terça-feira, 3 de julho de 2018

Um dia de trabalho na Namaíta

São 06h30m, já tomei o pequeno-almoço e preparei a água para levar. Está muito calor, é preciso prevenir a desidratação! Entro no carro e parto rumo a mais um dia de trabalho. À saída da cidade (Nampula), paro, entra um passageiro, o enfermeiro Supervisor Distrital do Programa Nacional Contra Tuberculose e Lepra (PNCTL) e prosseguimos viagem. Há sempre muitas pessoas à beira da estrada, umas a pé, outras de bicicleta. A bicicleta é o principal meio de transporte para a maior parte da população. Serve para transportar todo o tipo de carga: sacos de mandioca seca, sacos de carvão, molhos de capim ou mesmo de paus, galinhas, cabritos, porcos, entre outros… Estes “biciclistas” circulam tranquilamente, por vezes quase no meio da estrada, pelo que se torna necessário, fazer uso da buzina do carro para se desviarem.

Hoje vamos ao Posto de Saúde de Mutolo. Inicialmente havia dúvidas acerca da via de acesso, posteriormente tivemos informação que permite a passagem do carro. Passamos junto ao Centro de Saúde da Namaita e, alguns Quilómetros depois, deixamos a estrada de alcatrão e entramos à esquerda numa picada (“estrada” de terra batida). Impossível desviar a atenção do caminho, mãos e braços presos ao volante, pés numa “dança constante” entre travão, embraiagem, acelerador… Areia e… meter tracção para continuar o percurso. Em alguns locais a picada tem sulcos enormes, então fizeram desvios, onde permanecem troncos de arbustos cortados, por vezes pouco ou nada visíveis. São tantos, que é impossível não acertar em alguns! De cada vez que um pneu bate num tronco, com bastante sonoridade, penso: “È hoje que ficamos no meio do mato com um pneu rebentado…” Por entre buracos, areia, troncos e raros troços menos acidentados, finalmente chegamos! O enfermeiro do Posto está de férias, a substitui-lo, está o servente. O voluntário da luta contra a Lepra, que também está presente, informa-nos que os doentes em breve chegarão, andam nas macham-bas (campos de cultivo). Começo por observar duas pessoas que apresentam manchas suspeitas na pele. Em nenhum dos casos se confirma a doença. Os doentes vão chegando para receberem o tratamento mensal e levarem a “carteira” dos comprimidos para os próximos 28 dias. Em cada mês, no dia marcado, terão que vir ao posto de saúde até completarem os 12 meses de tratamento, uma vez que têm Lepra Multibacilar (muitos bacilos). Reavaliei três dos doentes relativamente às características dos nervos periféricos que podem ser atingidos pela doença, à sensibilidade e força nas mãos e nos pés, bem como das pálpebras. Este procedimento é muito importante e deve ser realizado de 3 em 3 meses durante o tratamento, para despistar reacções da doença, que podem surgir e prevenir deformidades. Se o doente tiver dor nos nervos, significa que apresenta neurite e é-lhe dado o medicamento Prednisolona de acordo com o esquema estabelecido. Ao terminar, aparece um jovem com algumas manchas na pele, que são características da lepra. Depois de fazer o teste de sensibilidade nas manchas e palpar os nervos periféricos confirmo o diagnóstico: lepra multibacilar. Como este jovem sabe português, explico-lhe o necessário acerca da doença e do tratamento. Infelizmente, na maioria dos casos, as pessoas só falam macua, a língua local, por isso tenho que deixar essa tarefa para o voluntário, o que me entristece um pouco. Aqui havia 5 doentes com lepra multibacilar, ficam 6. No mês passado teve alta um doente com lepra paucibacilar (poucos bacilos), ao fim de seis meses de tratamento. Feitas as despedidas retomamos o caminho de regresso, 13Km, algo atribulados, até à estrada. Chego a casa às 13h, depois de mais de 100Km. Esta concentração de doentes de lepra é apenas uma de cerca de 18, na área da Namaita.

Beijinhos.

Anabela Torres Alves
Voluntária da APARF
Namaita/Moçambique

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