve para transportar todo o tipo de carga: sacos de mandioca seca, sacos de carvão, molhos de capim ou mesmo de paus, galinhas, cabritos, porcos, entre outros… Estes “biciclistas” circulam tranquilamente, por vezes quase no meio da estrada, pelo que se torna necessário, fazer uso da buzina do carro para se desviarem.

Hoje vamos ao Posto de Saúde de Mutolo. Inicialmente havia dúvidas acerca da via de acesso, posteriormente tivemos informação que permite a passagem do carro. Passamos junto ao Centro de Saúde da Namaita e, alguns Quilómetros depois, deixamos a estrada de alcatrão e entramos à esquerda numa picada (“estrada” de terra batida). Impossível desviar a atenção do caminho, mãos e braços presos ao volante, pés numa “dança constante” entre travão, embraiagem, acelerador… Areia e… meter tracção para continuar o percurso. Em alguns locais a picada tem sulcos enormes, então fizeram desvios, onde permanecem troncos de arbustos cortados, por vezes pouco ou nada visíveis. São tantos, que é impossível não acertar em alguns! De cada vez que um pneu bate num tronco, com bastante sonoridade, penso: “È hoje que ficamos no meio do mato com um pneu rebentado…” Por entre buracos, areia, troncos e raros troços menos acidentados, finalmente chegamos! O enfermeiro do Posto está de férias, a substitui-lo, está o servente. O voluntário da luta contra a Lepra, que também está presente, informa-nos que os doentes em breve chegarão, andam nas macham-bas (campos de cultivo). Começo por observar duas pessoas que apresentam manchas suspeitas na pele. Em nenhum dos casos se confirma a doença. Os doentes vão chegando para receberem o tratamento mensal e levarem a “carteira” dos comprimidos para os próximos 28 dias. Em cada mês, no dia marcado, terão que vir ao posto de saúde até completarem os 12 meses de tratamento, uma vez que têm Lepra Multibacilar (muitos bacilos). Reavaliei três dos doentes relativamente às características dos nervos periféricos que podem ser atingidos pela doença, à sensibilidade e força nas mãos e nos pés, bem como das pálpebras. Este procedimento é muito importante e deve ser realizado de 3 em 3 meses durante o tratamento, para despistar reacções da doença, que podem surgir e prevenir deformidades. Se o doente tiver dor nos nervos, significa que apresenta neurite e é-lhe dado o medicamento Prednisolona de acordo com o esquema estabelecido. Ao terminar, aparece um jovem com algumas manchas na pele, que são características da lepra. Depois de fazer o teste de sensibilidade nas manchas e palpar os nervos periféricos confirmo o diagnóstico: lepra multibacilar. Como este jovem sabe português, explico-lhe o necessário acerca da doença e do tratamento. Infelizmente, na maioria dos casos, as pessoas só falam macua, a língua local, por isso tenho que deixar essa tarefa para o voluntário, o que me entristece um pouco. Aqui havia 5 doentes com lepra multibacilar, ficam 6. No mês passado teve alta um doente com lepra paucibacilar (poucos bacilos), ao fim de seis meses de tratamento. Feitas as despedidas retomamos o caminho de regresso, 13Km, algo atribulados, até à estrada. Chego a casa às 13h, depois de mais de 100Km. Esta concentração de doentes de lepra é apenas uma de cerca de 18, na área da Namaita.

Beijinhos.

Anabela Torres Alves
Voluntária da APARF
Namaita/Moçambique

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Gestos que fazem milagres

O voluntariado em terras de Moçambique, junto dos leprosos e de tantos outros doentes para quem a vida não lhes sorriu, decorre sempre cheio de tantas surpresas. A APARF (Associação Portuguesa Amigos Raoul Follereau), está de parabéns, pois, tem criado a esperança em todos eles. Nunca é demais agradecer a tantos que fazem da minha presença, em Murrupula, um hino de solidariedade. Por isso, estas palavras, não são mais do que um agradecimento a todos os que alargam o meu trabalho. Tenho pena em não conseguir traduzir nas palavras os dramas, as vivências, a alegria, o êxito... tudo aquilo que só o coração consegue registar. Acredito que muitos esperassem, da minha parte, um texto. É natural! Perdoem-me, mas o cansaço de um dia tolhe até as vontades mais nobres. Talvez, este tempo do Natal, seja o melhor, para rasgar o silêncio e entrar, como um sorriso, com o meu muito OBRIGADO.

