sábado, 29 de setembro de 2018

Sai lhali? Salàma! De Murrupula

Sai lhali? Salàma! Estou a realizar um novo programa. Nas últimas semanas tenho visitado os doentes de lepra mais carenciados em suas casas; aqueles a quem a lepra deixou marcas bem visíveis. Para isso, tenho contado com ajuda do activista da respectiva zona. Juntos, visitamos esses doentes. Como aconteceu no dia 17 de Maio em que visitei o Hilário António. Tem 7 filhos e é muito bem disposto. Ficou contente com a minha visita. Foi uma oportunidade para estar mais perto dele e ouvir as suas histórias. Ofereci-lhe pneus para a sua cadeira de rodas, sabão e pomada para as úlceras.

Os doentes, como o Hilário, raramente aparecem nas concentrações, devido às suas limitações físicas. São doentes que já terminaram o tratamento mas que ficaram com sequelas graves. Nas concentrações é impossível um contacto tão próximo com estes doentes. Daí a importância de os visitarmos na própria casa.

Os novos casos que diagnosticámos não necessitam deste acompanhamento. Os novos doentes apenas apresentam manchas. Raramente aparecem doentes com deformidades; mas isso não quer dizer que podemos parar porque diariamente surgem novos casos. É um incentivo para continuarmos; é o resultado do bom trabalho dos voluntários que vim substituir. É gratificante saber que estes novos doentes não vão passar pelas dificuldades do Hilário.

A sarna é uma das doenças dermatológicas que predominam neste distrito em que trabalho, principalmente nas zonas mais isoladas como Nachaca que visitei no dia 16 de Maio. Aqui, a sarna é uma epidemia devida, principalmente, à falta de água e de cuidados de higiene. Eu já ia prevenido. Tinha sido alertado pelo Rajá porque ele visitava esta zona com o Paulo. Preparei uma pomada com a ajuda dos meninos da missão. 

Foram eles que me transmitiram os ingredientes e ainda me ajudaram na preparação porque ainda têm bem presente o tempo em que a preparavam com o Paulo.

No próximo mês agendamos uma visita à escola e pensamos assim obter melhores resultados. Começamos pelos mais novos para lhes incutir hábitos de higiene. Tenho constatado que basta dizer-lhes coisas muito simples como: não basta pôr o medicamento, é preciso lavar a roupa e secar bem ao sol porque o bicho da sarna também está na roupa, para que as coisas comecem logo a melhorar.


Ricardo Leonardo
(Voluntário da APARF)

sábado, 22 de setembro de 2018

Retalhos de Ocua II

Quando se parte para uma terra de missão deve-se partir com o coração aberto

É certo que os nossos irmãos leprosos estão na nossa prioridade mas, então e os outros doentes? As crianças? E todos os que sofrem das mais variadas formas? Não podemos fechar os olhos e colocar as mãos nos bolsos à espera que tudo passe ou que outros o façam por nós.

Quando nos tocam à porta devemos abrir e escutar as suas preocupações... abrir os nossos corações. Foi assim que aconteceu num desses dias. Um simples tocar à porta e... era um casal com uma menina ao colo. A criança vinha aconchegada à mãe envolta numa capulana, com os olhitos brancos cobertos de água, as mãozitas pequeninas e os bracitos tão frágeis que ao pegar-lhe pareciam partir-se. Um caso flagrante de desnutrição.

Os pais da criança vinham magríssimos e cansados. Os pobres não tinham como alimentar a criança, a mãe tinha graves problemas e não tinha leite para a sua filha. Depois de beber um pouco de água e poderem descansar por instantes da longa viagem que tinham feito para atingirem a missão, cerca de 60 Km a pé, carregados de trouxas sob um calor abrasador, foi levada o mais rapidamente para o Hospital mais próximo, embora este fosse apenas um Centro de Saúde.

Ficou internada a soro dias que pareciam intermináveis... até que, finalmente, depois de uma visita teve alta e deixaram-na vir connosco. Ao chegar à missão, deu-se-lhe algum leite. Foi explicado aos pais como o deveriam administrar em casa e foi-lhes dado tudo o que precisavam, desde as latas de leite ao biberão.
Foi um processo lento mas gratificante. Hoje, essa criança já deu os seus primeiros passos e, como ela, aconteceu também à Ricardina, à Beatriz... e a tantas outras crianças que hoje recebem ajuda e apoio da Associação numa terra onde tudo é preciso mas, que por vezes basta que lhe abram o coração.

