sábado, 16 de junho de 2018

Nova Voluntária em Moçambique

Sócia efectiva da APARF, a Anabela Torres Alves vinha manifestando há alguns anos o seu desejo de ir para África tratar os doentes, ao serviço da Associação. Como é Enfermeira vinculada ao Ministério da Saúde, encontrava dificuldades para se ausentar do serviço por um ano. Mas eis que chega o momento tão desejado. Consegue obter licença sem vencimento por um ano e no dia 16 de Agosto partiu para Moçambique com destino à Província de Nampula. A coragem com que parte, deixando o emprego e pessoas queridas para se dedicar aos pobres e doentes de Moçambique, revelam a grandeza de uma alma que elege como critério o amor pelos mais pequenos da sociedade.

O seu local de trabalho será a zona da Namaíta onde outrora trabalhou com os doentes de lepra a Irmã Maria Rita Valente-Perfeito, sócia honorária da APARF.

A Associação congratula-se com mais esta Voluntária que parte em seu nome.

No meio de dificuldades, a Anabela encontrará também o sorriso e o carinho deste bom povo da Namaíta.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Um pouco mais, aqui e ali

Venho por este meio agradecer toda a vossa colaboração e disponibilidade no empenho de ajudar esta causa. Deste modo foi possível dar início à construção de um pequeno Posto de Saúde em Ocua, mais concretamente na aldeia de Mahipa, onde me encontro a desenvolver o trabalho de voluntariado desde Outubro de 2003.

Aqui, praticamente não existem meios de socorrer as pessoas com casos que muitas vezes são simples, mas que se vêm a complicar com o passar do tempo. O carro, oferecido pela APARF há algum tempo atrás, serve de ambulância. Pois o hospital mais próximo fica a cerca de 25km de distância. Deste modo, recorremos mais uma vez à Associação para a construção de um Posto de Saúde onde irá ter condições bem melhoradas com sala de vacinas, sala de pensos, sala de consultas e ainda uma sala para partos.

Todos nós ficámos muito felizes em saber que o projecto foi aprovado. Graças à imprescindível colaboração de todos está a ser construído e todos aqui na aldeia de Mahipa esperam ansiosamente pela abertura do que eles chamam de “Hospital de Mahipa, onde podemos ter os nossos bebés!”

Durante o mês de Julho demos início a um projecto de prevenção da mortalidade infantil, o tratamento de mamãs com problemas relacionados com a gravidez e amamentação. Todas as terças-feiras é feito um encontro com essas mamãs onde são dadas palestras, idas ao hospital para exames médicos, preparação de papas para as crianças desnutridas e outros aconselhamentos. Eu disponibilizei-me nesse dia para acompanhar as mamãs ao hospital de Alua que fica a cerca de 50km da aldeia para fazer vários exames, pois só em Alua existe equipamento necessário para efectuar exames específicos, como ecografias, e onde se encontra a Dra. Elisabetta (M.Comboniana) especializada para estes casos. Tem sido um trabalho bastante interessante e as mulheres da aldeia estão bastante entusiasmadas.

O trabalho relativo aos doentes de lepra vai andando. Cada vez mais vou recebendo boas notícias de cura aqui e ali. Claro que também vão aparecendo novos casos mas quando eu falo de curas são aqueles que iniciaram o tratamento com a minha chegada. A distribuição de sabão continua e às vezes há quem queira ter a doença só para receber uma barra de sabão! Devo confessar que por vezes acabo por ceder e oferecer quando vejo que realmente têm necessidade. Aqui, até uma simples barra de sabão é caríssima e nem todas as aldeias conseguem obter, nem mesmo para vender.

Sandra Figueiredo - Voluntária da APARF

domingo, 10 de junho de 2018

Conhecendo e aprendendo

Como já tinha referido algumas vezes, durante o mês de Abril frequentei o curso de inculturação no Anchilo. Para além de ter uma hora diária de língua macua, estes foram alguns dos temas apresentados durante o curso: História de Moçambique; Panorama Socio - Político - Económico de Moçambique; Mulher e tradição; Iniciação à cultura macua; Família tradição e modernidade etc...

