quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Um dia com a Vanda

A Eugénia Ferreira exerceu a sua profissão de Enfermeira como chefe do Bloco Operatório do Hospital Pediátrico de Coimbra. Actualmente, em Moçambique, a trabalhar como Voluntária no Hospital de Marrere quis conhecer o trabalho dos Voluntários da APARF ao serviço dos doentes de lepra naquele país e vem-nos contar “um dia com a Vanda”.

Sempre tive muita vontade de conhecer o trabalho desenvolvido pelos voluntários da APARF aqui em Moçambique. Apesar de falar muitas vezes com ambos (Ricardo e Vanda) acerca das suas actividades, era forçoso reservar um dia para acompanhar no terreno de modo a ter contacto com a realidade do trabalho desenvolvido nesta área da  lepra. Por questões logísticas e de proximidade passei um dia com a Vanda. Pela manhã saímos em direcção a Rapale, passando pela Faina para apanhar o Sr. Cássimo, enfermeiro Supervisor do Distrito de Nampula / Rapale para o Programa Nacional de Controlo de Tuberculose e Lepra. Este colega moçambicano trabalha há 10 anos nesta área, conhece muito bem todo o distrito, tem todos os doentes sinalizados, e claro, é o responsável pelo controle destes doentes. A Vanda trabalha em estreita colaboração com ele e desenvolve um trabalho notável como eu já suspeitava. É uma apaixonada pelo bem estar dos doentes, estabelece com eles uma relação muito afável, preocupa-se genuinamente com eles, estabelece compromissos com os mesmos de modo a favorecer a adesão ao tratamento que é muito longo, incute-lhes esperança e conhece-os como se fossem parte da sua família moçambicana.

No meio da vila de Rapale encontramos o Carlitos, um dos seus doentes que tinha sido já “capturado” pelo activista local. Enquanto a Vanda e Senhor Cássimo procediam às formalidades burocráticas do início da semana, tratei as feridas das pernas e pés do Carlitos. Estavam impregnadas de pó, restos de violeta de genciana e crostas muito secas. Arregacei as mangas que não tinha, calcei umas luvas e fiz–lhe uma boa limpeza, remoção das crostas, aplicação de pomadas e fechei com ligaduras de modo a ficarem livres de sujidade e moscas. Foi a única coisa de útil que fiz pelos doentes de lepra, mas senti-me muito gratificada por poder ser útil.

Terminados os trabalhos que ali nos levaram e não havendo outra alternativa de caminho, regressámos a Nampula para então nos dirigirmos para a Caramaja. Desviamo-nos da picada principal e dirigimo-nos a Ratane -B onde éramos esperados por um grupo de pessoas com suspeita de doença que tinham sido sinalizadas pelo activista local o Sr. Agostinho Quatro Horas. O calor já apertava quando estacionámos a viatura junto do local habitual da reunião, ou seja à sombra de um cajueiro.

Confirmaram-se 3 doentes, dois dos quais eram as autoridades locais, o Sr. Elias cabo de zona e o Sr. Rachide comandante da polícia comunitária. Dois antigos doentes também compareceram e as mutilações que a doença deixou eram bem evidentes. A Vanda ofereceu – lhes sandálias e sabão ficando muito agradecidos com estes presentes. Curiosamente, os suspeitos que depois de observados pelo experiente Sr. Cássimo os declarou livres de doença, ficaram muito tristes. Esta manifestação de tristeza deve-se ao facto de não puderem ser contemplados mensalmente com a visita dos técnicos e não poderem receber pequenas ajudas que se traduzem em sal, sabão, roupa, pão, sandálias ou cobertores. É muito estranho, mas neste contexto de pobreza extrema, ser alvo de ajuda e de atenções naquelas comunidades longínquas só acontece quando se tem esta doença o que explica aquela manifestação de tristeza. No posto de saúde da Caramaja o Sr. Cardoso, antigo doente e agora colaborador dos técnicos com o estatuto de voluntário, pede frequentemente ao Enfermeiro deste posto algumas carteiras de medicamentos contra a lepra, como remédio para outro tipo de queixas que já não têm como causa a doença de que padeceu e da qual felizmente está curado e sem mutilações. Como já tenho observado noutros contextos os doentes atribuem aos comprimidos um poder mágico. Raramente expressam bem as suas queixas, mas vêm pedir comprimidos como quem pede um copo de água para matar a sede.

Neste posto de Saúde onde chegámos já por volta das 13 horas, foram vistos vários doentes. Destes o Amisse teve alta e ganhou umas sandálias novas. A Cacilda, uma menina de 12 anos, e outros mantêm ainda o tratamento por mais alguns meses.

Os doentes que faltaram à consulta serão contactados pelo voluntário local que lhes fará chegar os medicamentos necessários para darem continuidade ao seu tratamento.