É assim todos os dias. Obrigado irmão Paulo. Muito obrigado. Depois de tantos kms percorridos na moto (e já são 15 mil kms), por caminhos de terra batida, onde tantas vezes o capim esconde aldeias e a areia traiçoeira nos obriga a uma condução mais cuidada e lenta, chegamos. O enfermeiro Rajá é o companheiro sempre das jornadas, tanto mais que é o responsável do programa de luta contra a lepra no distrito de Murrupula, com uma área de 3070 km2 e uma população estimada em 110 mil habitantes. Por baixo dum cajueiro frondoso, com a sua sombra refrescante estão sempre dezenas de leprosos que o activista conseguiu trazer. O activista é um voluntário moçambicano que vive na zona e que motiva os leprosos a concentrarem-se nos lugares predefinidos. São pessoas que trabalham gratuitamente e que ás vezes têm uma pequena recompensa. Como muitos andavam a pé,  ofereci, apenas, 12 bicicletas, apesar de serem 35 os que comigo trabalham.  

É uma alegria enorme quando os doentes nos vêem. Os sorrisos alargam-se e em muitos os restos dos dedos comidos pela lepra se cruzam para que possamos ver e ouvir o júbilo pela nossa presença. Estes momentos são sempre aproveitados para diagnosticar, curar e motivar os doentes. As conversas, os pedidos cruzam-se sempre roubando a vez e a voz. Todos querem ser escutados e não mais esquecidos. O tempo, é todo deles, mas mesmo assim muitos se queixam que só lhes demos apenas alguns minutos de atenção. Claro que num distrito tão grande e apenas duas pessoas a efectuarem um trabalho para mais de dois mil doentes, nem sempre há tempo para grandes conversas. 

As motos andam sempre carregadas. Para além dos medicamentos leva-se sempre sabão, pomadas, ligaduras... Como este ano Murrupula teve um surto enorme de sarna, tinha que fazer, todos os dias a pomada milagrosa, como diziam. Com a falta de medicamentos no mercado e o preço exorbitante de outros, aprendi, com os missionários a fazer a pomada que curou milhares de pessoas. Era uma mistura de sabão, açúcar, óleo e benzil-benzoate . O certo é que ás vezes os 50 kg diários não chegavam para tantos que nos procuravam. Ultimamente e porque a época das chuvas está próxima, distribuímos catanas e enxadas. Assim que as primeiras chuvas caíram, começamos também a oferecer a cada doente um pouco de amendoim. O certo é que já se distribuíram 1.700 kgs. 

Nada melhor do que dignificar a vida desta gente. Se a doença é estigma e por incrível que pareça contínua a segregar, é preciso romper com todas as barreiras e nada melhor do que possibilitar uma melhor qualidade de vida. Foi neste contexto que resolvemos distribuir utensílios agrícolas e sementes para que a vida lhes não seja tão madrasta. O certo é que, agora, até outros vêm ver se as manchas que possuem são de lepra, pois gostariam de receber o que não têm e que lhes traria, no futuro, menos preocupações. A pobreza absoluta em que as pessoas vivem, obriga-nos a optar só pelos leprosos, ainda que as outras “lepras” merecessem também o nosso apoio. O certo é que, agora, toda a gente anda feliz. “Nunca foi como agora”, exclamava um activista a propósito das muitas iniciativas que têm como único objectivo ajudar e promover. Os quase cegos têm óculos, os coxos sandálias e os que têm força catanas, enxadas e sementes. Pensamos continuar com este programa das sementes, tanto mais que as pessoas não as têm, fruto do ano nefasto que os assolou, devido à estiagem.

No dia 15 de Dezembro fizemos uma grande festa com todos os que trabalham com os leprosos. Reunimos os 35 activistas e o pessoal do Centro de Saúde de Murrupula. Matámos um cabrito e com um pouco de arroz e feijão, lembramos a generosidade de todos eles e o compromisso que têm de continuar apostados  em erradicar a lepra do distrito. Receberam uma pequena recordação para que se lembrem que o Natal é a festa da solidariedade. Lembrei-lhes, entre tantas coisas uma frase que aqui sistematicamente ecoa no meu coração: “Ninguém é tão pobre que não possa dar alguma coisa. Ninguém é tão rico que não possa receber”.

