terça-feira, 30 de outubro de 2018

Um Dia Depois da Noite - parte I

É manhã novamente em Iapala. Arrefeceu muito durante a noite e, na cama morna, minutos antes da hora de levantar, o já meu conhecido linguajar pluvial dos coqueiros recria uma ilusão outonal, calma e reconfortante, de chuva branda num Sábado de manhã. Recompensa justa por uma noite sobressaltada. Uma chamada urgente do hospital a meio da noite por causa de um menino que chegou em crise convulsiva com malária cerebral, trazido pela família já em desespero. 

Apesar de o hospital ser mesmo em frente à casa das Irmãs, o medo que os africanos têm dos cães que guardam a Missão, que presumo motivado pela raiva que por aqui pulula, teria decididamente impedido que me fossem chamar durante a noite. Contudo, a Irmã Lurdes, Superiora da Missão, criou um sistema simplesmente hilariante para contornar o pânico que os africanos têm dos cães sem pôr em causa a nossa segurança: dois apitos de árbitro de futebol, adquiridos em Portugal, pendiam no Hospital pregados à parede, um na Maternidade e outro na Urgência Geral, prontos para qualquer eventualidade. E esta noite tinha sido acordada pelo silvo impaciente do apito expulsando--me da cama com cartão vermelho. Vesti-me rapidamente, um pouco às apalpadelas e saí para a rua de lanterna em punho, que apesar do luar é preciso ver bem onde se pisa, não fosse aparecer alguma cobra perdida no jardim... 

Já no hospital, em dois minutos, a história clínica ficou colhida e iniciou-se a terapêutica da malária cerebral. Diagnósticos definitivos só no fim, que nestes casos não há tempo para perder à espera de análises laboratoriais. Nem o laboratorista se encontrava no hospital àquela hora... Só então arranjámos um colchão para instalar o menino. Apesar de estarmos na estação seca, em que a taxa de hospitalização é mínima, as camas estão todas ocupadas e tivemos de o acomodar no corredor... Na estação das chuvas as condições são ainda mais precárias: o número de doentes hospitalizados é tal que têm de dormir no pwarrow, um abrigo amplo, com telhado mas sem parede completa até ao tecto, situado fora do edifício principal do hospital. Agora não há mais nada a fazer a não ser esperar que a medicação actue e rezar para que o menino reaja favoravelmente. Demorei-me um pouco a escrever no processo e só quando saí do gabinete me apercebi de que um homem ainda jovem chorava baixinho, ajoelhado à cabeceira do menino, que dormia sob o efeito da terapêutica. 

– O senhor é o pai?
– Não, sou tio.
(Não há maneira de interiorizar esta cultura, caramba!) 
Talvez compreenda Português, pensei.
– O menino não está em coma, está só a dormir por causa do medicamento que nós lhe demos para parar as convulsões.

Não deu sinais de me ter compreendido. Fui chamar o enfermeiro, que traduziu a minha explicação para Macua. O tio afinal tinha-me compreendido, mas não acreditava que o menino pudesse sobreviver, porque todas as pessoas que tinha visto com malária cerebral tinham sucumbido. Expliquei-lhe que ainda era muito cedo para saber o desenlace, mas que era muito possível que o menino resistisse. Parou de chorar. 
– Obrigado.

Nem  por um momento deixou de fitar o sobrinho...
Do outro lado do hospital ouvem-se gemidos de mulher e alguém que me chama pelo nome, mas não os consigo localizar, virão da maternidade? Atravesso o pátio tentando não acordar os familiares dos doentes internados, que dormem no chão do alpendre. Os gemidos vêm, de facto da sala de partos. À porta está o futuro pai da criança, acompanhado de outros familiares, andando de um lado para o outro, numa pilha de nervos. Nem me atrevi a perguntar-lhe se não quereria entrar para assistir ao parto. Algo me diz que nesta cultura o parto é um acontecimento interdito aos homens... Oiço a voz da parteira incitando mansamente a parturiente a fazer força. 

– Está tudo bem, D. Catarina?
– Entre, Doutora. [...continua]
Patrícia Lopes (Médica)
Voluntária da APARF

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Myo vacanni vacanni

Sai ihali? (Novidades?)

Myo vacanni vacanni. (Vamos pouco a pouco)

Hoje é um dia especial para mim. A Angina Clemente, a primeira doente de lepra que diagnostiquei vai ter hoje alta.