Um dos factores de sucesso para a cura desta doença, bem como das doenças de longa duração, prende-se com a adesão dos doentes ao tratamento que é longo (seis a doze meses). É nesta vertente que a Vanda aposta fortemente. A sua formação científica como enfermeira e as suas características pessoais permitem-lhe usar estratégias para criar uma relação com os doentes que extravasa o âmbito profissional. É interessante perceber que faz o seu trabalho com muita entrega, esforça-se por se fazer compreender utilizando muitos termos em língua makua, e que procura dentro do possível ajustar as suas ajudas às particularidades de cada um deles, o que é bem revelador da sua dedicação. 

No meu papel de enfermeira aposentada e igualmente voluntária, mas no Hospital do Marrere no Hospital de Dia de doentes com HIV – SIDA confirmei que de facto é um trabalho muito duro, pois é necessário ir ao encontro dos doentes, a maior parte das vezes em locais muito pouco acessíveis, por maus caminhos, aguentar fome e sede pois não há locais onde petiscar ou tomar uma bebida fresca, e possuir um grande gosto pelo trabalho em favor deste grupo de pessoas com lepra, em regra muito desfavorecidos e excluídos. 

É justo, por isso render a minha admiração por estes jovens voluntários que deixaram família e amigos, o conforto do lar, o acesso aos bens de consumo, as facilidades que a “civilização” proporciona para se dedicarem a este povo vencido pela doença e pobreza.

Irei tentar perder o medo de andar de mota para acompanhar o Ricardo no seu trabalho de voluntário no distrito de Murrupula e certamente darei igualmente testemunho das suas actividades com os doentes de lepra naquela zona.

Eugénia Ferreira

sábado, 3 de novembro de 2018

Um Dia Depois da Noite - parte II

[... continuação...]

A sala de partos, alumiada por uma única vela, está cheia de penumbra e múltiplas sombras enormes nas paredes, mas consigo distinguir claramente a face da jovem grávida que trouxemos de Murralelo, que afinal era uma das professoras da escola da aldeia. Todos os partos anteriores tinham sido em casa mas, apesar de ser ainda jovem, este já é o décimo filho e fiquei a saber que no ano passado teve um nado-morto após um trabalho de parto particularmente complicado e por isso tinha decidido dar à luz este “menino de ouro” no hospital da missão, deixando os outros filhos ao cuidado das tias e dos irmãos mais velhos. Deitada, completamente despida sobre a marquesa surpreende-me o seu corpo completamente tatuado do peito para baixo, até aos joelhos, com padrões em relevo bem delineados e quase perfeitamente simétricos, que só podem ter sido realizados com recurso a incisões cutâneas bastante profundas de forma a fazer este tipo de cicatriz. Tento não fazer uma expressão que denuncie o meu sentimento de horror por aquele corpo martirizado. Beleza, a quanto obrigas... Ao seu lado, a D. Catarina tem a mão sempre pousada sobre o ventre da jovem mãe, num quadro que faz evocar a maternidade de outros tempos.

A parturiente está a gemer, com a dilatação quase completa. Felizmente, tem tido sempre as mãos experientes da D. Catarina a massajá-la para a ajudar a relaxar. Este parto não está a correr bem. As contracções estão muito espaçadas e a D. Catarina está preocupada. A bolsa das águas já rompeu há muitas horas e a senhora está a ficar com febre. E o pior de tudo é que o útero se está a contrair pouco e a senhora corre o risco de ter uma grande hemorragia no pós-parto... Ausculto os batimentos cardíacos do feto, que estão anormalmente acelerados... Sei o que isso quer dizer: Infecção!

– Não podemos colocar um antibiótico à senhora?
– Sim, Doutora, mas tem de prescrever.
– Claro, prescrevo já. E não têm nada para aumentar as contracções?
– Talvez haja oxitocina no armazém... Se a Doutora tiver a chave.
– Tenho, vou ver se encontro alguma coisa que nos sirva...

Havia, felizmente, uma ou duas ampolas com o princípio activo escrito em alemão, certamente cedidas por alguma ONG que coopera com as Irmãs.

Em pouco tempo as contracções tornaram-se mais próximas e prolongadas.
– Já está quase, faça força outra vez. Quer fazer o parto, Doutora?
– Não, nem pensar! Nunca fiz nenhum...
– Não acredito, Doutora está a mentir!
– Não, é verdade. Ou melhor, fiz um, mas com muita ajuda...
– Eu ajudo também. Doutora vai fazer o parto.

Não havia como argumentar, a D. Catarina tinha decidido que quem faria o parto seria eu. Arregacei as mangas e calcei as luvas mesmo a tempo de receber o bebé. Foi muito fácil este parto, realmente, foi quase só amparar o períneo e impedir que o bebé caísse estatelado no chão... Graças a Deus! A natureza providenciou tudo o resto. E à pálida luz da vela houve um momento incrível de expectativa e silêncio absoluto, em que entreguei o menino à D. Catarina, que o esperava calmamente ao meu lado, com uma capulana nas mãos. O bebé teve choro imediato, num grito que encheu a noite e os gemidos e receios da mãe transformaram-se em riso e agradecimento.

