quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Murrupula

Faz hoje um mês que cheguei a Moçambique. Foi precisamente no dia 17 de Janeiro que aterrei em Maputo. Aproveito este momento para fazer um balanço de como tem sido a minha actividade em Moçambique até à presente data.

Como já referi, aterrei em Maputo no dia 17 com a Vanda onde permanecemos até ao dia 19. Apraz-me salientar a boa hospitalidade dos Missionários Combonianos em especial o irmão Martin que foi o nosso cicerone. Mostrou-nos um pouco de tudo na cidade, obras de arquitectura do passado, as novas construções, o modo de vida da população e um do seus projectos que executa numa lixeira, onde as pessoas vivem e se alimentam do lixo. É-lhes vedado o direito de serem pessoas/gente não têm papeis não podem exercer os seus direitos de cidadãos. Ele tenta a todo o custo inverter esta realidade. Conheci também a voluntária Ana Maria que nos compartilhou as suas experiências. Houve ainda tempo para irmos ao seu 16º andar contemplarmos a vista sobre a cidade.

Dia 19 aterrámos em Nampula onde nos separámos. Cada um rumou ao seu novo lar. Foi ainda nesse dia que cheguei a Murrupula já era quase noite. Mas um grupo de resistentes aguardava ansiosamente a minha chegada. Ainda não tinha saído do carro e já eles caminhavam serenamente na minha direcção cantando, em uníssono, para me felicitarem pela minha chegada.

Até ao dia 4 de Fevereiro, dia em que comecei a percorrer as várias comunidades com o enfermeiro Mário Rajá, estive num processo de reconhecimento e adaptação. Conheci algumas comunidades com o padre Jacob e deparei-me com realidades bem diferentes daquelas com as quais até então estava mais familiarizado.

Numa das comunidades, enquanto o padre Jacob tratava de assuntos relacionados com a gestão das tarefas dos seus membros, um nativo chamou-me e revelou-me uma das práticas ancestrais do seu povo, o rito de iniciação, cerimónia que marca a transição da adolescência para a idade adulta. Este homem fez questão que eu o seguisse por um carreiro afastado ligeiramente da aldeia. Deparei-me com um emaranhado de miúdos que rapidamente se ordenou ao som da sua voz. Sentaram-se rapidamente lado a lado à sombra de uns telheiros de palha. Esta voz inquietava-se e esperava ansiosamente que eu visse meticulosamente, um por um, todos os cerca de 80 miúdos pretensos futuros homens e examinasse atentamente o estado de cicatrização das suas circuncisões e, num passo de mágica, cicatrizasse a todos para poderem regressar para junto do seus familiares.

Esse dia é marcado com uma cerimónia a que eu assisti num outro dia com outros personagens.

Estes miúdos são entregues depois de um dia de jejum e uma noite sem dormir num misto religioso, num dia de grande festa.

Um dia nas comunidades
O dia começa no centro de saúde onde colaboro em parceria com o enfermeiro Rája. Às 07.00 há uma reunião com o médico e enfermeiros onde diariamente se aborda uma doença. Seguidamente há uma palestra nas imediações do Centro para os doentes que aí se encontram. Depois voltamos ao consultório para prepararmos a nossa saída não sem antes atendermos alguns doentes de tuberculose, lepra; por vezes ainda temos de fazer alguns testes de HIV antes de partirmos.

Chegados à comunidade começamos com uma palestra sobre a lepra, sarna e cuidados de higiene. Depois separamos os doentes; doentes antigos de lepra, doentes antigos de lepra com problemas na vista para posteriormente um técnico vir avaliar. Tomamos nota dos doentes com deformidades nos pés, desenhando os mesmos, casos suspeitos de lepra, doentes suspeitos de tuberculose (tosse prolongada), doentes com sarna.

Distribuímos medicamentos, sabão, por vezes algumas árvores (ainda da plantação do Paulo).

Os novos casos diagnosticados de lepra  perfazem um total de 10: Nachaca 2, Nihessiwe 3, Muchelelene 2 casos, Centro de Saúde de Tiponha 1, Cazuzo 2.

Próximas actividades
Dia 23 de Fevereiro realiza-se um encontro com todos os activistas no Centro de Saúde onde irá decorrer um almoço que irei financiar. Tenho-me apercebido da importância de existir um bom relacionamento com os activistas. Eles é que chegam aos doentes. Têm aparecido muito poucos. Desde a partida do Paulo que o projecto está praticamente parado e deixou de haver visitas às comunidades.