Durante o decorrer do curso fui pesquisando e até mesmo comprando alguns livros que acho necessários para que um voluntário fique a saber minimamente que “território” pisa e que dificuldades poderá encontrar. Este povo é muito diferente do nosso e por vezes poderão existir conflitos por falta de entendimento da nossa parte dos ritos, crenças e tradições demasiado diferentes e complexas das nossas. Não gostaria, pois que os voluntários viessem sem ter uma noção mínima das coisas. Já que nem todos tiveram ou terão a oportunidade de tirar este curso que eu frequentei.

Deste modo espero conseguir documentação suficiente para que a Associação possa dar aos seus voluntários algumas bases e recursos de pesquisa para quem estiver interessado em saber mais sobre o povo e país para onde irá exercer o seu voluntariado.

Durante estes últimos meses tenho estado mais atenta ao levantamento dos doentes que tiveram alta. Refiro-me, claro, àqueles que iniciaram o tratamento com a minha chegada. Neste momento, dos quase 300 doentes que encontrei inicialmente, existem 122 doentes ainda em tratamento, estando a maioria a finalizá-lo entre este mês e o próximo. Mesmo sabendo que é um número bastante alto sinto-me satisfeita por poder acompanhá-los até ao fim e por saber que já foram reduzidos a menos de metade. Espero que até ao mês de Outubro todos ou a maioria destes 122, que iniciaram o tratamento comigo, fiquem totalmente curados. Se isso acontecer regressarei a Portugal bastante satisfeita.

Tenho assistido a uma grande evolução nestes últimos tempos, um grande interesse e uma grande preocupação por parte da população. Quando eu não me desloco às comunidades existem sempre aqueles que percorrem quilómetros preocupados em me mostrarem uma ou outra pequena mancha que encontraram no seu corpo. Acho que tem valido a pena, por muito pouco trabalho que tenha concretizado, alguma coisa ficou. E por isso tenho tido grandes alegrias em saber que a maioria já finalizou ou que está a finalizar o seu tratamento.

Junto com esta carta envio também a apresentação de contas com algumas fotos, que penso que não serão repetidas.

Mais uma vez espero que estejam todos bem na associação.
Até breve.
Sandra Figueiredo
Voluntária da APARF em Moçambique

quinta-feira, 7 de junho de 2018

A pequena Palmira

Recordam-se também da pequena Palmira?

Pois é, o tempo passou e a Palmira, não só cresceu como se curou!

Na visita à aldeia de Napela procurei saber como estava a pequena e então disseram-me que não se encontrava ali. Tinha-se mudado há pouco com os pais para outra aldeia. Tentei saber qual e pensei:” Assim que tiver oportunidade irei lá!”

Conformei-me com o que me disseram pois não podia deixar todos os outros naquele momento que já me aguardavam para ir a outra aldeia que fica a uns longos quilómetros de distância.

Depois de tudo resolvido fui-me sentar numa das varandas da casa e imediatamente fiquei rodeada de crianças. A brincadeira começou imediatamente. Todos queriam que eu tirasse fotos; para isso todos tentavam ao seu jeito chamar-me o mais possível à atenção. Entrei na brincadeira com eles e pouco a pouco fui perguntando quem andava na escola (respondeu um número bastante reduzido, a maioria rapazes), os seus nomes, etc...

Quando olhei para o meu lado estava uma menina, muito tímida, que me olhava.

Exclamei imediatamente: “Tu és a Palmira!”. Sem dizer uma única palavra parecia que o seu olhar me quisesse dizer: “Andavas à minha procura? Estou aqui!”.

Coloquei-a ao meu colo e imediatamente deu-me um abraço bem apertadinho e assim ficámos.

A pequena Palmira teve a oportunidade que muitos não terão nunca. A oportunidade de se curar!

Sandra Figueiredo
(Voluntária da APARF)

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Por um mundo sem lepra

Caros amigos da APARF,

Este ano tive um Dia Mundial dos Leprosos diferente. Decidi ficar alguns dias no Posto de saúde da missão para, não só ajudar no tratamento de todos os que dirigiram aquele Posto naqueles dias, como fazer pequenas recomendações a todos os que foram consultados distribuindo pequenos folhetos com imagens representativas da doença como a distribuição de barras de sabão por todos. Para terem uma pequena ideia apenas num só dia foram entregues mais de 40 barras de sabão.