– Nasceu! Nasceu e é macho! Papá, nasceu e é macho!

O grito de júbilo da D. Catarina enquanto eu cortava o cordão umbilical e o alarido das familiares da parturiente que se seguiu só pode ter acordado o hospital inteiro! Também eu estou quase de lágrima a assomar ao cantinho do olho... Ainda nem acredito que, sem contar com nada disto, recebi um bebé pelas minhas próprias mãos. 

– Parabéns, mamã! É um rapaz lindo! Como é que se vai chamar?
– Ainda não. Há-de chamar depois.
– Pois, Doutora – responde a D. Catarina – os bebés não podem ter nome antes de nascer. Até podem morrer! Só depois de nascer se pode fazer cerimónia e dar nome, antes não.

(Estou sempre a pôr o pé na poça, credo...)

Sim, mas faz sentido, eu já sabia que na cultura macua o conceito de futuro é tabu. O futuro é propriedade dos antepassados e fazer planos pode ser uma intrusão num terreno interdito, um terreno que não pertence às pessoas e a falta pode ser gravemente punida... Bem, mas já que não percebo a cultura, tenho de me preocupar com as coisas que sei fazer. O bebé está óptimo e coloco-o ao peito da mãe. Inspecciono a placenta, que veio intacta, o útero também está bem contraído, graças a Deus e à ONG alemã – e não há sinais de hemorragia grave.

Agora tenho de me ir deitar urgentemente, antes que me demova de vez a perspectiva de voltar a atravessar o caminho para casa, escrutinando todos os acidentes de terreno com uma lanterna. Antes que o momento de magia que acabei de viver me invada totalmente e me faça fazer qualquer coisa completamente louca, como ficar a dormir aqui mesmo, ao relento nesta noite fantástica, invadida pelo cheiro intenso da savana e adormecer a olhar a paisagem das estrelas e das montanhas a arder aqui e ali, no chão da varanda do hospital, juntamente com os familiares dos doentes. Quando chego à casa da Missão cruzo-me com as Irmãs que já se levantaram para rezar as Laudes na capela.

– Era rapaz não era? – perguntam.
– Sim, nasceu um rapaz agora mesmo, como é que sabem?

– Pelo alarido que até aqui se ouviu... só podia mesmo ser um rapaz!
Patrícia Lopes (Médica)
Voluntária da APARF

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Um Dia Depois da Noite - parte I

É manhã novamente em Iapala. Arrefeceu muito durante a noite e, na cama morna, minutos antes da hora de levantar, o já meu conhecido linguajar pluvial dos coqueiros recria uma ilusão outonal, calma e reconfortante, de chuva branda num Sábado de manhã. Recompensa justa por uma noite sobressaltada. Uma chamada urgente do hospital a meio da noite por causa de um menino que chegou em crise convulsiva com malária cerebral, trazido pela família já em desespero. 

Apesar de o hospital ser mesmo em frente à casa das Irmãs, o medo que os africanos têm dos cães que guardam a Missão, que presumo motivado pela raiva que por aqui pulula, teria decididamente impedido que me fossem chamar durante a noite. Contudo, a Irmã Lurdes, Superiora da Missão, criou um sistema simplesmente hilariante para contornar o pânico que os africanos têm dos cães sem pôr em causa a nossa segurança: dois apitos de árbitro de futebol, adquiridos em Portugal, pendiam no Hospital pregados à parede, um na Maternidade e outro na Urgência Geral, prontos para qualquer eventualidade. E esta noite tinha sido acordada pelo silvo impaciente do apito expulsando--me da cama com cartão vermelho. Vesti-me rapidamente, um pouco às apalpadelas e saí para a rua de lanterna em punho, que apesar do luar é preciso ver bem onde se pisa, não fosse aparecer alguma cobra perdida no jardim... 

Já no hospital, em dois minutos, a história clínica ficou colhida e iniciou-se a terapêutica da malária cerebral. Diagnósticos definitivos só no fim, que nestes casos não há tempo para perder à espera de análises laboratoriais. Nem o laboratorista se encontrava no hospital àquela hora... Só então arranjámos um colchão para instalar o menino. Apesar de estarmos na estação seca, em que a taxa de hospitalização é mínima, as camas estão todas ocupadas e tivemos de o acomodar no corredor... Na estação das chuvas as condições são ainda mais precárias: o número de doentes hospitalizados é tal que têm de dormir no pwarrow, um abrigo amplo, com telhado mas sem parede completa até ao tecto, situado fora do edifício principal do hospital. Agora não há mais nada a fazer a não ser esperar que a medicação actue e rezar para que o menino reaja favoravelmente. Demorei-me um pouco a escrever no processo e só quando saí do gabinete me apercebi de que um homem ainda jovem chorava baixinho, ajoelhado à cabeceira do menino, que dormia sob o efeito da terapêutica. 

– O senhor é o pai?
– Não, sou tio.
(Não há maneira de interiorizar esta cultura, caramba!) 
Talvez compreenda Português, pensei.
– O menino não está em coma, está só a dormir por causa do medicamento que nós lhe demos para parar as convulsões.