Sandra Figueiredo

sábado, 15 de setembro de 2018

Irmã "Xupa"

Desde que comecei a acompanhar o PNCTL, no início de Fevereiro, já foram diagnosticados 24 novos casos de lepra neste distrito, fazendo um total de 27 casos novos no primeiro trimestre de 2007 (entre Janeiro e Março). Muitos são casos em que os doentes atrasam a sua ida às unidades sanitárias, desvalorizando as manchas suspeitas, preferindo ir primeiro ao curandeiro (aqui a medicina tradicional tem uma grande presença e força!)... Quando chegam às nossas mãos já têm, algumas vezes, zonas insensíveis e deformidades irreversíveis a nível das mãos e pés… e mesmo reacções lepróticas típicas com nódulos e sinais inflamatórios, aos quais se acrescenta à terapêutica anti-leprótica, um esquema de corticóides, cuja administração deve ter uma vigilância muito cuidadosa, devido aos efeitos secundários.

Gostaria ainda de acrescentar um aspecto que me foi possível vivenciar e observar nestas poucas semanas que ainda estou a trabalhar no PNCTL. Para que haja um bom trabalho da minha parte junto dos doentes, preciso que os doentes compareçam nas datas marcadas às concentrações. Para tal, necessito da ajuda do enfermeiro supervisor, enfermeiros e técnicos das unidades sanitárias e dos voluntários. Estes voluntários têm um papel-chave: são as pessoas, que sem receberem incentivo económico, sinalizam, mobilizam e incentivam os doentes para comparecerem nos dias de concentração de lepra. Todos os dias, dou conta que sem eles o meu trabalho não funciona. Não cabe só aos enfermeiros e técnicos de saúde incentivar e cativar os doentes para frequentarem as concentrações mas também aos voluntários que os conhecem e vivem na mesma comunidade que os doentes.

Assim considero ser importante uma boa relação com este grupo. Tento motivá-los a ajudar os doentes de lepra, incentivando-os com palavras mas também com alguma ajuda material como seja sabão, calendários, camisolas,… mas julgo que não é o suficiente e à semelhança de outros voluntários da APARF, estou a programar uma reunião com a oferta de um almoço de convívio para pedir a sua colaboração e incentivo junto dos doentes de lepra.

O nome pelo qual somos chamados ao longo da nossa vida diz muito acerca de cada pessoa. Cada nome tem a sua raiz, origem, significado, valor,… indica a nossa  posição social / familiar / religiosa / política / laboral… distingue-nos de entre os demais na sociedade. Nestas terras descobri outros nomes, nomes pelos quais me apelidam ao longo do dia e conforme a ocasião, cada nome que me chamam tem o seu sentido e significado.

Começo por me chamar Vanda ao acordar e enquanto partilho o “matabicho” (o pequeno-almoço daqui) com as Irmãs da Apresentação de Maria onde vivo em Nampula, Moçambique.

À saída do portão, encontro os meus amigos e amigas pequeninos que começam a chegar para o início das actividades na escolinha que as Irmãs têm e que apoia cerca de 190 crianças entre os 3 e os 5 anos de idade. Mudo de nome e chamam-me logo Irmã, mesmo sem o ser…

Sigo para mais um dia de visita às concentrações de doentes de lepra e à chegada recebo o nome de Doutora. Lá vou dizendo que sou enfermeira e que me chamo Vanda. Os que já me conhecem de mais vezes tratam-me por Senhora Enfermeira ou Dona Vanda o que não deixa de ser engraçado. Para alguns já sou Mana Vanda, para os que se metem à conversa comigo, com quem partilho o dia a dia do quotidiano, com quem rio e partilho as “minhas preocupações” e com quem treino o meu macua!

Depois quando vou fazer algumas compras aos mercadinhos, tirar umas fotocópias ou simplesmente encher o depósito do carro sou outra vez Irmã, pois para o povo uma mulher branca sozinha, às compras, nas lojas ou ao volante de um carro, a trabalhar em Moçambique só pode ser religiosa pois senão o que é que anda aqui a fazer!?

Mas o que mais alegria e gozo me dá, acontece quando chego ao meu bairro em Nampula no fim do dia de trabalho e recebo o chamamento das crianças que vivem nas palhotas junto ao muro que rodeia a casa das Irmãs. Então passo a ser apelidada de Irmã “Xupa”. O carro é rodeado por várias crianças como sendo o Flávio, o Amisse, a Dairinha, a Lucinda, a Alice, a Paula, a Amélia de Sousa, o Ildon, o Aconteceu, … e outras que todos os dias aparecem quando chego e começo a buzinar para a sua alegria e contentamento. Já lhes disse que não sou Irmã mas para eles que ainda por cima são crianças, se vivo com as Irmãs também sou uma delas… e ponto final na conversa! Comecei a ser chamada assim já adivinharão porquê…pois um dia distribuí chupas e rebuçados e os pequenos desde aí que os pedem todos os dias… mas para que não se criem hábitos que não possam ser cumpridos no futuro, só distribuo de vez em quando e agora no dia da criança terão outra vez chupas e em dose reforçada! O mais engraçado é que quando chega um carro e que também tem o símbolo da APARF colado, quem lá vem dentro é também apelidado de Irmã Xupa, para confusão e risos dos demais!