Houve alguns bastante interessados em saber mais sobre a doença apesar de eu já por diversas vezes ter feito pequenas palestras. Ficaram todos com o compromisso de espalharem a palavra pelos seus vizinhos e amigos. A ideia do sabão, devo confessar, acho que foi óptima, pois aqui é caríssimo e muitos deles optam apenas por tomar banho só com água! Por isso era vê-los com sorrisos rasgados todas as vezes que eu lhes passava a barra de sabão para as mãos.

Penso que já é do conhecimento dos leitores da revista o caso do Alfredo. Não sei se recordam dele? De qualquer forma o Alfredo já completou o tratamento da lepra e de momento recebe apenas acompanhamento. Todos os meses ele recebe uma barra de sabão e alguns conselhos. Para o Dia Mundial resolvi oferecer-lhe uma coisa diferente: um par de meias e um par de ténis. Os dele estavam tão sujos e tão rotos que se viam os dedos dos pés. Ficou contentíssimo pois não fazia ideia que iria receber um presente!

Nos dias em que tive a oportunidade de acompanhar de mais perto todo o movimento do posto fiquei surpreendida pela quantidade de pessoas que o frequentava e dos quilómetros que a maioria percorria para ali chegar por não ter qualquer posto mais próximo. Alguns, só para terem uma ideia, percorreram qualquer coisa como 20 Kms a pé. Nesta altura do ano a doença que predomina é a malária. Eu, inclusive, não escapei ao dito mosquito. Mas o que mais preocupa são as crianças que ficam expostas a este tipo de doenças. Posso dizer-vos que desses 40 doentes que vieram ao posto naquele dia pelo menos 35 tinham problemas de malária em crianças com idade inferior a 2 anos! Fiquei ainda mais surpreendida quando vi uma mamã a entrar no posto com uma criança de apenas duas semanas de vida completamente a ferver de febre... foram receitados os medicamentos e agora é uma questão de esperar... É que para quem não sabe, a malária também mata!

Sandra Figueiredo
(Voluntária APARF)

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Caminhos de Amor

MISSÃO DE MURRUPULA - MOÇAMBIQUE
Amigos e APARF

Um grande abraço do tamanho do mundo para todos vós.

Depois de 19 meses de estadia em Moçambique, na província de Nampula a oitenta quilómetros mais para o interior, ou seja, no distrito de Murrupula, como voluntário da APARF, estou de volta, com o coração cheio e um grande desejo de voltar.

Estou de regresso, mas triste porque fiquei preso aquelas gentes que foram o motivo e a causa pela qual eu fui; tristeza por trazer no coração todas as necessidades e sofrimentos daquelas gentes; simultaneamente, sinto uma enorme alegria e satisfação por saber e ver que mesmo o pouco que se possa fazer, representa muito, para quem de tudo necessita; assim, meu e deles, o nosso BEM HAJAM.

Dou graças a Deus por me ter proporcionado esta bela experiência, esta maravilhosa vivência da qual resulta um enorme crescimento espiritual; como nos dizem os evangelhos, “Deus paga sempre cem por um, mil por um...”

Quero agradecer também a todo o corpo dos Missionários de São João Baptista, pelo apoio logístico, especialmente, em Lisboa, o Sr. Padre Cristino, e em Moçambique, nas pessoas dos Srs. Padres Jacob e Luís, que ajudaram especialmente na obtenção de toda a documentação e apoio junto da Arquidiocese de Nampula das autoridades sanitárias e governamentais; também todo o carinho e apoio das comunidades de Irmãs do mesmo corpo Missionário por onde passei: afinal estamos todos no mesmo barco (irmanados pelo mesmo Espírito), cada qual com o seu remo, seguindo as indicações do Mestre, que é Jesus Cristo nosso Senhor! Graças a Deus!

Agradeço a todos vós amigos, colaboradores, benfeitores e funcionários, que sois o suporte deste grande património legado por Raoul Follereau, à APARF, o meu muito obrigado por ter confiado e apoiado a minha fraca e frágil inter-ajuda, proporcionando-me esta enorme riqueza.

