terça-feira, 3 de julho de 2018

Um dia de trabalho na Namaíta

São 06h30m, já tomei o pequeno-almoço e preparei a água para levar. Está muito calor, é preciso prevenir a desidratação! Entro no carro e parto rumo a mais um dia de trabalho. À saída da cidade (Nampula), paro, entra um passageiro, o enfermeiro Supervisor Distrital do Programa Nacional Contra Tuberculose e Lepra (PNCTL) e prosseguimos viagem. Há sempre muitas pessoas à beira da estrada, umas a pé, outras de bicicleta. A bicicleta é o principal meio de transporte para a maior parte da população. Serve para transportar todo o tipo de carga: sacos de mandioca seca, sacos de carvão, molhos de capim ou mesmo de paus, galinhas, cabritos, porcos, entre outros… Estes “biciclistas” circulam tranquilamente, por vezes quase no meio da estrada, pelo que se torna necessário, fazer uso da buzina do carro para se desviarem.

Hoje vamos ao Posto de Saúde de Mutolo. Inicialmente havia dúvidas acerca da via de acesso, posteriormente tivemos informação que permite a passagem do carro. Passamos junto ao Centro de Saúde da Namaita e, alguns Quilómetros depois, deixamos a estrada de alcatrão e entramos à esquerda numa picada (“estrada” de terra batida). Impossível desviar a atenção do caminho, mãos e braços presos ao volante, pés numa “dança constante” entre travão, embraiagem, acelerador… Areia e… meter tracção para continuar o percurso. Em alguns locais a picada tem sulcos enormes, então fizeram desvios, onde permanecem troncos de arbustos cortados, por vezes pouco ou nada visíveis. São tantos, que é impossível não acertar em alguns! De cada vez que um pneu bate num tronco, com bastante sonoridade, penso: “È hoje que ficamos no meio do mato com um pneu rebentado…” Por entre buracos, areia, troncos e raros troços menos acidentados, finalmente chegamos! O enfermeiro do Posto está de férias, a substitui-lo, está o servente. O voluntário da luta contra a Lepra, que também está presente, informa-nos que os doentes em breve chegarão, andam nas macham-bas (campos de cultivo). Começo por observar duas pessoas que apresentam manchas suspeitas na pele. Em nenhum dos casos se confirma a doença. Os doentes vão chegando para receberem o tratamento mensal e levarem a “carteira” dos comprimidos para os próximos 28 dias. Em cada mês, no dia marcado, terão que vir ao posto de saúde até completarem os 12 meses de tratamento, uma vez que têm Lepra Multibacilar (muitos bacilos). Reavaliei três dos doentes relativamente às características dos nervos periféricos que podem ser atingidos pela doença, à sensibilidade e força nas mãos e nos pés, bem como das pálpebras. Este procedimento é muito importante e deve ser realizado de 3 em 3 meses durante o tratamento, para despistar reacções da doença, que podem surgir e prevenir deformidades. Se o doente tiver dor nos nervos, significa que apresenta neurite e é-lhe dado o medicamento Prednisolona de acordo com o esquema estabelecido. Ao terminar, aparece um jovem com algumas manchas na pele, que são características da lepra. Depois de fazer o teste de sensibilidade nas manchas e palpar os nervos periféricos confirmo o diagnóstico: lepra multibacilar. Como este jovem sabe português, explico-lhe o necessário acerca da doença e do tratamento. Infelizmente, na maioria dos casos, as pessoas só falam macua, a língua local, por isso tenho que deixar essa tarefa para o voluntário, o que me entristece um pouco. Aqui havia 5 doentes com lepra multibacilar, ficam 6. No mês passado teve alta um doente com lepra paucibacilar (poucos bacilos), ao fim de seis meses de tratamento. Feitas as despedidas retomamos o caminho de regresso, 13Km, algo atribulados, até à estrada. Chego a casa às 13h, depois de mais de 100Km. Esta concentração de doentes de lepra é apenas uma de cerca de 18, na área da Namaita.

Beijinhos.

Anabela Torres Alves
Voluntária da APARF
Namaita/Moçambique

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Gestos que fazem milagres

O voluntariado em terras de Moçambique, junto dos leprosos e de tantos outros doentes para quem a vida não lhes sorriu, decorre sempre cheio de tantas surpresas. A APARF (Associação Portuguesa Amigos Raoul Follereau), está de parabéns, pois, tem criado a esperança em todos eles. Nunca é demais agradecer a tantos que fazem da minha presença, em Murrupula, um hino de solidariedade. Por isso, estas palavras, não são mais do que um agradecimento a todos os que alargam o meu trabalho. Tenho pena em não conseguir traduzir nas palavras os dramas, as vivências, a alegria, o êxito... tudo aquilo que só o coração consegue registar. Acredito que muitos esperassem, da minha parte, um texto. É natural! Perdoem-me, mas o cansaço de um dia tolhe até as vontades mais nobres. Talvez, este tempo do Natal, seja o melhor, para rasgar o silêncio e entrar, como um sorriso, com o meu muito OBRIGADO.

É assim todos os dias. Obrigado irmão Paulo. Muito obrigado. Depois de tantos kms percorridos na moto (e já são 15 mil kms), por caminhos de terra batida, onde tantas vezes o capim esconde aldeias e a areia traiçoeira nos obriga a uma condução mais cuidada e lenta, chegamos. O enfermeiro Rajá é o companheiro sempre das jornadas, tanto mais que é o responsável do programa de luta contra a lepra no distrito de Murrupula, com uma área de 3070 km2 e uma população estimada em 110 mil habitantes. Por baixo dum cajueiro frondoso, com a sua sombra refrescante estão sempre dezenas de leprosos que o activista conseguiu trazer. O activista é um voluntário moçambicano que vive na zona e que motiva os leprosos a concentrarem-se nos lugares predefinidos. São pessoas que trabalham gratuitamente e que ás vezes têm uma pequena recompensa. Como muitos andavam a pé,  ofereci, apenas, 12 bicicletas, apesar de serem 35 os que comigo trabalham.  

É uma alegria enorme quando os doentes nos vêem. Os sorrisos alargam-se e em muitos os restos dos dedos comidos pela lepra se cruzam para que possamos ver e ouvir o júbilo pela nossa presença. Estes momentos são sempre aproveitados para diagnosticar, curar e motivar os doentes. As conversas, os pedidos cruzam-se sempre roubando a vez e a voz. Todos querem ser escutados e não mais esquecidos. O tempo, é todo deles, mas mesmo assim muitos se queixam que só lhes demos apenas alguns minutos de atenção. Claro que num distrito tão grande e apenas duas pessoas a efectuarem um trabalho para mais de dois mil doentes, nem sempre há tempo para grandes conversas. 

As motos andam sempre carregadas. Para além dos medicamentos leva-se sempre sabão, pomadas, ligaduras... Como este ano Murrupula teve um surto enorme de sarna, tinha que fazer, todos os dias a pomada milagrosa, como diziam. Com a falta de medicamentos no mercado e o preço exorbitante de outros, aprendi, com os missionários a fazer a pomada que curou milhares de pessoas. Era uma mistura de sabão, açúcar, óleo e benzil-benzoate . O certo é que ás vezes os 50 kg diários não chegavam para tantos que nos procuravam. Ultimamente e porque a época das chuvas está próxima, distribuímos catanas e enxadas. Assim que as primeiras chuvas caíram, começamos também a oferecer a cada doente um pouco de amendoim. O certo é que já se distribuíram 1.700 kgs. 

Nada melhor do que dignificar a vida desta gente. Se a doença é estigma e por incrível que pareça contínua a segregar, é preciso romper com todas as barreiras e nada melhor do que possibilitar uma melhor qualidade de vida. Foi neste contexto que resolvemos distribuir utensílios agrícolas e sementes para que a vida lhes não seja tão madrasta. O certo é que, agora, até outros vêm ver se as manchas que possuem são de lepra, pois gostariam de receber o que não têm e que lhes traria, no futuro, menos preocupações. A pobreza absoluta em que as pessoas vivem, obriga-nos a optar só pelos leprosos, ainda que as outras “lepras” merecessem também o nosso apoio. O certo é que, agora, toda a gente anda feliz. “Nunca foi como agora”, exclamava um activista a propósito das muitas iniciativas que têm como único objectivo ajudar e promover. Os quase cegos têm óculos, os coxos sandálias e os que têm força catanas, enxadas e sementes. Pensamos continuar com este programa das sementes, tanto mais que as pessoas não as têm, fruto do ano nefasto que os assolou, devido à estiagem.

No dia 15 de Dezembro fizemos uma grande festa com todos os que trabalham com os leprosos. Reunimos os 35 activistas e o pessoal do Centro de Saúde de Murrupula. Matámos um cabrito e com um pouco de arroz e feijão, lembramos a generosidade de todos eles e o compromisso que têm de continuar apostados  em erradicar a lepra do distrito. Receberam uma pequena recordação para que se lembrem que o Natal é a festa da solidariedade. Lembrei-lhes, entre tantas coisas uma frase que aqui sistematicamente ecoa no meu coração: “Ninguém é tão pobre que não possa dar alguma coisa. Ninguém é tão rico que não possa receber”.

