domingo, 27 de janeiro de 2019

Uma nova manhã em Iapala - parte III

À uma da tarde, quando já o sono começava a levantar, a Irmã Florinda veio arrancar-me da secretária para ir almoçar, sem admitir réplicas ou alegações de trabalho por fazer. Que fosse rápido que tínhamos visitas para o almoço: três padres que seguiam caminho vindos de Lichinga para o litoral. Um moçambicano, um mexicano e um brasileiro simpatiquíssimo que ficou sentado a meu lado na mesa do almoço e que ironicamente me pediu um anti-histamínico porque há já três dias que não conseguia dormir, acometido como estava de uma “cólera nasal”, como ele dizia, de tal forma intensa que já começava a temer desidratar pelo nariz (sic)! De bom grado lhe ofereci o que restava do culpado pela minha manhã sonolenta. 
A conversa do almoço correu célere sobre a refeição deliciosa preparada pelo cozinheiro, que para cozinhar com coco fresco tinha subido ao coqueiro vizinho do meu quarto (o mesmo que interpretava para mim todas as manhãs os sons da chuva). 

Falaram-nos também sobre as suas preocupações com as eleições presidenciais já próximas e os confrontos ocorridos recentemente em Inhaminga entre militantes da Renamo e da Frelimo.
O cozinheiro entra no fim do almoço e explica que tentou fazer café com o café de Iapala, mas “desconseguiu” pilar o café a tempo, por isso terá de fazer Nescafé®. “Está bem, não há problema”, respondemos. 

(Desconseguiu... lindo!... É mais um neologismo bem à africana. Isto de falar Português é difícil e a responsabilidade de falar uma língua conservadora, com palavras altivas e centenárias, é entregue a um povo quase todo ele analfabeto. “O povo que se desenrasque!”, dizem os dirigentes. E o povo desenrasca-se, ou vai-se desenrascando... À boa maneira moçambicana, com neologismos deliciosos em catadupa que, pé ante pé, já vão conquistando lugar nas novas edições dos dicionários...).

Depois de almoço levantamo-nos para ir mostrar aos visitantes as obras de restauro da igreja da missão, dedicada a São João Baptista e que foi quase completamente destruída durante a guerra civil, altura em que era utilizada como refúgio para a população que procurava o auxílio dos missionários. Durante os anos da guerra o hospital onde estou agora a trabalhar foi o único operacional num raio de mais de 200 km e a missão era o único porto de abrigo onde o povo podia recorrer para procurar comida, medicamentos, roupa… e conforto espiritual no meio da dor de tantas mortes e tantas perdas. As obras estavam bastante adiantadas, embora, segundo as Irmãs já pudessem mesmo estar terminadas, não tivesse sido um equívoco do pintor, que desgraçadamente atrasara mais de 20 dias as obras e quase duplicara o orçamento…Pois… inacreditavelmente, num dia em que o responsável pela obra estava fora, o pintor tinha rebocado inadvertidamente uma das paredes com a massa que utilizavam para regularizar as fissuras das paredes e tapar os buracos de balas. O reboco tinha ficado perfeito, isso todos tinham de reconhecer… o problema é que a dita massa absorvia a tinta como se fosse um polímero superabsorvente! Durante os dias seguintes, sem que conseguisse perceber porquê, o pintor tinha tentado pintar a parede do altar com demãos atrás de demãos e esgotado baldes de tinta branca atrás de baldes de tinta e a parede continuava impávida e bege, como se nunca tivesse recebido um único salpico… Inicialmente intrigado e depois aflito com o estranho fenómeno, só ousou avisar o responsável alguns dias depois, quando já era de todo impossível disfarçar o enorme rombo na provisão de tinta.
– Não é possível! O pintor está a roubar tinta para a casa dele! – disseram as Irmãs quando o responsável as foi alertar para o prodígio que se passava.
– Mas não é possível, eu estou sempre aqui com ele. A tinta desaparece toda nem meia hora depois de ser aplicada… – respondia o responsável.
– Irmã, tem feitiço nesta igreja! – gaguejava o pintor, mais assustado que todos os outros.
– Tem feitiço! – repetiam já os habitantes da Missão. – Foi por causa de todos os que foram massacrados durante a guerra dentro da igreja. Os espíritos dos antepassados ficaram entranhados na parede atrás do altar porque era onde as pessoas se escondiam durante os ataques.
– Não brinquem connosco! – respondiam as Irmãs.

O responsável já planeava chamar um feiticeiro para espantar os maus espíritos que habitavam a igreja – às escondidas das Irmãs, obviamente, que já estavam quase a perder a paciência – até que deu por falta da massa para cobrir as irregularidades das paredes e o feitiço se quebrou no mesmo instante. (Bem, ao menos não sou só eu que sou loira nesta terra…) Os padres riram a bandeiras despregadas quando ouviram a história da parede encantada. Bem dispostos, despediram-se pouco depois, agradecendo o almoço e a visita pois a tarde já ia adiantada e ainda tinham muita estrada em mau estado pela frente. 