Descrevendo um pouco os trabalhos realizados: no campo, foram percorridos cerca de treze mil quilómetros por caminhos e veredas que só um Jaguar de duas rodas é possível andar por aqueles caminhos que eu lhe chamei e com convicção digo caminhos de amor; foram vistos, isto é, consultados vários milhares de pessoas, adultos e jovens; entre tratados, em tratamento e/ou com alta a cifra situa-se no número de 450 a 500 pacientes.

No terreno deixámos também 12 (doze) bicicletas aos activistas (voluntários nativos que nos ajudam na pesquisa e sensibilização das populações) para que depois de acordo com um calendário pré-estabelecido, nos facilita o trabalho de concentração em determinado local; estas bicicletas foram gentilmente cedidas, oferecidas, pela Fundação Teresa Regojo na pessoa do seu representante Sr. Carreira (quando da sua passagem/visita de trabalho, pela Missão de Murrupula) para quem vão os meus sinceros e sentidos agradecimentos, bem hajam; distribuímos também, na medida do possível e disponibilidades, sal, sabão e outros medicamentos; na Missão, são atendidos idosos, jovens, crianças em primeiros socorros e outras necessidades sanitárias primárias, em número variável de 10 a 30.

Que Deus nos abençoe a todos, nos dê a Sua fortaleza para sabermos estar disponíveis por esta e outras causas que afinal são a razão do nosso existir e de estar neste mundo tão conturbado.

Grande abraço, com um até breve.

Ângelo Bouça 
Voluntário da APARF






sexta-feira, 4 de maio de 2018

O embondeiro

Caros Amigos não posso deixar de apreciar também a beleza que este País nos oferece.

 Por todo o Moçambique existe uma árvore grandiosa chamada embondeiro e claro, aqui em Ocua não é excepção. O embondeiro para quem não o conhece é uma árvore de grande estatura, a maior parte do tempo despida, sem folhas, o seu tronco de cor cinzenta é algo de extraordinário chegando a medir entre 10 a 15 metros de altura, pode chegar aos 8 metros de diâmetro e atingir 3.000 anos de vida. É realmente uma árvore majestosa e imponente.


Durante as visitas pelas comunidades deparámos com um embondeiro um pouco diferente. Mas o que tinha de tão especial este embondeiro? Nada mais nada menos do que uma grande abertura no meio - curioso! - Comentei. Foi então que me contaram a história daquele embondeiro e o que eu não sabia é que aquele embondeiro trazia com ele uma história de sofrimento que durante tantos anos assolou este povo.

Há muitos anos atrás, antes mesmo do tempo colonial neste país a lepra já martirizava este povo e não havendo qualquer tipo de medicamento o seu modo de erradicar a doença era isolar essas pessoas para que a doença não se propagasse. Ao longo da história temo-nos apercebido que isso foi feito um pouco por todo o mundo. Aqui não foi excepção, também o fizeram, mas de uma forma um pouco diferente. Os doentes eram levados para fora das aldeias e eram colocados dentro dos troncos dos embondeiros. Abriam grandes buracos no meio do seu tronco para entrarem e ali ficavam, seria como que um esconderijo para que ali pudessem viver sem que o resto da família ou aldeia viesse a sofrer do mesmo mal. Mas, ali eram deixados com apenas um saco de farinha para se alimentarem. Os que para lá os levavam diziam que voltariam mais tarde para lhes trazer água e mais alimentos. Mas essa água e esses alimentos nunca chegavam... e essas pessoas acabavam por morrer de sede e fome.

Poderia pensar-se inicialmente num simples afastamento para não prejudicarem os outros, mas a ideia desde o início do seu isolamento era exactamente essa, de morrerem isolados para que não contaminassem o resto da aldeia com aquela “maldição”.

Felizmente isto já não acontece nos nossos dias, existe um medicamento eficaz para a cura desta doença, sabemos que a sua forma de contágio é mínima e os doentes podem fazer esse tratamento em casa, junto com a família.

E hoje em dia estes buracos nos troncos dos embondeiros servem apenas de vivendas, armazéns e refúgio para muitos animais selvagens.

