quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Nova voluntária enviada pela APARF para Moçambique

Telma Sobral, de 25 anos, fisioterapeuta, deixou o conforto do seu lar e o carinho de proximidade de seus pais (única filha), e amigos para se dedicar gratuita e generosamente aos doentes do Centro de Reabilitação Psico Social das Mahotas – Maputo.

A Unidade de Saúde está sob a responsabilidade das Irmãs Hospitaleiras do Coração de Jesus (portuguesas) com quem a Telma irá colaborar durante um ano com o apoio da APARF. Estas religiosas desenvolvem um trabalho inigualável com deficientes profundos mentais e físicos, tanto em Portugal como em Moçambique.

Acabada de chegar às Mahotas, relata-nos as primeiras impressões:
“Boa tarde,
A viagem correu bem. Hoje já visitei o CRPS e já conheci as irmãs, os utentes e outros colaboradores do centro. É um local agradável, as pessoas são muito simpáticas e as crianças, uns doces. Vou dando notícias quanto possível.
Beijinhos,”

Telma Sobral


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Gilé - Moçambique

Caros Amigos,

Desejo que todos gozem de óptima saúde e bem estar. Eu estou bem, graças a Deus e o tempo refrescou um bocadinho.

Vou falar, um pouco, da minha actividade, aqui na Comunidade:

- O meu dia a dia é, praticamente, passado na Comunidade e ir à Igreja. Estou com as meninas nos estudos, ensino português, costura, a bordar e outras necessidades básicas. Dentro das minhas limitações, claro. Também ajudo as Irmãs no que é preciso.

No princípio, foi um pouco frustrante e até deprimente, pois, os meus objectivos eram outros e eu gostava de estar mais activa. No entanto reconheço que a situação na Comunidade era bastante complicada, devido ao reduzido nº de Irmãs “2”, sendo uma professora e ao muito trabalho a fazer. Agora, aceito com naturalidade, com espírito de missão e como seja outro tipo de lepra. De facto, há lepras que estão de tal modo enraizadas nos seus costumes, mentalidades, rituais, crendices, etc, que são mais difíceis de curar que a própria lepra.

Gosto muito das meninas! Quase todas me tratam por “mãe” e outras por “irmã”. É muito gratificante, embora não mereça, ouvir palavras como: Vemos em si a nossa própria Mãe! Obrigada por tudo o que nos ensina e faz por nós.

Fui várias vezes com os Padres e Irmã Lourdes, às Comunidades, no mato. No 1º momento parecem todas iguais mas há sempre algo de diferente e enriquecedor a descobrir em cada uma. Estive, com a Irmã Lourdes e o Técnico de Saúde, num encontro de doentes leprosos. Compareceram 6 a saber:

- Uma mulher tinha terminado o tratamento e estava curada;
- Mãe e filho apresentavam manchas minúsculas e não foi possível diagnosticar. Por isso, aconselhou-se a comparecerem após dois meses;
- Um homem com manchas, numa fase inicial. Foi medicado de acordo com o tipo de lepra.
- Um doente numa fase bastante adiantada. Com nódulos, lesões na pele, dores na palpação dos nervos, alguma insensibilidade nos toques, fraqueza muscular e outros. Foi medicado de acordo com a situação.
- Outro apresentava lesões oculares, não esclarecedoras. Veio ao Hospital, para fazer análises e outros exames a fim de esclarecer o tipo de lepra.

A todos foram feitos os devidos e exigidos ensinamentos.

Creio, que já deu para ver, o que aqui faço. De qualquer modo, tem sido uma experiência enriquecedora, inesquecível e inexplicável.

Quando regressar, parte de mim, vai cá ficar! Mas, levo muito mais do que deixo!...

Jamais esquecerei o sorriso atraente, o brilho esplendoroso dos olhos, a ânsia de querer cumprimentar, tocar, dizer adeus “tátá” destas crianças que nada têm e tanto dão.

Por tudo isto e muito mais, agradeço à APARF esta grande oportunidade que me deu, de eu poder viver, sentir e tocar a cultura deste povo. Muito obrigada.

Despeço-me com um abraço de gratidão e admiração.

