sexta-feira, 13 de julho de 2018

Retalhos de Ocua I

Laura Baptista, uma jovem macua da comunidade de Napela que, apesar da sua tenra idade, aguardava ansiosamente o nascimento da sua primeira sorte (nome que se da ao nascimento do primeiro filho).

Apareceu num dos encontros que se realizaram naquela comunidade, sobre a doença. No final da palestra perguntei quem teria manchas entre os que me ouviam. Laura levantou o braço e aproximou-se. Bastou levantar um pouco a camisolita que trazia para ver que a mancha que tinha (lhe ocupava grande parte das costas. Foi feito o teste e deu positivo. Laura tinha Lepra. Contraiu Lepra muito nova através da convivência com os tios. Curiosamente e ao contrário de outros doentes a quem já tinha diagnosticado a doença, Laura encontrava-se serena e atenta a todas as indicações de corno se haveria de curar.

Todo o medicamento ficou nas mãos do socorrista daquela comunidade, como também a tarefa de manter os doentes, sem falha, de o tomar para que todos fossem curados, incluindo a Laura. Isto era feito para o caso de eu não conseguir acompanhar todo o tratamento. E assim sucedeu, após algumas visitas aquela comunidade em que a estrada, feita de vermelho matope, ficou completamente alagada e impossível de transitar.

Os meses foram passando a passos largos até que finalmente se pôde atravessar através do mato cerrado de alto capim e visitar aqueles doentes. Para Laura aguardava-se o grande dia, o dia em que deixaria de ser doente, o dia que lhe poderia dizer, estás curada!

Depois de horas de caminho tortuoso chegamos a comunidade, fomos recebidos de braços abertos e com um acolhimento deveras impressionante por um povo que transborda de alegria apesar do sofrimento e que sabe acolher como ninguém. O meu trabalho começou por fazer uma pequena chamada, mas a Laura não estava entre os presentes. Mesmo assim comecei a cuidar dos outros doentes. Quando terminei perguntei ao socorrista porque e que a Laura não estava presente. Sem o deixar responder continuei dizendo que tinha para ela sabão de que tanto precisava e que trazia comigo a notícia de que todo o doente anseia: “estás curada”. Escutou-me atento sem me interromper e olhando-me com os olhos de tristeza disse-me: “A Laura faleceu!" Fiquei sem reacção e a única coisa que me surgiu foi - como?!, ao que o socorrista respondeu que tudo tinha acontecido durante o parto. Não teve assistência a tempo e a criança, apesar de ter nascido aparentemente bem, a mãe sucumbiu. Fiquei chocada com o que acabara de ouvir e perguntei onde estava a criança. Junto com a tia para ser amamentada, respondeu. Peguei na sacola que trazia comigo e pus-me a caminho com o socorrista para a visitar. Queria ver com os meus próprios olhos! Ao chegar a urna palhota feita de capim seco e matope encontrei nos braços de urna jovem o menino com os olhos reluzentes e um sorriso inexplicável! Não resisti e peguei-lhe. Estava completamente nu, mas tal não me fez qualquer diferença pois a vontade de o ter nos meus braços era bem maior. Tentei informar-me o melhor possível do que acontecera. O pai da criança parecia estar ainda em estado de choque, a tristeza de a ter perdido estava escrito no seu olhar.

Tive que partir. O dia ia avançado e tinha de regressar. Deixei com o pai da criança o sabão que seria para a Laura. Regressei a casa com um sentimento de tristeza, confundido com alegria. Espero que ainda hoje essa criança seja tratada com todo o carinho corno qualquer criança do mundo necessita.

Sandra Figueiredo

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