Não deu sinais de me ter compreendido. Fui chamar o enfermeiro, que traduziu a minha explicação para Macua. O tio afinal tinha-me compreendido, mas não acreditava que o menino pudesse sobreviver, porque todas as pessoas que tinha visto com malária cerebral tinham sucumbido. Expliquei-lhe que ainda era muito cedo para saber o desenlace, mas que era muito possível que o menino resistisse. Parou de chorar. 
– Obrigado.

Nem  por um momento deixou de fitar o sobrinho...
Do outro lado do hospital ouvem-se gemidos de mulher e alguém que me chama pelo nome, mas não os consigo localizar, virão da maternidade? Atravesso o pátio tentando não acordar os familiares dos doentes internados, que dormem no chão do alpendre. Os gemidos vêm, de facto da sala de partos. À porta está o futuro pai da criança, acompanhado de outros familiares, andando de um lado para o outro, numa pilha de nervos. Nem me atrevi a perguntar-lhe se não quereria entrar para assistir ao parto. Algo me diz que nesta cultura o parto é um acontecimento interdito aos homens... Oiço a voz da parteira incitando mansamente a parturiente a fazer força. 

– Está tudo bem, D. Catarina?
– Entre, Doutora. [...continua]
Patrícia Lopes (Médica)
Voluntária da APARF

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Myo vacanni vacanni

Sai ihali? (Novidades?)

Myo vacanni vacanni. (Vamos pouco a pouco)

Hoje é um dia especial para mim. A Angina Clemente, a primeira doente de lepra que diagnostiquei vai ter hoje alta.

Faz seis meses que diagnostiquei lepra à Angina, uma menina de 12 anos que conheci numa concentração na Escola de Murrupa.

As escolas são avisadas da nossa visita. Normalmente, com um mês de antecedência, é pedido aos professores que seleccionem todas as crianças com manchas.

Quando chegámos à escola, como habitual, já tínhamos os miúdos seleccionados. Era só descobri-los no meio da multidão.

Quando os agrupámos, destacava-se a Angina uma menina bonita aparentemente sem problemas, a julgar pelos outros miúdos esfarrapados que se mostravam mais preocupados. Tinham doenças que os incomodavam. A maioria tinha sarna já em estado crónico, cobrindo grande parte do corpo.

Fizemos duas filas para facilitar o nosso trabalho. Uma das filas ficou a cargo do Supervisor Raja; a outra, os miúdos foram observados por mim e a Angina ficou no meu grupo. Tinha uma mancha nas costas com perda de sensibilidade que não lhe causava dor, não a incomodava e ela não teria a iniciativa de ir ao hospital.

Foi o único doente a ser diagnosticado neste dia. Ela e todos os miúdos seleccionados receberam uma aula de cuidados de higiene e de lepra.

A Angina hoje vai para casa sem nunca ter faltado. Leva a última carteira do tratamento e a formação necessária para que, se os sintomas reaparecerem, ser ela a ter a iniciativa em se apresentar ao activista ou no hospital.

Ricardo Leonardo
Voluntário da APARF

sábado, 20 de outubro de 2018

Carlitos e Sónia

Existe o caso do Carlitos, um jovem de cerca de 20 anos a quem foi diagnosticada lepra multibacilar e que se apresentou logo no início do tratamento com feridas, edemas (os vulgares inchaços) com perda de líquido em ambos os pés, com mau aspecto. Iniciámos o tratamento de lepra, ofereci-lhe uns chinelos e foi encaminhado para realização de pensos em ambos os pés. No mês seguinte, lá veio o Carlitos com os pés numa miséria e decidi ser eu a fazer-lhe os pensos. De imediato, após a concentração fiz-lhe o curativo em ambos os pés e a APARF ofereceu-lhe uns sapatos de cor vermelha, adaptados à sua situação. A realidade que vivo aqui não me permite ver os doentes nem todos os dias, nem todas as semanas, apenas uma vez por mês, já que são cerca de 30 a 35 concentrações que visito com o enfermeiro supervisor durante os 30 dias por mês. Para minimizar este facto, recorro ao bloco de receitas e prescrevo realização de pensos nas unidades sanitárias mais próximas e combino com o doente o esquema de penso e que pomada utilizar. Mais tarde, pude observar novamente os pés do Carlitos e que alegria quando vejo as feridas a cicatrizar vakhani-vakhani (pouco a pouco, em macua) e a cara de contentamento do jovem. Irá dentro em breve ficar curado das feridas e curado da lepra, pois até à actualidade não faltou mês nenhum para receber a sua carteira de medicamentos.