Patrícia Lopes
(Médica)

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Uma nova manhã em Iapala - parte II

Lepra?! Esta senhora tinha uma úlcera num pé, mas estava em fase adiantada de cicatrização. Não tinha deformidades visíveis, não tinha amputações de dedos, em suma, não tinha nada que saltasse à vista de um leigo (e como eu sou leiga!) que tinha lepra. Mas não se entrosava com as outras pessoas. Veio só e regressou só. Cobria a cabeça com um véu, não com a graça e vivacidade das mulheres Macuas, mas como uma autêntica burka... Terá sido excluída da sociedade, ou terá sido ela, com a consciência da doença, que se auto-excluiu? Mas se a lepra tem cura (e ela sabe que a lepra tem cura, senão não se estaria a tratar e a sujeitar-se às reacções adversas dos medicamentos) por que será que se comporta desta forma? De onde lhe virá a consciência da doença...? De onde virá o estigma, o peso que a faz vergar os olhos? Mas talvez no fundo eu perceba o que se passa. Acho que reconheci no olhar desta doente a opressão que via há bastantes anos atrás aos doente com SIDA, antes de os anti-retrovirais terem revolucionado (e, em parte, desdramatizado) a epidemia na Europa... Não se entende... Uma doença tão simples... Muito mais mortífera é a malária – o Rufino que o diga – e não faz este abalo na vida social! Mas... lepra?! Será possível? E mesmo por baixo do meu nariz! (Uma menina à minha frente capta a minha atenção... Sim, logo à noite hei-de estudar a doença, agora há que trabalhar...)

Fico rendida a estas crianças quando alguma me sorri. É tão raro não terem medo de mim... Que pensarão elas desta mucunha, como eles aqui chamam aos brancos? Uma mulher sem cor de pessoa que lhes avança a mão para a face e lhes descobre as pálpebras, num gesto mais ou menos aflito consoante a palidez que ostentam. “Nsina nawo mwana?” (Como se chama a criança?) E nestes dias já vi desfilar diante de mim, pintadas de preto e em ponto pequeno quase todas as personagens do Antigo Testamento, Ananias, Malaquias, Levítico, Judite, Ozias... Outras têm nomes próprios como Trinta, Malária, Quietinha, Castelo, Apressado, Médico, Fresquinha, que me fazem sorrir. Há certos nomes que nos entreabrem intimidades distantes e nos permitem, deliciosamente, penetrar em qualquer coisa de interdito nas fantasias e sonhos dos pais das crianças... Vai avançando o cortejo a passo de caracol. É difícil trabalhar com este sono espesso. [...]
Patrícia Lopes (Médica)

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Uma nova manhã em Iapala - parte I

Deixo-me ficar na cama mais uns minutos depois do alarme tocar. Recordo-me desta noite... ainda nem acredito que recebi um recém-nascido em Moçambique, à luz das velas, como nas mais antigas histórias que ouvia contar! 

Tenho de ganhar coragem para me levantar, mas arrepio-me só de pensar em ir para o duche. Se há coisa a que seria improvável habituar-me é ao duche de água fria pela manhã. Um importante aspecto em que a minha inculturação falharia sem apelo nem agravo... As Irmãs sempre solícitas: “Pode pedir ao cozinheiro que lhe aqueça água para o banho.” Mas nem pensar em indulgenciar nessas mordomias quando a lenha é tão difícil de arranjar... Cumprimento a Amélia, a minha discreta companheira de quarto, uma osga simpática e madrugadora, que a esta hora já se encontra colada aos vidros da janela ao sol (desconfio que terá passado ali a noite...), com as patinhas cheias de dedos esticadas numa enorme preguiça, à espera do pequeno-almoço esvoaçante. Instalou-se no meu quarto há três dias, trazida pelo cozinheiro ante o meu olhar de ponto de interrogação (eu tinha-lhe pedido insecticida pois não tinha rede mosquiteira no quarto, ao que ele respondera: 
– Não sei o que é “set’cida”, Doutóra...
– Remédio para os mosquitos – reformulei.
– Ah, não tem problema!
E horas depois regressou com a Amélia...). A verdade é que esta minha inquilina é uma exímia caçadora de mosquitos e ainda não precisei de usar insecticida. Já vestida, apresso-me para a sala de jantar para tomar o pequeno-almoço de pão com doce de manga, banana-macaco e café natural, deliciosamente perfumado, criado, torrado e moído na própria Missão. 

Chego ao hospital já passa das 07:00 e esperam-me para iniciar a visita. O Rufino, o menino de nove anos que chegou durante a noite, miraculosamente, ainda sem ter feito sequer a segunda dose de quinino, já acordou, levantou-se para ir à latrina e toma agora o pequeno-almoço com o ar vagamente desorientado de quem não conhece o sítio onde está nem faz ideia da forma como lá foi parar... 

