segunda-feira, 30 de julho de 2018

Voluntários da APARF em Moçambique Parte III

PROBLEMAS DE SAÚDE DA POPULAÇÃO 

Segundo a percepção dos enfermeiros do CS, as doenças mais prevalentes nesta área são a malária, as parasitoses intestinais, diarreias de várias etiologias, doenças de transmissão sexual, incluindo a infecção pelo VIH, a tuberculose nos adultos e, nas crianças, as pneumonias, anemias e desnutrição. Os principais motivos de transferência urgente de doentes para o HCN são a dificuldade respiratória, anemia grave e malária complicada.

Existe um problema sério de falta de formação dos funcionários do CS, quer a nível humano, quer a nível científico, bem como uma grande desmotivação, que se prende por um lado, pela falta de recursos e condições de trabalho e, por outro, pelos salários extremamente reduzidos, situação que se repete sistematicamente um pouco por todo o país. Esta situação levanta várias questões complexas: por um lado, existem localmente, de facto, muitas plantas e outros produtos orgânicos ou inorgânicos com propriedades medicinais e os médicos tradicionais têm também frequentemente conhecimentos sobre medidas gerais de tratamento de doenças e fazem o aconselhamento de hábitos de vida saudáveis. No entanto não têm uma aprendizagem formal, desconhecendo conceitos básicos sobre os mecanismos de doença, o seu exercício não é regulamentado, não há geralmente possibilidade de controlo da dose terapêutica administrada, o que condiciona muitos óbitos por envenenamento por substâncias tóxicas, as vias de administração são muitas vezes inadequadas (por exemplo, é extremamente habitual a administração de preparados tradicionais através da incisão da pele com objectos cortantes não esterilizados, com todos os riscos inerentes a estas práticas) e habitualmente cobram honorários muito superiores às taxas moderadoras cobradas pelas unidades sanitárias. Por outro lado, embora as duas formas de Medicina não sejam totalmente antagónicas ou mutuamente exclusivas, a falta de cooperação entre os médicos tradicionais e os profissionais de saúde leva a que os doentes não sejam referenciados ou, pelo menos, encorajados a recorrer a uma unidade sanitária quando a situação clínica assim o impõe. Uma outra questão a ser considerada na Medicina tradicional é o aspecto espiritual e cultural. O povo macua tem uma cultura muito rica em crenças, rituais, cerimónias e a doença é encarada como um fenómeno biológico, social e psicológico complexo. Embora isto seja considerado por muitos peritos em Medicina como difícil de entender e explicar, não é possível fazer qualquer progresso na compreensão da questão sem abordar os aspectos espirituais da Medicina tradicional, visto que toda a cultura macua e o seu sistema de crenças se baseia na convicção do poder dos espíritos ancestrais e em poderes sobrenaturais. Sob este prisma, a Medicina tradicional, englobando rituais e cerimónias, está mais adaptada à cultura local e permite mais facilmente aos doentes atribuir um sentido inteligível à doença do que a Medicina científica, gozando de maior confiança por parte da população, que acredita no poder do mukulukhana para invocar a intervenção dos antepassados.