Mas não se pense que vejo assim tantos pés com feridas. Observo também algumas situações de risco em doentes que não usam sapatos e apresentam zonas insensíveis a nível dos pés. Então para diminuir esta situação, a APARF oferece sapatos. Tenho distribuído, dentro das possibilidades e, de acordo com a situação de cada doente, sapatos juntos dos leprosos com quem trabalho. Muitos ganham sapatos como “prémio” de recompensa por finalizarem o tratamento e dou especial atenção às crianças. Por isso, falo-vos da Sónia, uma menina de 9 anos que vive na zona de Nhopera e estuda na escolinha junto à Igreja da Paróquia da Namaíta, local onde a Irmã Rita Valente-Perfeito um dia viveu e trabalhou pela causa dos leprosos. A Sónia foi uma das primeiras pessoas a quem diagnostiquei lepra logo que cheguei. Apresentava apenas uma mancha na mão direita e iniciou esquema para lepra paucibacilar, dose de criança. Ela foi sempre um pouco reservada e tímida e não fala o português. Foi com muita alegria que no mês de Julho lhe ofereci um par de sapatos para ela proteger os seus pezinhos enquanto está a crescer, como recompensa dos 6 meses que tem tomado a sua carteira de medicamentos. Ela sempre veio receber a sua carteira todos os meses acompanhada pela sua mãe com a irmãzinha pendurada nas costas com a capulana. É bom sentir que os doentes se interessam pelo seu tratamento e querem ficar curados. 

A APARF tem ajudado muitos doentes com a oferta de sapatos a quem mais precisa. Só eu posso ver a sua alegria mas garanto-vos que os seus sorrisos são lindos, cheios de felicidade e agradecimento.


Vanda Barnabé (Enfermeira)
Voluntária da APARF

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

"Sai'ehali?"

Para combater o défice de conhecimentos que os doentes de lepra apresentam quando se lhes pergunta qualquer coisa sobre a sua doença, organizei durante o mês de Julho reuniões / palestras sobre a doença de lepra.

Como no distrito de Nampula / Rapale onde faço o meu trabalho voluntário no programa de combate à lepra, existem muitas concentrações, postos e centros de saúde, dividi-o em várias áreas e escolhi o melhor local dentro das possibilidades dos doentes para ali se deslocarem, e organizei estes eventos. 

Durante o mês de Julho realizei 5 reuniões / palestras às quais compareceram um total 75 doentes de lepra em tratamento, dos 85 que pertenciam a estas 5 zonas que defini. Julgo que foi muito positiva a adesão dos doentes a estas reuniões / palestras. Muitos deslocaram-se de sítios “bem escondidos” no meio das montanhas, picadas, cajueiros, … mas no dia que combinei previamente com cada grupo de doentes e voluntários lá apareciam com o convite que ofereci na mão.

Depois de um cumprimento em macua “sai’ehali?” (novidades), lá nos sentámos em esteiras, em troncos, em bancos, … conforme a disponibilidade do local, e iniciámos a nossa conversa informal sobre a doença de lepra. Com a ajuda dos voluntários do programa que traduziam para macua o que eu ia dizendo sobre a doença, estas reuniões / palestras decorreram sempre num ambiente agradável, com espaço para cada um questionar o que quisesse, desse a sua opinião e partilhasse a sua experiência a qualquer momento. 
Falámos sobre a doença de lepra, a sua transmissão, os primeiros sinais, as deformidades e mutilações que podem acontecer, os cuidados a ter com olhos, mãos e pés, o tratamento, as reacções de lepra, o facto do tratamento ser gratuito, o facto de ainda haver lepra no mundo, …entre outros e numerosos aspectos. Um destes relacionou-se com o facto da maioria dos doentes pensar que só as pessoas de raça negra é que sofriam de lepra. Quando expliquei que os akunya (de raça branca) também podiam ter esta doença, ficaram espantados com a “notícia”. É impressionante como chega tão pouca informação a certos locais desta Terra, pois aqui não há electricidade, logo, não há a possibilidade de ter acesso a informação que cada um de nós tem acesso cada vez que liga a televisão, o rádio, o MP3, o computador, a Internet, … enfim rimo-nos todos deste aspecto e seguimos em frente na nossa conversa. Também houve espaço para dar a conhecer a APARF e o seu trabalho aqui nestas terras africanas e não só. Alguns já tinham visto o logotipo do carro noutros carros e locais, mas sem dúvida, a maioria não conhecia o trabalho da Associação em Moçambique, mais propriamente neste distrito. 

É importante saberem, caros amigos, que no fim houve uma pequena ajuda oferecida e distribuída por vós. Sim, pois todos estiveram aqui enquanto falei da APARF. Então saibam que todos os doentes vos agradeceram muito quando abriram o seu saco verde que continha: 1 peça de roupa, 1 pedaço de sabão, 1 saquinho de sal, 1 pacote de bolachas e 1 pão. Houve sorrisos, risadas, abraços e beijos à mukunya Vanda, … sintam que foi a vós que estes sorrisos, risadas, abraços e beijos foram dados. 

Eu senti uma enorme gratificação com a realização destas reuniões / palestras. Nada é mais positivo e bonito que sentirmo-nos úteis junto dos outros e ver que, ainda que pouco façamos, podemos sempre fazer a diferença na vida dos que nos rodeiam.