Até à presente data tenho uma lista de 9 pares de sapatos para comprar e entregar a doentes de lepra com deformidades.

Ricardo Leonardo (Voluntário da APARF em Moçambique)

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

África finalmente!

ÁFRICA FINALMENTE !... Desde que me conheço que este local me “chama” e depois de algum tempo a preparar a minha vinda, finalmente no dia 16 de Janeiro de 2007, em conjunto com outro voluntário da APARF, o Ricardo, iniciei a minha viagem para terras moçambicanas.

À chegada a Maputo, senti as diferenças numa cidade marcada pela presença de muitas culturas. Coabitam prédios e palhotas, mercados de rua e centros comerciais, ricos e pobres, jardins arranjados e lixo amontoado na rua, gelados e refrigerantes, cocos e bananas, … mais que tentar gostar da cidade e do que me mostraram, tentei perceber o modo de vida das pessoas daqui… e é uma forma de viver muito diferente da que estava habituada.

Um dos contrastes que me foi possível observar e vivenciar, aconteceu ao “visitar” a lixeira de Maputo, ou pelo menos um desses locais… senti algo que até então nunca tinha sentido ao ver miúdos e graúdos a vasculhar nos montes de lixo que se acumulam por várias centenas de metros. Vê-los com uma espécie de saco de rede que conseguem fabricar com o que encontram, a procurar, frenéticos, todos os restos de desperdício humano que vêm nos carros do lixo, causou-me um desconforto muito grande e uma sensação de impotência. São miúdos que não têm família, abandonados, marginalizados, desempregados, sem saber ler nem escrever, … mas com um sorriso enorme e curiosidade assim que nos avistam… Distribuímos algum pão; tirámos fotografias com eles e um dos mais pequenos chegou perto e pediu, não para lhe tirarmos uma fotografia, mas para sermos nós os modelos fotográficos! Ele tinha uma máquina de fotografia velha, sem uso, que um dia encontrou misturada no lixo… são estes e outros pequenos pormenores e acontecimentos que me fazem questionar muitas coisas que vejo e que sinto… mas mais que tudo questionar a razão pela qual ainda existem locais como esta “lixeira” cheia de vida!

De seguida, voámos até Nampula, cidade no norte do país, que em especial, me irá acolher durante algum tempo e onde me vou dedicar ao trabalho com os doentes de lepra, no Programa Nacional de Controle da Tuberculose e Lepra (PNCTL), colaborando também, sempre que possível com o Hospital Geral do Marrere (HGM), na área em que melhor me enquadre.

Também aqui em Nampula encontrei diferenças em vários aspectos como sejam o clima, a alimentação, o vestuário, a cidade, as estradas, a vegetação, … e é claro as condições de saúde deste povo. Será esta a minha área de trabalho aqui, visto que sou enfermeira desde há quatro anos.

Nas primeiras semanas, estive a acompanhar a Irmã Maria Pedrón (enfermeira) nas consultas externas do HGM. As patologias que observei foram das mais variadas e algumas bem diferentes das que estava habituada no serviço de medicina em que trabalhava no Hospital de Évora. Malária, tuberculose, HIV, diarreias, pneumonias, parasitoses, insuficiências hepáticas e cardíacas, … entre “outras doenças” como a fome, a miséria, a tristeza, a infelicidade, o desconhecimento, …aumentadas pelo estado físico da doença de cada pessoa. As condições deste hospital não são aquelas a que estava habituada em Portugal mas aqui é tudo diferente e há que “ter uma mente aberta” e tentar aproveitar e rentabilizar espaço e equipamento disponíveis. Há doentes a mais para os quartos disponíveis; há pessoas a mais para as camas a ocupar e para as consultas que se prevêem para cada dia; há doentes a mais para o número de funcionários, quer auxiliares (aqui são chamados de serventes), de enfermeiros e técnicos de saúde e médicos!

Dado que a minha actuação será prioritária no apoio aos doentes que sofrem de hanseníase, iniciei no mês de Fevereiro a minha participação no PNCTL, em colaboração com o Sr. Cássimo Martinho, enfermeiro supervisor distrital para o distrito de Nampula.

Nesta área, encontram-se vários postos e centros de saúde espalhados onde vou tentar chegar (sempre que as condições atmosféricas e as estradas o permitam!), de modo a participar nas concentrações de doentes de lepra onde se faz diagnóstico, reavaliação e fornecimento de terapêutica gratuita aos que sofrem desta doença.