VIH/SIDA

No que se refere à infecção pelo VIH/SIDA nas mulheres grávidas e crianças, este constitui um problema de particular relevância, uma vez que uma intervenção atempada pode prevenir a transmissão vertical (da mãe para o filho) da infecção, aumentando a esperança de vida da criança e melhorando definitivamente a sua qualidade de vida. Por outro lado, a gravidez constitui uma oportunidade privilegiada de intervenção a nível de aconselhamento, dado que é um período em que a mulher se encontra mais receptiva à aprendizagem de aspectos relacionados com a sua própria saúde e a do seu filho, sendo também maior a probabilidade de aceitar a realização do teste, sobretudo se lhe for oferecida a oportunidade de realizar uma terapêutica para reduzir a transmissão vertical. Nos países europeus e nos EUA, a prevenção da transmissão vertical (PTV) pressupõe a realização de terapêutica antiretroviral (PTV), bem como cesariana electiva:, terapêutica endovenosa durante o parto e aleitamento artificial exclusivo, caso em que se consegue uma redução da transmissão na ordem dos 100%. No entanto, em Moçambique estas medidas seriam absolutamente impraticáveis na generalidade das unidades sanitárias e pouco exequíveis nos maiores e mais bem equipados hospitais, sobretudo se considerarmos que a quantia per capita atribuída pelo Ministério da Saúde é de apenas poucos dólares por ano. Assim, qualquer intervenção a este nível, para poder ser assumida e apoiada pelo estado deverá ser relativamente eficaz, de baixo custo e necessitar de poucos recursos humanos e materiais. Existem muitos estudos recentes que demonstram que uma dose única de um fármaco anti-retroviral (nevirapina) administrada por via oral à mãe durante o parto, assim como uma dose do mesmo fármaco administrada à criança logo após o nascimento reduz em 50% a transmissão vertical, com um custo total de cerca de 0,50 € (calculado a partir do custo do medicamento genérico na Medimoc). Dada a elevada taxa de natalidade do país (mais de metade da população de Moçambique tem menos de 18 anos de idade), trata-se de uma intervenção extremamente urgente e que deve ter prioridade relativamente à TARV dos adultos, uma vez que permite reduzir o aumento da prevalência da infecção por VIR, bem como a mortalidade infantil. É também a intervenção com melhor relação custo-benefício, pode ser integrada nas consultas de SMI já praticadas nos CS, sem quaisquer meios adicionais, não requerendo outro espaço físico ou um aumento de pessoal do quadro. Necessita, no entanto, da existência de um espaço físico com privacidade para a realização do aconselhamento, de formação específica do pessoal em aconselhamento e noções básicas de PTV durante a gravidez, parto e amamentação, da existência de um laboratório na unidade sanitária e de reagentes para a realização do teste diagnóstico.

O CS da Namaíta tem um movimento de cerca de 300 a 600 consultas de Serviço Materno Infantil (SMI) por mês, entre consultas pré-natais e de puerpério, realizadas por uma enfermeira de SMI e quatro parteiras. O número de partos mensais é habitualmente entre 60 a 80.

Possui uma sala de partos com uma marquesa ginecológica e duas balanças para recém-nascidos (RN), embora não disponha de equipamento de reanimação de RN ou de equipamento para cuidados intermédios, como incubadora. Segundo informação da Directora do CS, o número de partos é extremamente reduzido em comparação com a taxa de natalidade da área de influência do CS. De facto, a impossibilidade de as grávidas no [mal da gestação se deslocarem até ao CS para a realização do parto, leva-as a dar à luz no domicílio, onde não recebem assistência adequada nem têm possibilidade de ser transferidas para um hospital de referência caso sUIjam complicações. Uma solução que comprovadamente já demonstrou a sua eficácia em outras unidades sanitárias do país seria a existência de uma Casa de Mães à Espera, onde pudessem aguardar com segurança o desencadeamento do parto. O período de espera é igualmente um momento privilegiado para as mães receberem informação qualificada sobre como cuidar do RN, cuidados a ter na amamentação e alimentação da criança para reduzir a probabilidade de transmissão do VIR e evitar o surgimento de outras doenças, anticoncepção no pós-parto, etc.

LEPRA

Uma das implicações das condições higieno-sanitárias da população descritas acima é que o bacilo da Lepra, uma vez que possui a capacidade de permanecer viável durante vários anos na terra, tende a perpetuar-se, mesmo na população que já recebeu tratamento, dando-se a inoculação por via transcutânea, já que o contacto prolongado das pessoas com a terra favorece a inoculação por esta via. No que se refere especificamente à prevalência da Lepra, segundo a informação publicada pelo Jornal Nacional Savana, de 3 de Fevereiro de 2006, o distrito de Nampula-Rapale é o terceiro mais afectado pela Lepra a nível nacional, com 13 doentes por cada 10.000 habitantes, juntamente com o distrito de Mogovolas. Em primeiro e em segundo lugar estão os distritos de Mogincual e Murrupula, com uma prevalência de 15 e 14,1 por 10.000 habitantes, respectivamente. Em Dezembro de 2005 encontravam-se 206 doentes de lepra em tratamento no distrito de Nampula-Rapale - 151 doentes com lepra multibacilar (MB) e 55 com lepra paucibacilar (PB), dos quais 121 doentes na área da Namaíta. Para além dos doentes em tratamento, existe ainda um número não quantificado, mas extremamente significativo de pessoas com deformidades, úlceras e outras sequelas físicas, psicológicas e sociais da lepra, uma vez que se trata, por um lado, de uma área com elevada prevalência de lepra e, por outro, pelo facto de na Namaíta ter existido uma leprosaria que foi desactivada durante a guerra civil que se seguiu à Independência, tendo a maioria dos doentes que tinham sido afastados da família permanecido nesta zona. Todos estes doentes poderiam beneficiar de um programa de reabilitação sócio-económica adequado à sua situação.