Passaram nove meses em que deixei o meu país, a família, os amigos e o meu trabalho. Talvez, muitos se interroguem se valeu a pena. Nesta actividade diária de encontro contínuo com os hansenianos, ergo o meu pensamento a Deus numa atitude de gratidão, porque ninguém é feliz sozinho e muito mais feliz se é quando faz da sua vida uma doação gratuita, atenta e disponível aos mais pobres. Os gestos por ínfimos que sejam produzem autênticos milagres.

Desculpem terminar esta minha partilha com uma oração do grande amigo dos leprosos, Raoul Follereau: “Senhor, ensinai-nos a pensar nos outros e fazei-nos sofrer com a dor alheia! Não consintais que sejamos felizes sozinhos, dai-nos a angústia da miséria universal. Fazei que, na felicidade e na dor, nós sejamos irmãos de todos para sempre. Sejamos...irmãos sem fronteiras”


Paulo Bica
Missão de Murrupula
(Voluntário da APARF)

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Terra onde o sol se cruza com a lua e o tempo parece parar

Caros Amigos,

Durante os dois anos que estive em Moçambique muitas coisas aconteceram. Fui pela Associação Portuguesa Amigos de Raoul Follereau para cuidar dos doentes de lepra na zona de Ocua e acabei por viver muito mais do que alguma vez pensaria.

Fiquei hospedada na casa das Missionárias da Boa Nova na Aldeia de Mahipa, junto a um povo deveras impressionante. Jamais tinha conhecido gente tão pobre e tão rica ao mesmo tempo. Gente que acolhe como ninguém, que oferece tudo o que tem, mesmo que este seja pouquíssimo.

Um povo cheio de tradições e crenças como qualquer povo mas com uma alegria e calma inesgotáveis. Ali mesmo, junto a nós poderia sentir-se a tranquilidade de quem trabalha cantando, de quem acorda olhando a beleza do céu infinito, de quem sorri e se cumprimenta com um “Salama” vindo do mais profundo e sincero sentimento.

Quando cheguei a Ocua existia apenas uma pequena sala num edifício bastante degradado, que servia como posto de saúde, para o qual grande parte do povo faz quilómetros para obter alguma atenção e medicamentos para os mais variados males, desde a malária, diarreias, vermes, conjuntivite, desnutrição e inclusive a própria lepra.

Conhecendo um pouco a situação das mamãs que dão à luz em condições miseráveis sem qualquer cuidado de higiene porque a sua extrema pobreza material não o permite, e a falta de assistência hospitalar, senti que tal situação poderia vir a ser melhorada com a ajuda de amigos.

Ao ver tamanha necessidade e vontade de fazer algo mais para quem nos chegava a pedir auxílio enviei à Associação o pedido de financiamento de um novo e verdadeiro posto de saúde. Este foi aprovado e totalmente financiado pela APARF. Hoje neste posto trabalham duas pessoas com total competência e formação para atender os mais necessitados. Gostaria de fazer referência ao Benjamim, enfermeiro, um excelente profissional e à Matilde, parteira, que se encontra sempre disponível para atender as mamãs com grande atenção e cuidado.

Este posto de saúde é composto por quatro salas; uma para consultas, uma para pensos, outra para injecções e algum eventual internamento e uma Quarta sala para partos, tendo ainda suas casas de banho para cuidar de toda a higiene. Para que este projecto fosse possível realizar devo agradecer à Direcção, a todos os colaboradores e amigos da Associação que puderam tornar possível tal construção e deixar uma pequena semente a quem nada tem.

Gostaria no entanto de partilhar com vocês, neste novo ano que iniciou, uma pequena passagem da minha vida passada na terra onde o sol se cruza com a lua e o tempo parece parar.

Uma dia, numa das minhas visitas aos doentes de lepra, a uma das comunidades mais longínquas, recebi um presente precioso! Ao chegar tinha alguns responsáveis da zona à minha espera e alguns doentes que me aguardavam para receber o medicamento e algumas barras de sabão. Iniciei imediatamente as “consultas”. Ao mesmo tempo que ia atendendo as pessoas, cada uma com o seu tempo, sem qualquer pressa ou correria, íamos criando laços de amizade e carinho. Era sempre assim, uma palavra amiga por vezes vale mais do que qualquer caixa de medicamentos e eu estava lá para isso mesmo. Para eles!

No final das consultas já o dia ia longo. Comecei a arrumar as coisas quando me apercebi de uma senhora que se aproximava de mim. Sentou-se na esteira e sorriu. Pensei que fosse uma doente e perguntei pelo nome, ao que respondeu, Ana Muerayene. Comecei imediatamente a procurar nos meus registos pelo seu nome. Ela olhou-me e aguardou pacientemente que eu acabasse a minha tarefa. No final, nada encontrei. Pedi um tradutor para que pudesse entender melhor o que a Ana me queria, perguntei se ela estava doente, ao que me respondeu, não. Perguntei então a mim mesma o que quereria aquela senhora que me olhava fixamente. Voltei a perguntar qual o motivo dela estar ali. Vim visitar, respondeu. Apenas visitar! Senti-me ridícula com tantas perguntas e imediatamente pousei toda a papelada que sempre me acompanhava, deixei o que estava a fazer e sentei-me junto dela. Mais uma vez sorriu! Disse-lhe com o pouco macua que aprendi que não sabia falar macua. Ela soltou uma gargalhada e respondeu que também não sabia português! Depois de longas risadas demos as mãos e assim deixámos o tempo passar.

Deixo-vos este pensamento: quando é que nós deixamos, no percurso da nossa vida, de correr, apenas para estar com outro? Apenas estar...

A aldeia de Mahipa é assim, rodeada de imponentes embondeiros, mangueiras e cajueiros, iluminada de dia por um sol cor de fogo e à noite pelas pequenas estrelas colocadas delicadamente sobre um manto de veludo.

É no sentir do bater de cada batuque que se vive intensamente o pulsar de cada dia sobre a terra coberta de vermelho por onde passam, a pequenos passos, os pés descalços de quem faz quilómetros para sentir o bem mais precioso, a água. Água que percorre nos rios de um país, como veias que fazem viver este povo que sonha e que vive do mais puro da terra. Gente que fala com o olhar, gente que sabe sorrir, gente que ama.

Para trás ficaram os sons, as cores e os aromas de uma terra onde o cristão, o muçulmano, o feiticeiro e o adivinho comem à mesma mesa. Onde se sente o verdadeiro sentido da paz. Na minha memória ficaram guardados todos os sorrisos, todas as lágrimas, as tristezas e as alegrias de quem viveu por momentos numa terra de sonho!

Sandra Figueiredo
(Ao serviço da APARF)

sábado, 16 de junho de 2018

Nova Voluntária em Moçambique

Sócia efectiva da APARF, a Anabela Torres Alves vinha manifestando há alguns anos o seu desejo de ir para África tratar os doentes, ao serviço da Associação. Como é Enfermeira vinculada ao Ministério da Saúde, encontrava dificuldades para se ausentar do serviço por um ano. Mas eis que chega o momento tão desejado. Consegue obter licença sem vencimento por um ano e no dia 16 de Agosto partiu para Moçambique com destino à Província de Nampula. A coragem com que parte, deixando o emprego e pessoas queridas para se dedicar aos pobres e doentes de Moçambique, revelam a grandeza de uma alma que elege como critério o amor pelos mais pequenos da sociedade.

O seu local de trabalho será a zona da Namaíta onde outrora trabalhou com os doentes de lepra a Irmã Maria Rita Valente-Perfeito, sócia honorária da APARF.

A Associação congratula-se com mais esta Voluntária que parte em seu nome.

No meio de dificuldades, a Anabela encontrará também o sorriso e o carinho deste bom povo da Namaíta.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Um pouco mais, aqui e ali

Venho por este meio agradecer toda a vossa colaboração e disponibilidade no empenho de ajudar esta causa. Deste modo foi possível dar início à construção de um pequeno Posto de Saúde em Ocua, mais concretamente na aldeia de Mahipa, onde me encontro a desenvolver o trabalho de voluntariado desde Outubro de 2003.

Aqui, praticamente não existem meios de socorrer as pessoas com casos que muitas vezes são simples, mas que se vêm a complicar com o passar do tempo. O carro, oferecido pela APARF há algum tempo atrás, serve de ambulância. Pois o hospital mais próximo fica a cerca de 25km de distância. Deste modo, recorremos mais uma vez à Associação para a construção de um Posto de Saúde onde irá ter condições bem melhoradas com sala de vacinas, sala de pensos, sala de consultas e ainda uma sala para partos.

Todos nós ficámos muito felizes em saber que o projecto foi aprovado. Graças à imprescindível colaboração de todos está a ser construído e todos aqui na aldeia de Mahipa esperam ansiosamente pela abertura do que eles chamam de “Hospital de Mahipa, onde podemos ter os nossos bebés!”

Durante o mês de Julho demos início a um projecto de prevenção da mortalidade infantil, o tratamento de mamãs com problemas relacionados com a gravidez e amamentação. Todas as terças-feiras é feito um encontro com essas mamãs onde são dadas palestras, idas ao hospital para exames médicos, preparação de papas para as crianças desnutridas e outros aconselhamentos. Eu disponibilizei-me nesse dia para acompanhar as mamãs ao hospital de Alua que fica a cerca de 50km da aldeia para fazer vários exames, pois só em Alua existe equipamento necessário para efectuar exames específicos, como ecografias, e onde se encontra a Dra. Elisabetta (M.Comboniana) especializada para estes casos. Tem sido um trabalho bastante interessante e as mulheres da aldeia estão bastante entusiasmadas.