Maria Albertina Teixeira
Voluntária no Gilé – Moçambique

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Um Chá de Beijo-de-Mulata

Há alguns anos atrás, ainda quase recém-licenciada em Medicina, quando estava em missão de voluntariado em Moçambique, vieram trazer-me um adolescente de 15 anos. Estávamos em Naheche, uma aldeia perdida no meio da savana, onde nos tínhamos deslocado para a campanha de vacinação. O jovem impressionava pelos olhos tristes de quem não dormia há muitos dias e pela face emagrecida, profundamente escavada pela ausência do apetite próprio de quem está a crescer. Vinha acompanhado por uma senhora idosa e afável, de olhos baços, que se movia com a desenvoltura dos que há muitos anos se habituaram à escuridão permanente da cegueira. Alguma coisa de muito grave se passava com ele, dizia-me aquela avó, num sorriso tão triste que quase parecia um pranto. Estendeu a mão para a minha e guiou-me para a face do neto, percorrendo comigo cada relevo, detendo-se, certeira, em cada uma das suas inquietações... 
- Esta criança não está bem - sussurrava-me -, está a ficar sem corpo e a pele já sobra em toda a parte... O problema está aqui. 

Os gânglios do pescoço e por cima da clavícula estavam muito aumentados, duros, aderentes às estruturas vizinhas... assustadoramente malignos! Era possivelmente um cancro do sistema linfático, um linfoma daqueles que se for tratado a tempo não tem mau prognóstico mas que, se não se tratar, o desfecho é fatal em pouco tempo... Um linfoma de Hodgkin, se quiserem muito saber-lhe o nome. Fiquei muito preocupada. A imagem do menino correu pelos meios que tínhamos à disposição e uma onda de solidariedade na cidade natal de um dos padres daquela missão conseguiu angariar o dinheiro suficiente para o enviar para Maputo, a milhares de quilómetros dali, para ser tratado. 

Duas semanas depois, ainda a tentar organizar a sua transferência para o Hospital Central de Maputo, observei-o novamente e notei que os gânglios se tinham praticamente reduzido a metade. Nos entretantos a família tinha obviamente ido procurar um médico tradicional, que lhe dera a beber chá de beijo-de-mulata. Evidentemente duvidei do curandeiro. Duvidei de mim própria. Não confiei na prova que os meus olhos podiam testemunhar. Acreditei só no prognóstico que vinha nos meus livros e, com o acordo da família, transferi o menino para o Maputo.

Anos depois, inteiramente por acaso, vim a descobrir que desta flor selvagem, que cresce quase como erva daninha por todo o país, se extrai a vincristina, um agente de quimioterapia activo contra o linfoma... 

A lição não veio a tempo de intervir em seu favor. De qualquer modo hoje voltaria a fazer tudo da mesma forma. O chá de beijo-de-mulata, isoladamente, nunca o poderia ter curado. São precisos vários agentes de quimioterapia, num cocktail injectado veias adentro para se conseguir modificar o curso terrível do linfoma de Hodgkin. Mas foi nesse momento que percebi o quanto há ainda a aprender com África.

Patrícia Lopes (Médica) 

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Nova Voluntária da APARF em Moçambique

É com alegria que informamos que a Associação, desde o mês de Julho, tem mais uma voluntária em África. A Albertina Teixeira, enfermeira aposentada, foi trabalhar na Missão do Gilé com as Irmãs de S. João Baptista. Em frente da casa que a APARF construiu para voluntários, vemo-la com o sorriso de quem se dedica abnegadamente aos que mais sofrem - os leprosos, as crianças e todos os pobres do Gilé.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Marrere - Moçambique

A Eugénia, enfermeira voluntária no Hospital de Marrere, Nampula, passa a maior parte do ano a tratar crianças desnutridas e outras, e vem cada ano estar algum tempo em Portugal com os pais e familiares. Organizou um Projecto que tem salvado muitas crianças.

Transcrevemos parte do Relatório do seu trabalho para conhecimento dos benfeitores. 

