quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Um dia com a Vanda

A Eugénia Ferreira exerceu a sua profissão de Enfermeira como chefe do Bloco Operatório do Hospital Pediátrico de Coimbra. Actualmente, em Moçambique, a trabalhar como Voluntária no Hospital de Marrere quis conhecer o trabalho dos Voluntários da APARF ao serviço dos doentes de lepra naquele país e vem-nos contar “um dia com a Vanda”.

Sempre tive muita vontade de conhecer o trabalho desenvolvido pelos voluntários da APARF aqui em Moçambique. Apesar de falar muitas vezes com ambos (Ricardo e Vanda) acerca das suas actividades, era forçoso reservar um dia para acompanhar no terreno de modo a ter contacto com a realidade do trabalho desenvolvido nesta área da  lepra. Por questões logísticas e de proximidade passei um dia com a Vanda. Pela manhã saímos em direcção a Rapale, passando pela Faina para apanhar o Sr. Cássimo, enfermeiro Supervisor do Distrito de Nampula / Rapale para o Programa Nacional de Controlo de Tuberculose e Lepra. Este colega moçambicano trabalha há 10 anos nesta área, conhece muito bem todo o distrito, tem todos os doentes sinalizados, e claro, é o responsável pelo controle destes doentes. A Vanda trabalha em estreita colaboração com ele e desenvolve um trabalho notável como eu já suspeitava. É uma apaixonada pelo bem estar dos doentes, estabelece com eles uma relação muito afável, preocupa-se genuinamente com eles, estabelece compromissos com os mesmos de modo a favorecer a adesão ao tratamento que é muito longo, incute-lhes esperança e conhece-os como se fossem parte da sua família moçambicana.

No meio da vila de Rapale encontramos o Carlitos, um dos seus doentes que tinha sido já “capturado” pelo activista local. Enquanto a Vanda e Senhor Cássimo procediam às formalidades burocráticas do início da semana, tratei as feridas das pernas e pés do Carlitos. Estavam impregnadas de pó, restos de violeta de genciana e crostas muito secas. Arregacei as mangas que não tinha, calcei umas luvas e fiz–lhe uma boa limpeza, remoção das crostas, aplicação de pomadas e fechei com ligaduras de modo a ficarem livres de sujidade e moscas. Foi a única coisa de útil que fiz pelos doentes de lepra, mas senti-me muito gratificada por poder ser útil.

Terminados os trabalhos que ali nos levaram e não havendo outra alternativa de caminho, regressámos a Nampula para então nos dirigirmos para a Caramaja. Desviamo-nos da picada principal e dirigimo-nos a Ratane -B onde éramos esperados por um grupo de pessoas com suspeita de doença que tinham sido sinalizadas pelo activista local o Sr. Agostinho Quatro Horas. O calor já apertava quando estacionámos a viatura junto do local habitual da reunião, ou seja à sombra de um cajueiro.

Confirmaram-se 3 doentes, dois dos quais eram as autoridades locais, o Sr. Elias cabo de zona e o Sr. Rachide comandante da polícia comunitária. Dois antigos doentes também compareceram e as mutilações que a doença deixou eram bem evidentes. A Vanda ofereceu – lhes sandálias e sabão ficando muito agradecidos com estes presentes. Curiosamente, os suspeitos que depois de observados pelo experiente Sr. Cássimo os declarou livres de doença, ficaram muito tristes. Esta manifestação de tristeza deve-se ao facto de não puderem ser contemplados mensalmente com a visita dos técnicos e não poderem receber pequenas ajudas que se traduzem em sal, sabão, roupa, pão, sandálias ou cobertores. É muito estranho, mas neste contexto de pobreza extrema, ser alvo de ajuda e de atenções naquelas comunidades longínquas só acontece quando se tem esta doença o que explica aquela manifestação de tristeza. No posto de saúde da Caramaja o Sr. Cardoso, antigo doente e agora colaborador dos técnicos com o estatuto de voluntário, pede frequentemente ao Enfermeiro deste posto algumas carteiras de medicamentos contra a lepra, como remédio para outro tipo de queixas que já não têm como causa a doença de que padeceu e da qual felizmente está curado e sem mutilações. Como já tenho observado noutros contextos os doentes atribuem aos comprimidos um poder mágico. Raramente expressam bem as suas queixas, mas vêm pedir comprimidos como quem pede um copo de água para matar a sede.

Neste posto de Saúde onde chegámos já por volta das 13 horas, foram vistos vários doentes. Destes o Amisse teve alta e ganhou umas sandálias novas. A Cacilda, uma menina de 12 anos, e outros mantêm ainda o tratamento por mais alguns meses.

Os doentes que faltaram à consulta serão contactados pelo voluntário local que lhes fará chegar os medicamentos necessários para darem continuidade ao seu tratamento.

Um dos factores de sucesso para a cura desta doença, bem como das doenças de longa duração, prende-se com a adesão dos doentes ao tratamento que é longo (seis a doze meses). É nesta vertente que a Vanda aposta fortemente. A sua formação científica como enfermeira e as suas características pessoais permitem-lhe usar estratégias para criar uma relação com os doentes que extravasa o âmbito profissional. É interessante perceber que faz o seu trabalho com muita entrega, esforça-se por se fazer compreender utilizando muitos termos em língua makua, e que procura dentro do possível ajustar as suas ajudas às particularidades de cada um deles, o que é bem revelador da sua dedicação. 

No meu papel de enfermeira aposentada e igualmente voluntária, mas no Hospital do Marrere no Hospital de Dia de doentes com HIV – SIDA confirmei que de facto é um trabalho muito duro, pois é necessário ir ao encontro dos doentes, a maior parte das vezes em locais muito pouco acessíveis, por maus caminhos, aguentar fome e sede pois não há locais onde petiscar ou tomar uma bebida fresca, e possuir um grande gosto pelo trabalho em favor deste grupo de pessoas com lepra, em regra muito desfavorecidos e excluídos. 

É justo, por isso render a minha admiração por estes jovens voluntários que deixaram família e amigos, o conforto do lar, o acesso aos bens de consumo, as facilidades que a “civilização” proporciona para se dedicarem a este povo vencido pela doença e pobreza.

Irei tentar perder o medo de andar de mota para acompanhar o Ricardo no seu trabalho de voluntário no distrito de Murrupula e certamente darei igualmente testemunho das suas actividades com os doentes de lepra naquela zona.

Eugénia Ferreira

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