O trabalho relativo aos doentes de lepra vai andando. Cada vez mais vou recebendo boas notícias de cura aqui e ali. Claro que também vão aparecendo novos casos mas quando eu falo de curas são aqueles que iniciaram o tratamento com a minha chegada. A distribuição de sabão continua e às vezes há quem queira ter a doença só para receber uma barra de sabão! Devo confessar que por vezes acabo por ceder e oferecer quando vejo que realmente têm necessidade. Aqui, até uma simples barra de sabão é caríssima e nem todas as aldeias conseguem obter, nem mesmo para vender.

Sandra Figueiredo - Voluntária da APARF

domingo, 10 de junho de 2018

Conhecendo e aprendendo

Como já tinha referido algumas vezes, durante o mês de Abril frequentei o curso de inculturação no Anchilo. Para além de ter uma hora diária de língua macua, estes foram alguns dos temas apresentados durante o curso: História de Moçambique; Panorama Socio - Político - Económico de Moçambique; Mulher e tradição; Iniciação à cultura macua; Família tradição e modernidade etc...

Durante o decorrer do curso fui pesquisando e até mesmo comprando alguns livros que acho necessários para que um voluntário fique a saber minimamente que “território” pisa e que dificuldades poderá encontrar. Este povo é muito diferente do nosso e por vezes poderão existir conflitos por falta de entendimento da nossa parte dos ritos, crenças e tradições demasiado diferentes e complexas das nossas. Não gostaria, pois que os voluntários viessem sem ter uma noção mínima das coisas. Já que nem todos tiveram ou terão a oportunidade de tirar este curso que eu frequentei.

Deste modo espero conseguir documentação suficiente para que a Associação possa dar aos seus voluntários algumas bases e recursos de pesquisa para quem estiver interessado em saber mais sobre o povo e país para onde irá exercer o seu voluntariado.

Durante estes últimos meses tenho estado mais atenta ao levantamento dos doentes que tiveram alta. Refiro-me, claro, àqueles que iniciaram o tratamento com a minha chegada. Neste momento, dos quase 300 doentes que encontrei inicialmente, existem 122 doentes ainda em tratamento, estando a maioria a finalizá-lo entre este mês e o próximo. Mesmo sabendo que é um número bastante alto sinto-me satisfeita por poder acompanhá-los até ao fim e por saber que já foram reduzidos a menos de metade. Espero que até ao mês de Outubro todos ou a maioria destes 122, que iniciaram o tratamento comigo, fiquem totalmente curados. Se isso acontecer regressarei a Portugal bastante satisfeita.

Tenho assistido a uma grande evolução nestes últimos tempos, um grande interesse e uma grande preocupação por parte da população. Quando eu não me desloco às comunidades existem sempre aqueles que percorrem quilómetros preocupados em me mostrarem uma ou outra pequena mancha que encontraram no seu corpo. Acho que tem valido a pena, por muito pouco trabalho que tenha concretizado, alguma coisa ficou. E por isso tenho tido grandes alegrias em saber que a maioria já finalizou ou que está a finalizar o seu tratamento.

Junto com esta carta envio também a apresentação de contas com algumas fotos, que penso que não serão repetidas.

Mais uma vez espero que estejam todos bem na associação.
Até breve.
Sandra Figueiredo
Voluntária da APARF em Moçambique

quinta-feira, 7 de junho de 2018

A pequena Palmira

Recordam-se também da pequena Palmira?

Pois é, o tempo passou e a Palmira, não só cresceu como se curou!

Na visita à aldeia de Napela procurei saber como estava a pequena e então disseram-me que não se encontrava ali. Tinha-se mudado há pouco com os pais para outra aldeia. Tentei saber qual e pensei:” Assim que tiver oportunidade irei lá!”

Conformei-me com o que me disseram pois não podia deixar todos os outros naquele momento que já me aguardavam para ir a outra aldeia que fica a uns longos quilómetros de distância.

Depois de tudo resolvido fui-me sentar numa das varandas da casa e imediatamente fiquei rodeada de crianças. A brincadeira começou imediatamente. Todos queriam que eu tirasse fotos; para isso todos tentavam ao seu jeito chamar-me o mais possível à atenção. Entrei na brincadeira com eles e pouco a pouco fui perguntando quem andava na escola (respondeu um número bastante reduzido, a maioria rapazes), os seus nomes, etc...

Quando olhei para o meu lado estava uma menina, muito tímida, que me olhava.

Exclamei imediatamente: “Tu és a Palmira!”. Sem dizer uma única palavra parecia que o seu olhar me quisesse dizer: “Andavas à minha procura? Estou aqui!”.

Coloquei-a ao meu colo e imediatamente deu-me um abraço bem apertadinho e assim ficámos.

A pequena Palmira teve a oportunidade que muitos não terão nunca. A oportunidade de se curar!

Sandra Figueiredo
(Voluntária da APARF)

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Por um mundo sem lepra

Caros amigos da APARF,

Este ano tive um Dia Mundial dos Leprosos diferente. Decidi ficar alguns dias no Posto de saúde da missão para, não só ajudar no tratamento de todos os que dirigiram aquele Posto naqueles dias, como fazer pequenas recomendações a todos os que foram consultados distribuindo pequenos folhetos com imagens representativas da doença como a distribuição de barras de sabão por todos. Para terem uma pequena ideia apenas num só dia foram entregues mais de 40 barras de sabão.

Houve alguns bastante interessados em saber mais sobre a doença apesar de eu já por diversas vezes ter feito pequenas palestras. Ficaram todos com o compromisso de espalharem a palavra pelos seus vizinhos e amigos. A ideia do sabão, devo confessar, acho que foi óptima, pois aqui é caríssimo e muitos deles optam apenas por tomar banho só com água! Por isso era vê-los com sorrisos rasgados todas as vezes que eu lhes passava a barra de sabão para as mãos.

Penso que já é do conhecimento dos leitores da revista o caso do Alfredo. Não sei se recordam dele? De qualquer forma o Alfredo já completou o tratamento da lepra e de momento recebe apenas acompanhamento. Todos os meses ele recebe uma barra de sabão e alguns conselhos. Para o Dia Mundial resolvi oferecer-lhe uma coisa diferente: um par de meias e um par de ténis. Os dele estavam tão sujos e tão rotos que se viam os dedos dos pés. Ficou contentíssimo pois não fazia ideia que iria receber um presente!

Nos dias em que tive a oportunidade de acompanhar de mais perto todo o movimento do posto fiquei surpreendida pela quantidade de pessoas que o frequentava e dos quilómetros que a maioria percorria para ali chegar por não ter qualquer posto mais próximo. Alguns, só para terem uma ideia, percorreram qualquer coisa como 20 Kms a pé. Nesta altura do ano a doença que predomina é a malária. Eu, inclusive, não escapei ao dito mosquito. Mas o que mais preocupa são as crianças que ficam expostas a este tipo de doenças. Posso dizer-vos que desses 40 doentes que vieram ao posto naquele dia pelo menos 35 tinham problemas de malária em crianças com idade inferior a 2 anos! Fiquei ainda mais surpreendida quando vi uma mamã a entrar no posto com uma criança de apenas duas semanas de vida completamente a ferver de febre... foram receitados os medicamentos e agora é uma questão de esperar... É que para quem não sabe, a malária também mata!

Sandra Figueiredo
(Voluntária APARF)

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Caminhos de Amor

MISSÃO DE MURRUPULA - MOÇAMBIQUE
Amigos e APARF

Um grande abraço do tamanho do mundo para todos vós.

Depois de 19 meses de estadia em Moçambique, na província de Nampula a oitenta quilómetros mais para o interior, ou seja, no distrito de Murrupula, como voluntário da APARF, estou de volta, com o coração cheio e um grande desejo de voltar.

Estou de regresso, mas triste porque fiquei preso aquelas gentes que foram o motivo e a causa pela qual eu fui; tristeza por trazer no coração todas as necessidades e sofrimentos daquelas gentes; simultaneamente, sinto uma enorme alegria e satisfação por saber e ver que mesmo o pouco que se possa fazer, representa muito, para quem de tudo necessita; assim, meu e deles, o nosso BEM HAJAM.

Dou graças a Deus por me ter proporcionado esta bela experiência, esta maravilhosa vivência da qual resulta um enorme crescimento espiritual; como nos dizem os evangelhos, “Deus paga sempre cem por um, mil por um...”

Quero agradecer também a todo o corpo dos Missionários de São João Baptista, pelo apoio logístico, especialmente, em Lisboa, o Sr. Padre Cristino, e em Moçambique, nas pessoas dos Srs. Padres Jacob e Luís, que ajudaram especialmente na obtenção de toda a documentação e apoio junto da Arquidiocese de Nampula das autoridades sanitárias e governamentais; também todo o carinho e apoio das comunidades de Irmãs do mesmo corpo Missionário por onde passei: afinal estamos todos no mesmo barco (irmanados pelo mesmo Espírito), cada qual com o seu remo, seguindo as indicações do Mestre, que é Jesus Cristo nosso Senhor! Graças a Deus!