Olá amigos,

Já me encontro na aldeia a descansar e a acompanhar os meus pais. Logo que possível, deslocar-me-ei a Lisboa para os cumprimentar e falar um pouco do projecto que desenvolvo naquelas terras, com a vossa preciosa ajuda. Até lá envio o relatório acerca do trabalho desenvolvido.
Um grande abraço para todos.

Eugénia Ferreira

RELATÓRIO

A Unidade de Reabilitação Nutricional do Hospital Geral do Marrere pretende dar resposta às necessidades das CRIANÇAS EM RISCO, actuando na área preventiva e curativa e do ensino das mães para melhor cuidados aos seus filhos. Assim, na área preventiva faz vigilância das crianças expostas ao HIV, através da vigilância mensal deste grupo de crianças, dando cumprimento a todas as orientações do Plano de Prevenção de Transmissão Vertical do vírus HIV. Ainda nesta área de prevenção, apoia as mães com problemas que as impedem de alimentar adequadamente os seus filhos (mastites graves, malformações dos seios e mamilos, as crianças gémeas e mães com insuficiência de leite materno). Asseguramos ainda as necessidades nutricionais das crianças órfãs, oferecendo-lhes a oportunidade de crescerem sem privações de nutricionais. 

Na área curativa, dá resposta às crianças com desnutrição referenciadas do internamento de Pediatria, da Consulta geral ou ainda da Sala de Peso e Vacinação.

A Unidade está dotada com duas enfermeiras do Ministério da Saúde de Moçambique, duas enfermeiras voluntárias e ainda duas educadoras de pares que colaboram nalgumas actividades desenvolvidas nesta estrutura.

Damos agora conta do volume de trabalho desenvolvido desde 14 de Fevereiro até 31 de Julho de 2011, procedendo à análise do número de crianças admitidas, motivos que justificaram a sua admissão na Unidade, tipo de apoio recebido, número de crianças tratadas, número de crianças que ainda permanecem em tratamento e os recursos financeiros envolvidos.

Distribuição das crianças admitidas por mês:
                     
Janeiro ................................... 39
Fevereiro ............................... 46
Março .................................... 48
Abril ....................................... 33
Maio ...................................... 28
Junho ..................................... 17
Julho ...................................... 25
Total .................................... 236

A desnutrição afecta a maioria das crianças admitidas (43,1%), seguindo-se o grupo de crianças expostas ao HIV (16,0%) que suspenderam a alimentação materna a partir dos seis meses de idade.

A orfandade atinge um número muito grande de crianças (12,6%) sendo que a maior parte das mortes maternas acontece nos primeiros meses de vida e um número significativo destas mortes são devidas à SIDA. Muitas crianças são cuidadas por avós, com imensas dificuldades no manejo dos biberões, na sua preparação e administração. Representa um esforço enorme para estas mulheres, já cansadas da vida, que têm de fazer deslocações frequentes ao Hospital, manejar medicamentos quando as crianças adoecem e atender às necessidades das crianças durante 24 horas por dia. Há que salientar que alguns progenitores do sexo masculino, quando perdem as mães dos seus filhos assumem os cuidados ao filho órfão, situação que tem vindo a acontecer com mais frequência nos últimos anos.

Verifica-se ainda uma grande procura por parte de mães com problemas ligados à amamentação nos primeiros meses de vida o que é motivado por mastites muito graves e insuficiência de produção de leite materno (23,6%). Este grupo de crianças aumentou substancialmente este ano, pois, na cidade de Nampula, somos o único recurso para ajudar a resolver estes problemas.

Nestas situações procedemos a uma vigilância da evolução ponderal das crianças e introduzimos suplemento com leite adaptado, evitando que as crianças entrem em sofrimento com a fome.

RECURSOS FINANCEIROS 

Desde o mês de Fevereiro que o preço dos alimentos a fornecer às crianças particularmente os leites têm sofrido um forte aumento, o que elevou os custos envolvidos. A desvalorização do euro também veio agravar bastante a situação.

O custo de uma criança com leite adaptado (lactogen 1) aumentou de 25 para 27 euros.

O montante necessário para alimentar uma criança com mais de 6 até aos 9 meses aumentou de 18,5 euros para 22,95 euros. A alimentação de uma criança a partir dos 9 meses de idade aumentou de 13 para 14,5 euros por mês.

