sábado, 20 de outubro de 2018

Carlitos e Sónia

Existe o caso do Carlitos, um jovem de cerca de 20 anos a quem foi diagnosticada lepra multibacilar e que se apresentou logo no início do tratamento com feridas, edemas (os vulgares inchaços) com perda de líquido em ambos os pés, com mau aspecto. Iniciámos o tratamento de lepra, ofereci-lhe uns chinelos e foi encaminhado para realização de pensos em ambos os pés. No mês seguinte, lá veio o Carlitos com os pés numa miséria e decidi ser eu a fazer-lhe os pensos. De imediato, após a concentração fiz-lhe o curativo em ambos os pés e a APARF ofereceu-lhe uns sapatos de cor vermelha, adaptados à sua situação. A realidade que vivo aqui não me permite ver os doentes nem todos os dias, nem todas as semanas, apenas uma vez por mês, já que são cerca de 30 a 35 concentrações que visito com o enfermeiro supervisor durante os 30 dias por mês. Para minimizar este facto, recorro ao bloco de receitas e prescrevo realização de pensos nas unidades sanitárias mais próximas e combino com o doente o esquema de penso e que pomada utilizar. Mais tarde, pude observar novamente os pés do Carlitos e que alegria quando vejo as feridas a cicatrizar vakhani-vakhani (pouco a pouco, em macua) e a cara de contentamento do jovem. Irá dentro em breve ficar curado das feridas e curado da lepra, pois até à actualidade não faltou mês nenhum para receber a sua carteira de medicamentos.

Mas não se pense que vejo assim tantos pés com feridas. Observo também algumas situações de risco em doentes que não usam sapatos e apresentam zonas insensíveis a nível dos pés. Então para diminuir esta situação, a APARF oferece sapatos. Tenho distribuído, dentro das possibilidades e, de acordo com a situação de cada doente, sapatos juntos dos leprosos com quem trabalho. Muitos ganham sapatos como “prémio” de recompensa por finalizarem o tratamento e dou especial atenção às crianças. Por isso, falo-vos da Sónia, uma menina de 9 anos que vive na zona de Nhopera e estuda na escolinha junto à Igreja da Paróquia da Namaíta, local onde a Irmã Rita Valente-Perfeito um dia viveu e trabalhou pela causa dos leprosos. A Sónia foi uma das primeiras pessoas a quem diagnostiquei lepra logo que cheguei. Apresentava apenas uma mancha na mão direita e iniciou esquema para lepra paucibacilar, dose de criança. Ela foi sempre um pouco reservada e tímida e não fala o português. Foi com muita alegria que no mês de Julho lhe ofereci um par de sapatos para ela proteger os seus pezinhos enquanto está a crescer, como recompensa dos 6 meses que tem tomado a sua carteira de medicamentos. Ela sempre veio receber a sua carteira todos os meses acompanhada pela sua mãe com a irmãzinha pendurada nas costas com a capulana. É bom sentir que os doentes se interessam pelo seu tratamento e querem ficar curados. 

A APARF tem ajudado muitos doentes com a oferta de sapatos a quem mais precisa. Só eu posso ver a sua alegria mas garanto-vos que os seus sorrisos são lindos, cheios de felicidade e agradecimento.


Vanda Barnabé (Enfermeira)
Voluntária da APARF

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