Agradeço a todos vós amigos, colaboradores, benfeitores e funcionários, que sois o suporte deste grande património legado por Raoul Follereau, à APARF, o meu muito obrigado por ter confiado e apoiado a minha fraca e frágil inter-ajuda, proporcionando-me esta enorme riqueza.

Descrevendo um pouco os trabalhos realizados: no campo, foram percorridos cerca de treze mil quilómetros por caminhos e veredas que só um Jaguar de duas rodas é possível andar por aqueles caminhos que eu lhe chamei e com convicção digo caminhos de amor; foram vistos, isto é, consultados vários milhares de pessoas, adultos e jovens; entre tratados, em tratamento e/ou com alta a cifra situa-se no número de 450 a 500 pacientes.

No terreno deixámos também 12 (doze) bicicletas aos activistas (voluntários nativos que nos ajudam na pesquisa e sensibilização das populações) para que depois de acordo com um calendário pré-estabelecido, nos facilita o trabalho de concentração em determinado local; estas bicicletas foram gentilmente cedidas, oferecidas, pela Fundação Teresa Regojo na pessoa do seu representante Sr. Carreira (quando da sua passagem/visita de trabalho, pela Missão de Murrupula) para quem vão os meus sinceros e sentidos agradecimentos, bem hajam; distribuímos também, na medida do possível e disponibilidades, sal, sabão e outros medicamentos; na Missão, são atendidos idosos, jovens, crianças em primeiros socorros e outras necessidades sanitárias primárias, em número variável de 10 a 30.

Que Deus nos abençoe a todos, nos dê a Sua fortaleza para sabermos estar disponíveis por esta e outras causas que afinal são a razão do nosso existir e de estar neste mundo tão conturbado.

Grande abraço, com um até breve.

Ângelo Bouça 
Voluntário da APARF






sexta-feira, 4 de maio de 2018

O embondeiro

Caros Amigos não posso deixar de apreciar também a beleza que este País nos oferece.

 Por todo o Moçambique existe uma árvore grandiosa chamada embondeiro e claro, aqui em Ocua não é excepção. O embondeiro para quem não o conhece é uma árvore de grande estatura, a maior parte do tempo despida, sem folhas, o seu tronco de cor cinzenta é algo de extraordinário chegando a medir entre 10 a 15 metros de altura, pode chegar aos 8 metros de diâmetro e atingir 3.000 anos de vida. É realmente uma árvore majestosa e imponente.


Durante as visitas pelas comunidades deparámos com um embondeiro um pouco diferente. Mas o que tinha de tão especial este embondeiro? Nada mais nada menos do que uma grande abertura no meio - curioso! - Comentei. Foi então que me contaram a história daquele embondeiro e o que eu não sabia é que aquele embondeiro trazia com ele uma história de sofrimento que durante tantos anos assolou este povo.

Há muitos anos atrás, antes mesmo do tempo colonial neste país a lepra já martirizava este povo e não havendo qualquer tipo de medicamento o seu modo de erradicar a doença era isolar essas pessoas para que a doença não se propagasse. Ao longo da história temo-nos apercebido que isso foi feito um pouco por todo o mundo. Aqui não foi excepção, também o fizeram, mas de uma forma um pouco diferente. Os doentes eram levados para fora das aldeias e eram colocados dentro dos troncos dos embondeiros. Abriam grandes buracos no meio do seu tronco para entrarem e ali ficavam, seria como que um esconderijo para que ali pudessem viver sem que o resto da família ou aldeia viesse a sofrer do mesmo mal. Mas, ali eram deixados com apenas um saco de farinha para se alimentarem. Os que para lá os levavam diziam que voltariam mais tarde para lhes trazer água e mais alimentos. Mas essa água e esses alimentos nunca chegavam... e essas pessoas acabavam por morrer de sede e fome.

Poderia pensar-se inicialmente num simples afastamento para não prejudicarem os outros, mas a ideia desde o início do seu isolamento era exactamente essa, de morrerem isolados para que não contaminassem o resto da aldeia com aquela “maldição”.

Felizmente isto já não acontece nos nossos dias, existe um medicamento eficaz para a cura desta doença, sabemos que a sua forma de contágio é mínima e os doentes podem fazer esse tratamento em casa, junto com a família.

E hoje em dia estes buracos nos troncos dos embondeiros servem apenas de vivendas, armazéns e refúgio para muitos animais selvagens.

Sandra Figueiredo

* “Salama” – cumprimento mais usual em macua. 




domingo, 29 de abril de 2018

Os olhos de Celestino

Estou, depois de uma curta paragem em Portugal, de volta à aldeia de Mahipa. O meu trabalho com os doentes de lepra continua e infelizmente o número vai aumentando a cada visita às comunidades, sendo o seu número neste momento de 221 doentes. Vamos tentando fazer o melhor possível...

Mas, como não poderia deixar de ser, aqui é impossível ficar indiferente aos mais pequeninos... por isso sempre que possível vou um pouco à escolinha e é ver crianças por todo o lado. A escolinha da missão tem 52 crianças, onde aprendem, brincam e tomam uma refeição diária, talvez mesmo a única refeição que irão tomar durante todo o dia.

Uma dessas crianças é o Celestino. O Celestino tem uma história um pouco particular: tem 4 anos e perdeu a mãe aos 2. O pai juntou-se com outra mulher com quem tem outros filhos e o Celestino, esse ficou esquecido... recordo-me que quando aqui cheguei ele não falava com ninguém, escondia-se de todos e era vê-lo sempre sozinho... Hoje, ao frequentar a escolinha da missão tem-se, pouco a pouco aproximando das pessoas e começa mesmo a ter amigos!

Certo, anda sempre muito sujinho pois, não tem o cuidado que deveria ter em casa, mas mesmo assim é impossível não lhe pegar, não o abraçar, não lhe fazer uma carícia...

Estas crianças, este povo dá-nos que pensar... quando vou dar pequenos passeios a pé pela aldeia, parece sempre dia de festa. Todos se cumprimentam, as crianças seguem-nos atentas e sempre à espera de um sorriso, um aperto de mão, de uma carícia, de um simples “Salama!”*... Por vezes ando com 5 a 6 crianças em cada mão! Tenho, como devem calcular muita dificuldade em comunicar-me com elas, pois a língua que aqui se fala é o macua, mas, por vezes um olhar, um sorriso vale milhões de palavras...

Sandra Figueiredo



terça-feira, 24 de abril de 2018

O Menino dos olhos tristes

Lá estão as crianças todas repetindo em coro palavras e frases da professora Teresinha: Livro, Lápis, Bom Dia, Como Está?, Eu Amo O Meu Pai, Eu Amo A Minha Mãe. O que sentirão aqueles 68 órfãos ali presentes que já não têm pai nem mãe? Mas todos participam e aprendem o português. Todos, menos um: lááá no extremo oposto do terreno está um pequenino sentado próximo da fogueira que aguarda o panelão da multimistura, ou como aqui dizem das papas enriquecidas. À primeira impressão, tem um ar apático como se fossem muitos os quilómetros que o afastassem daqueles 50 metros de distância das outras crianças.

“Aquela criança está doente”, dizia-me Alfredo um dos dois monitores (homens!) que gosta tanto das crianças quanto eu.

Mas não, eu já tinha examinado o menino dos pés à cabeça e só lhe encontrei a magreza e o respectivo imenso ventre a desparasitar, acompanhados de um olhar tão triste...

Na hora de comer, começamos a formar as filas das crianças; o menino assiste imperturbável à barafunda organizativa e eu não o incluo nas filas. Vou-lhe entregar um prato cheio de papas e fico a observá-lo pelo canto do olho: serenamente, colher a colher, come a dose toda. Alfredo e eu entreolhamo-nos. Volto a encher o prato e de novo come tudo no mesmo ritmo tranquilo. Um de nós comenta: “Já sabemos qual é a doença dele...” Mais tarde, uma irmã do menino vem buscá-lo e as nossas perguntas sucedem-se quase com sofreguidão: Quem é? Que idade tem? Como se chama? Onde Vive? Então ela conta que são só estes 2 irmãos, ela com 10 e ele com 2 anos, vivem com uma avó e um tio. Não têm pai nem mãe, recentemente falecidos (sida). Alfredo promete-me ir visitar a família e averiguar os factos. Há-de ir e confirmar tudo isto. Eu fico cheia daqueles olhos tristes que me hão-de acompanhar muitas horas. Nas vezes seguintes, não resisto a pegar-lhe ao colo e a acarinhá-lo mais do que aos outros. (aqueles olhos tristes...). Até que um dia chamo o tio e a avó e peço para partilhar o seguinte: 1 semana comigo, 2 com a família. Concordam. Nasce assim (mais) uma experiência maravilhosa! Livro algum conseguiria “contar” como uma criança triste se transforma numa criança feliz, como uma criança engorda 1,200 Kg numa semana, e não mais é aquele menino cheio de silêncio e apatia, e canta e tagarela (dialecto) e desafia-me com grandes risadas... não há descrição possível!