Sandra Figueiredo

* “Salama” – cumprimento mais usual em macua. 




domingo, 29 de abril de 2018

Os olhos de Celestino

Estou, depois de uma curta paragem em Portugal, de volta à aldeia de Mahipa. O meu trabalho com os doentes de lepra continua e infelizmente o número vai aumentando a cada visita às comunidades, sendo o seu número neste momento de 221 doentes. Vamos tentando fazer o melhor possível...

Mas, como não poderia deixar de ser, aqui é impossível ficar indiferente aos mais pequeninos... por isso sempre que possível vou um pouco à escolinha e é ver crianças por todo o lado. A escolinha da missão tem 52 crianças, onde aprendem, brincam e tomam uma refeição diária, talvez mesmo a única refeição que irão tomar durante todo o dia.

Uma dessas crianças é o Celestino. O Celestino tem uma história um pouco particular: tem 4 anos e perdeu a mãe aos 2. O pai juntou-se com outra mulher com quem tem outros filhos e o Celestino, esse ficou esquecido... recordo-me que quando aqui cheguei ele não falava com ninguém, escondia-se de todos e era vê-lo sempre sozinho... Hoje, ao frequentar a escolinha da missão tem-se, pouco a pouco aproximando das pessoas e começa mesmo a ter amigos!

Certo, anda sempre muito sujinho pois, não tem o cuidado que deveria ter em casa, mas mesmo assim é impossível não lhe pegar, não o abraçar, não lhe fazer uma carícia...

Estas crianças, este povo dá-nos que pensar... quando vou dar pequenos passeios a pé pela aldeia, parece sempre dia de festa. Todos se cumprimentam, as crianças seguem-nos atentas e sempre à espera de um sorriso, um aperto de mão, de uma carícia, de um simples “Salama!”*... Por vezes ando com 5 a 6 crianças em cada mão! Tenho, como devem calcular muita dificuldade em comunicar-me com elas, pois a língua que aqui se fala é o macua, mas, por vezes um olhar, um sorriso vale milhões de palavras...

Sandra Figueiredo



terça-feira, 24 de abril de 2018

O Menino dos olhos tristes

Lá estão as crianças todas repetindo em coro palavras e frases da professora Teresinha: Livro, Lápis, Bom Dia, Como Está?, Eu Amo O Meu Pai, Eu Amo A Minha Mãe. O que sentirão aqueles 68 órfãos ali presentes que já não têm pai nem mãe? Mas todos participam e aprendem o português. Todos, menos um: lááá no extremo oposto do terreno está um pequenino sentado próximo da fogueira que aguarda o panelão da multimistura, ou como aqui dizem das papas enriquecidas. À primeira impressão, tem um ar apático como se fossem muitos os quilómetros que o afastassem daqueles 50 metros de distância das outras crianças.

“Aquela criança está doente”, dizia-me Alfredo um dos dois monitores (homens!) que gosta tanto das crianças quanto eu.

Mas não, eu já tinha examinado o menino dos pés à cabeça e só lhe encontrei a magreza e o respectivo imenso ventre a desparasitar, acompanhados de um olhar tão triste...

Na hora de comer, começamos a formar as filas das crianças; o menino assiste imperturbável à barafunda organizativa e eu não o incluo nas filas. Vou-lhe entregar um prato cheio de papas e fico a observá-lo pelo canto do olho: serenamente, colher a colher, come a dose toda. Alfredo e eu entreolhamo-nos. Volto a encher o prato e de novo come tudo no mesmo ritmo tranquilo. Um de nós comenta: “Já sabemos qual é a doença dele...” Mais tarde, uma irmã do menino vem buscá-lo e as nossas perguntas sucedem-se quase com sofreguidão: Quem é? Que idade tem? Como se chama? Onde Vive? Então ela conta que são só estes 2 irmãos, ela com 10 e ele com 2 anos, vivem com uma avó e um tio. Não têm pai nem mãe, recentemente falecidos (sida). Alfredo promete-me ir visitar a família e averiguar os factos. Há-de ir e confirmar tudo isto. Eu fico cheia daqueles olhos tristes que me hão-de acompanhar muitas horas. Nas vezes seguintes, não resisto a pegar-lhe ao colo e a acarinhá-lo mais do que aos outros. (aqueles olhos tristes...). Até que um dia chamo o tio e a avó e peço para partilhar o seguinte: 1 semana comigo, 2 com a família. Concordam. Nasce assim (mais) uma experiência maravilhosa! Livro algum conseguiria “contar” como uma criança triste se transforma numa criança feliz, como uma criança engorda 1,200 Kg numa semana, e não mais é aquele menino cheio de silêncio e apatia, e canta e tagarela (dialecto) e desafia-me com grandes risadas... não há descrição possível!