Passaram nove meses em que deixei o meu país, a família, os amigos e o meu trabalho. Talvez, muitos se interroguem se valeu a pena. Nesta actividade diária de encontro contínuo com os hansenianos, ergo o meu pensamento a Deus numa atitude de gratidão, porque ninguém é feliz sozinho e muito mais feliz se é quando faz da sua vida uma doação gratuita, atenta e disponível aos mais pobres. Os gestos por ínfimos que sejam produzem autênticos milagres.

Desculpem terminar esta minha partilha com uma oração do grande amigo dos leprosos, Raoul Follereau: “Senhor, ensinai-nos a pensar nos outros e fazei-nos sofrer com a dor alheia! Não consintais que sejamos felizes sozinhos, dai-nos a angústia da miséria universal. Fazei que, na felicidade e na dor, nós sejamos irmãos de todos para sempre. Sejamos...irmãos sem fronteiras”


Paulo Bica
Missão de Murrupula
(Voluntário da APARF)

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Terra onde o sol se cruza com a lua e o tempo parece parar

Caros Amigos,

Durante os dois anos que estive em Moçambique muitas coisas aconteceram. Fui pela Associação Portuguesa Amigos de Raoul Follereau para cuidar dos doentes de lepra na zona de Ocua e acabei por viver muito mais do que alguma vez pensaria.

Fiquei hospedada na casa das Missionárias da Boa Nova na Aldeia de Mahipa, junto a um povo deveras impressionante. Jamais tinha conhecido gente tão pobre e tão rica ao mesmo tempo. Gente que acolhe como ninguém, que oferece tudo o que tem, mesmo que este seja pouquíssimo.

Um povo cheio de tradições e crenças como qualquer povo mas com uma alegria e calma inesgotáveis. Ali mesmo, junto a nós poderia sentir-se a tranquilidade de quem trabalha cantando, de quem acorda olhando a beleza do céu infinito, de quem sorri e se cumprimenta com um “Salama” vindo do mais profundo e sincero sentimento.

Quando cheguei a Ocua existia apenas uma pequena sala num edifício bastante degradado, que servia como posto de saúde, para o qual grande parte do povo faz quilómetros para obter alguma atenção e medicamentos para os mais variados males, desde a malária, diarreias, vermes, conjuntivite, desnutrição e inclusive a própria lepra.

Conhecendo um pouco a situação das mamãs que dão à luz em condições miseráveis sem qualquer cuidado de higiene porque a sua extrema pobreza material não o permite, e a falta de assistência hospitalar, senti que tal situação poderia vir a ser melhorada com a ajuda de amigos.

Ao ver tamanha necessidade e vontade de fazer algo mais para quem nos chegava a pedir auxílio enviei à Associação o pedido de financiamento de um novo e verdadeiro posto de saúde. Este foi aprovado e totalmente financiado pela APARF. Hoje neste posto trabalham duas pessoas com total competência e formação para atender os mais necessitados. Gostaria de fazer referência ao Benjamim, enfermeiro, um excelente profissional e à Matilde, parteira, que se encontra sempre disponível para atender as mamãs com grande atenção e cuidado.

Este posto de saúde é composto por quatro salas; uma para consultas, uma para pensos, outra para injecções e algum eventual internamento e uma Quarta sala para partos, tendo ainda suas casas de banho para cuidar de toda a higiene. Para que este projecto fosse possível realizar devo agradecer à Direcção, a todos os colaboradores e amigos da Associação que puderam tornar possível tal construção e deixar uma pequena semente a quem nada tem.

Gostaria no entanto de partilhar com vocês, neste novo ano que iniciou, uma pequena passagem da minha vida passada na terra onde o sol se cruza com a lua e o tempo parece parar.

Uma dia, numa das minhas visitas aos doentes de lepra, a uma das comunidades mais longínquas, recebi um presente precioso! Ao chegar tinha alguns responsáveis da zona à minha espera e alguns doentes que me aguardavam para receber o medicamento e algumas barras de sabão. Iniciei imediatamente as “consultas”. Ao mesmo tempo que ia atendendo as pessoas, cada uma com o seu tempo, sem qualquer pressa ou correria, íamos criando laços de amizade e carinho. Era sempre assim, uma palavra amiga por vezes vale mais do que qualquer caixa de medicamentos e eu estava lá para isso mesmo. Para eles!