Ao cair da noite, é a hora do mimo: fica triste, não quer brincar, ameaça choramingar, pede colo. Largo tudo o que estou a fazer, instalamo-nos os 2 num sofá, ponho música e ele ali fica no colo, às vezes absorto, outras a brincar com as mãozitas (ou um dos sapatos), nitidamente disfrutando a proximidade física e os mimos que lhe vou dando.

Meia hora depois, sou eu que ponho termo ao encantamento: “Vamos! Já chega de mimo!” Começo a fazer-lhe cócegas e só paro quando o ouço a rir à gargalhada.

De noite, posso percorrer a cama de lés-a-lés que ele me acompanha – “tem que” dormir encostado a mim.

É seropositivo? Não sei. E acho que não quero saber. Por aqui não há retrovirais, o meu carinho é igual, não posso dar mais, nem fazer melhor. Mas o imenso apetite dele enche-me de esperança... um apetite tão inesgotável que eu costumo “reclamar”: pequenino! Tu és a ruína da minha despensa!!!

Ana Maria Oliveira



sexta-feira, 20 de abril de 2018

Mecubúri: Ensino – Escola e Acompanhamento das Meninas do Lar


No início a minha tarefa no ensino era apenas dar explicações às meninas do Lar e acompanhar a sua vida diária, problemas e preocupações. O Lar Feminino de Mecubúri é das Irmãs e acolhe meninas do interior do Distrito para poderem continuar a estudar desde a 6ª até à 10ª Classe. Eu dava explicações de qualquer coisa que tivessem dúvidas, ou na Física e na Química ajudava-as a estudar pelo caderno ou por livros que lá tínhamos.

Depois a Administradora do Distrito, sabendo que sou licenciada em Gestão e havendo falta de professores de Matemática, pediu-me para dar aulas na Escola Secundária. E assim fui professora de três turmas da 8ª Classe, em cada turma tinha cerca de 65 alunos, todos de calça ou saia azul e camisa branca, com muito maior disciplina escolar do que numa turma de 20 ou 30 alunos cá.

Era muito respeitada e consegui que as minhas aulas fossem bem participadas. Geralmente os alunos lá têm medo dos professores, eu consegui quebrar isso nas minhas aulas, e vir ao quadro era para alguns deles um prazer e não um terror.

Outras Actividades

Construção do Muro e Visita de Projectos

Uma das necessidades da Missão era também a construção do Muro de Vedação que protegesse o Lar, a Casa das Irmãs e a Machamba, que eram invadidas por animais, bêbados e ladrões. Então também aí dei a minha ajuda e fiz toda a contabilidade da obra e parte da sua gestão.

Visitei ainda outros Projectos de Luta contra a Lepra para trocar experiências com vista a melhorar o nosso trabalho no Distrito.

Em dois dos projectos que visitei estão também voluntários da APARF: a Sandra Figueiredo, em Ocua, e o Sr. Ângelo Bouça, em Murrupula.

Esta experiência de voluntariado ao serviço dos leprosos e dos mais pobres foi para mim muito agradável e enriquecedora em termos espirituais e humanos.

Gostei muito de lidar directamente com o povo e de trabalhar em equipa com o Enf. Paulo, com as Irmãs e os Padres. Senti-me também muito acolhida por toda a gente do Distrito e a todos agradeço a sua simpatia e acolhimento.

Koxukuro Vanjene athu othene
(Muito Obrigada a todos)

Mphaka Nihiko Nikina
(Até outro dia)

Ana Margarida Azevedo



sábado, 14 de abril de 2018

Mecubúri: Pastoral – Catequese, Jovens, Saúde e Comunidades

Quando cheguei a Mecubúri, como as Irmãs já sabiam que eu era Catequista, membro do Movimento de Jovens Shalom e empenhada a nível paroquial, os primeiros trabalhos que fiz foram logo na pastoral. Comecei, como já referi, a ajudar a Ir. Assunção nos Cursos de Catequistas. Depois foi-me confiado o grupo de Meninas Baptizadas do nosso Lar para eu lhes dar Catequese.

Em seguida formei equipa com a Ir. Sandra para trabalharmos na Pastoral Juvenil. Organizámos cinco encontros de Jovens sobre os temas de cada ano (2003 - Eis a Tua Mãe, 2004 - Queremos ver Jesus), e realizámos três peregrinações juvenis onde subíamos uma das montanhas rochosas perto do centro da Vila. Em 2003 fizemos duas Peregrinações Marianas, uma em Maio (Mês de Maria) rezando pelo caminho os mistérios Gozosos, outra em Agosto (Mês da Padroeira da Paróquia - Nª Sª da Assunção) rezando e representando os novos mistérios propostos pelo Papa – Mistérios Luminosos. Em 2004 fizemos uma Peregrinação Quaresmal no primeiro Sábado da Quaresma, foi uma Via Sacra Jovem representada e meditada. Em cada peregrinação participaram entre 50 a 70 jovens.

Estive também a promover a Pastoral da Saúde, em Equipa com a Ir. Cristina, Enfermeira de Saúde Materno-Infantil. Realizámos três Encontros com os Responsáveis Paroquiais da Saúde onde ensinámos e incentivámos diversas formas de melhorar a saúde, através de uma boa higiene, alimentação adequada, recurso atempado aos Postos de Saúde, etc. Falámos sobre os problemas de Saúde de cada Zona e da Paróquia em geral, procurando a melhor resolução para cada um. Aconselhámos e incentivámos ao acolhimento do doente e à oração por ele e com ele, sempre numa perspectiva cristã. Promovemos também a Comemoração do Dia Mundial do Doente (11 de Fevereiro) com Celebração de Eucaristia no Centro de Saúde de Mecubúri, debaixo de uma mangueira, e celebrações em todas as comunidades cristãs que a pudessem realizar.

Eu e a Ir. Cristina participámos ainda na Semana de Estudos sobre Pastoral da Saúde, no Anchilo, onde aprendemos novos conceitos sobre Pastoral da Saúde, a sua prevalência em relação à Pastoral do Doente, e aprendemos novas formas de acolher e consolar os doentes.

Aos Domingos íamos à Celebração da Palavra nas Comunidades. A equipa missionária abrange duas Paróquias – Mecubúri e Muite – que corresponde a todo o Distrito, e tem ao todo mais de 200 comunidades. Então para podermos visitar mais comunidades ao mesmo tempo escolhíamos uma zona e íamos ficando pelo caminho. Por exemplo, uma vez estivemos em 6 comunidades no mesmo dia, duas comunidades do centro da vila, onde estiveram duas Irmãs, e 4 comunidades distantes: na primeira saiu o Pe. Muririua, na segunda eu, na terceira o Pe. Constantino, na quarta a Ir. Assunção que levava o carro. Nas Comunidades onde vão os Padres há Eucaristia, onde ia eu ou as Irmãs há apenas Celebração da Palavra e embora lá todos possam falar na Partilha da Palavra (homilia) se nós estávamos tínhamos que partilhar também e aproveitávamos para dar alguns conselhos e alguma catequese.

A Pastoral lá não é fácil de fazer, devido à distância, ao analfabetismo, à mistura dos valores cristãos com os tradicionais, às crenças nos feiticeiros e na força dos antepassados, etc. Mas é muito mais agradável. Lá, as pessoas têm sede de Deus e a simplicidade com que vivem torna as Comunidades mais vivas, activas e participadas: qualquer pessoa pode partilhar o que ouviu das leituras ou pode fazer uma prece na Oração dos Fiéis. Nos tempos festivos as celebrações são bem animadas pela música e pela dança. No ofertório cada um pode trazer aquilo que produziu na sua machamba (terreno onde se cultiva tudo o que é necessário, ou o que se pode). Uma celebração pode chegar a demorar 3 horas sem nos cansarmos de participar nela.





terça-feira, 10 de abril de 2018

Mecubúri: Saúde – Assistência aos doentes, Formação e Sensibilização

Comecei a trabalhar em equipa com o Enfermeiro Paulo. Juntos fomos às Concentrações de Leprosos em vários pontos do Distrito e às Escolas fazer Acções de Sensibilização sobre a lepra.

a) Concentrações de Leprosos

Nas Concentrações juntam-se os doentes por zonas de residência. Nós fazemos o registo dos doentes leprosos, a distribuição dos medicamentos, a avaliação da evolução de cada um de 3 em 3 meses, consulta de casos novos, e damos alguns esclarecimentos e conselhos sobre o tratamento, a cura e as complicações da Lepra. Nas Concentrações em que estive presente, quase sempre acompanhada pela Ir. Delfina, assim como em algumas outras, distribuímos bens essenciais à Saúde e ao melhor tratamento dos doentes de Hanseníase: sabão, açúcar, sal e mantas no tempo frio, que servem também de incentivo à continuação do tratamento. A gratidão das pessoas percebe-se no seu sorriso quando aquelas mãos em garra se estendem para receber alguma coisa.