Relativamente ao tratamento, todas as unidades sanitárias da área da Namaíta recebem os fármacos preconizados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para a terapêutica, disponibilizados gratuitamente aos doentes, com poucas rupturas de stoc~ existindo, no entanto, dificuldades pontuais na disponibilidade de prednisolona (Prednipac®) para o tratamento das reacções da lepra. O responsável na área da Namaíta pelo Programa Nacional de Controlo da Tuberculose e Lepra (PNCTL) é um enfermeiro básico/assistente técnico de saúde e colaboram no programa catorze voluntários seleccionados pelo Supervisor Distrital do PNCTL e formados pelo próprio e pela Direcção Provincial de Saúde. Os voluntários exercem a sua intervenção na área da Lepra, fazendo palestras em escolas, igrejas, mercados, acompanhando os casos suspeitos de Lepra ao CS, sensibilizando a população, veiculando informação sobre a doença, o tratamento e as datas das concentrações de doentes. Têm também a responsabilidade de assegurar a adesão dos doentes à terapêutica, procurando-os no domicílio quando não se apresentam na data marcada para receber a terapêutica. Dispõem de viaturas próprias (bicicletas). São realizadas periodicamente concentrações de doentes, dinamizadas pelos voluntários em dezasseis pontos da área da Namaíta, incluindo os Postos de Saúde já referidos ou, na sua ausência, sob um telheiro de capim, que serve como ponto de referência e local de maior privacidade para a observação dos doentes.

De uma forma genérica, pode afirmar-se que os principais problemas ao nível do diagnóstico e tratamento dos casos activos são:

- Ausência de realização de actividades de sensibilização e despiste nas escolas (embora esteja previsto o seu início a curto prazo, com um sistema de incentivo para a escola e para os alunos mais dinâmicos, à semelhança dos incentivos dados pelos voluntários da APARF aos doentes em tratamento);
- Dificuldades na comunicação à distância com os voluntários para confirmação das datas das concentrações e suas eventuais alterações (uma forma encontrada por Paulo Bica, voluntário da APARF, presentemente a trabalhar na Missão de Murrupula, para resolver este problema foi o anúncio público na rádio das datas das concentrações à hora de um programa de grande audiência);
- Falta de preparação dos activistas e profissionais de saúde para reconhecer e tratar as complicações da doença, bem como para o ensino do auto-cuidado;
- Negligência no seguimento e reavaliação dos doentes;
- Deficiências no registo da história clínica, complicações e terapêutica;
- Falta de adesão regular à terapêutica por parte dos doentes;
- Desvio de medicamentos ou a sua venda;
- Não referenciação às unidades sanitárias em caso de dúvida diagnóstica ou no surgimento de complicações.

Relativamente aos casos já tratados mas que permanecem com sequelas físicas, psicológicas ou sociais, porém, há uma grande lacuna ao nível da reabilitação física e sócio-económica.

Neste sentido, a voluntária da APARF, Anabela Alves, enfermeira licenciada, iniciou recentemente em colaboração com voluntários, uma actividade de cuidados continuados domiciliários junto das pessoas afectadas pela Lepra, promovendo o ensino do auto-cuidado e a sua reabilitação física. No entanto, a reabilitação sócio-económica e psicológica é uma questão que permanece por abordar.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Voluntários da APARF em Moçambique Parte II

HABITAÇÃO E ABASTECIMENTO DE
ÁGUA E ENERGIA

O tipo de habitação é quase exclusivamente o tradicional, com paredes em matope, telhado em capim, pavimento de terra, com uma ou duas aberturas e uma a quatro divisões numa área coberta muito reduzida. O mobiliário é praticamente inexistente, dormindo as pessoas sobre uma esteira ou, por vezes, em cama manufacturada artesanalmente com capim e bambu.