Estão ainda em tratamento 166 crianças assim distribuídas:

0  aos 6 meses ....................... 36
6  aos 9 meses ....................... 32
mais de 9 meses .................... 98

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Socorro

A semana de trabalho não começa da melhor maneira.

Uma das primeiras crianças que atendemos tinha seis meses de idade e necessitava de iniciar tratamento com antiretrovirais por ter adquirido a infecção por transmissão vertical. A mãe não cumpriu as recomendações profiláticas durante a gravidez, a criança nasceu em casa. Não recebeu por isso os cuidados recomendados para o período perinatal e para o primeiro mês de vida. Felizmente tem o seu estado geral conservado, situação que gera relutância por parte da mãe em aceitar a situação. Foi enviada para os serviços competentes, mas não regressou ao nosso serviço, como lhe tinha aconselhado para iniciar apoio nutricional.

As crianças com consulta marcada começaram a aparecer, exigindo atenção e cuidados desde a avaliação antropométrica, registo das queixas, triagem, consulta, laboratório, farmácia, preparação de biberões para os esfomeados, etc. Vou registando as chegadas através dos cartões individuais das crianças, (que agora se esgotaram no hospital) e dou-me conta de mais duas novas crianças, os gémeos, Genita e Genito Esmael.

Vinham referenciados da sala de peso e vacinação por muito baixo peso. Dou início à avaliação de rotina e constato que a situação é muito grave. São bebés de nove meses de idade, mas o peso de ambos não atinge os nove quilos. A colheita de dados leva-me a suspeitar das causas que em regra conduzem a estas situações limite. A mãe frequentava o Centro de Saúde do Anchilo, depois tinha mudado de residência e então era essa a razão porque hoje estava na nossa consulta. Resumindo fizemos o teste rápido de HIV à mãe, uma vez que não trazia consigo a ficha de vigilância pré natal, e claro mais um tiro na “mouchão” (teste positivo para o HIV). Já aprendi que quando as mães iniciam a peregrinação pelos vários locais de atendimento das crianças, que informam desconhecer o seu estado relativamente ao teste HIV (de realização obrigatória na vigilância de gravidez) é de suspeitar que nos escondem alguma coisa. A carregar ainda mais este quadro ela era viúva recente, mas dizia não conhecer a causa de morte do pai das crianças. Tão grave quanto a negligência das mães, é a negligência e indiferença dos profissionais de saúde que deixaram passar esta situação, sem se preocuparem com as razões desta grave situação.

Uma avó vem pedir “socorro“ para a sua neta de 1600 gramas, que nasceu prematuramente de 32 semanas de gestação. A filha está internada no Hospital do Marrere para tratamento de tuberculose e não pode amamentar. Esta é outra situação que temos debaixo de olho, porque a avó não conhecia o estado de saúde da filha e nem sabia se a filha tinha feito vigilância de gravidez. Temos de averiguar com mais detalhe e pedir a ficha de grávida, não vá o diabo tecê-las! Porque à tuberculose pode estar associada a sida.

O Júnior Dalila, último bebé observado na sexta-feira apareceu como lhe tinha marcado de novo hoje. É o primeiro filho de uma jovem de 15 anos. Veio acompanhada da mãe e explicou que na família dela nunca nenhuma mulher conseguiu produzir leite para criar os filhos. Estranho, penso eu! A criança tinha já dois dias de vida, estava em jejum desde o nascimento à espera que aparecesse pelo menos uma gota de colostro, mas nada aconteceu. Então deixaram-se ficar em casa, não compraram leite para alimentar a criança. Ficaram expectantes, à espera da confirmação da “maldição” familiar (feitiço!!!) que impede as mães de dar leite.

Para finalizar a manhã, mais uma vez referenciada da sala de peso, um bebé com muito baixo peso para a idade. Quando observo a criança, confirmo que tem uma relação peso altura inferior a 70%, mas o mais grave é que estava exangue, tal era o grau de palidez palmar, da língua e da mucosa palpebral. Como é que é possível, perguntei ao pai da criança, não se dar conta que a criança está quase branca? Pois parece incrível, mas de facto vieram ao hospital apenas  porque era a semana de pesar a criança. Inexplicável!