Durante estes 15 meses de trabalho em Mecubúri (de Janeiro de 2003 a Março 2004), eu e o Enf. Paulo, tivemos “em mãos” um total de 271 doentes de hanseníase (75 PauciBacilares – Doentes com poucos bacilos causadores da Lepra –  e 196 MultiBacilares – Doentes com muitos bacilos), dos quais 130 estavam já em tratamento no início de 2003 (27 PB e 103 MB), 128 iniciaram como casos novos (47 PB e 81 MB), e 13 como reentrados (1 PB e 12 MB). Receberam alta de tratamento 160 doentes (56 PB e 104 MB), abandonaram o tratamento apenas 3 (1 PB e 2 MB), 4 faleceram por vários motivos (1 PB e 3 MB), tendo permanecido em tratamento 104 doentes (17 PB e 87 MB), no final de Março de 2004 .

b) Acções de Sensibilização

Sabem o que é a Lepra? Como se transmite? Como se manifesta? Quais as complicações? Como nos devemos defender? Como se trata? ... Muitos de vós, aposto que não sabem, assim como a grande maioria dos alunos e professores a quem falámos.

No início, quando eu cheguei a esta linda terra de missão, pensava que pelo menos professores, alunos, funcionários públicos, etc. saberiam alguma coisa sobre esta doença que tanto afecta esta nossa província de Nampula. Mas há cerca de oito meses, quando um aluno meu ia lá à Missão para ter explicações, eu vi as suas manchas, fiz-lhe o teste de sensibilidade e confirmei que tinha lepra MultiBacilar. Começou logo a fazer tratamento, e agora, passados 8 meses, as suas manchas já desapareceram quase todas e daqui a 4 meses estará curado (o tratamento dos MB é de 12 meses). 

Este caso fez-me pensar que os alunos precisam de ser informados sobre a Lepra. E assim programei, em conjunto com o Enf. Paulo, e pedindo autorização ao Director Distrital da Educação e à Directora Distrital da Saúde, uma Acção de Sensibilização para as Escolas, onde privilegiámos as Escolas com alunos mais crescidos (a partir da 5ª Classe) que nos entendem melhor.

Fomos a seis Escolas do Distrito:
- Escola Secundária de Mecubúri (da 8ª à 10ª Classe) onde falámos a cerca de 1400 alunos;
- 4 Escolas Primárias Completas (da 1ª à 7ª Classe) abrangendo cerca de 2300 alunos (EPC de Naípa - 100 alunos, EPC de Momane - 250 alunos, EPC de Mecubúri Sede - 1800 alunos, EPC de Muite - 150 alunos)
- Escola Primária n.º 1 de Mecubúri Sede (da 1ª à 5ª Classe) onde contámos com cerca de 100 alunos.

Das EPC do Distrito só ficaram a faltar duas, a que não conseguimos ir porque as condições das estradas não permitiram.

Em todas as Escolas o esquema era mais ou menos o mesmo. 
- Começávamos com uma canção (música “Todos os patinhos”):
“Todas as Crianças acabam de brincar, acabam de brincar,
Vão tomar um banho e a sua pele olhar, vão tomar um banho e a sua pele olhar.
É que é preciso a Lepra acabar, a Lepra acabar,
Se tivermos manchas é preciso tratar, se tivermos manchas é preciso tratar.”
 - Depois falávamos sobre a Lepra, mostrando imagens, dizendo como se transmite, ensinando a distinguir as manchas, explicando o tratamento e cuidados a ter, respondendo às perguntas essenciais que vos coloquei no início. E esclarecendo também que o doente de lepra pode fazer toda a vida normal em família e em sociedade, só precisa é de fazer o respectivo tratamento.
- Por fim abríamos um espaço para dúvidas e distribuíamos uns folhetos explicativos para os alunos que estavam e para os que faltavam também.

Foi uma Acção muito positiva. Os alunos gostaram e sei de alguns que chegaram a casa e logo começaram a contar tudo à sua família. Este era também um dos objectivos, uma vez que muitas vezes os filhos já ensinam os pais, porque sabem ler e os pais não. Agora estamos à espera que o número de consultas de detecção de lepra aumente e que mais doentes comecem a fazer tratamento.

Esta foi uma actividade muito agradável de fazer, e acho que até uma maneira bonita de me despedir desta gente e destas crianças tão lindas, sorridentes e carinhosas. Depois desta ida às escolas quando eu passava nos bairros ou perto da escola sempre ouvia as crianças, só por me verem passar, a falar de Lepra ou a cantar “Todas as Crianças...”.

(continua...)





sexta-feira, 6 de abril de 2018

15 meses de Missão em Mecubúri - Nampula - Moçambique

Moçambique que é o 3.º país do Mundo mais afectado pela Lepra, e concretamente a Provincia de Nampula, tem cerca de 70% dos leprosos do país. Dentro desta provincia, foi no Distrito de Mecubúri que a APARF me colocou a realizar o meu desejo de ir em Missão para cuidar de Leprosos.

Como preparação para este trabalho, participei, em 2001, no Curso de Leprologia para Pessoal Paramédico, no sanatório de Fontilles, em Alicante – Espanha. Neste cursointensivo aprendemos, na teoria e na prática, um pouco de tudo sobre o Bacilo de Hansen (bacilo causador da Lepra): como detectar, como diagnosticar, como efectuar a análise clínica, como prevenir, como tratar, quais os medicamentos a utilizar e com que dosagem, como reabilitar o doente com complicações de Lepra, outras doenças parecidas, etc.

Assim, depois de acabar a minha licenciatura em Organização e Gestão de Empresas e de estagiar profissionalmente numa empresa durante 7 meses. Depois de 10h30 de avião para Maputo, uns dias de espera lá e 2h de avião para Nampula, cheguei à Província que foi minha durante 15 meses. Dois dias depois, e após uma longa viagem de LandRover por caminhos de terra batida e lama, passando por 36 pontes e andando debaixo de chuva, percorremos em 2 horas os 84Km que nos levam ao nosso humilde Distrito de Mecubúri. Foi no dia 27 de Janeiro que a Comunidade das Irmãs Servas de Nossa Senhora de Fátima me acolheu carinhosamente para partilhar com elas toda a vida de Missão durante estes 15 meses. Na comunidade passámos a ser cinco: Ir. Assunção (agora substituída pela Ir. Carmo), Ir. Delfina, Ir. Sandra, Ir. Cristina, e Ana Margarida. Na equipa missionária éramos sete, nós as cinco mais os padres: Pe. Constantino e Pe. Muririua.

Logo que cheguei comecei a colaborar nos trabalhos de Pastoral, ajudando a Ir. Assunção nos cursos de catequistas. Depois apresentei-me ao Serviço na Saúde, junto do Enfermeiro Paulo Rosário, Supervisor Distrital do sector ELAT/ELAL (Estratégia de Luta Anti-Tuberculose / Estratégia de Luta Anti-Lepra), no dia 30 de Janeiro de 2003, no Centro de Saúde de Mecubúri. No mesmo dia comecei também a acompanhar o estudo das meninas que tínhamos no Lar Feminino. Mais tarde a Administradora do Distrito pediu-me para dar aulas de Matemática por haver falta de professores na Escola Secundária, e apresentei-me na escola a 17 de Fevereiro. Assim, a minha vida em missão teve três áreas principais de trabalho: Saúde, Pastoral, e Ensino.



segunda-feira, 2 de abril de 2018

15 meses de Missão em Mecubúri

Moçambique que é o 3.º país do Mundo mais afectado pela Lepra, e concretamente a Provincia de Nampula, tem cerca de 70% dos leprosos do país. Dentro desta provincia, foi no Distrito de Mecubúri que a APARF me colocou a realizar o meu desejo de ir em Missão para cuidar de Leprosos.

Como preparação para este trabalho, participei, em 2001, no Curso de Leprologia para Pessoal Paramédico, no sanatório de Fontilles, em Alicante – Espanha. Neste cursointensivo aprendemos, na teoria e na prática, um pouco de tudo sobre o Bacilo de Hansen (bacilo causador da Lepra): como detectar, como diagnosticar, como efectuar a análise clínica, como prevenir, como tratar, quais os medicamentos a utilizar e com que dosagem, como reabilitar o doente com complicações de Lepra, outras doenças parecidas, etc.

Assim, depois de acabar a minha licenciatura em Organização e Gestão de Empresas e de estagiar profissionalmente numa empresa durante 7 meses. Depois de 10h30 de avião para Maputo, uns dias de espera lá e 2h de avião para Nampula, cheguei à Província que foi minha durante 15 meses. Dois dias depois, e após uma longa viagem de LandRover por caminhos de terra batida e lama, passando por 36 pontes e andando debaixo de chuva, percorremos em 2 horas os 84Km que nos levam ao nosso humilde Distrito de Mecubúri. Foi no dia 27 de Janeiro que a Comunidade das Irmãs Servas de Nossa Senhora de Fátima me acolheu carinhosamente para partilhar com elas toda a vida de Missão durante estes 15 meses. Na comunidade passámos a ser cinco: Ir. Assunção (agora substituída pela Ir. Carmo), Ir. Delfina, Ir. Sandra, Ir. Cristina, e Ana Margarida. Na equipa missionária éramos sete, nós as cinco mais os padres: Pe. Constantino e Pe. Muririua.