Ao cair da noite, é a hora do mimo: fica triste, não quer brincar, ameaça choramingar, pede colo. Largo tudo o que estou a fazer, instalamo-nos os 2 num sofá, ponho música e ele ali fica no colo, às vezes absorto, outras a brincar com as mãozitas (ou um dos sapatos), nitidamente disfrutando a proximidade física e os mimos que lhe vou dando.

Meia hora depois, sou eu que ponho termo ao encantamento: “Vamos! Já chega de mimo!” Começo a fazer-lhe cócegas e só paro quando o ouço a rir à gargalhada.

De noite, posso percorrer a cama de lés-a-lés que ele me acompanha – “tem que” dormir encostado a mim.

É seropositivo? Não sei. E acho que não quero saber. Por aqui não há retrovirais, o meu carinho é igual, não posso dar mais, nem fazer melhor. Mas o imenso apetite dele enche-me de esperança... um apetite tão inesgotável que eu costumo “reclamar”: pequenino! Tu és a ruína da minha despensa!!!

Ana Maria Oliveira



sexta-feira, 20 de abril de 2018

Mecubúri: Ensino – Escola e Acompanhamento das Meninas do Lar


No início a minha tarefa no ensino era apenas dar explicações às meninas do Lar e acompanhar a sua vida diária, problemas e preocupações. O Lar Feminino de Mecubúri é das Irmãs e acolhe meninas do interior do Distrito para poderem continuar a estudar desde a 6ª até à 10ª Classe. Eu dava explicações de qualquer coisa que tivessem dúvidas, ou na Física e na Química ajudava-as a estudar pelo caderno ou por livros que lá tínhamos.

Depois a Administradora do Distrito, sabendo que sou licenciada em Gestão e havendo falta de professores de Matemática, pediu-me para dar aulas na Escola Secundária. E assim fui professora de três turmas da 8ª Classe, em cada turma tinha cerca de 65 alunos, todos de calça ou saia azul e camisa branca, com muito maior disciplina escolar do que numa turma de 20 ou 30 alunos cá.

Era muito respeitada e consegui que as minhas aulas fossem bem participadas. Geralmente os alunos lá têm medo dos professores, eu consegui quebrar isso nas minhas aulas, e vir ao quadro era para alguns deles um prazer e não um terror.

Outras Actividades

Construção do Muro e Visita de Projectos

Uma das necessidades da Missão era também a construção do Muro de Vedação que protegesse o Lar, a Casa das Irmãs e a Machamba, que eram invadidas por animais, bêbados e ladrões. Então também aí dei a minha ajuda e fiz toda a contabilidade da obra e parte da sua gestão.

Visitei ainda outros Projectos de Luta contra a Lepra para trocar experiências com vista a melhorar o nosso trabalho no Distrito.

Em dois dos projectos que visitei estão também voluntários da APARF: a Sandra Figueiredo, em Ocua, e o Sr. Ângelo Bouça, em Murrupula.

Esta experiência de voluntariado ao serviço dos leprosos e dos mais pobres foi para mim muito agradável e enriquecedora em termos espirituais e humanos.

Gostei muito de lidar directamente com o povo e de trabalhar em equipa com o Enf. Paulo, com as Irmãs e os Padres. Senti-me também muito acolhida por toda a gente do Distrito e a todos agradeço a sua simpatia e acolhimento.

Koxukuro Vanjene athu othene
(Muito Obrigada a todos)

Mphaka Nihiko Nikina
(Até outro dia)

Ana Margarida Azevedo