Em simultâneo com as visitas às concentrações que faço com o enfermeiro supervisor distrital, tento minimizar algumas situações que vou observando. Situações de doenças variadas são as que mais me chamam a atenção, já que sou enfermeira.

Tenho observado outras doenças que por vezes se relacionam com o problema da lepra, como sendo as feridas que se podem desenvolver resultantes da falta de sensibilidade provocada por esta doença. Tenho observado pés e mãos em situações muito deplorantes e “feias”, com mau aspecto de cicatrização. É claro que não posso ficar indiferente e logo o kit de 1ºs socorros da APARF que trago no carro, entra em acção, assim como o bloco de receitas que já tenho na pasta que uso.[...]

Vanda Barnabé (Enfermeira)
Voluntária da APARF



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

NAMAÍTA - NAMPULA

A experiência que estou a viver todos os dias no distrito de Nampula, em Moçambique, permite-me observar os doentes de lepra todos os dias em que vou para o “mato” ao seu encontro e onde trabalho junto deles, tentando minimizar as suas dificuldades face a esta doença. No entanto, observo “outras lepras” também existentes como a fome, a falta de vestuário e calçado, a falta de conhecimentos sobre higiene e alimentação, … e muitas “outras lepras”.

Tento diminuir, na medida que me é possível, essas “lepras” distribuindo géneros como sal, sapatos, roupa, medicamentos, … mas também uma palavra amiga (se possível em macua - mas o próprio gesto muitas vezes suprime as palavras!), um sorriso, um abraço, um beijo, … (a maior parte das populações das aldeias fala macua e não compreende o português)

Não observo somente estas “outras lepras” no “mato” mas também na cidade de Nampula onde vivo. Existem muitos “meninos de rua” na cidade e estão localizados em sítios já por eles definidos. Eu chamo-lhe zonas, onde cada um tenta ganhar qualquer coisa. Já me habituei a encontrar em certos locais as mesmas caras que me fixam mais facilmente que eu os fixo a eles e alguns já sabem o meu nome. O Agostinho, o Bruno, o Gabriel, … são apenas alguns destes meninos e jovens com quem me cruzo muitas vezes e a quem, por conseguinte, não posso ficar indiferente. Pedem qualquer coisa pela sua “protecção” para com o carro, que como já falei é um bem essencial nesta terra. Então lá o ficam a guardar ou oferecem a sua ajuda para carregar os sacos que posso ter nas mãos, pedindo, em qualquer dos casos, algo em troca, no fim. Quase sempre pedem dinheiro, que dizem ser para ir comprar comida, mas eu já decidi que musurukhu (dinheiro) não dou. Então ofereço-lhes comida, que já tenho no carro ou que vou comprar no momento, como pão, bolachas, fruta, … algumas vezes, também faço uma “consulta médica” no meio da rua quando me aparecem com feridas, olhos infectados, constipados, … e dou medicação que tenho sempre no kit da APARF que está no carro. 

Sei que esta atitude pode contribuir para que a sua situação perdure e se arraste sem ter fim e acabar por se tornar um hábito (e os hábitos são fáceis de ganhar mas difíceis de perder!) que alguns condenam e criticam. No entanto não consigo ficar indiferente à sua situação e principalmente quando me pedem “Dá-me uma quinhenta!”, ou seja meio metical (cambiado em euros chega a 1 cêntimo!) e eu os vejo com uma cara de fome, doença, tristeza, … não consigo dizer que não. Volto a frisar que estes hábitos que se criam são difíceis de romper mas estes pequenos não me pedem chupas como os pequenos que vivem no meu bairro e a esses eu consigo “resistir mais facilmente” pois a sua situação é diferente … Cabe-me a mim tentar perceber a sua história. Quando isto se pergunta aos pequenos, eles tentam dissimular e arranjar desculpas para a sua situação: são órfãos, os pais vieram para a cidade e não têm emprego, têm muitos irmãos e o dinheiro é pouco em casa, os pais são bêbados ou abandonaram-nos, … as razões são muitas e para as quais não tenho resposta nem solução. No entanto, a sua situação mantém-se e vai-se arrastando todos os dias. Da minha parte ganham comida que talvez seja a primeira com que enchem a barriga nesse dia ou não, ganham uma palavra amiga, ganham um sorriso, … mas eu fico feliz comigo própria e isso é que conta para mim. Tentar ver o rosto de Cristo e de Raoul Follereau no rosto do Agostinho, do Bruno, do Gabriel, … no meio de toda esta situação não é fácil mas é possível.
[...]
Vanda Barnabé (Enfermeira)
Voluntária da APARF

sábado, 29 de setembro de 2018

Sai lhali? Salàma! De Murrupula

Sai lhali? Salàma! Estou a realizar um novo programa. Nas últimas semanas tenho visitado os doentes de lepra mais carenciados em suas casas; aqueles a quem a lepra deixou marcas bem visíveis. Para isso, tenho contado com ajuda do activista da respectiva zona. Juntos, visitamos esses doentes. Como aconteceu no dia 17 de Maio em que visitei o Hilário António. Tem 7 filhos e é muito bem disposto. Ficou contente com a minha visita. Foi uma oportunidade para estar mais perto dele e ouvir as suas histórias. Ofereci-lhe pneus para a sua cadeira de rodas, sabão e pomada para as úlceras.