Na cultura Macua, a habitação não é encarada como estrutura permanente, onde a família se fixa durante muitos anos, pois as condições ambientais conduzem à degradação rápida das casas ao longo de 3 a 5 anos, colocando os habitantes em risco caso não seja construída uma nova habitação. Outro factor que leva as famílias a mudar periodicamente de residência e que, não havendo o hábito de adubar ou estrumar a terra, os nutrientes do solo esgotam-se de uma forma relativamente rápida, pelo que as pessoas se deslocam para outros locais, a fim de encontrar solos mais férteis para cultivo.
Por vezes, nas imediações da habitação, existe uma latrina, com ou sem fossa cavada directamente na terra, mas muitas vezes as pessoas deslocam-se ao mato para urinar ou defecar, pelo que na estação das chuvas, a água escoa em superfície livre para os cursos de água muitas vezes transporta agentes infecciosos gastrointestinais, potenciando os surtos de disenteria e cólera.
Os ratos, os mosquitos, as moscas e os morcegos são um problema grave, atraídos pela comida mal acondicionada, pelo lixo e latrinas a céu aberto, não existindo, na maior parte das vezes, barreiras físicas à sua entrada nas habitações (porta, janela, redes mosquiteiras), sendo vectores de doenças como as gastroenterites, malária, filaríase, míase, e raiva.

A área da Namaíta não possui energia eléctrica, embora exista rede de telefone móvel de sinal inconstante e pouco fiável e emissora de rádio. São quase exclusivas as fontes de energia de muito baixo rendimento: a lenha e o carvão, este último produzido artesanalmente a partir de árvores cortadas, o que, apesar de ser uma fonte importante de rendimento para muitas famílias pelo seu valor comercial, constitui um potencial contribuinte para a desertificação por estas árvores não serem plantadas novamente. Está, no entanto, prevista, a breve trecho, a chegada de electricidade à Namaíta (energia com origem na Barragem de Cahora Bassa), ficando na mesma linha de electricidade que irá fornecer o distrito de Murrupula. O edifício principal do CS (onde está incluída a enfermaria e a Maternidade) dispõe de instalação eléctrica e de um gerador a gasolina, mas que se encontra avariado desde há mais de três meses. 

Segundo a informação do Administrador do distrito de Nampula-Rapale, a área da Namaíta possui dezasseis pontos de abastecimento de água (treze poços e três furos, cinco dos quais operacionais e onze avariados), não se dispondo de informação sobre a qualidade da água. Os rios principais que atravessam a área são os rios Meluli e Namaíta. Os poços artesanais e os cursos de água são os pontos de abastecimento primordiais por parte da população em geral, e a água é utilizada para beber, cozinhar, lavagem do corpo, lavagem da roupa e despejos. A falta de acesso à água, sobretudo durante a estação seca, está na origem das péssimas condições de salubridade em que vive a maior parte das famílias e a má utilização dos recursos hídricos é fonte de muitas doenças, como a bilharziose, gastroenterites, disenterias, cólera, malária, etc, sobretudo durante a estação das chuvas. 

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Voluntários da APARF em Moçambique Parte I

A Anabela é enfermeira e está desde Agosto de 2005 ao serviço dos doentes da Namaíta, província de Nampula, e a Patrícia é médica e fez equipa com a Anabela durante cinco semanas. Hoje vêm fazer-nos o enquadramento da sua zona de intervenção:

CARACTERIZAÇÃO DEMOGRÁFICA, GEOGRÁFICA E DE ALGUNS ASPECTOS DE SAÚDE

A Namaíta tem uma área de superfície de 672 Km2, com 39.431 habitantes (informação da Direcção Distrital) e está incluída no Distrito de Nampula-Rapale, sendo o tipo de população predominantemente dispersa.

É atravessada pela estrada nacional que faz a ligação da cidade de Nampula à vila de Murrupula, continuando em direc-ção ao Sul do país. O Centro de Saúde (CS) da Namaíta dista 35 Km do Hospital Central de Nampula (HCN), localizando-se a cerca de 100 m da estrada de acesso à cidade, pelo que o tempo de evacuação dos doentes em ambulância é de cerca de 20 minutos, quer na estação seca, quer na estação das chuvas. Algumas localidades, porém, não têm qualquer via de acesso e a maior parte dos caminhos de terra batida por onde é possível passar com uma viatura têm o piso em péssimo estado. Esta limitação cria um grande isolamento das comunidades, sendo praticamente impossível realizar trocas comerciais e ter acesso a outros serviços vitais. Existem, ao todo, quatro localidades na área da Namaíta: Mutolo, Nicolo-mua, Eone e Namaíta-Sede e três pequenos Postos de Saúde (Muleheia, Natoa, Mutolo), que são unidades sanitárias sem camas para internamento ou maternidade, com uma gama de medicamentos muito limitada e geralmente não adequada às necessidades dos doentes e apenas têm como pessoal um enfermeiro e um servente.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

A Anabela ministra cuidados de saúde

PROGRAMA NACIONAL
DE CONTROLO
DE TUBERCULOSE E LEPRA
Programa de controlo da Lepra no Distrito

Durante o mês de Dezembro, acompanhada pelo Supervisor Distrital - Sr. Cassimo, estive nas unidades sanitárias/concentraq6es de: Cararnaja, Natoa, Micua, Namaíta, Muleheia, Namucaua, Mutolo, Nassupa. Com o Enfermeiro Eusébio fui a Nhopera, Naiculo, Napacala e Mutothone, aonde não encontrámos doentes. Não conseguimos chegar a Nalama devido aos estragos causados pela chuva na picada.