Faz seis meses que diagnostiquei lepra à Angina, uma menina de 12 anos que conheci numa concentração na Escola de Murrupa.

As escolas são avisadas da nossa visita. Normalmente, com um mês de antecedência, é pedido aos professores que seleccionem todas as crianças com manchas.

Quando chegámos à escola, como habitual, já tínhamos os miúdos seleccionados. Era só descobri-los no meio da multidão.

Quando os agrupámos, destacava-se a Angina uma menina bonita aparentemente sem problemas, a julgar pelos outros miúdos esfarrapados que se mostravam mais preocupados. Tinham doenças que os incomodavam. A maioria tinha sarna já em estado crónico, cobrindo grande parte do corpo.

Fizemos duas filas para facilitar o nosso trabalho. Uma das filas ficou a cargo do Supervisor Raja; a outra, os miúdos foram observados por mim e a Angina ficou no meu grupo. Tinha uma mancha nas costas com perda de sensibilidade que não lhe causava dor, não a incomodava e ela não teria a iniciativa de ir ao hospital.

Foi o único doente a ser diagnosticado neste dia. Ela e todos os miúdos seleccionados receberam uma aula de cuidados de higiene e de lepra.

A Angina hoje vai para casa sem nunca ter faltado. Leva a última carteira do tratamento e a formação necessária para que, se os sintomas reaparecerem, ser ela a ter a iniciativa em se apresentar ao activista ou no hospital.

Ricardo Leonardo
Voluntário da APARF

sábado, 20 de outubro de 2018

Carlitos e Sónia

Existe o caso do Carlitos, um jovem de cerca de 20 anos a quem foi diagnosticada lepra multibacilar e que se apresentou logo no início do tratamento com feridas, edemas (os vulgares inchaços) com perda de líquido em ambos os pés, com mau aspecto. Iniciámos o tratamento de lepra, ofereci-lhe uns chinelos e foi encaminhado para realização de pensos em ambos os pés. No mês seguinte, lá veio o Carlitos com os pés numa miséria e decidi ser eu a fazer-lhe os pensos. De imediato, após a concentração fiz-lhe o curativo em ambos os pés e a APARF ofereceu-lhe uns sapatos de cor vermelha, adaptados à sua situação. A realidade que vivo aqui não me permite ver os doentes nem todos os dias, nem todas as semanas, apenas uma vez por mês, já que são cerca de 30 a 35 concentrações que visito com o enfermeiro supervisor durante os 30 dias por mês. Para minimizar este facto, recorro ao bloco de receitas e prescrevo realização de pensos nas unidades sanitárias mais próximas e combino com o doente o esquema de penso e que pomada utilizar. Mais tarde, pude observar novamente os pés do Carlitos e que alegria quando vejo as feridas a cicatrizar vakhani-vakhani (pouco a pouco, em macua) e a cara de contentamento do jovem. Irá dentro em breve ficar curado das feridas e curado da lepra, pois até à actualidade não faltou mês nenhum para receber a sua carteira de medicamentos.

Mas não se pense que vejo assim tantos pés com feridas. Observo também algumas situações de risco em doentes que não usam sapatos e apresentam zonas insensíveis a nível dos pés. Então para diminuir esta situação, a APARF oferece sapatos. Tenho distribuído, dentro das possibilidades e, de acordo com a situação de cada doente, sapatos juntos dos leprosos com quem trabalho. Muitos ganham sapatos como “prémio” de recompensa por finalizarem o tratamento e dou especial atenção às crianças. Por isso, falo-vos da Sónia, uma menina de 9 anos que vive na zona de Nhopera e estuda na escolinha junto à Igreja da Paróquia da Namaíta, local onde a Irmã Rita Valente-Perfeito um dia viveu e trabalhou pela causa dos leprosos. A Sónia foi uma das primeiras pessoas a quem diagnostiquei lepra logo que cheguei. Apresentava apenas uma mancha na mão direita e iniciou esquema para lepra paucibacilar, dose de criança. Ela foi sempre um pouco reservada e tímida e não fala o português. Foi com muita alegria que no mês de Julho lhe ofereci um par de sapatos para ela proteger os seus pezinhos enquanto está a crescer, como recompensa dos 6 meses que tem tomado a sua carteira de medicamentos. Ela sempre veio receber a sua carteira todos os meses acompanhada pela sua mãe com a irmãzinha pendurada nas costas com a capulana. É bom sentir que os doentes se interessam pelo seu tratamento e querem ficar curados. 