Logo que cheguei comecei a colaborar nos trabalhos de Pastoral, ajudando a Ir. Assunção nos cursos de catequistas. Depois apresentei-me ao Serviço na Saúde, junto do Enfermeiro Paulo Rosário, Supervisor Distrital do sector ELAT/ELAL (Estratégia de Luta Anti-Tuberculose / Estratégia de Luta Anti-Lepra), no dia 30 de Janeiro de 2003, no Centro de Saúde de Mecubúri. No mesmo dia comecei também a acompanhar o estudo das meninas que tínhamos no Lar Feminino. Mais tarde a Administradora do Distrito pediu-me para dar aulas de Matemática por haver falta de professores na Escola Secundária, e apresentei-me na escola a 17 de Fevereiro. Assim, a minha vida em missão teve três áreas principais de trabalho: Saúde, Pastoral, e Ensino.



domingo, 1 de abril de 2018

Até um dia, Cubal

O Pedro e a Ana de hoje não são certamente os mesmos que partiram para o Cubal. Só o tempo dirá o quão/como diferentes nos tornámos. Podemos, contudo, afirmar desde já que estamos mais fortes e com mais amor para dar pois foi muito amor que recebemos… Como é difícil pôr por palavras uma imagem que seja de tudo quanto vivemos! Que dias simultaneamente tão duros e tão felizes partilhámos com os mais pobres e com a Comunidade das Irmãs Teresianas. No meio de tudo o mais difícil para nós terá sido o ter que lidar diariamente com a morte e o sofrimento extremo e não se deixar imobilizar por isso, porque logo na cama ao lado há outra vida no limite a precisar de toda a atenção. Sem falsas modéstias, fomo-nos adaptando e soubemos responder, dentro das nossas capacidades e das limitações locais, às solicitações a que fomos sendo chamados.

No Cubal é tal a desproporção entre número de doentes e pessoal médico que podemos verdadeiramente dizer que o trabalho nunca acaba. Perante um mundo tão desigual surge imediatamente a pergunta: “porquê?”… mas esta, na urgência do momento, dá logo lugar a uma outra: “que podemos fazer?”. E o que podemos fazer nunca sendo suficiente é certamente mais uma força a juntar-se a outras que insistem em contrariar esse desequilíbrio.

Obrigado Pai por teres sido a nossa força. Obrigado a vós todos quantos permitis que este projecto (que certamente não acabará aqui) se pudesse ter realizado.

Bem hajam.
Pedro e Ana

sexta-feira, 30 de março de 2018

“… longe um arado prossegue no tumulto da incerteza…”

No dia em que pela primeira vez fiz o caminho de bicicleta de casa até à Missão pensei que aí estava simbolizado o desafio que sinto ser-me feito diariamente: queres chegar à Missão? Então percorre primeiro este caminho… E ao longo do percurso Ele vai-me presenteando com tudo o que preciso: o pão, o descanso, o amor, rostos e vidas concretas, “bom dia! Walale?”, o sol, a terra em todo o seu esplendor, a saúde, a Ana… e depois só me pede uma coisa: que ame! Ele que me ama infinitamente, pede-me que depois eu o faça tanto, ou tão bem, quanto me for possível em cada dia… tanto quanto maior for a minha capacidade de não aprisionar em mim todo o amor que me dá… E amanhã outra vez… E depois…

Não é fácil pôr por palavras tudo o que por aqui vou vivendo e experimentando. Sei que estou muito feliz por estar aqui e que hoje não queria estar em nenhum outro lado… Este povo irmão tão sofrido, a Comunidade das Irmãs tão provocadoramente “humana e divina”, a maravilha de poder partilhar esta experiência com a Ana, a ausência de tanta coisa conotada com o dito “mundo desenvolvido” e tantas outras pequenas grandes coisas são insistentemente uma feliz e diversa provocação…

Às vezes chego ao fim do dia muito cansado e a sentir que gostaria de ter um pouco mais de tempo livre para pensar/reflectir/integrar cada dia… mas sito também que no silêncio Ele me vai construindo. Obrigado, Ir. Júlia, por tudo quanto tem feito para que hoje pudéssemos estar aqui.

Muito unido,
Cubal, 
Pedro

segunda-feira, 26 de março de 2018

Dois médicos, dois testemunhos

(http://voluntariadoaparf.blogspot.pt/2018/02/relatorio-de-actividades-do-projecto.html)
Continuação...

”Concedei-me, Senhor, serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso, e sabedoria para distinguir umas das outras”.

Descobri esta “oração de serenidade” nos livros dos A.A., enquanto preparava uma das sessões de grupo. Decido iniciar com ela o meu testemunho, porque parece fazer todo o sentido, neste momento em que procuro por entre o meu léxico verbal associações que me permitam exprimir e partilhar muito do que vou experimentando.

O Cubal é uma terra linda, muito verde, que me inspira sentimentos apaziguadores, bem como de assombro!...

A Missão Católica aparece, como por magia, revestida ao largo por vários montes, quando pelas 7 horas pedalo na minha bicicleta o caminho de terra batida que liga a cidade à missão. Falo em “magia”, porque é o que se sente quando progressivamente nos vamos apercebendo dos ritmos, cores, cheiros, disposições que a compõem… o hospital, onde se atendem diariamente centenas de doentes e com uma organização estrutural que não julguei encontrar no interior de Angola; os “complementos” do hospital, as cozinhas onde se prepara a alimentação dos doentes e acompanhantes, a carpintaria, a rouparia, a farmácia interna e externa, o armazém dos medicamentos, o laboratório, etc, etc; o bairro de São José construído tijolo a tijolo para acolher refugiados, idosos, crianças e cuja subsistência é auxiliada pelas Irmãs com incentivos continuados de aprendizagem da autossubsistência, autonomia e dignidade; a comunidade das Irmãs Teresianas… doçura, leveza, alegria… a fé a transbordar por todos os poros. A primeira imagem que tive foi a de uma comunidade de “formiguinhas trabalhadoras”, incansáveis, alegres, dia a dia unindo esforços, encontrando soluções, tornando possível o inimaginável; as crianças e jovens a caminho da escola, ou simplesmente a brincar à porta das casas, as mulheres cobertas de panos de todas as cores com as crianças às costas e os fardos à cabeça, num exercício de equilíbrio que desafia as leis da gravidade, os homens conduzindo triunfantemente as suas motos, outros de bicicleta, outros a pé, outros transportando doentes nos cangulus, os cães, as galinhas, os cabritos, as várias músicas de fundo, quizomba, baladas brasileiras e música comercial importada do ocidente… tudo isto me entra diariamente pelos olhos estimulando todos os meus sentidos, alojando-se progressivamente no meu coração.

É assim a missão de Cubal, o local onde há alguns meses atrás decidi juntamente com o Pedro “viver” o projecto “Que Paz?” Num momento em que o mundo vivia suspenso na questão do ataque ao Iraque pelos E.U.A. (que acabou por acontecer com os resultados que sabemos) partíamos com vontade de experimentar outras vias, outros caminhos para a paz, de explorar outras formas de comunicação ente os povos que não a opressão bélica, a imposição cultural, politica e económica. Partíamos à procura de um sentido mais profundo e comprometedor para a nossa vida de Homens e também de Cristãos. Partíamos movidos pelo “amor” que continuamente nos desinstala do “bem-estar” das nossas comodidades, nos provoca e um dia nos fez sonhar… como dizia o poeta “pelo sonho é que vamos…” E fomos.

Hoje escrevo estas palavras sem censuras, espontaneamente, com toda a verdade que sei, porque é assim que a vida deve ser… um acto de amor espontâneo!

Trabalho no hospital da missão, essencialmente no serviço de pediatria e centro de nutrição infantil. Diariamente observo e trato cerca de 30 crianças. E tudo poderia ser simples terminando aqui o meu testemunho, se não estivesse no interior de Angola, onde a realidade reveste nuances até então minhas desconhecidas. De manhã, quando saio de casa, não sei se vai ser uma manhã “normal” com situações graves mas controláveis, ou se uma das duas crianças já faleceram durante a noite, ou se outras irão morrer-me nos braços, ou se os pais de uma outra com diarreia constantes decidiram fugir com a criança porque já estavam “cansados” de estar no internamento, ou ainda se outros deram tratamento tradicional às escondidas no internamento e a criança agravou o seu estado, ou se não contaram se teve duas ou vinte dejecções e não deram soro durante toda a noite, ou arrancaram a sonda para a alimentação porque acham que faz mal, ou se duas crianças com anemia grave e não tendo doadores, os próprios pais recusaram a doação por motivos absurdos, ou se vai chegar ao banco de urgência uma criança doente há mais de dois meses, que já fez tratamento umbundo e está num estado lastimável de desnutrição, desidratação, infecção da pele, dos pulmões, insuficiência hepática, renal, etc, etc, etc, Pela manhã enquanto pedalo até à missão, não sei se vou rir, se vou chorar, se vou sentir revolta, impotência, frustração, angústia, pena, ternura, alegria… não sei se vou desejar ficar para sempre, ou ter vontade de fugir pela porta fora a meio da manhã. Pela manhã, pela tarde, pela noite… tudo é tão intenso!... O coração que se aperta em sintonia com uma mãe que acaba de perder o seu filho, a alegria tremenda por uma criança que acabou de sair de como e nos sorri pela primeira vez, a revolta perante um povo que foi privado de tudo o que é básico e essencial e continua actualmente a ser explorado, vendido, muitas vezes não tendo essa consciência de que tem direito à saúde, à educação, a uma vida com dignidade, a impotência perante a falta de “tudo” e a angústia de trabalhar com meios tão precários que me limitam a avaliação diagnóstica bem como as possibilidades de tratamento.

