quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Há festa em Murralelo - parte I

Na minha primeira manhã em Iapala fui com a Irmã Lurdes de comboio até à aldeia de Murralelo, a cerca de 100 km da casa da missão para assistir à festa da Primeira Comunhão dos meninos. Rapidamente chegou a hora da partida e entrámos no comboio depois de adquirir os bilhetes de segunda classe. A visão no primeiro embate foi indescritível! Desde galinhas a grandes sacas de carvão, passando por molhos de cana-de-açúcar e frutos embalados na tradicional forma improvisada com capulanas, enormes volumes ocupavam o espaço disponível do vagão que nos coube em sorte, tudo na maior desorganização possível. Lá nos conseguimos acomodar, no meio de uma quantidade enorme de gente, sobre uma saca de carvão, perto de uma mamã que, impassível, dava de mamar ao filho, enquanto com a mão livre segurava duas galinhas vivas, presas uma à outra pelas patas com uma corda. O olhar divertido da Irmã Lurdes dizia-me que fora de propósito que não me falara do que iria encontrar, para que visse com os meus próprios olhos.

Em menos de cinco minutos o comboio iniciou a sua marcha, a passo de caracol. A cada quinze ou trinta minutos havia uma paragem e a vida dentro e fora do comboio sofria uma revolução. Em todas as paragens havia um aglomerado enorme de pessoas e toda a gente se levantava e acorria à janela, para vender ou comprar produtos. Tudo era transaccionado no meio da maior agitação, desde galinhas até rebuçados, passando por pilhas, peneiras, carvão, garrafões de óleo, sabão, comida, roupa... 

Em três horas fizemos os 100 km até próximo da aldeia e, por sorte, nem dois minutos depois de sairmos do comboio, cruzámo-nos com um jeep que seguia a direcção da aldeia. Num instante chegámos a Murralelo e fomos muitíssimo bem recebidas pelo Padre Filomeno, um missionário mexicano, que me apresentou entusiasticamente ao régulo da aldeia.
 – Não vos esperávamos... Mas eu já devia ter adivinhado... Como é que vieram?
– De comboio. Queria mostrar à Patrícia como é o nosso “Expresso do Oriente”. Mas alguma vez eu iria perder a Primeira Comunhão dos meus meninos?, a Irmã Lurdes fingindo-se ofendida... Tinha sido ela a principal impulsionadora desta celebração.

Durante a viagem de comboio a Irmã tinha-me falado da importância desta festa, carregada de simbolismo quer religioso, quer cultural e com um significado muito particular na História recente de Moçambique. Durante a guerra civil a instabilidade era tanta e as estradas tão perigosas, que não era possível os padres deslocarem-se para fazer qualquer celebração. Nem mesmo os funerais tradicionais ou os rituais de iniciação, tão importantes na cultura macua, eram cumpridos. Nos anos da guerra ninguém construiu casas, ninguém cultivou os campos, ninguém dormia uma semana seguida no mesmo local... Só depois de a guerra civil ter terminado é que foi possível reconstruir as estradas, e a paz recente foi terreno fértil para reavivar os rituais. Era, portanto, chegada a altura da Primeira Comunhão dos primeiros bebés que tinham sido baptizados depois da guerra! A alegria das pessoas era evidente, expressa na forma como se vestiam, como tinham ornamentado a igreja com flores do campo, como tinham construído um enorme telheiro para celebrar a missa no exterior, uma vez que a afluência seria tal que a multidão não caberia na igreja. “Temos uma Paz que já deu frutos!”, era uma ideia que se ouvia um pouco por todo o lado. Tocante, sem dúvida, e que privilégio, assistir a um acontecimento destes!

De súbito, o chamamento para a celebração interrompe as apresentações. Volto-me, incrédula, para a origem do som que me parece ser de um sino, para descobrir que se trata de uma jante de um pneu de um jeep, pendurada num tronco de árvore, que o animador paroquial toca solenemente como se fosse um gongo. Está na hora da missa!

De caminho somos interceptadas por um professor de uma das turmas que hoje fará a Primeira Comunhão, que se aproxima trazendo pela mão um menino com ar triste, que aparenta uns 8 ou 9 anos. “Quando estava a jogar futebol, há uma hora, caiu para o chão e ficou estendido. Só acordou depois.” Faço várias perguntas ao professor, mas não o viu cair. Ninguém sabe, portanto, se tropeçou ou se desmaiou. A Irmã Lurdes põe-lhe a mão na testa. Está fresco... E não tem má cara... Um exame neurológico sumário não revela alterações, deve ter tido uma breve perda de consciência depois do traumatismo craniano, penso. Como se tivéssemos telepatia a Irmã leva a mão à carteira para ir buscar os medicamentos que sempre a acompanham: 
– Vai tomar este comprimido de paracetamol e vai-se deitar agora. Antes de irmos venham-nos dizer como está.
– Obrigado, Irmã.

Continuamos para a missa, pois já se ouvem os cânticos da entrada. (Batuques e vozes. Batuques e vozes apenas. Fico sempre surpreendida de como conseguem criar uma harmonia tão simplesmente bonita e envolvente.) Estaquei à entrada do telheiro, deslumbrada por aquela missa de uma alegria ritmada e ruidosa: um conjunto de mulheres e meninas, vestidas com capulanas iguais avançam pelo espaço central, dançando com uma coreografia simples, mas cheia de força e energia, com toda a assembleia compenetrada em bater palmas ritmicamente. Uma voz feminina sobrepõe-se às outras, clara e cristalina, vibrando ágil, quase no limite do sobreagudo (Como é possível? Para haver quem cante assim é preciso haver quem ensine... ou... quer dizer... ou não?)! Ouve-se, a intervalos, o alarido de algumas mulheres, marcando os silêncios das solistas e o padre Filomeno, ao fundo, dança também e bate palmas acompanhando a assembleia. Ao fim de alguns minutos, após um ralentando irrepreensível, faz-se silêncio e o padre começa a celebração em Macua, uma língua subitamente eufónica e melodiosa. Não consigo deixar de me sentir esmagada por esta cultura, que absorveu uma religião milenar e a traduziu com os cinco sentidos, que lhe deu uma cara alegre e jocosa, um novo som, um novo ritmo, que virou do avesso uma religião sisuda e dança agora ao som das suas palavras africanas. Depois da missa, que durou mais de duas horas sem que se desse pelo tempo, somos recebidos na sala das visitas da aldeia, para o almoço, que cheira deliciosamente... Galinha com arroz e feijão, temperada de uma forma que nunca tinha comido. [...]

Patrícia Lopes (Médica)

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