No final das consultas já o dia ia longo. Comecei a arrumar as coisas quando me apercebi de uma senhora que se aproximava de mim. Sentou-se na esteira e sorriu. Pensei que fosse uma doente e perguntei pelo nome, ao que respondeu, Ana Muerayene. Comecei imediatamente a procurar nos meus registos pelo seu nome. Ela olhou-me e aguardou pacientemente que eu acabasse a minha tarefa. No final, nada encontrei. Pedi um tradutor para que pudesse entender melhor o que a Ana me queria, perguntei se ela estava doente, ao que me respondeu, não. Perguntei então a mim mesma o que quereria aquela senhora que me olhava fixamente. Voltei a perguntar qual o motivo dela estar ali. Vim visitar, respondeu. Apenas visitar! Senti-me ridícula com tantas perguntas e imediatamente pousei toda a papelada que sempre me acompanhava, deixei o que estava a fazer e sentei-me junto dela. Mais uma vez sorriu! Disse-lhe com o pouco macua que aprendi que não sabia falar macua. Ela soltou uma gargalhada e respondeu que também não sabia português! Depois de longas risadas demos as mãos e assim deixámos o tempo passar.

Deixo-vos este pensamento: quando é que nós deixamos, no percurso da nossa vida, de correr, apenas para estar com outro? Apenas estar...

A aldeia de Mahipa é assim, rodeada de imponentes embondeiros, mangueiras e cajueiros, iluminada de dia por um sol cor de fogo e à noite pelas pequenas estrelas colocadas delicadamente sobre um manto de veludo.

É no sentir do bater de cada batuque que se vive intensamente o pulsar de cada dia sobre a terra coberta de vermelho por onde passam, a pequenos passos, os pés descalços de quem faz quilómetros para sentir o bem mais precioso, a água. Água que percorre nos rios de um país, como veias que fazem viver este povo que sonha e que vive do mais puro da terra. Gente que fala com o olhar, gente que sabe sorrir, gente que ama.

Para trás ficaram os sons, as cores e os aromas de uma terra onde o cristão, o muçulmano, o feiticeiro e o adivinho comem à mesma mesa. Onde se sente o verdadeiro sentido da paz. Na minha memória ficaram guardados todos os sorrisos, todas as lágrimas, as tristezas e as alegrias de quem viveu por momentos numa terra de sonho!

Sandra Figueiredo
(Ao serviço da APARF)

sábado, 16 de junho de 2018

Nova Voluntária em Moçambique

Sócia efectiva da APARF, a Anabela Torres Alves vinha manifestando há alguns anos o seu desejo de ir para África tratar os doentes, ao serviço da Associação. Como é Enfermeira vinculada ao Ministério da Saúde, encontrava dificuldades para se ausentar do serviço por um ano. Mas eis que chega o momento tão desejado. Consegue obter licença sem vencimento por um ano e no dia 16 de Agosto partiu para Moçambique com destino à Província de Nampula. A coragem com que parte, deixando o emprego e pessoas queridas para se dedicar aos pobres e doentes de Moçambique, revelam a grandeza de uma alma que elege como critério o amor pelos mais pequenos da sociedade.

O seu local de trabalho será a zona da Namaíta onde outrora trabalhou com os doentes de lepra a Irmã Maria Rita Valente-Perfeito, sócia honorária da APARF.

A Associação congratula-se com mais esta Voluntária que parte em seu nome.

No meio de dificuldades, a Anabela encontrará também o sorriso e o carinho deste bom povo da Namaíta.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Um pouco mais, aqui e ali

Venho por este meio agradecer toda a vossa colaboração e disponibilidade no empenho de ajudar esta causa. Deste modo foi possível dar início à construção de um pequeno Posto de Saúde em Ocua, mais concretamente na aldeia de Mahipa, onde me encontro a desenvolver o trabalho de voluntariado desde Outubro de 2003.

Aqui, praticamente não existem meios de socorrer as pessoas com casos que muitas vezes são simples, mas que se vêm a complicar com o passar do tempo. O carro, oferecido pela APARF há algum tempo atrás, serve de ambulância. Pois o hospital mais próximo fica a cerca de 25km de distância. Deste modo, recorremos mais uma vez à Associação para a construção de um Posto de Saúde onde irá ter condições bem melhoradas com sala de vacinas, sala de pensos, sala de consultas e ainda uma sala para partos.