Para estes pequenos, a vida é tão simples como brincar na terra, fazer brinquedos com restos de lixo, tomar banho numa bacia na rua onde quem passa pode ver, andar despido, sempre a sorrir e a cantar que me fazem pensar nas diferenças entre estes pequenos e as crianças de Portugal e dos outros países ditos desenvolvidos. Acho que a diferença não é nenhuma: todas adoram brincar em todos os sítios e com tudo, adoram tomar banho, adoram tirar a roupa, adoram sorrir e principalmente… adoram chupas!

Mpakha nihiku nikina (Até qualquer dia)
Enfermeira Vanda Barnabé
(Voluntária da APARF)

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Missão da Namaíta

“Sai Ihali? Salàma!”. Expressão macua para “Que tal as novidades? Tudo bem!”.

Olá amigos, venho contar-vos como têm sido os meus dias por estas terras moçambicanas.

Aqui os dias começam muito cedo…geralmente acordo com o cantar do galo ou com a chamada para a oração matinal dos fiéis muçulmanos na mesquita do bairro onde moro em Nampula, no norte do país. Vivo com as Irmãs da Apresentação de Maria num bairro da periferia da cidade, onde abundam palhotas, mercadinhos, vendedores de carvão, barracas de comércio e algumas casas de congregações religiosas, que apoiam crianças, jovens, mamãs,… que ali vivem nas áreas da educação, saúde, alimentação e outras ajudas.

De manhã cedo, cerca das 6h30 a 7h, não saio de casa para mais um dia de visita às concentrações dos doentes de lepra, sem antes receber os bons dias dados pelas crianças que moram nas palhotas junto à casa das Irmãs. Têm uns olhos e sorrisos tão vivos que espalham alegria e impelem forças e ânimo para o começo de mais um dia.

Como estou a substituir a Anabela (a voluntária que esteve a trabalhar no Programa Nacional de Controle da Tuberculose e Lepra – PNCTL- no distrito de Nampula), trabalho em conjunto com o Sr. Cássimo (enfermeiro supervisor distrital do PNCTL) e juntos seguimos para a concentração que está calendarizada para esse dia. Nem sempre os acessos são fáceis… há locais onde a estrada é alcatroada e se chega facilmente; enquanto noutros a picada é má e é preciso ter muita atenção às crianças, adultos, troncos, buracos, riachos, valas, animais, capim, pedras, latas,… antes de chegar, por vezes, ao local onde os doentes aguardam a nossa visita.

Nesta terra, ter um meio de transporte, seja ele qual for, é essencial. A carrinha que conduzo foi financiada pela APARF e é um bem fundamental. Sem este meio de transporte que utilizo não era possível aceder a locais onde nada chega, onde as pessoas nada têm e onde, por vezes, as crianças nem sequer um carro ou uma mulher de cor branca alguma vez viram! Há mesmo situações em que as crianças estão nas picadas e ao ouvirem o carro, simplesmente desaparecem ou vejo-as a correr como loucas pelo capim dentro, com medo da carrinha e de quem a conduz! Outras vezes, as crianças adoram, querem subir, querem “boleia” ou pedem que apite quando passamos nas picadas junto às suas palhotas ou / e escolas… é sempre uma festa!!!

Tenho de agradecer à APARF, aos sócios e amigos, o facto de eu ter este veículo para utilizar a favor dos doentes, pois sem ele o trabalho que faço não seria possível…

Ao chegar ao local, posto ou centro de saúde, encontro os doentes que já estão à espera, e aguardam persistentes a nossa chegada, para o início das actividades, graças à mobilização do voluntário e do enfermeiro. Organizam-se as fichas dos doentes, separam-se os doentes em tratamento dos casos suspeitos e inicia-se o trabalho. Dá-se prioridade ao enfermeiro da unidade sanitária para realizar o seu trabalho de diagnóstico, reavaliação e distribuição de medicação gratuita aos doentes.

A minha função, em conjunto com o Sr. Cássimo, passa por supervisionar as actividades de cada enfermeiro das unidades para que o PNCTL seja cumprido para benefício dos doentes de Hanseníase. Também colaboro com este enfermeiro no diagnóstico, reavaliação e distribuição da medicação, enquanto os doentes são atendidos, prestando assim o meu apoio sempre que seja necessário.

Em simultâneo, distribuo sabão e outros géneros aos doentes como forma de os ajudar e motivar, já que vivem em locais por vezes muito isolados e onde as condições de alimentação, higiene, saúde e educação não são as melhores.


Enf. Vanda Barnabé (Voluntária da APARF)