Neste momento encontro-me em “integração” acompanhando o Sr. Cássimo nas concentrações, na distribuição de algum material de sensibilização sobre a lepra para os diversos postos e centros de saúde da área do distrito de Nampula e na distribuição de bicicletas fornecidas pelo PNCTL, para uso dos voluntários, visto serem estes que junto das populações identificam e incentivam os doentes a recorrer nas datas marcadas às concentrações.

Espero continuar a enviar notícias do que vou vivendo e aprendendo por estas terras de paisagens e cores lindas e onde as pessoas sorriem sempre… mesmo quando penso que certas vezes não há espaço para um sorriso!!!

Vanda Barnabé (Voluntária da APARF em Moçambique)



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Iapala depois de jantar

Depois do jantar na Missão, como habitualmente, vou de novo ao Hospital ver como estão os doentes cujo estado mais me preocupa, apesar do protesto das Irmãs de que devo descansar e que estou cada vez mais parecida com a Irmã Sarala, a Irmã enfermeira que agora se encontra de férias na sua terra natal, na Índia. Ao que me têm dito, parece que, mesmo sem a conhecer, entretanto absorvi um pouco da sua maneira de trabalhar e de lidar com os doentes, o que penso que se deve, em parte, ao modo como eles próprios lidam comigo e às expectativas que noto que têm em mim.

Ontem, por exemplo, pediram-me para fazer o penso de uma cesariana a uma jovem mamã. Tudo bem. A ferida cirúrgica estava com óptimo aspecto e em fase adiantada de cicatrização, pelo que apenas a desinfectei, e já estava a colocar algumas compressas esterilizadas sobre a ferida quando notei que havia um silêncio estranho à minha volta... Olhando em redor, todos estavam com os olhos postos em mim num olhar que não consegui perceber se era de espanto ou de reprovação. O que seria que se passava? Fitei a técnica de Saúde Materna num olhar não menos interrogativo... "O que se passa, D. Aida?" "Então, Doutora, não põe nada?" "Mas... na ferida?! Pôr o quê?" "A pomada da Irmã Sarala." A pomada da Irmã Sarala! De facto, já tinha ouvido várias vezes elogiar o poder cicatrizante da pomada fabricada artesanalmente pela Irmã com base em plantas medicinais e não me custava nada acreditar na sua eficácia, uma vez que várias pomadas cicatrizantes que se vendem na Europa são também elas próprias produzidas à base de extractos vegetais. Assim, vi-me absolutamente forçada a aplicar a dita pomada, rezando a todos os meus santinhos para que tivesse sido feita em condições de assepsia e a ferida não se infectasse... Mais tarde pude constatar em vários doentes as suas notáveis propriedades regenerativas, ficando, portanto, esclarecido e inteiramente justificado o silêncio interrogativo na minha primeira tentativa de fazer um penso. É admirável a articulação entre a Medicina Tradicional e a Medicina Científica que a Irmã Sarala, com o curso tirado na Índia e a especialização na Alemanha, domina magistralmente e são estas coisas que me fazem sentir pequenina perante um tipo de conhecimentos que provavelmente nunca vou poder adquirir ou aplicar...

Na rua, esta noite, um nevoeiro andante invade todos os espaços numa incontinência cinzenta e fria, cobrindo as montanhas de um véu glaucomatoso. A lanterna continua a ser a minha melhor aliada na cerração da lua nova e da névoa para escrutinar o piso térreo tentando não pisar nenhuma cobra. Aqui de nada vale a valentia dos que afirmam não ter medo de ofídios: ingenuidade! não dispomos de antídoto para mordeduras venenosas e nem quero imaginar como é que faria a mim própria o desbridamento de uma ferida sem qualquer anestesia... Há dias, quando estávamos completamente sem energia, por lapso esqueci-me da lanterna e com o vento não podia sair do Hospital com a vela acesa. Não passava muito das 20:00, mas como estava completamente escuro já todos no Hospital estavam deitados, e foi à pálida luz do meu oftalmoscópio que consegui não tropeçar nos doentes e nas famílias que dormiam no chão cá fora, um pouco por todo o lado, isto apesar de haver camas vagas... Vários colegas me tinham perguntado a que propósito levava eu o oftalmoscópio para Moçambique, se não poderia tratar quase nenhuma das patologias que podia diagnosticar com ele. Mal eu sabia da sua futura utilidade...