Queria ainda dizer-vos que a Zaina, uma criança que iniciou a recuperação nutricional, vem pelo menos três vezes por semana ao nosso Centro para tomar dois copos de leite (F100) uma fórmula de leite enriquecida com um alto teor de gordura. Esta criança tem três anos de idade e pesa 5 quilos. Não, não estou a exagerar. É isso mesmo que estão a ler. Este é um dos casos mais dramáticos que temos neste momento. Sim, vigiou o peso regularmente num Centro de Saúde aqui perto, e que por sinal, é de onde nos chegam os casos mais graves. 

Para completar esta brilhante manhã, a Elisa enviou um sms a informar que a sobrinha está no Hospital Central. As parteiras, no hospital de província, provocaram-lhe uma rotura uterina além da morte do bebé (informação da Elisa) e por isso vai ficar por lá a acompanhar a situação. Que Deus nos ajude, que isto é demais!

Garanto-vos que não fiz uma selecção das diversas e estranhas situações que aparecem. Estas aconteceram mesmo todas na mesma manhã. 

Um grande abraço para todos.

Eugénia Ferreira (Enfermeira Voluntária no Hospital de Marrere)


terça-feira, 22 de outubro de 2019

Estamos juntas!

Não sei bem por onde começar… foram tantas as emoções ao voltar à minha terra, Angola… onde eu nasci. Foi possível a realização de um sonho antigo!

Cheguei ao Huambo dia 11 de Fevereiro à noite vinda de Luanda, após uma viagem de autocarro de 10h sem estações de serviço. Por aqueles dias não havia voos domésticos. A viagem foi dura mas pude assim ter contacto com a realidade do povo angolano. Durante o percurso vendem-se todo o tipo de artigos. As pessoas, habituadas a sobreviver, são muito práticas e hospitaleiras.

As meninas do Centro de Acolhimento Omwenho Ukola (OU), que em umbundo, a língua local, significa ‘a vida é sagrada’ receberam-me com um lindo cântico de boas vindas. As vozes delas são extraordinárias e ainda hoje soam aos meus ouvidos: Bem-vinda, bem-vinda…

Neste dia, tive ainda o privilégio de saborear um belo jantar, o primeiro a ser preparado no fogão industrial financiado pela APARF. Este passou a dar muito jeito numa casa com perto de 50 pessoas. Por outro lado, a formação em cozinha das meninas melhorada. Antes, para além de cozinharem a lenha, tinham um pequeno fogão.

O Centro OU é uma instituição social católica vocacionado para acolher meninas órfãs e desamparadas (vítimas da guerra, sida), dos 3 aos 17 anos de idade, proporcionando-lhes uma formação integral e digna desde tenra idade, como futuras mulheres, mães e esposas. Para além da formação escolar e religiosa as meninas mais velhas têm acesso a cursos técnicos de informática, arte e decoração, culinária, pastelaria, bordados, costura e música. Alguns cursos, como informática e costura, que decorrem nas instalações da instituição, estão abertos ao público e funcionam também como uma forma de financiamento. As Irmãs trabalham fora para garantirem com o seu salário a manutenção da comunidade. Os pequenos negócios como a venda de gelo, gelados, bolos e arrendamento de algumas divisões da casa são também uma fonte de receita.

A direcção desta obra, onde fui voluntária por 1 mês, está a cargo da congregação das Irmãs Missionárias do Imaculado Coração de Maria – Filhas de África. Esta congregação é relativamente recente, tendo sido fundada em 1979 pela Madre Raquel Celeste (1943-98), natural de Huíla, Angola. As religiosas desta comunidade são 6, entre as quais se encontra uma médica e uma educadora de infância. A laboração do Centro OU conta ainda com algum pessoal de apoio, cerca de 8 trabalhadores, e ainda, explicadores para as meninas que apresentam dificuldades escolares. Como referiu a directora do Centro OU, a colaboração de um psicólogo é também necessária.

