quarta-feira, 14 de novembro de 2018

O meu dia de anos

No passado dia 26 de Agosto fiz 26 anos. É verdade, casei os dias com os anos e não podia ter sido mais especial. O dia começou com uma cerimónia de três horas na igreja de Murrupula com cerca de mil espectadores. Esta palavra espectadores não pode ser empregue porque, aqui, as pessoas participam de uma forma activa, emanam alegria e energia, cantam, dançam, riem, vibram em uníssono como se fossem um só corpo, sem a tosse crónica tão característica das nossas cerimónias que tanto nos incomoda. Aqui, podíamos ficar todo o dia que ninguém se impacientava a olhar para o relógio. Aqui, as horas passam rápido. Fomos convidados a participar, dançámos e cantámos. As cerca de mil pessoas cantaram-me os parabéns e agradeceram a minha presença. Fui chamado ao altar e ainda tive tempo de soltar umas palavras tremidas mas que emanavam uma alegria que até então desconhecia.

Terminada a cerimónia fomos para a Missão. A festa agora era presidida pelo Padre Jacob, missionário de S. João Baptista com quem vivo. Estiveram presentes o Sr. João, presidente da APARF e Sr. Ramiro, colaborador, que me entregaram as tão aguardadas encomendas (mimos) de Portugal. Aqui, quando recebemos uma encomenda, até uma chouriça pode ser olhada com a veneração de uma peça de joalharia.
Os rapazes internos e os seminaristas também prestaram a sua homenagem. O dia só acabou na cidade, em casa das Irmãs de S. João Baptista. Mais uma vez soprei as velas. Foi um dia muito preenchido, repleto de júbilo.

FURO DE ÁGUA
Dia 13 de Setembro fui sozinho à comunidade do Namilo. O enfermeiro Rajá, com quem trabalho, teve de ir à cidade proceder ao levantamento dos medicamentos.

No Namilo, deparei-me com vários problemas mas um deixou-me particularmente preocupado. Nesta comunidade, a falta de água é o maior problema. O furo que abastece a população não se encontra a funcionar há cerca de 7 meses. Doenças como a sarna (a mais facilmente detectável), estão a surgir em grandes proporções. Estamos numa época em que os caudais dos rios são reduzidos e na sua maior parte a água já não corre, ficando estagnada e imprópria para o consumo. Vou mover todos os esforços para que as entidades responsáveis venham proceder à reparação deste furo.

FUTEBOL
Os voluntários da lepra que trabalham comigo no distrito de Murrupula e os voluntários que trabalham no distrito de Nampula com a Vanda, fizeram um desafio de futebol aquando do nosso encontro. A nossa equipa ganhou 3 a 0.

Fui eu a inaugurar o marcador num gesto de pura sorte, um chapéu de fora da área, mas devo confessar que a minha equipa não era constituída na sua totalidade por voluntários, devido principalmente às suas idades, tivemos de requisitar alguns miúdos do bairro.

A partir deste dia os miúdos do bairro e alguns voluntários não mais pararam de jogar. Já toda a gente ouviu falar nesta equipa que tem treinado e defrontado várias equipas. Tem feito as deslocações por sua conta. A ajuda que tiveram foi no dia do jogo com os voluntários “da Vanda” que receberam de nós (voluntários da APARF) sapatilhas, e da AIFO, camisolas. Eu queria recompensar o esforço na divulgação do trabalho que realizamos no programa da lepra e tuberculose. Gostava de lhes oferecer um equipamento.

Ricardo Leonardo
(Voluntário da APARF)

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