À porta do Hospital está um homem com uma criança que aparenta uns oito ou nove anos, pai e filho sentados no chão, com o menino reclinado sobre o tronco do pai, entre as suas pernas abertas - cuidado habitualmente dedicado aos doentes e sinal inequívoco da sua preocupação pelo filho. Ao lado uma bicicleta e um cesto com roupa e comida. Nestes dias já aprendi a descortinar estes pequenos sinais: Vêm de longe... Assim, a esta hora, para além dos cuidados médicos, é necessário providenciar-lhes também o jantar e uma cama para dormirem. Abaixo-me para os cumprimentar, tal como aprendi com a Irmã Lurdes, sinal de boa educação nesta cultura - cumprimentá-los de pé teria sido provavelmente interpretado como rudeza ou arrogância da minha parte - e só então os convido para entrar. O menino parece ter-me compreendido e põe--se de pé rapidamente, encarando-me de frente com um olhar vivo e intenso, algo extremamente raro que me surpreende, já que as crianças habitualmente desviam o olhar envergonhado quando as observo. Desta vez, então, fiquei cativada à primeira vista! É um menino adorável. Para além disso, posso apreciar que tem bom estado geral, uma aparência razoavelmente cuidada para os padrões daqui, sobretudo considerando que deve estar em viagem há algum tempo e não parece de todo estar doente... 

Ao que me dizem, estão de viagem, sempre de bicicleta, há mais de dois dias e no mapa improvisado desenhado pelas Irmãs consigo encontrar o nome da aldeia de onde vêm: fica a cerca de 100 km daqui e não há sequer estradas nessa direcção por onde possa passar um jeep! Ao longo da conversa o menino continua a surpreender-me com uma inteligência e vivacidade invulgares e um domínio da língua portuguesa nada comum para uma criança que viveu toda a vida numa aldeia extremamente isolada. O motivo da consulta, pelo que consegui perceber, é uma dor intensa na perna, embora objectivamente não consiga descortinar qualquer lesão ou alteração neuro-muscular. Nos meus primeiros dias em Iapala costumava surpreender-me com o cuidado extremo que os pais dedicam aos filhos, o que era flagrantemente resultado de uma deformação profissional: as famílias numerosas, de sete ou mais filhos que vivem abaixo do limiar de pobreza, e que aqui são a maioria, em Portugal são geralmente famílias disfuncionais e as crianças demasiadas vezes vítimas de maus tratos e negligência. Mas claro que rapidamente formei auto-crítica e percebi que Portugal e Moçambique são duas realidades de forma nenhuma directamente comparáveis. Mas mesmo assim, há qualquer coisa aqui que não bate certo... Uma dor que não impede a marcha nem as actividades normais parece-me muito pouco para o esforço de uma viagem tão grande e arriscada. 

O pai tem bastante mais dificuldade no domínio da língua e parece ansioso, tentando explicar-me qualquer coisa de preocupante no estado de saúde do filho, mas que não compreendo. Já virei o miúdo dos pés à cabeça e a única coisa que consegui objectivar é que se encontra sub-febril e um pouco inquieto, a roçar o agitado. Mas mais provavelmente se trata de malária do que qualquer outra coisa mais grave. Não entendo... Só se estão de viagem para qualquer sítio e passaram por aqui para poderem dormir abrigados e tomar uma refeição quente. É uma hipótese que me parece muito mais plausível. De qualquer forma, geralmente sobra um pouco de comida e temos duas camas vagas no quarto do isolamento que se podem perfeitamente ocupar por uma noite. E quem é que os poderá censurar? Mais vale que durmam aqui do que ao relento no mato, onde há tantos perigos e não comer depois de uma viagem tão extenuante deve ser horrível. 

Em poucas linhas a nota de entrada fica feita: amanhã se fará o teste para ver se o menino de facto tem malária e vou falar com um auxiliar para lhes providenciar a acomodação. Agora a dúvida: perante uma suspeita tão ténue de malária não complicada devo tratar já ou não? Decido-me a não tratar sem fazer o teste primeiro. Vou--lhe dar apenas um paracetamol para lhe aliviar a dor na perna e baixar a temperatura... Regresso então com o comprimido e um copo de água mas, quando o entrego ao menino, este dá um grito apavorado... Gelei.  