As crianças estão divididas por grupos de 6, de modo que, em cada um exista uma menina mais velha, a mãe que se responsabiliza pelas mais novas do grupo. O meu trabalho nesta comunidade passou essencialmente por acompanhar principalmente as mais pequenitas, em ‘explicações’ de português, como elas próprias diziam. Sendo farmacêutica de formação, fui também incumbida de arrumar a farmácia, e ainda, dei uma ajuda na organização da biblioteca.

Na bagagem trago outras recordações: os amigos que fiz; o carinho e a disponibilidade das Irmãs e das outras pessoas do Centro; os sorrisos e os abraços das crianças; lavar a roupa e loiça à mão com sabão; ir buscar água ao poço ou à manivela; o banho de alguidar; as falhas constantes de electricidade; as histórias contadas; os desenhos e as brincadeiras das meninas; a partilha e entreajuda delas; os choros e as pequenas birras; rezar o terço; preparar as refeições e trocar receitas; cozer o pão; o passeio nocturno; os curativos das suas feridas; a alegre e ruidosa fila que faziam para receberem as vitaminas; a pequenita que chorava sempre que me via por eu ser branca; o Lobito e o BI angolano; o coro e o acolhimento na paróquia da Sé… o amor nas pequenas coisas!

As meninas sendo carentes são muito carinhosas e curiosas. Tocavam-me na pele e cabelo por ser diferente. As trancinhas não se seguravam e escorregavam. Chamaram-me de mana Marta, a branquinha. As minhas meninas, como lhes chamo, são uns amores!

Embora com dificuldades, a instituição tem vindo a melhorar significativamente as suas instalações. Actualmente, encontra-se em projecto, como me confidenciou a directora, a Irmã Ana Maria Francisco, a área da lavandaria, alpendre e recuperação da capela.

A despedida, embora mais triste, foi igualmente festejada e cantada, desta vez pela solidão na ausência da mana Marta… 
Agora tenho muitas saudades. Um dia destes espero voltar! Para sempre, como se diz por lá a quem se quer muito: Estamos Juntas!

A mana Marta.
Marta Faustino



sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Adama, Histórias que Fazem a Vida Valer a Pena - Parte II

(Continuação...)

Entretanto, meses depois, a menina já estava melhor e queria voltar para junto dos pais. Mas era arriscado... E se tivesse um AVC? E se a neuropatia voltasse? E se descompensasse com uma malária ou outra doença tropical? E se... e se... Foi inamovível. Queria voltar para casa. Como era possível, comentavam as pessoas... Como era possível alguém que tinha agora luz eléctrica, água corrente, acesso a todo o conforto e informação, acesso à educação também... como era possível querer voltar para o mato, para uma palhota?! Mas também havia quem a compreendesse... [Não, meus amigos, eu não era a única a compreender as saudades dela! A vida é mais simples do que pensamos. E não é preciso ter vivido no mato para saber que o preço a pagar por não ter o mesmo conforto é muito pequeno...] E, com a ajuda de uma voluntária do nosso hospital, foi possível angariar dinheiro para lhe pagar a viagem de regresso. 

Na mala levava medicação para um ano inteiro, a referência do médico que a poderia acompanhar, com quem tínhamos contactado a partir de Lisboa, a promessa de que lhe enviaríamos mais medicamentos com a ajuda dos tios quando tivéssemos um portador, um telemóvel para falar connosco e muitas recordações do carinho dos enfermeiros, auxiliares e médicos que a tinham apadrinhado e acarinhado naquela estadia tão longa no hospital... Fomos ao aeroporto despedir-nos. Também nos ia deixar saudades...

Meses depois, estava eu em casa a dormir, a recuperar do banco do dia anterior, quando recebo um telefonema de que reconheci num relance o indicativo da Guiné-Bissau: só podia ser da Adama, que me telefonava de vez em quando para dar umas atabalhoadas notícias, no seu português cada vez mais difícil de compreender. Daquela vez, a voz menos jovial pedia-me que lhe telefonasse de volta porque não tinha saldo. Em vão tentei ligar. Um sotaque africano insistia que me tinha enganado no número, que aquele não estava atribuído. Estranho. Muito estranho. Telefonei aos tios em Portugal, mas não tinham notícias dela porque tinham acabado de chegar do estrangeiro. Que de qualquer modo era sempre muito difícil contactar com ela porque na localidade onde vivia não havia rede de telemóvel. Só quando se deslocava a Bissau é que telefonava. Asseguraram-me que mais hora menos hora haveria de conseguir contactar com ela. “A rede lá é muito instável. Ora vai, ora vem.” Que continuasse a tentar, não havia mais a fazer. Tentei em vão. Fiquei perturbada. O que se passaria? Telefonei aos tios no dia seguinte, mas continuavam sem notícias.