(Ditosa pátria que tais filhos tens! Assim vale a pena trabalhar, se ficam bem logo à primeira dose!) 
À excepção deste susto, no internamento foi uma noite calma, sem intercorrências e há poucas novidades dos doentes internados. Como são poucos os que permanecem nas suas camas após o acordar (só mesmo os que não se conseguem pôr de pé é que ficam na cama), para os observar temos de os ir procurar ao pátio. Sempre o mesmo alvoroço cómico todas as manhãs. Nunca me tinha passado pela cabeça uma situação destas, ir para o hospital trabalhar e ter de ir à procura dos doentes para os observar... Mas estão quase todos a melhorar, portanto deixo o trabalho nas mãos dos enfermeiros e vou para a sala de urgência. Não resisto a passar pela maternidade primeiro para visitar o recém-nascido e a mãe. Estão ambos bem. A mãe, então, está radiante com o seu menino tão esperado. 

Na sala de urgência dizem-me que a técnica de Saúde Materno-Infantil não chegou ainda do fim-de-semana em Nampula e vou ter de ser eu a fazer a consulta de urgência da Pediatria, mas o edifício onde funciona o atendimento às crianças é tão escuro que peço para me transferirem a secretária para o pátio interior do hospital. Que falta que nos faz a energia... 

Começa a chegar a procissão do paludismo... cada mulher carregando devotamente o seu andor anémico e febril enfaixado contra o corpo com capulanas coloridas. Vêm bichar quinino e cloroquina, como bichavam milho nos tempos da guerra... A palavra Macua para “medicamento” ou “comprimido” é, de resto, salvo melhor transcrição, “kininu”, delicioso equívoco que me custou alguns dias a desvendar.
Mas, para meu desespero, esta manhã, em vez da mefloquina para profilaxia da malária, tomei por engano o anti-histamínico que tinha destinado para me adormecer na viagem de regresso e me fazer esquecer as saudades deste povo fantástico. Malditas embalagens que me tornam tudo igual na miopia das madrugadas! E o pior de tudo é que só dei por isso a meio da manhã quando comecei a perceber que não podia culpar o café de Iapala pelo sono que sentia. Mais aromático que qualquer Arábica, curto, conciso, contundente, contava com ele para me sacudir a modorra da manhã, mas... tarde demais, não tinha ido a tempo. 
E o cortejo das febres, interminável, estende-se já até ao fundo do pátio sem parar de crescer. Malária, malária, malária, anemia, desnutrição, queimaduras, pneumonias, pielonefrites, bilharziose – endémica na província – uma suspeita de doença celíaca, uma epilepsia e, claro, a SIDA de que suspeito constantemente, embora não possa fazer testes confirmatórios nem tenha anti-retrovirais. É o que mais me dói não poder tratar nestas crianças. E pensar que, pelo menos nelas, a doença se poderia prevenir de modo tão simples... Mas não posso pensar nisso. Tenho de tratar só o que vejo e o melhor que souber. A cólera, felizmente, não anda por estas paragens nesta altura do ano e o sarampo é já praticamente desconhecido graças ao empenho das Irmãs nas campanhas de vacinação. Valha-nos isso, que com este grau de desnutrição o sarampo teria 50% de mortalidade... 

De súbito, o director do hospital vem pedir-me conselho sobre como gerir uma reacção adversa que uma doente está a ter a um medicamento. Vem acompanhado de uma senhora de olhos tristes. 
– Que doença tem a senhora?
– Tem lepra, doutora...
– Lepra?!
(Mas existe lepra nesta zona?!) Uma vergonha estranha invade-me de rompante, assim como uma criança que não sabe a tabuada e que de repente se apercebe que é a única de todos os colegas que ainda não estudou a lição, ou a única que nunca ouviu a música que já todos cantam de cor... 
– Qual é o medicamento que lhe está a fazer reacção?
– Rifampicina.
Felizmente é um medicamento que conheço bem, porque também é utilizado no tratamento da tuberculose e posso responder à questão... Mas uma angústia estranha permanece... Não que seja vergonha não conhecer uma doença que é rara no meu país, mas era como se tivesse acabado de vislumbrar um mundo diferente... Lepra?! Qualquer coisa de irracional pulsa dentro de mim e me grita, contra a minha vontade, que algo de muito grave se passa em meu redor... Mas por que será que tenho esta impressão?, pergunto-me... Por que é que, por exemplo, o meu primeiro caso de malária não me fez sentir assim? Será possível que esteja, depois de não sei quantos anos a estudar Medicina, a cair num preconceito veiculado pelo Antigo Testamento? E logo eu, que até achava que tinha uma mente aberta? [...]

Patrícia Lopes (Médica)