O olhar do pai diz-me finalmente que era isto que estava há pouco a tentar comunicar-me: o filho tem pavor da água há alguns dias e não consegue engolir... Da porta a Irmã Lurdes, que tinha acabado de chegar para me obrigar a ir descansar, ainda assistira à cena e olha-me consternada. Também ela acabou de compreender que o menino tem raiva e sendo assim não há qualquer hipótese de cura... Está tudo finalmente explicado, a dor na perna, a ansiedade do pai, a viagem extenuante numa tentativa desesperada de salvar este filho tão especial, o brilho quase selvagem no olhar do menino, a agitação, a febre... "O menino foi mordido por um cão?" O pai nega, ansiosamente... Para além de não conseguir engolir, também está agitado e às vezes agressivo, diz. Examinando melhor o local para onde o menino aponta, realmente compreendo que não pode ter sido um cão a fazer uma cicatriz de mordedura tão pequena. "Que bicho lhe mordeu?", pergunto, compreendendo subitamente a verdadeira origem desta expressão popular. O pai responde que nenhum, nenhum bicho, é isso que o intriga - pela conversa, agora com a Irmã Lurdes a traduzir, percebo que ele conhece os sintomas da raiva e tem essa suspeita no filho. Teve uma pequena ferida há algum tempo na perna, mas nem sequer ligou importância. "Costuma dormir ao relento?", pergunto. Um ligeiro aceno de anuimento. Só pode ter sido um morcego... Nem posso acreditar... E pensar que, se não fosse este pequeno incidente com o copo de água, o diagnóstico desta doença terrível haveria de se me escapar por entre as unhas! 

O que será que o pai espera de nós? Será que não sabe que a raiva nesta fase já não tem cura e tem esperança de que façamos algo, ou pretende só a confirmação do diagnóstico? Mas mais vale esperar pela manhã para ter essa conversa tão delicada. Pai e filho devem estar exaustos... A Irmã Lurdes, já habituada aos muitos casos de raiva que aparecem por ano, desfaz o comprimido, coloca-o numa colher e senta-se ao lado do menino: "Se eu te tapar os olhos, achas que consegues tomar o remédio para passar a dor? Vais sentir-te melhor..." Com os olhos vendados para não ver a água que o apavora e lhe provoca espasmos intensos na garganta, a muito custo, consegue engolir o comprimido desfeito e algumas colheres de água...

Não consegui dormir quase nada esta noite. Nem eu nem as Irmãs. Não nos podemos oferecer para cuidar do menino no hospital porque o prognóstico é fatal a breve trecho e na cultura Macua os mortos não podem ser enterrados longe do local onde nasceram, sob pena de a alma nunca mais encontrar o caminho para o céu. E não havendo estradas para aquela zona também não podemos ir levar o menino a casa... Mas de manhã o pai é categórico: quer ser ele próprio a cuidar do filho, e levá-lo para casa o mais rápido possível para lhe poder dar algum carinho e descanso no final da vida e levá-lo a despedir-se dos seus... Mas aceitou de bom grado os analgésicos e sedativos e o transporte de jeep até onde a estrada termina. Emocionou-me a aceitação e a compostura daquele pai de família, mantendo o pragmatismo e o cuidado com o filho, em circunstâncias tão terríveis e tão revoltantes.

Quanto a nós, há que persistir, embora o trabalho nos custe a pegar... 

Dra. Patrícia Lopes

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A caminho da Missão de Iapala

Já passa do meio dia quando aterro pela primeira vez na cidade de Nampula, no Norte de Moçambique, em Agosto do ano passado, tendo como destino a Missão de Iapala, a 180 km de distância, onde ficaria a trabalhar como voluntária no hospital da Missão, uma vez que sou médica, recém licenciada e com uma paixão inexplicável por África, nascida dos encantos da minha primeira vez na savana um ano antes. Sou de imediato acolhida com a vivacidade da Irmã Conceição, que me leva a dar uma volta de carro pela cidade. Um breve conhecimento da capital de província e o meu último contacto com o ambiente urbano, antes da partida para a Missão de Iapala.