Nessa tarde fiquei a saber pela directora do internamento que a Adama tinha falado com a voluntária que a ajudara a voltar para a Guiné e que lhe tinha dito que estava a passar fome, cheia de dores de cabeça e em todo o corpo... Gelei. Que ela não queria voltar para Portugal, não era nada disso, mas que estava a passar muito mal. Pensámos o pior... Para além do horror da fome poderia ter tido uma trombose... Que poderíamos fazer por ela? Uma coisa é certa, não tinha sido para isto que a tínhamos mandado de volta para a Guiné...

Só fiquei a saber do desenrolar dos factos na segunda-feira seguinte. A voluntária mais um vez tinha sido o seu anjo da guarda. A história foi mais ou menos assim: No momento em que tinha falado com a Adama, a voluntária estava no seu local de trabalho, ao lado de uma amiga, que por sua vez tinha um amigo riquíssimo, dono de uma ilha na Guiné, onde ia amiúde passar férias... Falaram com ele e o senhor tinha ficado muito sensibilizado com a história e, por um extraordinário acaso, iria para a Guiné no dia seguinte.

Conseguiram localizar a Adama em Bissau através de um jornalista, cujo contacto nos tinha sido dado pelo tio já no aeroporto,  no momento da partida. Segundo o tio, tratava-se de um senhor de toda a confiança e que falava bem a língua local, portanto podia fazer de intérprete entre o magnata da ilha e a nossa protegida... 

Ao que parece, o jornalista teve de interromper alegremente uma reunião com o Ministro do Interior para mediar a conversa! Quem me dera ser uma mosca africana para lá ter estado... No dia seguinte a Adama telefonou novamente à voluntária. A voz completamente diferente agradecia, porque já não tinha dores e estava tudo bem. Não telefonava mais porque ia regressar para Galumaro, a sua aldeia. A mãe da Adama também falou, com a voz embargada, uma única palavra em Português: Obrigada! As restantes palavras eram incompreensíveis, mas também não era necessário traduzir.

Lembrei-me há dias desta história, mas continuo a achá-la inspiradora. Foi extraordinária a corrente de solidariedade que se criou em torno desta menina tão especial para a ajudar a cumprir o seu desejo de permanecer junto da família. E é curioso que tudo quanto lhe pudemos dar no tempo em que cá esteve, desde ter aprendido a falar Português, a conhecer as letras, até ao tratamento da doença, passando pelos amigos que fez, nada disto teria sentido para ela se não tivesse podido voltar. Mas como dizia sempre a minha tutora, “Se eu tivesse a minha palhota, era na minha palhota que eu haveria de querer estar!”

Depois disto nunca mais tivemos notícias dela... Não tenho muitas ilusões, sei que a vida é dura, que no mato há muitas doenças e que a saúde dela era frágil. Mas quero acreditar que ela está bem, que a vida continua a ser simples e que a sorte lhe sorri uma vez mais todos os dias...

De vez em quando tenho vontade de a ir procurar. Não seria impossível talvez... Temos o nome dela, a localidade, a história de vida, da família e da doença. E já percebi, por experiência própria, que em África só não se encontra quem não quer mesmo ser encontrado. Quem sabe se um dia alguém não completa esta história?

Patrícia Lopes
(Médica)



segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Adama, Histórias que Fazem a Vida Valer a Pena - Parte I

Há alguns anos atrás, no meu primeiro ano da especialidade de Pediatria, internámos uma menina de 16 anos, vinda da Guiné-Bissau ao abrigo do protocolo de cooperação com os países de expressão portuguesa. A doença que a fizera vir fora uma cegueira grave e progressiva. A junta médica em Bissau tinha assinado a autorização para a transferência um ano antes, mas como quem tem a responsabilidade de pagar a viagem para Portugal é a própria família do doente, a menina tinha de esperar esse tempo todo até a aldeia em peso se ter conseguido movimentar para a ajudar a comprar uma passagem para Portugal. Uma passagem só de vinda...