Os doentes, como o Hilário, raramente aparecem nas concentrações, devido às suas limitações físicas. São doentes que já terminaram o tratamento mas que ficaram com sequelas graves. Nas concentrações é impossível um contacto tão próximo com estes doentes. Daí a importância de os visitarmos na própria casa.

Os novos casos que diagnosticámos não necessitam deste acompanhamento. Os novos doentes apenas apresentam manchas. Raramente aparecem doentes com deformidades; mas isso não quer dizer que podemos parar porque diariamente surgem novos casos. É um incentivo para continuarmos; é o resultado do bom trabalho dos voluntários que vim substituir. É gratificante saber que estes novos doentes não vão passar pelas dificuldades do Hilário.

A sarna é uma das doenças dermatológicas que predominam neste distrito em que trabalho, principalmente nas zonas mais isoladas como Nachaca que visitei no dia 16 de Maio. Aqui, a sarna é uma epidemia devida, principalmente, à falta de água e de cuidados de higiene. Eu já ia prevenido. Tinha sido alertado pelo Rajá porque ele visitava esta zona com o Paulo. Preparei uma pomada com a ajuda dos meninos da missão. 

Foram eles que me transmitiram os ingredientes e ainda me ajudaram na preparação porque ainda têm bem presente o tempo em que a preparavam com o Paulo.

No próximo mês agendamos uma visita à escola e pensamos assim obter melhores resultados. Começamos pelos mais novos para lhes incutir hábitos de higiene. Tenho constatado que basta dizer-lhes coisas muito simples como: não basta pôr o medicamento, é preciso lavar a roupa e secar bem ao sol porque o bicho da sarna também está na roupa, para que as coisas comecem logo a melhorar.


Ricardo Leonardo
(Voluntário da APARF)

sábado, 22 de setembro de 2018

Retalhos de Ocua II

Quando se parte para uma terra de missão deve-se partir com o coração aberto

É certo que os nossos irmãos leprosos estão na nossa prioridade mas, então e os outros doentes? As crianças? E todos os que sofrem das mais variadas formas? Não podemos fechar os olhos e colocar as mãos nos bolsos à espera que tudo passe ou que outros o façam por nós.

Quando nos tocam à porta devemos abrir e escutar as suas preocupações... abrir os nossos corações. Foi assim que aconteceu num desses dias. Um simples tocar à porta e... era um casal com uma menina ao colo. A criança vinha aconchegada à mãe envolta numa capulana, com os olhitos brancos cobertos de água, as mãozitas pequeninas e os bracitos tão frágeis que ao pegar-lhe pareciam partir-se. Um caso flagrante de desnutrição.

Os pais da criança vinham magríssimos e cansados. Os pobres não tinham como alimentar a criança, a mãe tinha graves problemas e não tinha leite para a sua filha. Depois de beber um pouco de água e poderem descansar por instantes da longa viagem que tinham feito para atingirem a missão, cerca de 60 Km a pé, carregados de trouxas sob um calor abrasador, foi levada o mais rapidamente para o Hospital mais próximo, embora este fosse apenas um Centro de Saúde.

Ficou internada a soro dias que pareciam intermináveis... até que, finalmente, depois de uma visita teve alta e deixaram-na vir connosco. Ao chegar à missão, deu-se-lhe algum leite. Foi explicado aos pais como o deveriam administrar em casa e foi-lhes dado tudo o que precisavam, desde as latas de leite ao biberão.
Foi um processo lento mas gratificante. Hoje, essa criança já deu os seus primeiros passos e, como ela, aconteceu também à Ricardina, à Beatriz... e a tantas outras crianças que hoje recebem ajuda e apoio da Associação numa terra onde tudo é preciso mas, que por vezes basta que lhe abram o coração.

Sandra Figueiredo

sábado, 15 de setembro de 2018

Irmã "Xupa"

Desde que comecei a acompanhar o PNCTL, no início de Fevereiro, já foram diagnosticados 24 novos casos de lepra neste distrito, fazendo um total de 27 casos novos no primeiro trimestre de 2007 (entre Janeiro e Março). Muitos são casos em que os doentes atrasam a sua ida às unidades sanitárias, desvalorizando as manchas suspeitas, preferindo ir primeiro ao curandeiro (aqui a medicina tradicional tem uma grande presença e força!)... Quando chegam às nossas mãos já têm, algumas vezes, zonas insensíveis e deformidades irreversíveis a nível das mãos e pés… e mesmo reacções lepróticas típicas com nódulos e sinais inflamatórios, aos quais se acrescenta à terapêutica anti-leprótica, um esquema de corticóides, cuja administração deve ter uma vigilância muito cuidadosa, devido aos efeitos secundários.