... Vêm chamar-me para ir ver uma mulher que tem um recém-nascido de poucos dias ao colo. É o neto. A mãe está doente e teve de ser transportada para a cidade, sem possibilidade de cuidar da criança, uma situação extremamente delicada. “Ihali, Irmã?”, cumprimenta-me. (Como está, Irmã?) Já nem sequer tento desfazer o engano. Não há maneira de convencer as pessoas de que não sou religiosa e não me devem tratar por Irmã. De qualquer modo acho que não acreditariam em mim, pois se já tenho 24 anos e ainda não tenho filhos... A avó, aflita, só fala Macua e não a compreendo, mas o enfermeiro diz-me que me pede leite em pó para dar à criança. Nós temos leite para lactentes no armazém do hospital, mas o problema é a água... É praticamente impossível conseguir água potável nas aldeias que rodeiam a Missão e portanto fornecer-lhe o leite é uma irresponsabilidade da minha parte e poderá mesmo equivaler a uma condenação da criança a sucumbir a uma gastroenterite. Os adultos já estão habituados e praticamente imunes às bactérias e parasitas mais corriqueiros, mas os recém-nascidos são muito frágeis. “Onde vive?” A sua aldeia fica a 50 km daqui. Já passei por lá com a Irmã Lurdes na campanha de vacinação e sei que não tem uma fonte de água potável, pelo que as pessoas vão buscar a água que bebem ao rio – que na estação seca quase não passa de vários charcos de água parada a céu aberto – lavam-se no rio e é também nele que fazem os despejos. E está fora de questão ferver a água para preparar o leite, já que a pouca lenha que as famílias conseguem arranjar mal dá para cozinhar. Aliás, em todas as famílias há pelo menos uma pessoa cuja única função diária é ir buscar lenha.

Ponho o problema à Irmã Lurdes, que me diz para a levar à D. Catarina. A parteira do Hospital é uma mulher robusta, com uma personalidade forte e determinada, viúva e mãe de dez filhos, infelizmente nem todos vivos. Já não é nova, como o afirmam as suas rugas e a ausência de alguns dentes, e o que lhe falta em conhecimento científico sobra-lhe em experiência. Tem sobretudo uma intuição fortíssima, em que já confio quase cegamente. Na maternidade, onde raramente estou porque tenho imenso trabalho noutros serviços, sem o apoio de um aparelho para registar a evolução da frequência cardíaca do feto e das contracções uterinas fico completamente cega, sem qualquer referência para me orientar e os meus parcos conhecimentos de Obstetrícia servem-me para muito pouco... Ela, pelo contrário, não arreda pé da sala de partos, dure o trabalho de parto quanto tempo durar, conversa com as mamãs, canta canções às mais novas, faz-lhes massagens de relaxamento no intervalo de cada contracção – a única forma de analgesia de que dispomos, e já várias vezes antes me chamou, preocupada, a dizer que há um feto em sofrimento que tem de ser transferido para o Hospital distrital, onde há um bloco operatório. Nem sequer consigo imaginar como é que ela, sem auscultar o feto, percebe o que se passa, mas quando me pede para chamar a Irmã Lurdes para transportar a mamã, quase invariavelmente tem razão, tal como posteriormente se acaba por confirmar no Hospital distrital. 

É portanto, à D. Catarina que levo a avó, que deve ter bem mais de 40 anos, ou seja, já idosa para os padrões africanos. Exponho-lhe a situação após o que se levanta seriamente, sem uma palavra. Deve talvez ir tentar encontrar uma ama de leite entre as várias puérperas do Hospital, penso. Mas, para meu assombro, regressa pouco depois com um preparado de ervas que fricciona no peito da mulher e dá-lhe a comer uma espécie de leguminosa crua de que não percebo o nome e que ela ingere sem um protesto, enquanto a D. Catarina lhe estimula o peito. Não sei porquê sinto-me nitidamente a mais neste momento, há qualquer coisa que não compreendo e onde não pertenço... Retiro-me, pois, no momento em que a D. Catarina lhe coloca o bebé ao peito. Quando regresso, ao fim da tarde, o bebé já começou a mamar um pouco e a avó parece animada. Dias depois, o bebé tinha recuperado algum peso e interroguei a avó, por curiosidade, sobre que altura tinha o seu filho mais novo (já desisti de perguntar a idade...). Pela resposta devia ter uns dez anos... 