Todos nós ficámos muito felizes em saber que o projecto foi aprovado. Graças à imprescindível colaboração de todos está a ser construído e todos aqui na aldeia de Mahipa esperam ansiosamente pela abertura do que eles chamam de “Hospital de Mahipa, onde podemos ter os nossos bebés!”

Durante o mês de Julho demos início a um projecto de prevenção da mortalidade infantil, o tratamento de mamãs com problemas relacionados com a gravidez e amamentação. Todas as terças-feiras é feito um encontro com essas mamãs onde são dadas palestras, idas ao hospital para exames médicos, preparação de papas para as crianças desnutridas e outros aconselhamentos. Eu disponibilizei-me nesse dia para acompanhar as mamãs ao hospital de Alua que fica a cerca de 50km da aldeia para fazer vários exames, pois só em Alua existe equipamento necessário para efectuar exames específicos, como ecografias, e onde se encontra a Dra. Elisabetta (M.Comboniana) especializada para estes casos. Tem sido um trabalho bastante interessante e as mulheres da aldeia estão bastante entusiasmadas.

O trabalho relativo aos doentes de lepra vai andando. Cada vez mais vou recebendo boas notícias de cura aqui e ali. Claro que também vão aparecendo novos casos mas quando eu falo de curas são aqueles que iniciaram o tratamento com a minha chegada. A distribuição de sabão continua e às vezes há quem queira ter a doença só para receber uma barra de sabão! Devo confessar que por vezes acabo por ceder e oferecer quando vejo que realmente têm necessidade. Aqui, até uma simples barra de sabão é caríssima e nem todas as aldeias conseguem obter, nem mesmo para vender.

Sandra Figueiredo - Voluntária da APARF

domingo, 10 de junho de 2018

Conhecendo e aprendendo

Como já tinha referido algumas vezes, durante o mês de Abril frequentei o curso de inculturação no Anchilo. Para além de ter uma hora diária de língua macua, estes foram alguns dos temas apresentados durante o curso: História de Moçambique; Panorama Socio - Político - Económico de Moçambique; Mulher e tradição; Iniciação à cultura macua; Família tradição e modernidade etc...

Durante o decorrer do curso fui pesquisando e até mesmo comprando alguns livros que acho necessários para que um voluntário fique a saber minimamente que “território” pisa e que dificuldades poderá encontrar. Este povo é muito diferente do nosso e por vezes poderão existir conflitos por falta de entendimento da nossa parte dos ritos, crenças e tradições demasiado diferentes e complexas das nossas. Não gostaria, pois que os voluntários viessem sem ter uma noção mínima das coisas. Já que nem todos tiveram ou terão a oportunidade de tirar este curso que eu frequentei.

Deste modo espero conseguir documentação suficiente para que a Associação possa dar aos seus voluntários algumas bases e recursos de pesquisa para quem estiver interessado em saber mais sobre o povo e país para onde irá exercer o seu voluntariado.

Durante estes últimos meses tenho estado mais atenta ao levantamento dos doentes que tiveram alta. Refiro-me, claro, àqueles que iniciaram o tratamento com a minha chegada. Neste momento, dos quase 300 doentes que encontrei inicialmente, existem 122 doentes ainda em tratamento, estando a maioria a finalizá-lo entre este mês e o próximo. Mesmo sabendo que é um número bastante alto sinto-me satisfeita por poder acompanhá-los até ao fim e por saber que já foram reduzidos a menos de metade. Espero que até ao mês de Outubro todos ou a maioria destes 122, que iniciaram o tratamento comigo, fiquem totalmente curados. Se isso acontecer regressarei a Portugal bastante satisfeita.

Tenho assistido a uma grande evolução nestes últimos tempos, um grande interesse e uma grande preocupação por parte da população. Quando eu não me desloco às comunidades existem sempre aqueles que percorrem quilómetros preocupados em me mostrarem uma ou outra pequena mancha que encontraram no seu corpo. Acho que tem valido a pena, por muito pouco trabalho que tenha concretizado, alguma coisa ficou. E por isso tenho tido grandes alegrias em saber que a maioria já finalizou ou que está a finalizar o seu tratamento.

Junto com esta carta envio também a apresentação de contas com algumas fotos, que penso que não serão repetidas.

Mais uma vez espero que estejam todos bem na associação.
Até breve.
Sandra Figueiredo
Voluntária da APARF em Moçambique