A APARF tem ajudado muitos doentes com a oferta de sapatos a quem mais precisa. Só eu posso ver a sua alegria mas garanto-vos que os seus sorrisos são lindos, cheios de felicidade e agradecimento.


Vanda Barnabé (Enfermeira)
Voluntária da APARF

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

"Sai'ehali?"

Para combater o défice de conhecimentos que os doentes de lepra apresentam quando se lhes pergunta qualquer coisa sobre a sua doença, organizei durante o mês de Julho reuniões / palestras sobre a doença de lepra.

Como no distrito de Nampula / Rapale onde faço o meu trabalho voluntário no programa de combate à lepra, existem muitas concentrações, postos e centros de saúde, dividi-o em várias áreas e escolhi o melhor local dentro das possibilidades dos doentes para ali se deslocarem, e organizei estes eventos. 

Durante o mês de Julho realizei 5 reuniões / palestras às quais compareceram um total 75 doentes de lepra em tratamento, dos 85 que pertenciam a estas 5 zonas que defini. Julgo que foi muito positiva a adesão dos doentes a estas reuniões / palestras. Muitos deslocaram-se de sítios “bem escondidos” no meio das montanhas, picadas, cajueiros, … mas no dia que combinei previamente com cada grupo de doentes e voluntários lá apareciam com o convite que ofereci na mão.

Depois de um cumprimento em macua “sai’ehali?” (novidades), lá nos sentámos em esteiras, em troncos, em bancos, … conforme a disponibilidade do local, e iniciámos a nossa conversa informal sobre a doença de lepra. Com a ajuda dos voluntários do programa que traduziam para macua o que eu ia dizendo sobre a doença, estas reuniões / palestras decorreram sempre num ambiente agradável, com espaço para cada um questionar o que quisesse, desse a sua opinião e partilhasse a sua experiência a qualquer momento. 
Falámos sobre a doença de lepra, a sua transmissão, os primeiros sinais, as deformidades e mutilações que podem acontecer, os cuidados a ter com olhos, mãos e pés, o tratamento, as reacções de lepra, o facto do tratamento ser gratuito, o facto de ainda haver lepra no mundo, …entre outros e numerosos aspectos. Um destes relacionou-se com o facto da maioria dos doentes pensar que só as pessoas de raça negra é que sofriam de lepra. Quando expliquei que os akunya (de raça branca) também podiam ter esta doença, ficaram espantados com a “notícia”. É impressionante como chega tão pouca informação a certos locais desta Terra, pois aqui não há electricidade, logo, não há a possibilidade de ter acesso a informação que cada um de nós tem acesso cada vez que liga a televisão, o rádio, o MP3, o computador, a Internet, … enfim rimo-nos todos deste aspecto e seguimos em frente na nossa conversa. Também houve espaço para dar a conhecer a APARF e o seu trabalho aqui nestas terras africanas e não só. Alguns já tinham visto o logotipo do carro noutros carros e locais, mas sem dúvida, a maioria não conhecia o trabalho da Associação em Moçambique, mais propriamente neste distrito. 

É importante saberem, caros amigos, que no fim houve uma pequena ajuda oferecida e distribuída por vós. Sim, pois todos estiveram aqui enquanto falei da APARF. Então saibam que todos os doentes vos agradeceram muito quando abriram o seu saco verde que continha: 1 peça de roupa, 1 pedaço de sabão, 1 saquinho de sal, 1 pacote de bolachas e 1 pão. Houve sorrisos, risadas, abraços e beijos à mukunya Vanda, … sintam que foi a vós que estes sorrisos, risadas, abraços e beijos foram dados. 

Eu senti uma enorme gratificação com a realização destas reuniões / palestras. Nada é mais positivo e bonito que sentirmo-nos úteis junto dos outros e ver que, ainda que pouco façamos, podemos sempre fazer a diferença na vida dos que nos rodeiam.

Em simultâneo com as visitas às concentrações que faço com o enfermeiro supervisor distrital, tento minimizar algumas situações que vou observando. Situações de doenças variadas são as que mais me chamam a atenção, já que sou enfermeira.