Perguntei depois à D. Catarina como conseguira tal coisa, ao que ela respondeu, muito simplesmente, “Não fui eu, foi o bebé. São os filhos que fazem o leite das mães!” É incrível! Não que eu não soubesse esta lição da Fisiologia, mas ver resumido de forma tão simples e em forma de adágio aquilo que eu tinha aprendido com hormonas e feed-backs negativos deixou-me simplesmente atarantada... Mais ninguém parece surpreendido com este autêntico milagre! Explica-me depois a Irmã Florinda, uma jovem africana da minha idade, que se trata de uma situação muito habitual nesta cultura e são as avós ou as tias que assumem o cuidado e a amamentação dos recém-nascidos quando as mães, por qualquer razão faltam. Tempos depois, já de regresso a casa, viria a descobrir que este fenómeno, que me pareceu tão exótico e culturalmente estranho, e que eu conhecia no reino animal mas não me parecia possível entre os humanos, não é assim tão raro e é actualmente alvo de vários estudos científicos. Eu só falo por mim, mas há tanto a aprender com África...

Dr. Patrícia Lopes - Médica

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Voluntários da APARF em Moçambique Parte IV

ASPECTOS SÓCIO-ECONÓMICOS

A percentagem da população que, segundo os Censos de 1997, se encontrava abaixo do limiar da pobreza absoluta era de cerca de 65% na província de Nampula (a linha de pobreza absoluta em Moçambique foi calculada em 5.433,00 Meticais/dia aos preços médios no país em Abril de 97). (cerca de 35 cêntimos)

A principal ocupação da população é a agricultura de subsistência, sendo os produtos utilizados para consumo próprio e para comercialização em muito pequenas quantidades. As plantas alimentícias mais cultivadas são a mandioca, milho, sorgo (mapira), várias espécies de feijão, amendoim e arroz, não havendo o hábito de plantar árvores de fruto, à excepção da papai eira, em parte por questões culturais e em parte porque o tempo que as árvores demoram a crescer não permite às famílias que as plantam usufruir destas, uma vez que periodicamente se deslocam para habitar noutros locais. As outras árvores de fruto existentes na região são a bananeira, mangueira, cajueiro, laranjeira e limoeiro. Os animais criados para consumo doméstico são sobretudo as galinhas, os cabritos, e os porcos. No entanto, esses animais são frequentemente utilizados para comercialização no sentido de obter moeda de troca para a compra de produtos como roupa e bebidas, mais do que para consumo próprio, não contribuindo para atenuar o problema da desnutrição.

A alimentação é muito pouco variada, com fontes pobres de proteínas, a maioria das quais de origem vegetal. A base da alimentação é a mandioca, a planta mais facilmente cultivável nesta região, requerendo pouca água, criando-se em vários tipos de solo, pelo que é a fonte mais importante de calorias, embora não possua fibras, proteínas, vitaminas ou minerais essenciais.

Por conseguinte, existe um défice muito importante de proteínas, vitaminas e minerais na alimentação, sobretudo durante os meses de Novembro até ao final de Janeiro, que coincidem com o período em que as reservas do ano anterior já se esgotaram e se inicia a nova sementeira, não havendo nenhuma colheita durante esses meses. Há, portanto, muitos casos de desnutrição - marasmo e kwashiorkor - agravados ainda pelos vários tabus culturais relacionados com a alimentação (por exemplo, a interdição de as mulheres grávidas amamentarem os filhos ou de comerem determinados alimentos, como ovos - havendo a crença de que a criança nascerá sem cabelo) e agravados também pelas muitas doenças debilitantes que pululam por toda a província, como a SIDA e as suas doenças oportunistas, a malária e as parasitoses intestinais.

Há ainda o problema da conservação dos alimentos. A carne ou o peixe têm de ser consumidos de imediato, ou então são secos em péssimas condições de higiene. Os cereais são também secos e/ou fumados, ficando empobrecidos em vitaminas e minerais e dando origem a potenciais agentes cancerígenos.
Contribuindo também para a desnutrição, doenças, debilidade e pobreza, o alcoolismo é uma situação extremamente prevalente, sobretudo entre os homens, não havendo infra-estruturas, medicamentos ou pessoal com formação para a desabituação alcoólica.

CENTRO DE SAÚDE DA NAMAÍTA

Existe um único Centro de Saúde (CS) para os cerca de 40.000 habitantes da área da Namaíta (o CS de Namucaua recentemente inaugurado ainda não se encontra a funcionar por falta de equipamento e mobiliário). Os doentes que vivem mais afastados do CS têm de percorrer uma distância de cerca de 32 km a pé ou de bicicleta para receberem assistência.

Anabela Torres Alves (Enfermeira)
Patrícia Martins Lopes (Médica)