No total, observei 17 pessoas com manchas suspeitas de Lepra, tendo confirmado oito, todas do tipo Multibacilar, das quais duas crianças, e reavaliei quinze doentes. Sempre com a preciosa ajuda do Sr. Cassirno, a quem agradeço a disponibilidade e colaboração.

Sinto, ainda, dificuldade na avaliação dos nervos mas menos que no início. Lamento não poder conversar (ouvir a pessoa, explicar e esclarecer dúvidas), com a maioria dos doentes, sem necessidade de um intérprete, pois não falam português. Estou a esforçar-me por aprender macua, pelo menos um pouco.

Com saudações cordiais.

Anabela Torres Alves
(Voluntaria da APARF)
Narnpula/Rapale

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Retalhos de Ocua I

Laura Baptista, uma jovem macua da comunidade de Napela que, apesar da sua tenra idade, aguardava ansiosamente o nascimento da sua primeira sorte (nome que se da ao nascimento do primeiro filho).

Apareceu num dos encontros que se realizaram naquela comunidade, sobre a doença. No final da palestra perguntei quem teria manchas entre os que me ouviam. Laura levantou o braço e aproximou-se. Bastou levantar um pouco a camisolita que trazia para ver que a mancha que tinha (lhe ocupava grande parte das costas. Foi feito o teste e deu positivo. Laura tinha Lepra. Contraiu Lepra muito nova através da convivência com os tios. Curiosamente e ao contrário de outros doentes a quem já tinha diagnosticado a doença, Laura encontrava-se serena e atenta a todas as indicações de corno se haveria de curar.

Todo o medicamento ficou nas mãos do socorrista daquela comunidade, como também a tarefa de manter os doentes, sem falha, de o tomar para que todos fossem curados, incluindo a Laura. Isto era feito para o caso de eu não conseguir acompanhar todo o tratamento. E assim sucedeu, após algumas visitas aquela comunidade em que a estrada, feita de vermelho matope, ficou completamente alagada e impossível de transitar.

Os meses foram passando a passos largos até que finalmente se pôde atravessar através do mato cerrado de alto capim e visitar aqueles doentes. Para Laura aguardava-se o grande dia, o dia em que deixaria de ser doente, o dia que lhe poderia dizer, estás curada!

Depois de horas de caminho tortuoso chegamos a comunidade, fomos recebidos de braços abertos e com um acolhimento deveras impressionante por um povo que transborda de alegria apesar do sofrimento e que sabe acolher como ninguém. O meu trabalho começou por fazer uma pequena chamada, mas a Laura não estava entre os presentes. Mesmo assim comecei a cuidar dos outros doentes. Quando terminei perguntei ao socorrista porque e que a Laura não estava presente. Sem o deixar responder continuei dizendo que tinha para ela sabão de que tanto precisava e que trazia comigo a notícia de que todo o doente anseia: “estás curada”. Escutou-me atento sem me interromper e olhando-me com os olhos de tristeza disse-me: “A Laura faleceu!" Fiquei sem reacção e a única coisa que me surgiu foi - como?!, ao que o socorrista respondeu que tudo tinha acontecido durante o parto. Não teve assistência a tempo e a criança, apesar de ter nascido aparentemente bem, a mãe sucumbiu. Fiquei chocada com o que acabara de ouvir e perguntei onde estava a criança. Junto com a tia para ser amamentada, respondeu. Peguei na sacola que trazia comigo e pus-me a caminho com o socorrista para a visitar. Queria ver com os meus próprios olhos! Ao chegar a urna palhota feita de capim seco e matope encontrei nos braços de urna jovem o menino com os olhos reluzentes e um sorriso inexplicável! Não resisti e peguei-lhe. Estava completamente nu, mas tal não me fez qualquer diferença pois a vontade de o ter nos meus braços era bem maior. Tentei informar-me o melhor possível do que acontecera. O pai da criança parecia estar ainda em estado de choque, a tristeza de a ter perdido estava escrito no seu olhar.