Já no hospital, os tios com quem tinha vindo viver explicaram-me como tudo se tinha passado. Que a menina cedo começara a deixar de ver, mas que os pais tinham negado a doença inicialmente. 

Pensavam que era uma “doença tradicional”. 

- Uma doença tradicional? Mas porquê uma doença tradicional? - interroguei-os.

Ao que parece os pais pertenciam a etnias diferentes e terem-se casado significara a quebra de um tabu profundamente enraizado. Tinham traído os antepassados, renegado as raízes.  E sempre souberam que o facto de não terem conseguido resistir ao apelo daquele amor impossível poderia ter consequências graves nos filhos... A nossa menina tinha sido a primeira filha daquele casal. 

Chamaram-lhe Adama,  que significa “mulher bonita” e “amante ardente”, em honra àquela paixão arrebatadora que, apesar do sofrimento pela culpa, os fazia tão felizes.

Só quando os olhos de Adama passaram de escuros a azulados e,  por fim,  a totalmente brancos e a menina deixara de conseguir encontrar o caminho para o fontanário para ir buscar água para a família é que os pais se renderam à evidência de que não podiam continuar a fingir que não reparavam no que toda a aldeia já sabia... Foi então que começaram a procurar ajuda...

Seguira-se um longo périplo, primeiro com o curandeiro mais famoso das redondezas, que se recusara a ajudá-los por não haver remédio para a zanga dos antepassados. Desconsolados, procuraram outro curandeiro, igualmente conceituado mas muito mais longe, desta feita um homem de mente mais aberta, também ele casado com uma mulher de outra etnia e que delicadamente não se referira ao tabu quebrado pelos pais. Atribuíra a causa dos olhos brancos ao excesso de leite de cabra, que a menina bebia desde criança, já que o pai era criador de gado... Mas nada parecia ajudá-la. Acabaram por levá-la para um hospital em Bissau, onde ficou internada durante meses, sem que também pudessem fazer o que quer que fosse por ela... Até que se decidiram enviá-la para Portugal…

Durante o internamento connosco, a Adama foi operada e ficou a ver razoavelmente, mas percebemos que a menina não tinha só uma cegueira grave. Tinha também uma doença que a tornava susceptível a AVC e tromboses venosas, tinha alguns nódulos por baixo da pele e uma falta de sensibilidade nas mãos e nos pés… Apesar da minha experiência com doentes de lepra em Moçambique custou-me um pouco a encaixar tudo isto numa mesma doença, mas lá me rendi à evidência de que a doença da nossa menina era uma variante rara de lepra e começámos o tratamento. Dias depois teve uma complicação do tratamento de tal forma grave que quase pensámos que nunca mais a conseguiríamos pôr novamente a andar sem dores... Tentámos de tudo. Desde fisioterapia até medicamentos experimentais que precisavam de vinte assinaturas de organismos diferentes para os conseguirmos ter no hospital mas, finalmente, conseguimos exorcizar cada demónio do corpo dela, desde a dor até à falta de apetite e incapacidade. O tempo também ajudou. A constante boa disposição da nossa princesa e da equipa de enfermagem e de fisioterapeutas também.

Enquanto esteve connosco cativou-nos a todos. Aprendeu a falar Português, aprendeu as letras, os números, aprendeu a ler. Conheceu as ruas, a televisão, o computador, a internet, aprendeu a manusear os monitores do hospital, as bombas infusoras, aprendeu os nomes dos medicamentos e a função de cada um. Foi de fim-de-semana para casa de várias amigas, companheiras de quarto que conhecera no internamento. Não faltou quem se oferecesse para a levar para casa. Só não a conseguimos convencer a voltar a beber leite... “Problema de olho!”, respondia invariavelmente com um ar quase ofendido. Questão absolutamente inargumentável! Também acho que nunca aprendeu a gostar da nossa comida...

(Continua...)

Patrícia Lopes (Médica)