Tenho observado outras doenças que por vezes se relacionam com o problema da lepra, como sendo as feridas que se podem desenvolver resultantes da falta de sensibilidade provocada por esta doença. Tenho observado pés e mãos em situações muito deplorantes e “feias”, com mau aspecto de cicatrização. É claro que não posso ficar indiferente e logo o kit de 1ºs socorros da APARF que trago no carro, entra em acção, assim como o bloco de receitas que já tenho na pasta que uso.[...]

Vanda Barnabé (Enfermeira)
Voluntária da APARF



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

NAMAÍTA - NAMPULA

A experiência que estou a viver todos os dias no distrito de Nampula, em Moçambique, permite-me observar os doentes de lepra todos os dias em que vou para o “mato” ao seu encontro e onde trabalho junto deles, tentando minimizar as suas dificuldades face a esta doença. No entanto, observo “outras lepras” também existentes como a fome, a falta de vestuário e calçado, a falta de conhecimentos sobre higiene e alimentação, … e muitas “outras lepras”.

Tento diminuir, na medida que me é possível, essas “lepras” distribuindo géneros como sal, sapatos, roupa, medicamentos, … mas também uma palavra amiga (se possível em macua - mas o próprio gesto muitas vezes suprime as palavras!), um sorriso, um abraço, um beijo, … (a maior parte das populações das aldeias fala macua e não compreende o português)

Não observo somente estas “outras lepras” no “mato” mas também na cidade de Nampula onde vivo. Existem muitos “meninos de rua” na cidade e estão localizados em sítios já por eles definidos. Eu chamo-lhe zonas, onde cada um tenta ganhar qualquer coisa. Já me habituei a encontrar em certos locais as mesmas caras que me fixam mais facilmente que eu os fixo a eles e alguns já sabem o meu nome. O Agostinho, o Bruno, o Gabriel, … são apenas alguns destes meninos e jovens com quem me cruzo muitas vezes e a quem, por conseguinte, não posso ficar indiferente. Pedem qualquer coisa pela sua “protecção” para com o carro, que como já falei é um bem essencial nesta terra. Então lá o ficam a guardar ou oferecem a sua ajuda para carregar os sacos que posso ter nas mãos, pedindo, em qualquer dos casos, algo em troca, no fim. Quase sempre pedem dinheiro, que dizem ser para ir comprar comida, mas eu já decidi que musurukhu (dinheiro) não dou. Então ofereço-lhes comida, que já tenho no carro ou que vou comprar no momento, como pão, bolachas, fruta, … algumas vezes, também faço uma “consulta médica” no meio da rua quando me aparecem com feridas, olhos infectados, constipados, … e dou medicação que tenho sempre no kit da APARF que está no carro. 

Sei que esta atitude pode contribuir para que a sua situação perdure e se arraste sem ter fim e acabar por se tornar um hábito (e os hábitos são fáceis de ganhar mas difíceis de perder!) que alguns condenam e criticam. No entanto não consigo ficar indiferente à sua situação e principalmente quando me pedem “Dá-me uma quinhenta!”, ou seja meio metical (cambiado em euros chega a 1 cêntimo!) e eu os vejo com uma cara de fome, doença, tristeza, … não consigo dizer que não. Volto a frisar que estes hábitos que se criam são difíceis de romper mas estes pequenos não me pedem chupas como os pequenos que vivem no meu bairro e a esses eu consigo “resistir mais facilmente” pois a sua situação é diferente … Cabe-me a mim tentar perceber a sua história. Quando isto se pergunta aos pequenos, eles tentam dissimular e arranjar desculpas para a sua situação: são órfãos, os pais vieram para a cidade e não têm emprego, têm muitos irmãos e o dinheiro é pouco em casa, os pais são bêbados ou abandonaram-nos, … as razões são muitas e para as quais não tenho resposta nem solução. No entanto, a sua situação mantém-se e vai-se arrastando todos os dias. Da minha parte ganham comida que talvez seja a primeira com que enchem a barriga nesse dia ou não, ganham uma palavra amiga, ganham um sorriso, … mas eu fico feliz comigo própria e isso é que conta para mim. Tentar ver o rosto de Cristo e de Raoul Follereau no rosto do Agostinho, do Bruno, do Gabriel, … no meio de toda esta situação não é fácil mas é possível.
[...]
Vanda Barnabé (Enfermeira)
Voluntária da APARF