Os primeiros meses foram dominados por esta mistura avassaladora de emoções intensas e confusas. Foram também tempo de adaptação ao clima, à ausência de água corrente e potável e ao ritual dos baldes, panelas e filtro, à falta de luz diária, ao ritmo de vida casa-trabalho, trabalho-casa, à ausência de tudo o que é “distracção”, informação, comunicação, às saudades da família e amigos.

O projecto está a ser uma experiência (atrevo-me a um neologismo, bem ao jeito do Mia Couto) “surpreendapaixonástica” a todos os níveis. De tempos a tempos vou revendo as minhas vivências e pareço destrinçar melhor o essencial do dispensável, perceber melhor o que me faz feliz, no fundo o que sou e do que realmente preciso para viver.

Neste momento o tempo e o vivenciar repetido das situações, os laços que vou estabelecendo com a terra, a cultura e as pessoas vão permitindo a integração da tempestade de afectos e redefinindo estares e atitudes mais adaptadas e estruturadas.

Desta forma vou continuando nesta “luta” diária pela vida. Lado a lado com as gentes desta terra vou dando passos, pequenos passos que procuram sentidos, caminhos outros para a Paz.


Cubal – Ana Marques


quinta-feira, 22 de março de 2018

Desnutrição

Reparem bem na expressão desta criança. Não, não é fome: é o terrível cortejo que a acompanha e que origina a disfunção de muitos órgãos – coração, pâncreas, fígado – a disfunção de sistemas como o cardiovascular, urinário, gastrointestinal, endócrino, imunitário, circulatório, glandular… “Trocado por alguns miúdos”, a circulação sanguínea está reduzida, o coração funciona mal (muitas crianças morrem de ataque cardíaco), os rins são ineficientes – daí as infecções urinárias, também os intestinos cujas mucosas estão atrofiadas, são facilmente nas suas funções; os músculos respiratórios são facilmente fatigados, falta energia à criança; as glândulas sudoríparas, lacrimais e salivares estão atrofiadas, o fígado não tem capacidade para metabolizar, eliminar toxinas… Isto até parece um artigo de medicina!!!

Só queria que entendessem que atrás destes “palavrões” vem o tal cortejo. Diarreia, anemia, desidratação, baixa temperatura corporal, edemas, otites (muito frequentes), úlceras/chagas na pele, desenvolvimento mental e comportamental retardado, etc, etc, etc…!

Olho para as crianças como esta e fico sem palavras. Sei que ali já não habita fome, senhoria de inquilinos como o frio, a confusão e a dor, tanta…!

Olhem de novo para esta criança: que outra expressão poderia ter este ar assustado? Como se ela nos perguntasse: Porquê?

As respostas estão nas reflexões de cada um. E também na nossa consciência. 

Do Chibuto com amizade para todos os Aparfianos. Estamos juntos!

Ana Maria



sábado, 17 de março de 2018

O meu querido José!

A fome, uma grande endemia! Vai de Outubro a Março, altura em se começam a fazer as primeiras colheitas de maçarocas de milho. Quando há grandes secas, muita gente não resiste.

Em Netepo construí um poço que abastece de água a população. A utilização de águas dos charcos para lavar, beber, etc, é a causa de muitas doenças.


Mas cuido também de crianças desnutridas, procurando fornecer-lhes algumas refeições e vitaminas. Tive a meu cuidado, quer dizer, criei o José, do nascimento até aos 14 meses, altura em que a família tomou conta dele. O José ficou órfão ao nascer. Rodeei-o de todos os cuidados e carinhos; baptizei-o. O meu querido José!


Marta Bernarda
(Voluntária APARF)



terça-feira, 13 de março de 2018

Niassa - Moçambique

A Marta Bernarda, voluntária da APARF, no Niassa – Moçambique há mais de três anos, encontra-se em Portugal, por um período de férias para cuidar da sua saúde.

“O Amigo dos Leprosos” conversou com a Marta que nos explicou um pouco do seu trabalho com os doentes de lepra e crianças desnutridas:

Diz a Marta:

Trato os doentes de Mepapa, Malinde, Iramba, Jó e Netepo. Em todas estas aldeias há enfermos de lepra. Encontro-me com eles uma vez por semana, deixo-lhes medicamentos e algumas orientações. Temos um colaborador, o Senhor Artur, ex-leproso que, apesar de bastante limitado, vai de bicicleta pelas casas para convocar os doentes para o tratamento. De 3 em 3 meses faço uma reunião aos doentes de lepra. Nestas reuniões, entregamos sal e sabão e outras coias básicas. Os doentes apresentam-nos os seus pedidos e expõem-nos as suas necessidades. Agora estão a pedir-nos roupas, cobertores, panelas, enxadas, catanas. É que estes doentes, apesar de bastante debilitados, têm de cultivar alguma coisa na terra, não têm outro meio de sobrevivência.

Em Mepapa já construímos 4 casa para os doentes de lepra e suas famílias. Aqui há mais ou menos 90 doentes na fase de reabilitação.


Há um caso lindo e comovente que me força a conta-lo: um doente com chagas nos pés, não podendo caminhar, isolava-se e fugia da família e de todos. Comprei-lhe uma bicicleta e ele agora anda feliz por toda a parte, não se esconde de ninguém e veio dizer-me: “eu saí do sepulcro, estava morto e agora estou vivo. Estou feliz.”

Marta Bernarda
(Voluntária da APARF)

sexta-feira, 9 de março de 2018

A história do Alfredo

O Alfredo é de Mahipa e já estive com ele várias vezes, mas foi a primeira que mais me impressionou. Encontrava-se de novo num estado completamente lastimável e o cheiro era insuportável. As suas feridas começaram de novo a abrir por falta de cuidados. Tomar banho não é com ele e nem mesmo vir ao posto fazer o penso. O penso deveria ser feito todos os dias mas ele só vem quando lhe apetece. As suas feridas parecem autênticas queimaduras, aliás quando fui revelar as fotos que lhe tirei, as pessoas perguntaram se seria queimadura, e ficaram bastante impressionadas quando a resposta foi – lepra. Não sei como é possível uma pessoa chegar a este ponto...

Sandra Figueiredo
(Voluntária APARF)



segunda-feira, 5 de março de 2018

Ainda Ocua...

No mês transacto comecei, com o enfermeiro, a distribuir medicamentos, calçado e sabão às comunidades que nos estão mais próximas. Por vezes aborrece-me ter de ficar à espera, mas não tenho outra alternativa se não aguardar que uma ou outra estrada esteja transitável ou que alguém decida acabar a construção de uma ou outra ponte iniciada, sabe-se lá quando!

Tirando esses pequenos contratempos, temos tido resultados bastante positivos.


Quando me refiro a resultados positivos estou a falar em relação à adesão das pessoas às concentrações. As concentrações iniciam-se com uma pequena palestra sobre a educação sanitária e de como é a evolução da doença. De seguida é feita a triagem dos doentes que são diagnosticados e, para além de alguns conselhos, é lhes dado o medicamento junto com uma barra de sabão para os casos mais mutilados. Entretanto comprei uma pequena mala de primeiros socorros, pois, em alguns, é necessário fazer pensos. Aqui o mais difícil de encontrar são: ligaduras, luvas e compressas.

Sandra Figueiredo
(Voluntária APARF)

sexta-feira, 2 de março de 2018

Missão de Ocua

Caros amigos da Aparf,

Quando efectuamos as visitas pelas comunidades vêm até nós várias pessoas, não só as que têm lepra, mas com todos os tipos de doenças, desde malária… claro que é para nós muito complicado e difícil dar assistência a todo um povo, mas não é uma situação que nos fica indiferente e vamos tentando fazer o melhor possível levando alguns medicamentos, sabão, e algumas palavras de esperança.

Temos tentado chegar ao maior número de comunidades possível, mas por vezes repletos de buracos que parecem autênticas crateras. Por isso muitas vezes, sempre que existe um centro de saúde perto, nos aconselhamos a irem lá.

Em algumas zonas, que são consideradas como sede, existem pequenos centros de saúde, assim os chamam! Têm tudo menos aspecto disso, a falta de medicamentos, de condições e de higiene fazem destes centros mais um posto de contágio de doenças do que de tratamento de doentes.

Ao visitarmos um destes centros e uma maternidade deparámos que se encontrava encerrado. Era sábado, mas curiosamente com as portas e janelas abertas.

Entrámos. Não se encontrava ninguém lá dentro. Deparámos imediatamente com um cheiro insuportável. Ao olharmos à nossa volta vimos a falta de higiene que tinha aquele local; o chão, as paredes e os materiais completamente sujos sem o mínimo de cuidado, parecia abandonado, e no entanto funciona “normalmente” durante a semana…

Partilho com vocês duas questões que me surgiram ao visitar este local: primeiro, como é possível tratar doentes num centro que se encontra assim? E em segundo, será que aqui não nascem crianças ao sábado? ...

Esta é a realidade de um povo que nasce, cresce e morre esquecido, sem o mínimo de assistência.

Sandra Figueiredo
(Voluntária APARF)