Gostaria ainda de acrescentar um aspecto que me foi possível vivenciar e observar nestas poucas semanas que ainda estou a trabalhar no PNCTL. Para que haja um bom trabalho da minha parte junto dos doentes, preciso que os doentes compareçam nas datas marcadas às concentrações. Para tal, necessito da ajuda do enfermeiro supervisor, enfermeiros e técnicos das unidades sanitárias e dos voluntários. Estes voluntários têm um papel-chave: são as pessoas, que sem receberem incentivo económico, sinalizam, mobilizam e incentivam os doentes para comparecerem nos dias de concentração de lepra. Todos os dias, dou conta que sem eles o meu trabalho não funciona. Não cabe só aos enfermeiros e técnicos de saúde incentivar e cativar os doentes para frequentarem as concentrações mas também aos voluntários que os conhecem e vivem na mesma comunidade que os doentes.

Assim considero ser importante uma boa relação com este grupo. Tento motivá-los a ajudar os doentes de lepra, incentivando-os com palavras mas também com alguma ajuda material como seja sabão, calendários, camisolas,… mas julgo que não é o suficiente e à semelhança de outros voluntários da APARF, estou a programar uma reunião com a oferta de um almoço de convívio para pedir a sua colaboração e incentivo junto dos doentes de lepra.

O nome pelo qual somos chamados ao longo da nossa vida diz muito acerca de cada pessoa. Cada nome tem a sua raiz, origem, significado, valor,… indica a nossa  posição social / familiar / religiosa / política / laboral… distingue-nos de entre os demais na sociedade. Nestas terras descobri outros nomes, nomes pelos quais me apelidam ao longo do dia e conforme a ocasião, cada nome que me chamam tem o seu sentido e significado.

Começo por me chamar Vanda ao acordar e enquanto partilho o “matabicho” (o pequeno-almoço daqui) com as Irmãs da Apresentação de Maria onde vivo em Nampula, Moçambique.

À saída do portão, encontro os meus amigos e amigas pequeninos que começam a chegar para o início das actividades na escolinha que as Irmãs têm e que apoia cerca de 190 crianças entre os 3 e os 5 anos de idade. Mudo de nome e chamam-me logo Irmã, mesmo sem o ser…

Sigo para mais um dia de visita às concentrações de doentes de lepra e à chegada recebo o nome de Doutora. Lá vou dizendo que sou enfermeira e que me chamo Vanda. Os que já me conhecem de mais vezes tratam-me por Senhora Enfermeira ou Dona Vanda o que não deixa de ser engraçado. Para alguns já sou Mana Vanda, para os que se metem à conversa comigo, com quem partilho o dia a dia do quotidiano, com quem rio e partilho as “minhas preocupações” e com quem treino o meu macua!

Depois quando vou fazer algumas compras aos mercadinhos, tirar umas fotocópias ou simplesmente encher o depósito do carro sou outra vez Irmã, pois para o povo uma mulher branca sozinha, às compras, nas lojas ou ao volante de um carro, a trabalhar em Moçambique só pode ser religiosa pois senão o que é que anda aqui a fazer!?

Mas o que mais alegria e gozo me dá, acontece quando chego ao meu bairro em Nampula no fim do dia de trabalho e recebo o chamamento das crianças que vivem nas palhotas junto ao muro que rodeia a casa das Irmãs. Então passo a ser apelidada de Irmã “Xupa”. O carro é rodeado por várias crianças como sendo o Flávio, o Amisse, a Dairinha, a Lucinda, a Alice, a Paula, a Amélia de Sousa, o Ildon, o Aconteceu, … e outras que todos os dias aparecem quando chego e começo a buzinar para a sua alegria e contentamento. Já lhes disse que não sou Irmã mas para eles que ainda por cima são crianças, se vivo com as Irmãs também sou uma delas… e ponto final na conversa! Comecei a ser chamada assim já adivinharão porquê…pois um dia distribuí chupas e rebuçados e os pequenos desde aí que os pedem todos os dias… mas para que não se criem hábitos que não possam ser cumpridos no futuro, só distribuo de vez em quando e agora no dia da criança terão outra vez chupas e em dose reforçada! O mais engraçado é que quando chega um carro e que também tem o símbolo da APARF colado, quem lá vem dentro é também apelidado de Irmã Xupa, para confusão e risos dos demais!

Para estes pequenos, a vida é tão simples como brincar na terra, fazer brinquedos com restos de lixo, tomar banho numa bacia na rua onde quem passa pode ver, andar despido, sempre a sorrir e a cantar que me fazem pensar nas diferenças entre estes pequenos e as crianças de Portugal e dos outros países ditos desenvolvidos. Acho que a diferença não é nenhuma: todas adoram brincar em todos os sítios e com tudo, adoram tomar banho, adoram tirar a roupa, adoram sorrir e principalmente… adoram chupas!

Mpakha nihiku nikina (Até qualquer dia)
Enfermeira Vanda Barnabé
(Voluntária da APARF)