Tive que partir. O dia ia avançado e tinha de regressar. Deixei com o pai da criança o sabão que seria para a Laura. Regressei a casa com um sentimento de tristeza, confundido com alegria. Espero que ainda hoje essa criança seja tratada com todo o carinho corno qualquer criança do mundo necessita.

Sandra Figueiredo

terça-feira, 3 de julho de 2018

Um dia de trabalho na Namaíta

São 06h30m, já tomei o pequeno-almoço e preparei a água para levar. Está muito calor, é preciso prevenir a desidratação! Entro no carro e parto rumo a mais um dia de trabalho. À saída da cidade (Nampula), paro, entra um passageiro, o enfermeiro Supervisor Distrital do Programa Nacional Contra Tuberculose e Lepra (PNCTL) e prosseguimos viagem. Há sempre muitas pessoas à beira da estrada, umas a pé, outras de bicicleta. A bicicleta é o principal meio de transporte para a maior parte da população. Serve para transportar todo o tipo de carga: sacos de mandioca seca, sacos de carvão, molhos de capim ou mesmo de paus, galinhas, cabritos, porcos, entre outros… Estes “biciclistas” circulam tranquilamente, por vezes quase no meio da estrada, pelo que se torna necessário, fazer uso da buzina do carro para se desviarem.

Hoje vamos ao Posto de Saúde de Mutolo. Inicialmente havia dúvidas acerca da via de acesso, posteriormente tivemos informação que permite a passagem do carro. Passamos junto ao Centro de Saúde da Namaita e, alguns Quilómetros depois, deixamos a estrada de alcatrão e entramos à esquerda numa picada (“estrada” de terra batida). Impossível desviar a atenção do caminho, mãos e braços presos ao volante, pés numa “dança constante” entre travão, embraiagem, acelerador… Areia e… meter tracção para continuar o percurso. Em alguns locais a picada tem sulcos enormes, então fizeram desvios, onde permanecem troncos de arbustos cortados, por vezes pouco ou nada visíveis. São tantos, que é impossível não acertar em alguns! De cada vez que um pneu bate num tronco, com bastante sonoridade, penso: “È hoje que ficamos no meio do mato com um pneu rebentado…” Por entre buracos, areia, troncos e raros troços menos acidentados, finalmente chegamos! O enfermeiro do Posto está de férias, a substitui-lo, está o servente. O voluntário da luta contra a Lepra, que também está presente, informa-nos que os doentes em breve chegarão, andam nas macham-bas (campos de cultivo). Começo por observar duas pessoas que apresentam manchas suspeitas na pele. Em nenhum dos casos se confirma a doença. Os doentes vão chegando para receberem o tratamento mensal e levarem a “carteira” dos comprimidos para os próximos 28 dias. Em cada mês, no dia marcado, terão que vir ao posto de saúde até completarem os 12 meses de tratamento, uma vez que têm Lepra Multibacilar (muitos bacilos). Reavaliei três dos doentes relativamente às características dos nervos periféricos que podem ser atingidos pela doença, à sensibilidade e força nas mãos e nos pés, bem como das pálpebras. Este procedimento é muito importante e deve ser realizado de 3 em 3 meses durante o tratamento, para despistar reacções da doença, que podem surgir e prevenir deformidades. Se o doente tiver dor nos nervos, significa que apresenta neurite e é-lhe dado o medicamento Prednisolona de acordo com o esquema estabelecido. Ao terminar, aparece um jovem com algumas manchas na pele, que são características da lepra. Depois de fazer o teste de sensibilidade nas manchas e palpar os nervos periféricos confirmo o diagnóstico: lepra multibacilar. Como este jovem sabe português, explico-lhe o necessário acerca da doença e do tratamento. Infelizmente, na maioria dos casos, as pessoas só falam macua, a língua local, por isso tenho que deixar essa tarefa para o voluntário, o que me entristece um pouco. Aqui havia 5 doentes com lepra multibacilar, ficam 6. No mês passado teve alta um doente com lepra paucibacilar (poucos bacilos), ao fim de seis meses de tratamento. Feitas as despedidas retomamos o caminho de regresso, 13Km, algo atribulados, até à estrada. Chego a casa às 13h, depois de mais de 100Km. Esta concentração de doentes de lepra é apenas uma de cerca de 18, na área da Namaita.

Beijinhos.

Anabela Torres Alves
Voluntária da APARF
Namaita/Moçambique